sexta-feira, 8 de abril de 2011

CISNE NEGRO (2010)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Black Swan
Realização: Darren Aronofsky

Principais Actores: Natalie Portman, Mila Kunis, Winona Ryder, Vincent Cassel, Barbara Hershey, Ksenia Solo, Kristina Anapau, Benjamin Millepied, Janet Montgomery, Sebastian Stan, Toby Hemingway, Mark Margolis, Tina Sloan


Crítica:

I just want to be perfect.

O LAGO DOS CISNES

Perfection is not just about control.
It's also about letting go.

Esvoaça, arrepiante, o assombro da noite. Respiração, pirouette. Desferindo o luar com a graça das suas monstruosas e negras asas, invade o silêncio do vazio e a quietude das águas, num movimento voraz. É a fúria da natureza, o íntimo libertador. Do sangue e trevas do seu olhar, emana o terror. É o espectro da morte, consumido pela obsessão, invejando o amor. É o Cisne Negro, o lado oposto da criação, que triunfa sobre a pureza das coisas... O bailado, por força e impulso da magistral composição de Tchaikovsky, conduz a fábula ao clímax trágico e apoteótico. O passo final, delicado e sublime, toca a catarse e a trascendência, no interior ora angustiado ora aliviado do espectador. É essa a beleza da arte, o de mexer com as nossas emoções e Aronofsky - um dos mais ousados e geniais realizadores dos nossos dias - fá-lo extraordinariamente bem, doseando paixão e mestria num uníssono retumbante. Não admira, pois, que assistir a uma das suas obras se torne numa experiência avassaladora e absolutamente inesquecível.

Do sonho à concretização da perfeição, a vida real da bailarina Nina Sayers (brilhante Natalie Portman, num papel duro e devastador) transforma-se num pesadelo vertiginoso. As notas acentuadas de Clint Mansell insistem e persistem num ritmo pulsante, que penetra o nosso inconsciente (genial banda sonora, diga-se de passagem). A pressão é imensa: ao palco voltará o clássico O Lago dos Cisnes, numa nova produção que se pretende visceral, e o director artístico, Thomas Leroy (Vincent Cassel), procura a sua nova little princess, uma vez que a cobiçada diva Beth Macintyre (Wynonda Rider) - You all have had the chance and the privilege to be enchanted, transported, and even sometimes devastated by the performances of this true artist - se vê afastada pela fonte e crueldade da profissão: a juventude, da qual já não dispõe.

We all know the story. Virginal girl, pure and sweet, trapped in the body of a swan. She desires freedom but only true love can break the spell. Her wish is nearly granted in the form of a prince, but before he can declare his love her lustful twin, the black swan, tricks and seduces him. Devastated the white swan leaps of a cliff killing herself and, in death, finds freedom.
Thomas

Candidatas ao lugar não faltam ou não fosse esta a oportunidade de uma vida. Porém, haverá entre elas alguma capaz de personificar, simultaneamente, o Cisne Branco (a virgem inocência) e o Cisne Negro (a perversa e libidinosa malvadez)? A qualidade técnica de Nina é reconhecida, mas será ela capaz de desempenhar também o traiçoeiro Cisne Negro, ser absolutamente confiante, sensual e possuído pelo Mal?

Thomas: The truth is when I look at you all I see is the white swan. Yes you're beautiful, fearful, and fragile. Ideal casting. But the black swan? It's a hard fucking job to dance both.
Nina: I can dance the black swan, too.
Thomas: Really? In 4 years every time you dance I see you obsessed getting each and every move perfectly right but I never see you lose yourself. Ever! All that discipline for what? (...) Perfection is not just about control. It's also about letting go. Surprise yourself so you can surprise the audience. Transcendence! Very few have it in them.

Para Nina, o Cisne Negro torna-se uma obsessão, desde logo. Sempre foi determinada, incansável e tremendamente exigente consigo própria, mas aquilo que fará para conseguir o papel transgredirá todos os seus limites. À sua volta, as colegas. Numa competição feroz e implacável, revelam-se tudo menos amigas. Só poderá contar consigo mesma e a pressão tenderá a estrangulá-la: the only person standing in your way is you. Thomas provoca-a, intimida-a e destabiliza-a, deixando-a ainda mais insegura.

