quarta-feira, 6 de julho de 2011

BRISA DE MUDANÇA (2006)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Wind That Shakes the Barley
Realização: Ken Loach
Principais Actores: Cillian Murphy, Padraic Delaney, Liam Cunningham, Gerard Kearney, William Ruane

Crítica:


INDEPENDÊNCIA INGLÓRIA



I tried not to get into this war, and did,
now I try to get out, and can't.

Quão vergonhosa pode uma guerra civil ser. Quão revoltante pode a natureza humana ser. Matamo-nos a nós próprios, sem piedade, apesar da dor. Aquela relação de irmãos - entre Damien (Cillian Murphy) e Teddy (Padraic Delaney) - sinedoquiza, passe o necessário neologismo, toda a história da Irlanda que Loach tão tensa e intensamente abraça representar. Até que ponto a defesa de um ideal nos separa, traindo o coração e o nosso próprio sangue.

Strange creatures we are, even to ourselves...

Brisa de Mudança
grita o socialismo e a liberdade patriótica, entre a natureza
verdejante (sublimemente fotografada por Barry Ackroyd) e o intimismo familiar. O argumento (Paul Laverty), associado de raiz ao retrato histórico e à leitura política, encontra a sua força na autenticidade da tragédia, longe do melodrama ou da romantização. Há aqui um realismo austero, que intensifica os sacrifícios dos homens, e para o qual contribui decisivamente a direcção artística e o guarda-roupa. O jovem elenco está ao nível das exigências dramáticas, sobretudo a dupla acima referida, que protagoniza a trama.


Horror, medo, esperança. Brisa de Mudança é um filme de todos estes sentimentos, sobre a génese da rebelião. Grande filme.

terça-feira, 5 de julho de 2011

O CREPÚSCULO DOS DEUSES (1950)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Sunset Boulevard
Realização: Billy Wilder
Principais Actores: William Holden, Gloria Swanson, Erich von Stroheim, Nancy Olson, Cecil B. DeMille, Franklyn Farnum, Jack Webb, Lloyd Gough, Fred Clark, Larry J. Blake, Buster Keaton

Crítica:


A GRANDE ILUSÃO

No-one ever leaves a star.
That's what makes one a star...

Chega a ser cruel, o reflexo e o retrato de Hollywood, magistralmente concretizado por Billy Wilder e equipa neste O Crepúsculo dos Deuses. Eis a sátira à teia de oportunistas que deambula pela Sunset Boulevard, sedentos de celebridade. Na avenida da cidade dos sonhos, a mansão assombrada por Norman Desmond - o grande astro do cinema mudo, estrela agora cadente e decadente face à ascenção do cinema sonoro, perdida entre a excentricidade e a extravagância do seu carácter e da sua carteira. A prodigiosa tour de force de Gloria Swanson confronta-nos com a tragédia, a efemeridade do sucesso e da fama, com o pavor do envelhecimento e do esquecimento, com a sombra por detrás dos holofotes que outrora abrilhantaram e fizeram dela uma aclamada artista. There's nothing tragic about being fifty. Not unless you're trying to be twenty-five. Norma sonha com o regresso - It's a return, a return to the millions of people who have never forgiven me for deserting the screen. - um regresso impossível, potenciado pela ilusão. Afinal, todos lhe mentem - revelar ou ocultar a verdade, ambas as soluções acarretam consequências terríveis.

I am big. It's the pictures that got small.

