segunda-feira, 12 de setembro de 2011

THE FOUNTAIN - O ÚLTIMO CAPÍTULO (2006)

Comente o filme The Fountain - O Último Capítulo, aqui!

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A MALDIÇÃO DA FLOR DOURADA (2006)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Man cheng jin dai huang jin jia
Realização: Zhang Yimou
Principais Actores: Li Gong, Yun-Fat Chow, Jay Chou, Ye Liu, Dahong Ni, Junjie Qin, Man Li, Jin Chen

Crítica:

A TRAGÉDIA IMPERIAL

Aquilo que eu não concedo,
não deves tirar à força.
Imperador Ping

Festival de exuberância, banquete de cores e emoções. A Maldição da Flor Dourada, de Zhang Yimou, vive sobremaneira da ostentação visual, barroca em todos os seus obssessivos excessos e detalhes, megalómana em toda a sua escala, como se no máximo requinte da direcção artística (Tingxiao Huo) e do guarda-roupa (Chung Man Yee) atingisse a transcendência. O feito e o efeito alcançado são, aos olhos de qualquer espectador, absolutamente impressionantes. A deslumbrante fotografia de Xiaoding Zhao cristaliza, se ainda alguma dúvida bastasse, esse glorificado ideal da beleza; marca tão proeminente na filmografia de Yimou (veja-se, a título de exemplo, os magistrais Herói e O Segredo dos Punhais Voadores).

Não obstante, A Maldição da Flor Dourada também alcança a sua epicidade característica na sinédoque da tragédia familiar, protagonizada pela figura central da Imperatriz (Li Gong, numa interpretação brilhante e assombrosa), pelo Imperador (Yun-Fat Chow) e pelos três príncipes descendentes (papéis de Jay Chou, Ye Liu e Junjie Qin). O restante elenco de luxo concretiza esta trama de segredos e de relações incestuosas, de poder e de submissão, de conspiração e de intriga palaciana. Uma história de família e uma batalha interior, encerrada nos confins da Cidade Proibida, mas simultaneamente o reflexo da cultura e de uma sociedade no tempo - o povo chinês durante a dinastia Tang, século X. Depreende-se facilmente a mise-en-abyme. Afinal, qualquer golpe familiar no seio daqueles corredores arco-íris constituirá sempre um derradeiro golpe de estado, tendo consequências imediatas no destino da nação. No final, ressalve-se a moral... Seguir o caminho certo, desafiando a razão e abraçando a coragem, mesmo que traindo a instituição que se representa e da qual se faz parte. Mesmo que conhecendo, de antemão, a impossibilidade da nossa missão.

A Maldição da Flor Dourada não é, de todo, o melhor filme de Zhang Yimou; falta-lhe a subtileza e o virtuosismo com que aprimorou outros pedaços de arte, no passado. Contudo, jamais se lhe poderemos negar as qualidades, que são tantas e tão evidentes - a nível da banda musical (Shogeru Umebayashi) e sonora (Jing Tao e Roger Savage), nomeadamente. Pela sua aura, candor e exotismo, ser-me-á sempre um filme irresistível.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

HARRY POTTER E O CÁLICE DE FOGO (2005)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Harry Potter and the Goblet of Fire
Realização: Mike Newell
Principais Actores: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Ralph Fiennes, Maggie Smith, Alan Rickman, Robbie Coltrane, Stanislav Ianevski, Timothy Spall, Miranda Richardson, Michael Gambon, Brendan Gleeson, Robert Pattinson

Crítica:

CARNE, SANGUE E OSSO:
O REGRESSO DO SENHOR DAS TREVAS

I can touch you... now!

O Cálice de Fogo é o ponto de viragem na saga Harry Potter. A atmosfera é mais negra e tenebrosa do que nunca, o tempo é pesado e chuvoso e o céu ilumina-se constantemente de relâmpagos e trovões. Harry, Ron e Hermione já não são crianças, floresce a adolescência em todos os seus sentidos, nomeadamente no despertar das hormonas. O Baile de Inverno potencia, a propósito, o cenário perfeito para a comédia romântica. Mas é nos pesadelos premonitórios, nas aventuras fatais e no inevitável regresso do Senhor das Trevas que o filme aprofunda o seu coração narrativo.