Thomas: You could be brilliant, but you're a coward.
Nina: I'm sorry.
Thomas: Now stop saying that! That's exactly what I'm talking about. Stop being so fucking weak!

Em casa, vê projectados sobre si os sonhos e as frustrações de uma mãe possessiva e opressiva (Barbara Hershey, como Erica Sayers), uma fracassada bailarina no passado. As subtilezas narrativas deixam perceber uma relação incestuosa que é escondida com vergonha. O quarto de Nina, aliás, é um quarto de menina. O cenário fala por si: Nina ainda não tem independência moral, as suas decisões reflectem os juízos da mãe. É por isso que é tão simbólico quando Nina agarra em todos os seus peluches e os atira ao lixo. É um corte com a infância e com a inocência do Cisne Branco, o que tenta fazer. O caminho é a incessante busca pela perfeição. A transformação é literal e começa no seu interior.

I got a little homework assignment for you.
Go home and touch yourself. Live a little.
Thomas

Os espelhos. Sempre os espelhos, de decór em decór. A mise-en-abyme começa: o Cisne Branco tem um gémeo, o Cisne Negro. O alter ego, a sombra que o lago reflecte perante a lua cheia. A dicotomia Bem e Mal, agente da criação. Nina tem igualmente que encontrar o seu reflexo, a face oculta da alma, para interpretar o papel na sua plenitude. Essa descoberta pessoal é essencial a qualquer artista, a qualquer performer que se entregue totalmente. A masturbação é, ela também, uma metáfora do espelho - touch yourself - a exploração da sexualidade connosco próprios. A sexualidade define, em certa medida, a nossa própria personalidade. A concretização das nossas fantasias e desejos reprimidos levar-nos-á - sempre - de encontro à nossa essência. Não será por acaso, porventura, que para os artistas a libertação sexual é tão importante e determinante para aquilo que eles fazem. Só um espírito verdadeiramente livre será capaz de exprimir o outro com verdade, sendo inteiro naquilo que desempenha. Por mais que Nina beije ou seduza Thomas, numa tentativa de libertação, não será a cunha que a conduzirá ao triunfo. E por mais que ele a deseje - That was me seducing you. It needs to be the other way around -, não serão esses impulsos que se sobreporão aos desígnios da arte.

The real work would be your metamorphosis into her evil twin.
I know I saw a flash of her yesterday, so get ready to give me more of that bite.

Thomas

Para riso e intriga da companhia, o papel é-lhe atribuído. O êxtase não poderia ser maior, nesse momento, mas como honrar a elevadíssima confiança e expectativa que nela depositaram? Como superar-se a si própria, silenciando todos os rumores e realizando-se pessoalmente? Espera-a o abismo, nos meandros da psicose.

What did you do to get this role? He always said you were such a frigid little girl. What did you do to change his mind? Did you suck his cock? (...) You fucking whore! You're a fucking little whore!
Beth

Às tantas, a obsessão transtorna-a ao ponto de as suas atitudes se tornarem irreconhecíveis. This role is destroying you, diz-lhe a mãe. Nina perde a noção do real, começa a sofrer alucinações que transformam o realismo trémulo da câmera ao ombro no surrealismo visual que as feridas e as visões fantasiosas fortalecem, progressivamente. Os golpes nas costas prenunciam a metamorfose. Os contornos do drama e do thriller psicológico dão então lugar ao susto e ao suspense, a traços marcadamente tenebrosos. A atmosfera depressiva torna-se assustadora e sufocante, para a qual a sofisticação dos efeitos sonoros se mostra decisiva. Os efeitos digitais são subtis e permitem, com eficácia, a materialização da metáfora. O arrojo técnico é, aliás, permanente e notável. A impressionante fotografia de Matthew Libatique, sempre sensível à luzes e às sombras, ao branco e ao preto, procura, no primor da mise-en-scène, os enquadramentos mais significantes (pelo constante jogo de espelhos, nomeadamente). O espectador - completamente aprisionado - sustém a respiração, perante o imprevisível. Nina aceita finalmente o convite da colega Lily (Mila Kunis), bailarina com o perfil ideal para desempenhar o Cisne Negro, e sai à noite, contrariando as regras maternais. Aventura-se com os homens, com o álcool e com as drogas, deixando-se levar. Depois, a horas tardias, torna a casa com Lily e fecham-se no quarto, envolvendo-se ambas para além do erotismo. It's called privacy, I'm not 12 anymore! Confluem, no limiar da emancipação, os medos e os desejos reprimidos.