Norma sonha com o regresso mas há muito que deixou de ser solicitada. Recebe milhares de cartas de fãs, mas são todas escritas pelo mordomo Max; facto que ela desconhece, coitada. Os telefonemas que recebe da Paramount são para lhe alugar o carro, não porque Cecil B. DeMille a queira de volta ou tenha adorado o seu argumento falhado. É por isso que nos enche de compaixão, a cena em que a diva torna aos antigos estúdios e se reencontra com o cineasta dos grandes épicos. Primeiramente, só os velhos técnicos e funcionários se recordam dela - a indústria do presente dispensou-a. Icónica e simbólica, por isso mesmo também, a cena dos Bonecos de Cera, em que os deuses do mudo jogam às cartas no seu empoeirado Olimpo. Buster Keaton, Anna Q. Nilsson e H.B. Warner, os renegados do silêncio. Mais do que aparições, eles representam-se a si próprios, potenciando uma metalinguística incomensurável. O mesmo a dizer de Cecil B. DeMille, que dirigiu Gloria no passado; Gloria que, tal como Norma, foi uma actriz do outrora, cuja personagem no filme de Wilder lhe sentenciou o regresso áureo. Esta dupla leitura entre relações diegéticas e metadiegéticas far-se-á sempre em O Crepúsculo dos Deuses, resultando daí a maior parte do seu fascínio. A propósito, o mordomo Max desempenhará uma personagem-chave em toda a trama. Afinal, também ele se representa, de alguma forma, a si próprio. Max von Mayerling assume-se como o primeiro realizador de Norma e o primeiro dos seus maridos, super-protegendo-a desde sempre e edificando à sua volta um palácio de sonhos e fantasias. Max von Mayerling não é senão o aclamado (e de outros tempos) realizador Erich von Stroheim - a cena a que Norma e Gillis assistem na sala de projecção não é nada mais nada menos do que uma das cenas de A Rainha Kelly, realizado por Erich e estrelado por Gloria Swanson em 1932.


She was the greatest of them all.

O Crepúsculo dos Deuses é também um noir envolvente, uma história de crime narrada a partir da primeira pessoa - uma narrativa póstuma, uma vez que o narrador se assume logo desde início como o morto, vítima de um mistério desvendado analepticamente. Não deixa de ser irónica, a natureza deste narrador (mais tarde recuperada exemplarmente em Beleza Americana, de Sam Mendes). O narrador e o protagonista (ainda que a prestação magnetizante seja sempre a de Gloria Swanson) é Joe Gillis, William Holden, um argumentista falhado, perseguido pelas dívidas, que encontra na rica Norma o remédio para a sua instável situação. Será o único a afrontar a actriz, levando-a ao devaneio final, à insanidade pura e ao crime. Se na cena do baile já tínhamos pena daquela mulher, o que sentir aquando daquela delirante descida pela escadaria, envolta em multidão, completamente refém da ilusão...

I promise you I'll never desert you again because after 'Salome' we'll make another picture and another picture. You see, this is my life! It always will be! Nothing else! Just us, the cameras, and those wonderful people out there in the dark!... All right, Mr. DeMille, I'm ready for my close-up.

Eis, pois, um feito notável no seio da indústria americana. Uma produção corajosa, que privilegia a história e os actores sobre todas as coisas, mas que detém igualmente o mérito de conciliar o primor nas mais variadas catergorias técnicas: exuberante, a direcção artística, em cada cenário, em cada figurino. Imaculada a fotografia, a cargo de John F. Seitz. Sublime, a banda sonora de Franz Waxman, na condução da melancolia trágica. Grande clássico de Billy Wilder.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

EVA (1950)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: All About Eve
Realização: Joseph L. Mankiewicz
Principais Actores: Bette Davis, Anne Baxter, George Sanders, Celeste Holm, Gary Merrill, Hugh Marlowe, Gregory Ratoff, Barbara Bates, Marilyn Monroe, Thelma Ritter

Crítica:


A GUERRA DAS ESTRELAS

Wherever there's magic and
make-believe and an audience, there's theatre.

Teatro. É sobretudo uma questão de teatro e de actores, neste magnetizante Eva. Gloriosas interpretações, magistralmente dirigidas por Joseph L. Mankiewicz. Falo do astro Bette Davis, sobre todos os outros, que ofusca qualquer cena ou contracena; o charme, o carisma e o infindável talento da sua retórica, a expressividade do seu olhar, a graciosidade do seu movimento. Uma performance que só uma grande actriz como Davis poderia alcançar. There never was, and there never will be, another like you. Depois, as qualidades notáveis e os contributos imprecindíveis do restante elenco: a usurpadora Anne Baxter, George Sanders, Celeste Holm, Gary Merrill, etc. A excelência do argumento e dos diálogos, numa realização segura que priveligia a história e as suas personagens.

Funny business, a woman's career - the things you drop on your way up the ladder so you can move faster. You forget you'll need them again when you get back to being a woman. That's one career all females have in common, whether we like it or not: being a woman. Sooner or later, we've got to work at it, no matter how many other careers we've had or wanted. And in the last analysis, nothing's any good unless you can look up just before dinner or turn around in bed, and there he is. Without that, you're not a woman. You're something with a French provincial office or a book full of clippings, but you're not a woman. Slow curtain, the end.
Margo Channing

Um requinte absoluto, que definiu um clássico.

