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Título Original: Black SwanRealização: Darren Aronofsky
Principais Actores: Natalie Portman, Mila Kunis, Winona Ryder, Vincent Cassel, Barbara Hershey, Ksenia Solo, Kristina Anapau, Benjamin Millepied, Janet Montgomery, Sebastian Stan, Toby Hemingway, Mark Margolis, Tina Sloan
I just want to be perfect.
O LAGO DOS CISNES
Erica: What happened to my sweet girl?
Nina: She's gone!

Perfection is not just about control.
It's also about letting go.
It's also about letting go.
Esvoaça, arrepiante, o assombro da noite. Respiração, pirouette. Desferindo o luar com a graça das suas monstruosas e negras asas, invade o silêncio do vazio e a quietude das águas, num movimento voraz. É a fúria da natureza, o íntimo libertador. Do sangue e trevas do seu olhar, emana o terror. É o espectro da morte, consumido pela obsessão, invejando o amor. É o Cisne Negro, o lado oposto da criação, que triunfa sobre a pureza das coisas... O bailado, por força e impulso da magistral composição de Tchaikovsky, conduz a fábula ao clímax trágico e apoteótico. O passo final, delicado e sublime, toca a catarse e a trascendência, no interior ora angustiado ora aliviado do espectador. É essa a beleza da arte, o de mexer com as nossas emoções e Aronofsky - um dos mais ousados e geniais realizadores dos nossos dias - fá-lo extraordinariamente bem, doseando paixão e mestria num uníssono retumbante. Não admira, pois, que assistir a uma das suas obras se torne numa experiência avassaladora e absolutamente inesquecível.
Do sonho à concretização da perfeição, a vida real da bailarina Nina Sayers (brilhante Natalie Portman, num papel duro e devastador) transforma-se num pesadelo vertiginoso. As notas acentuadas de Clint Mansell insistem e persistem num ritmo pulsante, que penetra o nosso inconsciente (genial banda sonora, diga-se de passagem). A pressão é imensa: ao palco voltará o clássico O Lago dos Cisnes, numa nova produção que se pretende visceral, e o director artístico, Thomas Leroy (Vincent Cassel), procura a sua nova little princess, uma vez que a cobiçada diva Beth Macintyre (Wynonda Rider) - You all have had the chance and the privilege to be enchanted, transported, and even sometimes devastated by the performances of this true artist - se vê afastada pela fonte e crueldade da profissão: a juventude, da qual já não dispõe.
Candidatas ao lugar não faltam ou não fosse esta a oportunidade de uma vida. Porém, haverá entre elas alguma capaz de personificar, simultaneamente, o Cisne Branco (a virgem inocência) e o Cisne Negro (a perversa e libidinosa malvadez)? A qualidade técnica de Nina é reconhecida, mas será ela capaz de desempenhar também o traiçoeiro Cisne Negro, ser absolutamente confiante, sensual e possuído pelo Mal?
Para Nina, o Cisne Negro torna-se uma obsessão, desde logo. Sempre foi determinada, incansável e tremendamente exigente consigo própria, mas aquilo que fará para conseguir o papel transgredirá todos os seus limites. À sua volta, as colegas. Numa competição feroz e implacável, revelam-se tudo menos amigas. Só poderá contar consigo mesma e a pressão tenderá a estrangulá-la: the only person standing in your way is you. Thomas provoca-a, intimida-a e destabiliza-a, deixando-a ainda mais insegura.
Em casa, vê projectados sobre si os sonhos e as frustrações de uma mãe possessiva e opressiva (Barbara Hershey, como Erica Sayers), uma fracassada bailarina no passado. As subtilezas narrativas deixam perceber uma relação incestuosa que é escondida com vergonha. O quarto de Nina, aliás, é um quarto de menina. O cenário fala por si: Nina ainda não tem independência moral, as suas decisões reflectem os juízos da mãe. É por isso que é tão simbólico quando Nina agarra em todos os seus peluches e os atira ao lixo. É um corte com a infância e com a inocência do Cisne Branco, o que tenta fazer. O caminho é a incessante busca pela perfeição. A transformação é literal e começa no seu interior.