Erica: What happened to my sweet girl?
Nina: She's gone!

Pontas, pó, figurino e plumas. Cisne Negro assume, no último acto, uma cadência alucinante, para a qual contribuiu, determinantemente, a montagem de Andrew Weisblum. Mais do que por rebeldia, Nina é assolada por uma violência incontrolável e desconhecida. Os reflexos no espelho ganham vida própria. Está possuída pela obsessão, qual Odette pelo feitiço de Rothbart. Tornou-se um monstro, consumida pela ambição. Mais do que tantas vezes contraproducente, como é destrutivo, o caminho para a perfeição. Natalie Portman atinge o zénite da sua transfiguradora performance. O espectador perde-se entre o real e o imaginário e rende-se à imponência do espectáculo que Aronofsky concretiza, poderosamente. A obsessão pelo perfeccionismo ecoa também na realização. Sobre o palco, a spotlight desce sobre Nina. Fecha-se a estrutura circular da obra. É o seu momento; conseguirá Nina superar-se? E, como em todas as danças ao longo do filme, a câmera de Aronofsky flui com uma leveza, destreza e eloquência exímias, como se puro ballet executasse. Que virtuosismo, na arte de filmar. Fossem todos os filmes assim. Sobre o colchão, por fim, abate-se a tragédia. O adeus, o último aplauso. Um clássico instantâneo.

I was perfect...

quarta-feira, 6 de abril de 2011

OS CORISTAS (2004)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Les Choristes
Realização: Christophe Barratier

Principais Actores: Gérard Jugnot, François Berléand, Jean-Baptiste Maunier, Jacques Perrin, Kad Merad, Marie Bunel, Philippe Du Janerand, Jean-Paul Bonnaire

Crítica:

A VOZ DO CORAÇÃO

Os Coristas, primeira longa-metragem de Christophe Barratier, é um filme encantador e profundamente inspirador. A sua melodia sentimental, repleta de esperança, encontrará certamente ressonância nas nossas emoções.

Magistralmente fotografado (Jean-Jacques Bouhon, Dominique Gentil, Carlo Varini) e com uma competente direcção artística, a obra é um regresso à infância de Pierre Morhange e de Pépinot - a 1948, mais precisamente - quando a música, que tem o poder de transformar pessoas, atmosferas, tempos e lugares, irradia pelo Fond de l' Etang, um colégio interno algures na França ainda assombrada pelo trauma da guerra. Atrás do gradeamento do portão esperam dezenas e dezenas de rapazes, crianças, tão delinquentes quanto sós no mundo... A sua rebeldia é contrariada por uma educação pavloviana (acção - reacção), que os castiga, reprime, oprime e revolta. A escola funciona mais como uma prisão de correcção, liderada pelo director Rachin (François Berléand) - um homem extremamente frio, exigente e rigoroso. Tudo se altera quando o bondoso e sensível professor Clément Mathieu (Gérard Jugnot, perfeito no seu papel), o cabeça de ovo, entra em cena e traz consigo as partituras, o sorriso, a amizade, a capacidade de sonhar e a possibilidade de redenção. É a música que lhe permite ultrapassar as dificuldades de um confronto infecundo e, nessa linguagem vibrante e transcendente, tocar o íntimo daquelas crianças.

A fórmula cinematográfica já é conhecida, é certo, mas Barratier jamais nos cansa com o arrojo e, ao mesmo tempo, com a simplicidade com que trata o argumento. Para além disso, a banda sonora (Bruno Coulais, J.P. Rameau) é verdadeiramente arrepiante e comovedora! Jean-Baptiste Maunier, o cara de anjo, tem - mais do que uma beleza inequívoca - uma voz celestial, que nos enebria em absoluto.

Recordar é viver e aqui está um filme sem pretensões maiores, dotado de um carisma incrivelmente tocante, que merece ser recordado. Uma autêntica lição de humanidade.

sábado, 2 de abril de 2011

O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE (2001)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Le Fabuleux Destin D'Amélie Poulain
Realização: Jean-Pierre Jeunet
Principais Actores: Audrey Tautou, Mathieu Kassovitz, Rufus, Lorella Cravotta, Serge Merlin, Jamel Debbouze, Clotilde Mollet, Claire Maurier, Isabelle Nanty, Dominique Pinon, Artus de Penguern, Yolande Moreau

Crítica:

A VIDA É UM MILAGRE

Les temps sont durs pour les rêveurs.