BRUSCAMENTE NO VERÃO PASSADO (1959)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Suddenly, Last Summer
Realização: Joseph L. Mankiewicz

Principais Actores: Elizabeth Taylor, Katharine Hepburn, Montgomery Clift, Albert Dekker, Mercedes McCambridge, Gary Raymond

Crítica:

O SEGREDO

Truth is the bottom of a bottomless well.

Imcompreensível, que se fale tão pouco de um filme como Bruscamente no Verão Passado, na minha opinião um dos melhores de Joseph L. Mankiewicz. Um argumento verdadeiramente monumental, de um engenho literário inegável e impressionante, pelas mãos de Gore Vidal e do próprio Tenessee Williams, que escreveu a peça.

A elevar o argumento à perfeição, a eloquente declamação de Elizabeth Taylor, mas sobretudo a dessa grande - enorme - actriz que foi Katharine Hepburn. Por causa da censura, um argumento cheio de subtilezas, factor que no meu entender confere ainda mais mistério e poder à narrativa, sempre alicerçada no suspense. O preto e branco é imaculado. O movimento de câmera, sempre discreto mas expressivo, enquadra os actores no primor cénico da direcção artística, valorizando as suas performances.

Que filme magistral, que pedaço de storytelling tão fascinante.

domingo, 3 de julho de 2011

HORIZONTES DE GLÓRIA (1957)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Paths of Glory
Realização: Stanley Kubrick
Principais Actores: Kirk Douglas, Ralph Meeker, Adolphe Menjou, George Macready, Wayne Morris, Richard Anderson, Christiane Kubrick, Joe Turkel

Crítica:


A TERRA DE NINGUÉM

Too much has happened. Someone's got to be hurt.
The only question is who.


Um olhar perfeccionista e implacável, sobre o inferno das trincheiras e a monstruosidade do ser humano. Um preto e branco imaculado, na sublimação visual da elegância - afinal, a fotografia de Horizontes de Glória, a cargo de Georg Krause, concretiza a excelência visionária e todo o potencial da mise-en-scène. Zooms, travellings, planos-sequência de cortar a respiração e de detalhes preci(o)sos, sublimes enquadramentos em deep focus, uma arte de filmar que gere de forma irrepreensível a poderosa carga de emoções que a história e as performances dos actores elevam, consistentemente.

O argumento, a partir do romance de Humphrey Cobb e adaptado a três mãos (entre Kubrick, Calder Willingham e Jik Thompson), é dotado de uma prodigiosa economia narrativa, fazendo evoluir a diegese - cena a cena - com uma coesão notável. E a cada cena, mais magistral do que a anterior, os diálogos memoráveis arrebatam-nos e fazem-nos tomar consciência do quão prazeroso é assistir ao filme. As cadências premeditadas da montagem (Eva Kroll) são imprescindíveis para o sucesso narrativo. Sublimes, as interpretações de Adolphe Menjou (general George Broulard), Ralph Meeker (capitão Philippe Paris) e do destemido Kirk Douglas, o coronel Dax que primeiramente acata as ordens superiores sem as questionar e que depois afrontará todas as autoridades na defesa dos soldados injustamente acusados pela missão fracassada e convertida num impiedoso e sangrento massacre.

Gentlemen of the court, there are times that I'm ashamed to be a member of the human race and this is one such occasion.

O tom irónico e corrosivo das melhores obras do realizador está sempre presente, como um fio condutor ou marca de estilo, denunciando e ridicularizando a cegueira e a arrogância, o abuso de poder e a injustiça; em suma, a falta de humanidade que parece abundar entre a frieza e o cinismo, a hipocrisia e a loucura do lado da guerra. A prepotência do general Paul Mireau (George Macready), que cruelmente vinga a indisciplina e a insubordinação contra as suas ordens ambiciosas e suicidas, expõe a vergonha do ser humano. There are few things more fundamentally encouraging and stimulating than seeing someone else die. Em tempo de guerra, os inimigos estão inclusivé na hierarquia que delibera a nossa patente.