Os espelhos. Sempre os espelhos, de decór em decór. A mise-en-abyme começa: o Cisne Branco tem um gémeo, o Cisne Negro. O alter ego, a sombra que o lago reflecte perante a lua cheia. A dicotomia Bem e Mal, agente da criação. Nina tem igualmente que encontrar o seu reflexo, a face oculta da alma, para interpretar o papel na sua plenitude. Essa descoberta pessoal é essencial a qualquer artista, a qualquer performer que se entregue totalmente. A masturbação é, ela também, uma metáfora do espelho - touch yourself - a exploração da sexualidade connosco próprios. A sexualidade define, em certa medida, a nossa própria personalidade. A concretização das nossas fantasias e desejos reprimidos levar-nos-á - sempre - de encontro à nossa essência. Não será por acaso, porventura, que para os artistas a libertação sexual é tão importante e determinante para aquilo que eles fazem. Só um espírito verdadeiramente livre será capaz de exprimir o outro com verdade, sendo inteiro naquilo que desempenha. Por mais que Nina beije ou seduza Thomas, numa tentativa de libertação, não será a cunha que a conduzirá ao triunfo. E por mais que ele a deseje - That was me seducing you. It needs to be the other way around -, não serão esses impulsos que se sobreporão aos desígnios da arte.
Para riso e intriga da companhia, o papel é-lhe atribuído. O êxtase não poderia ser maior, nesse momento, mas como honrar a elevadíssima confiança e expectativa que nela depositaram? Como superar-se a si própria, silenciando todos os rumores e realizando-se pessoalmente? Espera-a o abismo, nos meandros da psicose.
Às tantas, a obsessão transtorna-a ao ponto de as suas atitudes se tornarem irreconhecíveis. This role is destroying you, diz-lhe a mãe. Nina perde a noção do real, começa a sofrer alucinações que transformam o realismo trémulo da câmera ao ombro no surrealismo visual que as feridas e as visões fantasiosas fortalecem, progressivamente. Os golpes nas costas prenunciam a metamorfose. Os contornos do drama e do thriller psicológico dão então lugar ao susto e ao suspense, a traços marcadamente tenebrosos. A atmosfera depressiva torna-se assustadora e sufocante, para a qual a sofisticação dos efeitos sonoros se mostra decisiva. Os efeitos digitais são subtis e permitem, com eficácia, a materialização da metáfora. O arrojo técnico é, aliás, permanente e notável. A impressionante fotografia de Matthew Libatique, sempre sensível à luzes e às sombras, ao branco e ao preto, procura, no primor da mise-en-scène, os enquadramentos mais significantes (pelo constante jogo de espelhos, nomeadamente). O espectador - completamente aprisionado - sustém a respiração, perante o imprevisível. Nina aceita finalmente o convite da colega Lily (Mila Kunis), bailarina com o perfil ideal para desempenhar o Cisne Negro, e sai à noite, contrariando as regras maternais. Aventura-se com os homens, com o álcool e com as drogas, deixando-se levar. Depois, a horas tardias, torna a casa com Lily e fecham-se no quarto, envolvendo-se ambas para além do erotismo. It's called privacy, I'm not 12 anymore! Confluem, no limiar da emancipação, os medos e os desejos reprimidos.
Do sonho à concretização da perfeição, a vida real da bailarina Nina Sayers (brilhante Natalie Portman, num papel duro e devastador) transforma-se num pesadelo vertiginoso. As notas acentuadas de Clint Mansell insistem e persistem num ritmo pulsante, que penetra o nosso inconsciente (genial banda sonora, diga-se de passagem). A pressão é imensa: ao palco voltará o clássico O Lago dos Cisnes, numa nova produção que se pretende visceral, e o director artístico, Thomas Leroy (Vincent Cassel), procura a sua nova little princess, uma vez que a cobiçada diva Beth Macintyre (Wynonda Rider) - You all have had the chance and the privilege to be enchanted, transported, and even sometimes devastated by the performances of this true artist - se vê afastada pela fonte e crueldade da profissão: a juventude, da qual já não dispõe.