O Fabuloso Destino de Amélie é um daqueles raros, preciosos e apaixonantes filmes capazes de mudar uma vida. Uma comédia genuína, excêntrica e original, sobre os simples prazeres do dia-a-dia. Por intermédio da contagiante e encantatória composição de Yann Tiersen, deixa-se docemente invadir... pela melancolia, pela nostalgia da infância e pela solidão trágica do ser humano. É cinema em estado puro, de irrepreensível sofisticação técnica, visual e narrativa. Um universo mágico, repleto de cores e de fantasia, dotado de memoráveis performances, onde o pequeno fait divers encontra uma dimensão hilariante e universal. Onde a bondade e a humildade, no fim de contas, renovam a esperança no ser humano. Genial, a obra-prima de Jean-Pierre Jeunet, com uma adorável e carismática Audrey Tautou no papel principal.

A pequena e graciosa Amélie (Flora Guiet) acompanha-nos nos créditos iniciais: colando a boca e o nariz aos vidros, fazendo brincos com cerejas, pintando de bonecos, o queixo e as mãos. Os prazeres da infância, nas muralhas em dominó, que ao mais simples toque ou sopro se destroem, a música que nasce dos dedos, à volta sobre a boca dos copos de cristal, o barulho do chupar das palhinhas, o assobio com as folhas de árvore, o descolar das peles de cola dos dedos, o soprar das serpentinas, o rodar das moedas sobre a mesa, o comer das amoras, uma a uma enfiadas nos dedos. Ainda nos lembramos nós do que foi sermos crianças? Desde logo e por identificação, Amélie invoca em nós, espectadores, a memória e a recordação.

Desde o prólogo, que antecede os créditos, e até ao final da obra, a narração - pilar tão fundamental neste filme. Omnisciente, a voz de André Dussollier introduz - de uma forma tão peculiar e com um detalhe e precisão notáveis - as mais variadas e caricatas personagens. Amélie é sobretudo um filme de personagens e é através da sua pluralidade que a mensagem do filme sai enriquecida. Para apresentar a sua protagonista, no presente diegético, o narrador recua e principia no momento da concepção:


Le 3 Septembre 1973 à 18 heures, 28 minutes et 32 seconds, une mouche bleue de la famille des Calliphoridés pouvant produire 14670 battements d'ailes la minute se posait rue Saint-Vincent, à Montmartre. A la même seconde, à la terrasse d'un restaurant, le vent s'engouffrait sous une nappe, faisant danser les verres sans que personne ne s'en aperçoive. Au même instant, au 5e étage du 28, avenue Trudaine dans le 9e, Eugène Koler, après l'enterrement de son ami, Émile Maginot, en effaçait le nom de son carnet d'adresse. Toujours à la même seconde, pourvu d'un chromosome X de M. Raphaël Poulain atteignait l'ovule de Mme Poulain, née Amandine Fouet. 9 mois plus tard naissait Amélie Poulain.

Depois, descreve os ambientes e as personagens (reais ou imaginárias) que figuraram no passado de Amélie. Começa, pois, por falar dos pais da menina. Permitam-me, a propósito, a irresistível e bem humurada paráfrase: Raphaël Poulain (Rufus), o pai de Amélie, não gosta: de urinar com alguém ao lado, de um olhar de desdém sobre as suas sandálias, sair de água e sentir o fato-de-banho colado. Raphaël Poulain gosta: de arrancar bocados inteiros do papel de parede, de alinhar e polir os seus sapatos, de esvaziar, limpar e tornar a arrumar a sua caixa de ferramentas. Amandine Fouet (Lorella Cravotta), mãe de Amélie, não gosta: que os dedos fiquem enrugados pela água quente do banho, que alguém de que não goste lhe toque ao de leve na mão, de acordar com as marcas dos lençóis no rosto. Amandine Fouet gosta: dos fatos de patinagem artística que vê na televisão, de pôr o soalho a brilhar com o suor dos seus chinelos, de esvaziar, limpar e tornar a arrumar a sua mala.