Na verdade, este quarto capítulo - tão intensamente trágico, glorioso e crucial - tinha história para dois filmes. A distribuição das sequências por duas partes permitiria uma melhor digestão dos episódios, sem pressas. Assim sendo, temos um concentrado - harmonioso, embora apertado na sua considerável duração de 157 minutos - de filme de aventuras, comédia adolescente e terror fantástico. Mike Newell, na realização, não tem espaço para grandes liberdades criativas; creio que se rende ao argumento e às ambições do estúdio num trabalho equilibrado e impecável, do ponto de vista técnico. Dentro do vasto núcleo de actores, os destaques vão para Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint, para Michael Gambon (que finalmente tem linhas mais do que suficientes para mostrar o seu valor), Brendan Gleeson e Miranda Richardson, mas sobretudo para essa terrível e magnetizante criação que é o Voldemort de Ralph Fiennes, Aquele cujo nome não deve ser pronunciado.

Nos departamentos técnicos, John Williams abandona a composição musical da saga e entra para o seu lugar Patrick Doyle, com uma nova sonoridade. Alguns dos seus temas (impetuosos, esquizofrénicos, poderosamente sonantes) lembram-me o melhor de Howard Shore à frente da trilogia O Senhor dos Anéis; o que por si só é elogioso quanto baste. A fabulosa fotografia é de Roger Pratt, que também creditou o departamento n'A Câmara dos Segredos. A direcção artística (Stuart Craig, Stephenie McMillan), o guarda-roupa (Jany Temime), a caracterização (Nick Dudman, Amanda Knight) ou a edição de som esmeram-se ao nível da excelência, elevando claramente os valores de produção.

Na série, o filme concretiza um espectáculo pirotécnico sem precedentes, onde a audácia e a megalomania dos efeitos especiais encontram facilmente o seu auge. Estádios monumentais, tecnologicamente avançados, cavalos alados e navios que emergem das profundezas magicamente, dragões voadores que espalham a sua fúria e chamas pelos telhados de Hogwarts, sereias e as mais estranhas e malignas criaturas subaquáticas e, para além da bruma do labirinto, raios do Bem e do Mal que materializam o antagonismo das forças. Felizmente, o filme equilibra bem estas prodigiosas maravilhas digitais e a pura adrenalina da acção, tão queridas do entretenimento de massas, com o factor emotivo e com toda a riqueza do universo potteriano, jamais descurado. A história, aliás, densifica-se e complexifica-se. O leque de personagens continua a crescer, assim como as ligações entre elas, o passado tende a interferir cada vez mais no presente e no futuro da acção e há muitos pormenores a ter em mente para a compreensão total de certas passagens; sem contar, claro, com a condução do suspense, intrínseco a cada capítulo, que lhe marca a técnica e o estilo, e cujo mistério é revelado ou resolvido somente no final.

Um desafio difícil, porém superado com êxito. A ponte necessária para os últimos e derradeiros filmes da fantasia.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O CABO DO MEDO (1991)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★
Título Original: Cape Fear
Realização: Martin Scorsese
Principais Actores: Robert De Niro, Nick Nolte, Jessica Lange, Juliette Lewis, Joe Don Baker, Robert Mitchum, Gregory Peck, Martin Balsam, Illeana Douglas, Fred Dalton Thompson

Crítica:

O PESADELO INFERNAL

Every man... every man has to go
through hell to reach paradise.

O Cabo do Medo é como que Scorsese a brincar a Hitchcock. A sua câmera marca uma presença soberana na condução narrativa - cada um dos seus movimentos tem um papel activo e determinante na construção do suspense, que se intensifica num crescendo sufocante e irreversível à medida que caminhamos para o desfecho brutal. E que exímio exercício de construção e de suspense! Tensão, medo, claustrofobia, todas estas sensações nas doses exactas, nos momentos certos. Qual montagem, sempre ágil, precisa e acutilante, a técnica magnetiza eficazmente as atenções do espectador, manipulando o ritmo. Elmer Bernestein recupera a banda sonora de Bernard Herrmann e potencia uma experiência deveras arrepiante.