We all know the story. Virginal girl, pure and sweet, trapped in the body of a swan. She desires freedom but only true love can break the spell. Her wish is nearly granted in the form of a prince, but before he can declare his love her lustful twin, the black swan, tricks and seduces him. Devastated the white swan leaps of a cliff killing herself and, in death, finds freedom.
Thomas
Candidatas ao lugar não faltam ou não fosse esta a oportunidade de uma vida. Porém, haverá entre elas alguma capaz de personificar, simultaneamente, o Cisne Branco (a virgem inocência) e o Cisne Negro (a perversa e libidinosa malvadez)? A qualidade técnica de Nina é reconhecida, mas será ela capaz de desempenhar também o traiçoeiro Cisne Negro, ser absolutamente confiante, sensual e possuído pelo Mal?
Thomas: The truth is when I look at you all I see is the white swan. Yes you're beautiful, fearful, and fragile. Ideal casting. But the black swan? It's a hard fucking job to dance both.
Nina: I can dance the black swan, too.
Thomas: Really? In 4 years every time you dance I see you obsessed getting each and every move perfectly right but I never see you lose yourself. Ever! All that discipline for what? (...) Perfection is not just about control. It's also about letting go. Surprise yourself so you can surprise the audience. Transcendence! Very few have it in them.
Nina: I can dance the black swan, too.
Thomas: Really? In 4 years every time you dance I see you obsessed getting each and every move perfectly right but I never see you lose yourself. Ever! All that discipline for what? (...) Perfection is not just about control. It's also about letting go. Surprise yourself so you can surprise the audience. Transcendence! Very few have it in them.
Para Nina, o Cisne Negro torna-se uma obsessão, desde logo. Sempre foi determinada, incansável e tremendamente exigente consigo própria, mas aquilo que fará para conseguir o papel transgredirá todos os seus limites. À sua volta, as colegas. Numa competição feroz e implacável, revelam-se tudo menos amigas. Só poderá contar consigo mesma e a pressão tenderá a estrangulá-la: the only person standing in your way is you. Thomas provoca-a, intimida-a e destabiliza-a, deixando-a ainda mais insegura.
Thomas: You could be brilliant, but you're a coward.
Nina: I'm sorry.
Thomas: Now stop saying that! That's exactly what I'm talking about. Stop being so fucking weak!
Nina: I'm sorry.
Thomas: Now stop saying that! That's exactly what I'm talking about. Stop being so fucking weak!
Em casa, vê projectados sobre si os sonhos e as frustrações de uma mãe possessiva e opressiva (Barbara Hershey, como Erica Sayers), uma fracassada bailarina no passado. As subtilezas narrativas deixam perceber uma relação incestuosa que é escondida com vergonha. O quarto de Nina, aliás, é um quarto de menina. O cenário fala por si: Nina ainda não tem independência moral, as suas decisões reflectem os juízos da mãe. É por isso que é tão simbólico quando Nina agarra em todos os seus peluches e os atira ao lixo. É um corte com a infância e com a inocência do Cisne Branco, o que tenta fazer. O caminho é a incessante busca pela perfeição. A transformação é literal e começa no seu interior.
I got a little homework assignment for you.
Go home and touch yourself. Live a little.
Go home and touch yourself. Live a little.
Thomas
Os espelhos. Sempre os espelhos, de decór em decór. A mise-en-abyme começa: o Cisne Branco tem um gémeo, o Cisne Negro. O alter ego, a sombra que o lago reflecte perante a lua cheia. A dicotomia Bem e Mal, agente da criação. Nina tem igualmente que encontrar o seu reflexo, a face oculta da alma, para interpretar o papel na sua plenitude. Essa descoberta pessoal é essencial a qualquer artista, a qualquer performer que se entregue totalmente. A masturbação é, ela também, uma metáfora do espelho - touch yourself - a exploração da sexualidade connosco próprios. A sexualidade define, em certa medida, a nossa própria personalidade. A concretização das nossas fantasias e desejos reprimidos levar-nos-á - sempre - de encontro à nossa essência. Não será por acaso, porventura, que para os artistas a libertação sexual é tão importante e determinante para aquilo que eles fazem. Só um espírito verdadeiramente livre será capaz de exprimir o outro com verdade, sendo inteiro naquilo que desempenha. Por mais que Nina beije ou seduza Thomas, numa tentativa de libertação, não será a cunha que a conduzirá ao triunfo. E por mais que ele a deseje - That was me seducing you. It needs to be the other way around -, não serão esses impulsos que se sobreporão aos desígnios da arte.