Amélie teve uma infância solitária. A sua personalidade presente não é senão o reflexo dessa vivência especial e concreta: o pai, médico militar, nunca lhe expressou afecto. A intimidade excepcional de uma das habituais consultas entre pai e filha até fez com que o seu juvenil coração disparasse. Tanto, que Raphaël se convenceu de que a filha sofria de anomalia cardíaca. Por isso, nunca foi à escola, nunca se relacionou com crianças da sua idade. A nervosa da mãe, nada afectuosa também, acabou por ser a sua professora. Até Cachalot, o alaranjado peixe lá de casa, se tornou neurasténico e suicida com tamanho mau ambiente. O escape de Amélie era a fantasia, a Kodak instantânea que a mãe lhe oferecera e os conflitos com os vizinhos que, tão convictamente, levava a cabo. Quando um turista se atira das alturas da Notre Dame e cai bizarramente sobre Amandine Fouet, Amélie fica órfã de mãe. Até crescer e sair de casa, viverá com a irremediável apatia do pai e com o confortável silêncio do seu ursinho de peluche.


Amélie Poulain gosta: de se virar para trás no cinema e ver a cara dos outros espectadores, de notar os pormenores, na tela, nos quais mais ninguém repara, dos antigos filmes americanos onde os condutores dos automóveis nem olham para a estrada enquanto guiam, de afundar a mão nas sacas de sementes, de partir o leite queimado com a ponta da colher, de coleccionar pedrinhas para fazer ricochetes na água.

C'est l'angoisse du temps qui passe qui nous fait tant parler du temps qu'il fait.

La vie n'est qu'une interminable répétition d'une représentation qui n'aura jamais lieu.
Hipolito

Paris, bairro de Montmartre, 1997. Amélie não é uma jovem especial. Não será vítima da tragédia nem do sucesso. Divide a sua simples e humilde existência entre os afazeres de casa, o trabalho no Café des Deux Moulin e os sonhos mais mirabolantes, na parafernália da cidade ou na quietude do seu quarto. Em seu redor, os mais vulgares exemplares da espécie humana: Suzanne, a patroa e proprietária do estabelecimento, é coxa mas jamais entornou um copo. A eficiente Gina gosta de estalar os dedos e de testar a bondade dos outros através de provérbios. Georgette tem a mania das doenças, Joseph gosta de reventar bolhas de plástico e Hipólito é um poeta fatalista e falhado. Philomene é assistente de bordo e gosta de ouvir o bater da taça do gato sobre o chão. Será a cúmplice de Amélie nos passeios internacionais do gnomo de Raphaël Poulain pelos quatro cantos do mundo. É esta riqueza e pormenor na descrição das mais variadas personagens que é deveras apaixonante. Ao nível da comédia e sempre acompanhadas por flashbacks (tantos deles a preto e branco), revelam uma eficácia tremenda. No rol de habitués do bairro, faltam ainda o mal-disposto e resmungão Sr. Collignon, proprietário da mercearia da esquina (também ele, mais tarde, alvo do Zorro justiceiro de Amélie) e o coitado do cretin Lucien, sempre alvo das rimas fanfarronas do patrão. Felizmente, e por contraste, é um eterno bem-disposto e, ainda que não directamente, é capaz de gozá-lo à altura: Collignon, crêpe-chignon! Collignon, face de fion! Collignon, tête à gnon!

O dia 30 de Agosto de 1997 traz pela televisão - sempre a televisão - a chocante notícia da morte da Lady Di. A vida mais ou menos inconsequente de Amélie mudaria, então, para sempre. O ímpeto da notícia faz com que Amélie deixe cair a tampa do perfume, que descobrirá num esconderijo do rodapé uma misteriosa caixa de lembranças de infância. Às 4 da manhã do dia 31, tem uma ideia luminosa: esteja onde estiver, encontrará o dono da caixa e devolver-lhe-á o seu tesouro. Se isso o comover, está decidido: intrometer-se-á na vida dos outros.

Na demanda em busca de Dominique Bretodeau, o legítimo dono da caixa, como descobrirá mais tarde, conhecerá a chorosa Madeleine Wallace (magistral Yolande Moreau), cujo cão petrificou à espera do dono desaparecido há décadas, os pais do merceeiro Collignon e o eterno falsificador de Renoir, Raymond Dufayel (Serge Merlin), l'homme de verre, com o qual partilhará as mais deliciosas cassetes de vídeo.