Ainda que seja um filme formalmente atípico na carreira do cineasta, encontramos neste remake o mesmo olhar frio e cerebral de sempre, sobre a violência e sobre o mundo do crime; temas recorrentes na filmografia de Scorsese, como sabemos. E encontramos, pois claro, o também recorrente Robert De Niro, numa performance extraordinária, verdadeiramente assombrosa. Provavelmente, uma das suas melhores interpretações de sempre. De Niro é Max Cady, um imprevisível, doentio e repugnante fantasma do passado, um psicopata de sorriso irónico e ameaçador, que procura a vingança junto do seu antigo advogado Sam Bowden (Nick Nolte) e da sua respectiva família (Jessica Lange, Juliette Lewis). Recém-libertado da prisão, passa a perseguir os seus alvos sem cessar, apertando-lhes cada vez mais o cerco. Sam espera, desespera e lança-se em estratagemas menos ortodoxos na tentativa de se livrar do louco, ainda que em vão. Max é extremamente engenhoso, meticuloso e inteligente e ultrapassará todos os limites numa caça sem tréguas.

I ain't no white trash piece of shit. I'm better than you all! I can out-learn you. I can out-read you. I can out-think you. And I can out-philosophize you. And I'm gonna outlast you. You think a couple whacks to my guts is gonna get me down? It's gonna take a hell of a lot more than that, Counselor, to prove you're better than me!
Max Cady

Perante a assustadora vivência, a utilidade do código: seguir o dever e a ética profissional ou a lei moral? O conflito assola a reflexão e a fraqueza da justiça dos Homens é posta em evidência.

Maybe 2000 years ago, we'd have stoned him to death.
I can't operate outside the law. The law is my business.
Sam Bowden

Daí o confronto final ter uma simbologia especial. Perante a ameaça da violência e na luta pela sobrevivência, todas as leis caem por terra. A justiça primitiva é a única possível e a semente do crime pende igualmente para ambos os lados da balança. Todos os homens podem ser culpados e agentes de violência, tenham razões para isso. Desse prisma, as diferenças entre Max e Sam tendem, às tantas, a dissipar-se. As circunstâncias da vida encarregar-se-ão finalmente de os encaminhar para a redenção ou não.

Max Cady: I'm Virgil and I'm guidin' you through the gates of Hell. We are now in the Ninth Circle, the Circle of Traitors. Traitors to country! Traitors to fellow man! Traitors to GOD! You, sir, are charged with betrayin' the principles of all three! Quote for me the American Bar Association's Rules of Professional Conduct, Canon Seven.
Sam Bowden: "A lawyer should represent his client... "
Max Cady: "Should ZEALOUSLY represent his client within the bounds of the law." I find you guilty, counselor! Guilty of betrayin' your fellow man! Guilty of betrayin' your country and abrogatin' your oath! Guilty of judgin' me and sellin' me out! With the power vested in me by the kingdom of God, I sentence you to the Ninth Circle of Hell! Now you will learn about loss! Loss of freedom! Loss of humanity! Now you and I will truly be the same...

Enfim, magistral. Psicologicamente estonteante.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN (2004)


PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Harry Potter and the Prisioner of Azkaban
Realização: Alfonso Cuarón
Principais Actores: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Gary Oldman, David Thewlis, Robbie Coltrane, Michael Gambon, Alan Rickman, Maggie Smith, Tom Felton, Emma Thompson, Timothy Spall, Julie Christie, Julie Walters


Crítica:

A LUZ E AS TREVAS

Mysterious thing, time.

Entre ratos, lobos e assustadores dementors, eis que a saga Harry Potter respira ar fresco pelas mãos do talentosíssimo Alfonso Cuarón. Fazendo jus às qualidades intrínsecas à própria narrativa de J. K. Rowling, a fantasia densifica-se, emerge ainda mais nos seus segredos, pisa o terror e transforma-se em algo inegavelmente mais negro.

Envolvente e apaixonante, todo o storytelling desenvolvido por Steve Kloves. Descolando-se de quaisquer condicionamentos maiores, inerentes à adaptação, o argumento flui finalmente a um ritmo próprio, saboreando a essência de cada episódio e edificando um desejável efeito de coesão e de surpresa até ao clímax. A forma como o filme trata o tempo, nomeadamente, é de uma habilidade notável, superando-se no twist.