Tecnicamente, Horizontes de Glória mostra-se perfeitamente executado. Note-se o som e excepcional montagem dos seus efeitos, note-se a sensível aplicação da música e dos silêncios ou todo o brilhantismo da direcção artística, seja no campo de guerra como no glamour do baile. A cena final, onde a música se revela como linguagem universal, vem preencher de compaixão e sentimento todo o humanismo reclamado ao longo da obra e personificado, na primeira pessoa, pelo coronel Dax. Sem dúvida, um dos melhores filmes de guerra jamais feitos. Absolutamente marcante. A excelência da obra é tal que não me admirarei se, no futuro, vier a considerá-la uma incontestável obra-prima.

sábado, 2 de julho de 2011

DESCOBRIR FORRESTER (2000)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
Título Original: Finding Forrester
Realização: Gus Van Sant
Principais Actores: John Wayne, Sean Connery, Rob Brown, F. Murray Abraham, Anna Paquin, Michael Nouri, Busta Rhymes
 
Breves Considerações: Um argumento com potencial, subaproveitado tanto pela inexpressividade das interpretações como pela realização pouco inspirada.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

OS CONTOS DA LUA VAGA (1953)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Ugetsu monogatari
Realização: Kenji Mizoguchi
Principais Actores: Masayuki Mori, Machiko Kyô, Kinuyo Tanaka, Eitarô Ozawa, Ikio Sawamura

Crítica:

O PREÇO DA AMBIÇÃO

Quem tudo quer, tudo perde, já diz o ditado, e a Os Contos da Lua Vaga, aclamado filme de Mizoguchi, poucas máximas lhe poderiam assentar tão perfeitamente. Pese o acentuado travo de moral e tragédia que, em crescendo, configura o retrato, eis a perdição do Homem que, sem valorizar os seus pilares fundamentais - já adquiridos - condena-se a si próprio à destruição. Menosprezando a família, irresponsavelmente, desprezando-a até e abandonando-a à sorte na cega esperança de um dia cumprir os seus desígnios, avançam os tolos para o precipício. Numa perspectiva cristã, pisariam o Paraíso sedentos da posse de glória e atravessariam o Purgatório, pleno de espectros sedutores e amaldiçoados, rumo ao Inferno irreversível.

Genjûro (Masayuki Mori) e Tobei (Eitarô Ozawa) são vizinhos, manuseiam a arte e a terra. O primeiro sonha ser rico, o segundo sonha ser guerreiro samurai, ambos de fama e reputação considerável. Insatisfeitos com o baixo reconhecimento da sua condição social, acabam por deixar a família, a casa e a terra, abraçando a ilusão. A guerra civil bate-lhes à porta, sem piedade, anunciando o infortúnio.

Quem só procura a glória,
faz sofrer os que o rodeiam.

Do estilo de Mizoguchi denota-se um imenso e apurado sentido visual (deslumbrante e encantatória, a fotografia de Kazuo Miyagawa, tão escura quanto cintilante em todas as nuances da iluminação. Há quadros belíssimos, por entre a fluidez dos planos-sequência). A montagem e a extraordinária orquestração de música (Fumio Hayasaka, Tamekichi Mochizuki, Ichirô Saitô) e sons conferem à obra uma dimensão fantasmagórica e espiritual, bem antes da natureza sobrenatural ou mística de algumas das personagens. O argumento, misto das ideias de vários criadores, desenvolve a trama com um doseamento equilibrado do mistério e da revelação.

Às tantas, a aparente ascendência do percurso obsessivo sai da sombra e a queda mostra-se profundamente cruel e sentensiosa. Separados pelo destino, cada marido e cada mulher acolhe a desgraça. As almas de outrora, penadas, cantam o adeus e a memória. O final de Tobei e da mulher Ohama acaba por confrontá-los com a dureza das circunstâncias e com a inevitabilidade da vida - profundamente irónico, o reencontro no bordel -, mas sobretudo o poético e transcendente desfecho de Genjûro e da esposa Miyagi, entre as ruínas de Kutsuki e o filho adormecido, vem alertar para as derradeiras consequências do egoísmo e do orgulho, da traição, da inveja e da vaidade: a dor da solidão e o vazio existencial. O verdadeiro ouro esteve sempre ali... e foi posto em causa por tão levianos devaneios.