C'est drôle la vie. Quand on est gosse, le temps n'en finit pas de se trainer, et puis du jour au lendemain on a comme ça 50 ans. Et l'enfance tout ce qui l'en reste ça tient dans une petite boite. Une petite boite rouillée.
Dominique Bretodeau

Bretodeau emociona-se bastante ao reencontrar a sua caixa. É precisamente da mesma natureza, o sentimento que nos invade ao reconhecermos ou compararmos a nossa infância naquelas imagens. Dado o sucesso da sua missão, Amélie avança então no sentido de se intrometer na vida das pessoas à sua volta, proporcionando-lhe felicidade. A sua missão não é, repare-se, salvar o mundo, nem sequer o seu bairro. É tão-somente a de trazer um sorriso a quem se cruzar com ela; fosse essa a missão de todos nós, ainda que num só dia por ano. O cego: Amélie encontra um cego a escutar a solidão nos versos de Piaf, na estação do metropolitano. Cena memorável, a que se segue: Amélie dá-lhe o braço e atravessa com ele a rua, descrevendo-lhe tudo aquilo que vê, tal é a euforia que sente em poder ajudar os outros. Uma luz divina desce sobre aquele homem, quando ela o deixa, como que metaforizando a nobreza do gesto. No café, servirá de cupido entre Joseph e Georgette. O estabelecimento até estremecerá, tão comicamente, ao ritmo do sexo que se pratica contra a porta do W.C..

Uma felicidade imensa compensa o altruísmo de Amélie. Ela sente-a por dentro. Contudo, ao chegar a casa, vê espelhado no televisor o reflexo da sua solidão. Adagio for Strings potencia a atmosfera desoladora. É uma boa samaritana, uma Madre Teresa de Calcutá. É uma jovem bonita e adorável, mas está só. Porque não arrisca Amélie a sua própria felicidade?

Raymond Dufayel: [sobre a misteriosa rapariga do copo de água, no Le Déjeuner des Canotiers] Autrement dit, elle préfère s'imaginer une relation avec quelqu'un d'absent, plutôt que de créer des liens avec ceux qui sont présents.
Amélie: Non, p'têtre même qu'au contraire elle se met en quatre pour arranger les cafouillages de la vie des autres.
Raymond Dufayel: Mais elle, et les cafouillages de la sienne, de vie, qui va s'en occuper?
Amélie: Bin en attendant, mieux vaut se consacrer aux autres qu'à un nain de jardin!


Ao passar pelo photomaton do metro, um dia, Amélie vislumbra, pela primeira vez, Nino Quincampoix (Mathieu Kassovitz). É o destino, avança o narrador. Já em pequenos comunicavam sem se conhecerem, cada um na sua janela e com o seu espelho brilhante. Nino divide a sua existência entre a feira de diversões, na Casa Fantasma, e o trabalho numa sex shop. Não é um galã rico e bonitão, é um jovem comum que gosta de coleccionar as fotografias rasgadas dos photomatons num álbum já impressionante. É precisamente nos photomatons, pelo metro ou na Gare d'Lest, que Amélie o reencontrará, num outro dia em que Nino perderá o seu precioso álbum em busca do enigmático L'inconnu des photomatons. Será Amélie quem ficará com ele e que, assim, terá a oportunidade ou a desculpa perfeita para se aproximar de Nino, escapando à timidez e ultrapassando os seus medos e inseguranças. É a oportunidade para ser feliz, como merece.

La chance, c'est comme le Tour de France: on l'attend longtemps et ça passe vite!


Voilà, ma petite Amélie, vous n'avez pas des os en verre. Vous pouvez vous cogner à la vie. Si vous laissez passer cette chance, alors avec le temps, c'est votre cœur qui va devenir aussi sec et cassant que mon squelette. Alors, allez y, nom d'un chien!
Raymond Dufayel

Um jogo de escondidas vai começar; como Amélie é perita nestas brincadeiras. O romantismo ganha aqui uma pureza infantil. O encontro desejado entre os dois acontecerá inesperadamente e com uma beleza e ternura indescritíveis. Abre-se a porta e nem uma palavra. Apenas o olhar apaixonado... Amélie envolve-se, subtilmente, naquela delicada sequência de beijinhos... no canto do lábio, no pescoço, no sobrolho... depois, é Nino quem repete os beijos subtis. Não há palavras para descrever um clímax desta sensibilidade... Não há muitos filmes românticos assim, estou certo.