Cuarón explora magistralmente a atmosfera da história, gélida e sinistra, mas também o espaço: primeiramente, a Londres nocturna e os seus fantasmas - a viagem no autocarro louco, pelas ruas da cidade, é completamente alucinada e electrizante, contrastando com o universo mágico e paralelo, interdito aos muggles, aqui dotado de uma beleza visual quase lírica e poética. Depois e especialmente, Hogwarts e arredores, por meio dos quais traz a história para o exterior, para fora dos corredores meio-iluminados da fortificação. Deslumbrante e romântica, a propósito, a sequência do vôo no hipogrifo, onde a fotografia (Michael Seresin) e a composição musical (do lendário John Williams) se combinam perfeitamente. A câmera do cineasta lança um novo olhar sobre a trama e sobre as suas personagens - um olhar mais maduro e pessoal, provalvelmente mais autoral, estilisticamente mais refinado e sobretudo mais sensível às subtilezas dramatúrgicas e à progressiva perda da inocência, que é um tema central em Harry Potter. Por outro lado, o facto dos alunos terem abandonado as fardas, por exemplo, aproxima imediatamente a narrativa da contemporaneidade, preparando terreno para os capítulos sucessores. Os efeitos digitais aliam-se a todo o design de produção na concretização de um mundo ainda mais pormenorizado, sofisticado e, também por isso, mais credível.

No elenco... Gary Oldman, David Thewlis, Robbie Coltrane, Michael Gambon, Alan Rickman, Maggie Smith, Emma Thompson, Timothy Spall... um elenco de luxo com prestações ao mesmo nível, cristalizando uma essência sólida. O trio de protagonistas - Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint -, revela, por fim, trabalho e talento adicionais, para além do carisma infantil que lhe conhecíamos.

Este terceiro filme é, talvez por tudo isto, um dos mais maravilhosos da saga, cinematograficamente mais gratificantes e memoráveis. Absolutamente brilhante.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

PLAYTIME - VIDA MODERNA (1967)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Play Time
Realização: Jacques Tati

Principais Actores: Jacques Tati, Barbara Dennek, Rita Maiden, France Rumilly, France Delahalle, Valérie Camille, Erika Dentzler, Nicole Ray, Yvette Ducreux, Nathalie Jem, Jacqueline Lecomte

Crítica:

ILUSÕES DE HUMANIDADE

Somos os primeiros a estudar o silêncio!

O tempo muda. Os prédios rasgam agora os céus, das nuvens aterram turistas de todo o mundo e uma rua de Paris é igual a qualquer outra. Playtime traz o advento do capitalismo, da globalização e do anonimato civilizacional para o espaço público. Ao mesmo tempo que é uma comédia - embora a sua caricatura não seja tão exagerada assim - é uma denúncia alarmante à tão excessiva quanto ridícula organização do ser humano no dia-a-dia moderno, loucamente fascinado pelas invenções electrónicas e pelo progresso tecnológico e de antemão condenado à incomunicabilidade e à solidão. Às vezes, apetece dizer que Playtime é ficção científica e não será por acaso. Afinal, o design, a arquitectura vanguardista e as por demais linhas rectas parecem querer desenhar o futuro.

O centro da acção é a cidade; um manto cinzento cobre-a de cima a baixo e não há espaços verdes. A construção é em série, multiplicam-se os modelos standard e há uma obsessão incurável pela transparência. A perda da privacidade é gritante. O trânsito é interminável, mas organizado e há parquímetros por todo o lado. Quando Hulot se passeia pelo aeroporto ou pelo centro de escritórios, o cómico de situação brota a todo o instante. A sua inadaptação é evidente e no entanto tende a acentuar a inutilidade e a complicação de tanta tecnologia. Note-se o senhor que às tantas partilha com ele a sala de espera: toda a espera é uma encenação pensada, metódica e inexplicável. Caminharemos nós para aquele teatro desnecessário e insignificante? Fará de nós, o modelo social, seres igualmente artificiais e sem emoções, quais electrodomésticos? Note-se o senhor da limpeza, que vagueia agora pelos corredores sem nada para fazer... É tudo demasiado clean, resplandecente e perfeito. Ao mesmo tempo, tudo tão despersonalizado e sem identidade. Todos usam os mesmos sapatos, o mesmo tipo de roupa, todos vão ao mesmo local. Há uma cena notável em que uma parede nos impõe um split screen: em cada um dos lados, um apartamento e um televisor. Ambos os moradores passaram o serão com os seus familiares e amigos, mas sem diálogos significativos, tal é o fascínio pela invenção. Às tantas, parecem olhar um para o outro, mas entre os dois há silêncio e impossibilidade. Com a inauguração do clube nocturno, o Royal Garden, eis que a verdade se sobrepõe à aparência e aquele que seria o escândalo iminente acaba por descobrir a humanidade: a noite, entre o álcool e a diversão autêntica, dá lugar ao improviso, à quebra de todas as regras e previsões. O provincianismo emerge e a vida também.