The real work would be your metamorphosis into her evil twin.
I know I saw a flash of her yesterday, so get ready to give me more of that bite.
I know I saw a flash of her yesterday, so get ready to give me more of that bite.
Thomas
Para riso e intriga da companhia, o papel é-lhe atribuído. O êxtase não poderia ser maior, nesse momento, mas como honrar a elevadíssima confiança e expectativa que nela depositaram? Como superar-se a si própria, silenciando todos os rumores e realizando-se pessoalmente? Espera-a o abismo, nos meandros da psicose.
What did you do to get this role? He always said you were such a frigid little girl. What did you do to change his mind? Did you suck his cock? (...) You fucking whore! You're a fucking little whore!
Beth
Às tantas, a obsessão transtorna-a ao ponto de as suas atitudes se tornarem irreconhecíveis. This role is destroying you, diz-lhe a mãe. Nina perde a noção do real, começa a sofrer alucinações que transformam o realismo trémulo da câmera ao ombro no surrealismo visual que as feridas e as visões fantasiosas fortalecem, progressivamente. Os golpes nas costas prenunciam a metamorfose. Os contornos do drama e do thriller psicológico dão então lugar ao susto e ao suspense, a traços marcadamente tenebrosos. A atmosfera depressiva torna-se assustadora e sufocante, para a qual a sofisticação dos efeitos sonoros se mostra decisiva. Os efeitos digitais são subtis e permitem, com eficácia, a materialização da metáfora. O arrojo técnico é, aliás, permanente e notável. A impressionante fotografia de Matthew Libatique, sempre sensível à luzes e às sombras, ao branco e ao preto, procura, no primor da mise-en-scène, os enquadramentos mais significantes (pelo constante jogo de espelhos, nomeadamente). O espectador - completamente aprisionado - sustém a respiração, perante o imprevisível. Nina aceita finalmente o convite da colega Lily (Mila Kunis), bailarina com o perfil ideal para desempenhar o Cisne Negro, e sai à noite, contrariando as regras maternais. Aventura-se com os homens, com o álcool e com as drogas, deixando-se levar. Depois, a horas tardias, torna a casa com Lily e fecham-se no quarto, envolvendo-se ambas para além do erotismo. It's called privacy, I'm not 12 anymore! Confluem, no limiar da emancipação, os medos e os desejos reprimidos.
Erica: What happened to my sweet girl?
Nina: She's gone!
Pontas, pó, figurino e plumas. Cisne Negro assume, no último acto, uma cadência alucinante, para a qual contribuiu, determinantemente, a montagem de Andrew Weisblum. Mais do que por rebeldia, Nina é assolada por uma violência incontrolável e desconhecida. Os reflexos no espelho ganham vida própria. Está possuída pela obsessão, qual Odette pelo feitiço de Rothbart. Tornou-se um monstro, consumida pela ambição. Mais do que tantas vezes contraproducente, como é destrutivo, o caminho para a perfeição. Natalie Portman atinge o zénite da sua transfiguradora performance. O espectador perde-se entre o real e o imaginário e rende-se à imponência do espectáculo que Aronofsky concretiza, poderosamente. A obsessão pelo perfeccionismo ecoa também na realização. Sobre o palco, a spotlight desce sobre Nina. Fecha-se a estrutura circular da obra. É o seu momento; conseguirá Nina superar-se? E, como em todas as danças ao longo do filme, a câmera de Aronofsky flui com uma leveza, destreza e eloquência exímias, como se puro ballet executasse. Que virtuosismo, na arte de filmar. Fossem todos os filmes assim. Sobre o colchão, por fim, abate-se a tragédia. O adeus, o último aplauso. Um clássico instantâneo.
I was perfect...

