Amélie a soudain le sentiment étrange d'être en harmonie totale avec elle-même. Tout est parfait en cet instant: la douceur de la lumière, ce petit parfum dans l'air, la rumeur tranquille de la ville. Elle inspire profondément et la vie lui parait alors si simple et si limpide, qu'un élan d'amour, comme un désir d'aider l'humanité entière, la submerge tout à coup.

Zooms, chariots, os mais variados split screens, fast motion, e toda uma variedade de técnicas numa câmera em movimento constante. A exímia montagem de Hervé Schneid junta-se à criatividade sem limites de Jeunet, na marcação de um ritmo imparável e imprevisível. A mise-en-scène, tratada ao pormenor, alia-se magistralmente ao jogo de cores e de luzes da belíssima fotografia de Bruno Delbonnel. Excepcional, toda a concepção artística dos cenários e da decoração (Aline Bonetto, Volker Shäfer, Marie-Laure Valla). Não admira, pois, que assistir a O Fabuloso Destino de Amélie se torne uma experiência tão arrebatadora. Amélie é um sublime pedaço de arte e um milagre de filme! C'est tout.

sexta-feira, 25 de março de 2011

A ESTRADA (2009)

PONTUAÇÃO: BOM

Título Original: The Road
Realização
: John Hillcoat

Principais Actores: Viggo Mortensen, Kodi Smit-McPhee, Robert Duvall, Guy Pearce, Molly Parker, Michael Kenneth Williams, Garret Dillahunt, Charlize Theron

Crítica:

PAI E FILHO

All I know is the child is my warrant
and if he is not the word of God, then God never spoke.

É, verdadeiramente, de partir o coração. A Estrada, de John Hillcoat, é profundamente desolador - um filme sobre a assustadora e traumatizante realidade de um hipotético fim do mundo. A partir do romance de Comarc McCarthy, seguimos a história de um pai (magnífico Viggo Mortensen) que, na desesperada luta pela sobrevivência, faz absolutamente de tudo para salvar o filho (Kodi Smith-McPhee). As personagens nem têm nomes, não vale a pena. O planeta está a morrer e a paisagem perdeu todas as cores da esperança. A humanidade está em ruínas: impera o medo e a desconfiança, o pó e a morte. Há fome, frio e doenças. Os Homens cederam ao canibalismo e aos instintos mais selvagens. A estrada é um lugar extremamente perigoso. Whoever made humanity will find no humanity here.

O argumento (Joe Penhall) é construído à base de cenas e momentos impressionantes e de diálogos intensos e profundos: as memórias do passado, o adeus à fotografia, a cave dos moribundos, o bunker da comida e mantimentos, as passagens do velho cego (Robert Duvall, portentoso), a morte na praia, If I were God, I would have made the world just so and no different. And so I have you... I have you.

Como é que um pai pede a um filho para que o mate e que ele próprio se mate em seguida, com as únicas balas que lhes restam? Como é que se explicam a uma criança que nunca conheceu a paz ou a felicidade, os valores que fazem os Homens bons? Como é que, numa situação-limite como esta, completamente insuportável e onde o caminho mais fácil é o suicídio, se explica a uma criança que vale a pena viver, amar, ser solidário, confiar, acreditar?

Pai - You have to keep carrying the fire.
Filho - What fire?
Pai - The fire inside you.

Visualmente arrebatador (excelente fotografia de Javier Aguirresarobe), dotado de uma direcção artística irrepreensível (Chris Kennedy, Gershon Ginsburg e Robert Greenfield) e de uma banda sonora tocante e de extrema sensibilidade (Nick Cave e Warren Ellis), creio que só faltou a este A Estrada uma encenação e uma arte de filmar superiores. Estivesse o filme nas mãos de um melhor realizador e veríamos aqui assinada uma obra de arte sublime.