Quando amanhece, a rotina repete-se. O trânsito, às voltas pela rotunda, parece simular um carrossel. A banda musical colabora. O Homem diverte-se assim. Se não se divertisse, porque perpetuaria ao futuro esta estranha forma de vida? O ensaio de Tati, assustadoramente actual, eleva-se pois como uma prodigiosa projecção do seu tempo, sociologicamente, filosoficamente, cinematograficamente. É um pedaço de arte magnífico, criteriosamente encenado e fotografado. Excelente.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

HARRY POTTER E A CÂMARA DOS SEGREDOS (2002)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Harry Potter and the Chamber of Secrets
Realização: Chris Columbus
Principais Actores: Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Richard Harris, Kenneth Branagh, Maggie Smith, Robbie Coltrane, Alan Rickman, Tom Felton, Jason Isaacs, Christian Coulson

Crítica:


MISTÉRIOS ANCESTRAIS

Enemies of the Heir, Beware.

Entre serpentes, aranhas e carros voadores, eis que Harry Potter e a Câmara dos Segredos se impõe como um capítulo ainda mais espectacular. O regresso de Chris Columbus a Hogwarts faz-se, sem sombra de dúvida, com outra imaginação e desenvoltura: o realizador está mais ousado, servindo-se exemplarmente dos elevados valores de produção que tem ao seu dispôr. Por outro lado, encontramos maiores economia e coesão ao longo de toda a adaptação narrativa (J. K. Rowling e Steve Kloves), o que permite, por si só, um filme organicamente mais fluído, consistente e aprofundado e mais livre para a exploração da linguagem cinematográfica. Estes foram, claramente - a realização e o argumento -, os dois pontos fracos que apontei no primeiro filme da saga e que aqui vejo irrepreensivelmente superados.

O elenco, em alto nível, serve-nos um leque de personagens memoráveis. O suspense envolve e aprisiona o espectador, progressivamente, e as maravilhosas sequências de acção tornam a aventura absolutamente excitante e assustadora. Note-se, a propósito, a sofisticação dos sempre presentes efeitos especiais (Jim Mitchell, Nick Davis, John Richardson e Bill George). Dobby, o elfo doméstico, afirma-se, aqui, como um dos feitos mais desafiantes levados a cabo pela equipa. O requinte do design de produção, dos cenários, da decoração e dos figurinos e o esplendor que emana a cada fotograma, como que numa tentativa de contínuo deslumbramento visual, decidem a excelência da obra. Roger Pratt, à frente da iluminação e da fotografia, tem para esse efeito um papel determinante. Os estimados valores técnicos estendem-se finalmente tanto à banda sonora como à minuciosa combinação dos sons.

Fantástica adaptação. Entretenimento incrivelmente divertido e emocionante, moralmente pertinente, a ver e rever.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL (2001)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Harry Potter and the Sorcerer's Stone
Realização: Chris Columbus
Principais Actores: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Tom Felton, Richard Harris, Maggie Smith, Robbie Coltrane, Alan Rickman, Ian Hart, John Cleese, John Hurt

Crítica:

O RAPAZ QUE SOBREVIVEU

It's true then, what they're saying on the train.
Harry Potter has come to Hogwarts.

Expansão do imaginário, fusão e recriação fantástica de mitos e mitologias ou aventura meramente escapista: o fenómeno Harry Potter justifica-se à luz de um sem fim de atributos e méritos próprios. Creio que um factor determinante para o sucesso da saga foi o de, livro após livro, filme após filme, a história acompanhar o crescimento da criança que se fez homem e que perdeu a inocência, ao mesmo tempo que acompanhava toda uma geração (mundo fora), que fazia exactamente o mesmo percurso. Harry Potter fez a ponte entre o real e o imaginário, entre o quotidiano londrino dos finais do século XX/século XXI, quase que radicalmente despido de crenças e superstições sobrenaturais, e uma idade como que parada no tempo, algures entre o antigamente e o tempo onde a magia é possível. E é mesmo isso que Harry Potter representa: o regresso da magia. Com Harry Potter e A Pedra Filosofal, a magia torna ao grande ecrã e a fantasia resulta - coisa rara em cinema - triunfalmente, com doses certas de coerência, verosimilhança e imaginação.