Certamente, um clássico absoluto e intemporal.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

A QUADRILHA SELVAGEM (1969)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: The Wild Bunch
Realização: Sam Peckinpah
Principais Actores: William Holden, Ernest Borgnine, Robert Ryan, Edmond O'Brien, Warren Oates, Jaime Sánchez, Ben Johnson, Emilio Fernández, Strother Martin, L.Q. Jones, Albert Dekker, Bo Hopkins, Dub Taylor, Paul Harper, Jorge Russek, Alfonso Arau, Chano Urueta

Crítica:

OS PISTOLEIROS DO ENTARDECER

If they move, kill 'em!

Numa das primeiras imagens de A Quadrilha Selvagem, um escorpião vê-se cercado e vencido por um exército de formigas. Metáfora e sinédoque de todo o filme, a aclamada obra de Peckinpah supera a criatividade dos créditos de abertura com uma das mais brilhantes sequências de todo a obra. Nela, as grandes marcas do cinema do realizador e especialmente dos seus westerns - género pelo qual, aliás, se consagrou com irreverência: a acção desenfreada e explosiva (dos tiroteios), o humor e a crueza radical da tremenda exploração da violência no ecrã e a acutilância da montagem (Louis Lombardo) que, dando continuidade às várias linhas da cena num elegante slow motion, conferem à obra uma linguagem extremamente dinâmica, ritmada e prazerosa de se assistir.

A Quadrilha Selvagem trata o fim do oeste americano ou pelo menos o fim e a queda daquele oeste americano que o cinema tanto ajudou a mitificar. As primeiras décadas do século XX trouxeram a mudança dos tempos e novos modelos sociais, culturais e, por conseguinte, civilizacionais. A violência passou das mãos de justiceiros e noutros casos ladrões e assassinos detentores de um prezado código de honra, para as mãos de capitalistas ganaciosos e amorais, somente sedentos de poder. Peckinpah passa o filme inteiro a humanizar a quadrilha. Nos olhos de Pike (William Holden) e de Deke (Robert Ryan) - outrora amigos, pelo que sugerem alguns dos inúmeros flashbacks que povoam a obra - é espelhada a angústia interior de um grupo de cowboys que não soube fazer mais nada, ao longo da vida, senão perseguir, fugir ou disparar uma arma e que, meditando a sua existência, entende que se tiver que voltar a matar, que o fará por um motivo digno. Peckinpah contrapõe perfeitamente o companheirismo e a união destes bandidos pelos quais acabamos por empatizar à desumanidade e ao despudor com que o general Mapache e os seus guerrilheiros mexicanos disfrutam das mulheres e dos prazeres da vida, do carro, da metralhadora e da alta tecnologia dos armamentos americanos, à margem da lei negociados. Note-se, a propósito, a forma leviana e doentia com que os experimentam, indiscriminadamente sobre a população, sempre embebidos em álcool e em música. Há, portanto, um claro e evidente choque geracional que transfigura a paisagem e os valores, ao qual Pike e companhia jamais se rendem. Preferem sacrificar-se e aceitar a morte, que a Pike chega ironica, tragica e simbolicamente pelas mãos de uma criança. Qual escorpião cercado pelas formigas.

We all dream of being a child again, even the worst of us.
Perhaps the worst most of all.

Assistir à Quadrilha Selvagem de Peckinpah lembra-me sempre, pese muito embora o anacronismo da questão (que Harold Bloom facilmente fundamentaria) o também magistral Aguenta-te, Canalha, de Sergio Leone. São os dois objectos diferentes, mas com vários pontos em comum, quando muito não seja o espaço e o tempo históricos. Vivem ambos, e tanto, do virtuosismo da arte de filmar e também Aguenta-te, Canalha se inicia com um inglório império de formigas, que Leone rapida e engenhosamente desfaz com o espumante mijo de Rod Steiger (no filme, o hilariante Juan Miranda). Enfim, fica a nota de comparação.