Após mais um entediante e sofrido Verão em casa dos tios muggles, eis que chega a sua data de aniversário e o início da maior aventura da sua vida: Harry descobrirá as suas origens, a sua própria identidade e um mundo completamente inacreditável, onde a luz e as trevas andarão sempre lado a lado. Após um violento confronto, aquele cujo nome não deve ser pronunciado deixou-lhe uma cicatriz na testa, passou-lhe infindáveis poderes e o mistério da sua orfandade. Seria inimaginável pensar este encantatório, perigoso e derradeiramente arrebatador mundo de Harry Potter sem as infinitas potencialidades dos efeitos digitais. Da edificação dos cenários à composição da atmosfera, da concepção das mais variadas e maravilhosas criaturas e bruxarias à captação do verdadeiro espírito do livro, os efeitos digitais (cada vez mais sofisticados) elevam significativamente a experiência. Fale-se da monumental direcção artística de Stuart Craig, tão ambiciosamente empenhada em dar vida ao mundo de J. K. Rowling, da plataforma 9 3/4 às ruas da Diagon Alley e às imponentes galerias e escadarias de Hogwarts. Fale-se da fotografia de John Seale, ainda que por vezes excessivamente escura. Fale-se da icónica e emblemática banda sonora de John Williams - o seu Hedwig's Theme tornou-se instantaneamente um clássico e sinónimo de sétima arte. Fale-se desse elenco de carismáticas e prometedoras crianças-actores: Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson - como Harry Potter, Ron e Hermione, respectivamente - que mais tarde se viriam a revelar escolhas mais do que acertadas. Fale-se desse fundamental leque de actores seniores - grandes actores, em extraordinários desempenhos: Richard Harris como Albus Dumbledore (que me desculpe Michael Gambon, mas para mim Richard Harris será sempre um melhor Dumbledore), Alan Rickman como Severus Snape (uma das mais enigmáticas, ricas e fascinantes personagens da saga), Maggie Smith como Minerva McGonagall ou Robbie Coltrane como Rubeus Hagrid.

É certo que Chris Columbus, na realização, nunca é tão extraordinário como o próprio universo que Harry Potter nos dá a descobrir, mas é igualmente certo que assegura a aventura e o entretenimento familiar, num tom marcadamente infantil, com uma eficácia mais ou menos assegurada. Encontro na excessiva colagem à narrativa do livro, contudo, o ponto mais negativo do filme. A adaptação, quem sabe se excessivamente supervisionada pela autora da obra, tenta condensar demasiada informação em pouco tempo, prejudicando uma desejável fluidez do ritmo e o amadurecimento dos episódios; tarefa árdua, admitamos, na apresentação ao mundo de tão complexa história, tão recheada de detalhes. Apesar disso, eis um tomo absolutamente fascinante e plausível. Quem resistiria, afinal, a apanhar o comboio para Hogwarts?

sexta-feira, 8 de julho de 2011

NEW YORK, NEW YORK (1977)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: New York, New York
Realização: Martin Scorsese
Principais Actores: Liza Minnelli, Robert De Niro, Lionel Stander, Barry Primus, Mary Kay Place, Georgie Auld, George Memmoli, Dick Miller, Murray Moston, Lenny Gaines, Clarence Clemons, Kathi McGinnis

Crítica:


If I can make it there
I'll make it anywhere
...


AMAR EM NOVA IORQUE

It's up to you
New York, New York!

Entre a vida e o artifício, New York, New York, de Martin Scorsese, é puro espectáculo, puro requinte. É um elogio ao amor sobre a guerra, à cidade que nunca dorme e uma homenagem maior aos musicais de estúdio que, outrora, consagraram Hollywood. Essa aura especial é, aliás, perfeitamente recriada. A obra concretiza - através da tempestuosa relação de Jimmy e Francine Evans - uma autêntica e contínua antologia de inspiradíssimos diálogos e cenas, tantos deles improvisados, absolutamente memoráveis. Scorsese, sempre dotado de elevada sensibilidade estética, conduz a trama com apreço pelos fait-divers e perde-se neles; perde-se no sentido demora-se, maravilhado e encantado. E nós perdemo-nos com ele.
 
O filme é tanto mais do que eles, mas é igualmente compreensível dizer que Roberto DeNiro e Liza Minelli são o filme. Transbordando talento e dedicação, a química entre os dois transcende facilmente a tão pouca convencionalidade do romance.
Jimmy, um saxofonista egoísta e possessivo, machista e conflituoso quanto baste. Francine, uma graciosa cantora, que se deixar seduzir pela lata do fanfarrão. Têm em comum a ambição e a música. Amam-se, mas são incompatíveis - isso percebe-se logo desde o início. A espaços, lembramos Minnie and Moskowitz, de Cassavetes, e a sua improvável e atribulada relação. No final, a sós, cada um encontra o sucesso profissional e os sonhos de ambos tornam-se realidade. É incrível como apenas separados, à distância, conseguem triunfar. Os opostos atraem-se, mas destroem-se mutuamente. Nem um filho os consegue unir.


O tema New York, New York - que o filme (e mais tarde Frank Sinatra) eternizou - cresce ao ritmo da sua relação, dos créditos iniciais ao grande desfecho. Minneli interpreta vorazmente outros tantos temas poderosos ou essencialmente espirituosos: There Goes the Ball Game, The Man I Love, mas sobretudo But the World Goes 'Round. A excelência da música é comum aos mais variados departamentos técnicos: László Kovács, à frente da direcção de fotografia, capta a atmosfera da noite nova-iorquina e dos bares onde flui o jazz e o blues, fundindo habilmente as cores, os brilhos e as luzes. A direcção de figurinos (Theadora Van Runkle) e a artística (Boris Leven, Harry Kemm, Robert De Veste e Ruby R. Levitt) esmeram-se claramente no mesmo sentido, em cada decór, dos interiores aos exteriores fabricados e aos esplendorosos palcos da Broadway; gloriosa, a recuperada sequência Happy Endings, onde Minneli e figurantes cintilam vermelhos no mais excêntrico guarda-roupa.


Um filme em tudo magistral, negligenciado pelo público e pela crítica aquando da estreia, mas merecidamente distinguido entre os melhores, à medida que o tempo lhe faz justiça.


quarta-feira, 6 de julho de 2011

BRISA DE MUDANÇA (2006)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Wind That Shakes the Barley
Realização: Ken Loach
Principais Actores: Cillian Murphy, Padraic Delaney, Liam Cunningham, Gerard Kearney, William Ruane

Crítica:


INDEPENDÊNCIA INGLÓRIA



I tried not to get into this war, and did,
now I try to get out, and can't.

Quão vergonhosa pode uma guerra civil ser. Quão revoltante pode a natureza humana ser. Matamo-nos a nós próprios, sem piedade, apesar da dor. Aquela relação de irmãos - entre Damien (Cillian Murphy) e Teddy (Padraic Delaney) - sinedoquiza, passe o necessário neologismo, toda a história da Irlanda que Loach tão tensa e intensamente abraça representar. Até que ponto a defesa de um ideal nos separa, traindo o coração e o nosso próprio sangue.

Strange creatures we are, even to ourselves...

Brisa de Mudança
grita o socialismo e a liberdade patriótica, entre a natureza
verdejante (sublimemente fotografada por Barry Ackroyd) e o intimismo familiar. O argumento (Paul Laverty), associado de raiz ao retrato histórico e à leitura política, encontra a sua força na autenticidade da tragédia, longe do melodrama ou da romantização. Há aqui um realismo austero, que intensifica os sacrifícios dos homens, e para o qual contribui decisivamente a direcção artística e o guarda-roupa. O jovem elenco está ao nível das exigências dramáticas, sobretudo a dupla acima referida, que protagoniza a trama.


Horror, medo, esperança. Brisa de Mudança é um filme de todos estes sentimentos, sobre a génese da rebelião. Grande filme.

CINEROAD ©2020 de Roberto Simões