Moral sem alguma vez cair, propriamente, no moralismo e sobretudo excitante e divertido, sem nunca parecer ridículo ou pouco realista, A Quadrilha Selvagem terá porventura contribuído para a estética do cinema de acção como poucos, no legado que se lhe seguiu. Eleva-se à memória como uma verdadeira fonte de inspiração, fotografado pelo suado e empoeirado esplendor de Lucien Ballard.

sábado, 11 de junho de 2011

CERCADOS (2001)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Black Hawk Down
Realização: Ridley Scott
Principais Actores: Josh Hartnett, Ewan McGregor, Jason Isaacs, Tom Sizemore, William Fichtnerv, Eric Bana, Sam Shepard, Ewen Bremner, Tom Hardy, Ron Eldard, Charlie Hofheimer

Crítica:

ESTADO DE GUERRA

Apenas os mortos viram o fim da guerra.
Platão

Cercados não é propriamente um filme onde reine a subtileza. Não obstante, impera nele a elegância e a sofisticação que marcam, obra após obra, o estilo visual de Ridley Scott. Qual olhar de Deus, o cineasta desce sobre uma região particular do globo, que nem um satélite de análise: Somália, inícios dos anos 90 e o seu conflito civil. Mais particularmente, a demorada Batalha de Mogadíscio, com a intervenção americana no ar e no terreno. Quase milimetricamente, disseca a paisagem, a cultura e a atmosfera. Fornece-nos as coordenadas espácio-temporais, uma e outra vez, com uma preocupação obsessiva em simular o retrato histórico com detalhe e exactidão.

Resgatam-se as cores tórridas de Apocalypse Now (da obra-prima de Coppola resgatam-se também, com certeza, os gloriosos helicópteros) e capta-se a acção em movimento de um Spielberg em busca do seu Soldado Ryan. A fria mas implacável montagem de Pietro Scalia impõe um ritmo não só empolgante como absolutamente electrizante. E para a sublime captação da atmosfera, a direcção artística funde habilmente o real e o artificial (ou o propositadamente construído para o filme, entenda-se) na edificação de uma noção de realismo visceral. O filme - e a experiência em que consiste a sua visualização - vive ainda da exploração das infindáveis potencialidades do som e dos seus efeitos (Michael Minkler, Myron Nettinga e Chris Munron) e da carga emocional da banda sonora (Hans Zimmer, ao serviço do drama e da tensão crescente, a espaços aliviada por toda uma panóplia de canções cool que acompanham as overdoses de humor americano dos jovens soldados, sedentos de escape à seriedade do tema e das circunstâncias).

O elenco conta com uma constelação de estrelas em ascenção à data da estreia (Josh Harnett, Ewan McGregor, Eric Bana ou Orlando Bloom) que, com assaz competência, partilha o protagonismo colectivo que o argumento propõe. Não há heróis, no meio da pura, tremenda e impressionante acção. A guerra é cruel, profundamente devastadora e dilacerante e não reúne preferências. Nela, não há qualquer triunfo. Às tantas, o ódio perde o sentido e todas as mortes caem no vazio. Um soldado de intervenção, estrangeiro, ao qual se abriram as portas de um outro mundo, sucumbe perante os desígnios políticos, qual número ou peça de Xadrez. Não é nada, somente um instrumento que é tudo. O que vale uma vida humana? Cercados acaba por potenciar consideráveis discussão e reflexão.

Consideração final? Um soberbo e revigorante filme de guerra, que acaba por condensar e executar exemplarmente um pouco de toda a técnica e linguagem do género, até ao seu ano de produção.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

GALLIPOLI (1981)

PONTUAÇÃO: BOM

Título Original: Gallipoli
Realização: Peter Weir
Principais Actores: Mel Gibson, Mark Lee, Bill Kerr, Robert Grubb, Tim McKenzie, David Argue, Harold Baigent, Bill Hunter, Peter Ford, Ian Govett, John Morris, Les Dayman

Crítica:

A IRMANDADE AUSTRALIANA

Archy Hamilton: I'll see you when I see you.
Frank Dunne: Yeah. Not if I see you first.

Deslumbrante, o trabalho de fotografia de Russell Boyd, aliado à graciosidade e ao inspirado movimento da câmera de Weir. Nem sempre regular mas sempre altamente patriótico, contudo, o filme ostenta algumas passagens banalizadas pelo excesso de humor, prejudicando o drama e tratando a seriedade da guerra com alguma leviandade jovial e aventuresca (que caracterizava a inocência e coragem inconsciente daqueles australianos, entendi, mas creio-a aqui por demais romanceada). Nota máxima para os virtuosos trechos musicais que acompanham a obra - sobretudo esse magistral adágio de Albinoni - e classificação não diria mínima mas estranha e duvidosa à aplicação do Oxigénio de Jarre a algumas das sequências. O saldo é francamente positivo, mas longe das suas reais potencialidades.

CINEROAD ©2020 de Roberto Simões