Ainda assim, A Estrada impõe-se como um filme para nos repensarmos a nós próprios, ao nosso planeta e à nossa humanidade. Às tantas, o pai pergunta ao velho forasteiro: Do you ever wish you would die? E o ancião responde: No. It's foolish to ask for luxuries in times like these. Perante uma visão tão pessimista e inquietante, resta-nos dar valor às nossas vidas, tão longe - esperemos - de um horizonte destes...

sexta-feira, 18 de março de 2011

KIKI, A APRENDIZ DE FEITICEIRA (1989)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Majo no takkyûbin
Realização: Hayao Miyazaki


Filme de Animação

Crítica: Uma jovem e insegura bruxinha, sempre acompanhada da sua vassoura voadora e do seu gato preto, cujo talento é ajudar os outros. No mais apurado e colorido requinte visual, Miyazaki conta-nos mais uma das suas adoráveis fábulas sobre bondade e inocência, plenas de esperança na humanidade. Do campo vs. cidade ao eterno fascínio do homem pelo vôo, a descoberta da amizade e a afirmação da essência individual. Lindo filme.

domingo, 13 de março de 2011

NAUSICAÄ DO VALE DO VENTO (1984)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Kaze no tani no Naushika
Realização: Hayao Miyazaki


Filme de Animação

Ainda que sem o prodígio técnico das mais recentes obras do cineasta, um épico belíssimo e muito bem construído, com personagens sólidas e com um argumento poderosíssimo, da maior consciência ecológica.
[Crítica em espera]

quarta-feira, 9 de março de 2011

MARY POPPINS (1964)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Mary Poppins
Realização: Robert Stevenson

Principais Actores: Julie Andrews, Dick Van Dyke, David Tomlinson, Glynis Johns, Hermione Baddeley, Karen Dotrice, Matthew Garber, Elsa Lanchester, Ed Wynn, Reta Shaw, Jane Darwell
Crítica:

AS MARAVILHAS
DE MARY POPPINS


Never judge things by their appearance...
...even carpetbags.

Um pedaço de cinema extremamente criativo, colorido e divertido, capaz de seduzir e encantar completamente o verdadeiro amante de musicais ou qualquer cinéfilo mais passional. Mary Poppins é delicioso como uma fatia de bolo, afinal. Contudo, é ousado e arrojado o suficiente, esteticamente falando, para conquistar o sentido crítico de qualquer espectador mais exigente.

Na verdade, a fantasia permite a um filme como Mary Poppins toda uma liberdade criativa sem limites. A mágica combinação entre a real motion e a animação atinge e concretiza quase na perfeição essa visão outrora impossível. No fim de contas, entrar para dentro de um quadro e passear pelo parque desenhado, como que entrando num encantado mundo dos clássicos animados da Disney seria, outrora, qualquer coisa de inimaginável.

Assim que a ama Mary Poppins (Julie Andrews - bela, radiosa e brilhante) desce das nuvens de Londres e entra pela mansão dos Banks adentro, o dia-a-dia dos travessos Jane e Michael vira um corrupio de surpresas. Até que o canhão do vizinho almirante ressoe novamente, anunciando novos ventos, as mais mirabolantes peripécias não terão fim. Desde cantar com o cordeiro, com o cavalo, com a vaca, com o porco e com os patinhos da quinta a passar pela Árvore do Chás, onde pinguins-garçons fazem sapateado... Desde entrar num carrossel e saltar montado nos corcéis pelo prado fora, até integrar uma corrida no hipódromo... O que os artistas por de trás do filme conseguiram foi uma interacção harmoniosa e quase perfeita entre estas duas formas de fazer cinema. O efeito é maravilhoso, é supercalifragilisticexpialidocious! Depois, a contagiante risota sob o tecto do tio Albert, as extraordinárias coreografias sobre os telhados, entre os limpa-chaminés... O filme está recheado de cenas marcantes e inesquecíveis, assim como de canções lindíssimas, que o tempo eternizou: The Life I Lead, The Perfect Nanny, A Spoonful of Sugar ou a já referida Supercalifragilisticexpialidocious, entre tantas outras. O guarda-roupa e a caracterização são igualmente dignos de nota. Por sua vez, a direcção artística (Carroll Clark, William H. Tuntke, Hal Gausman, Emile Kuri) é de um arrojo irretocável, assim como a fabulosa fotografia de Edward Colman, que aliada aos efeitos especiais faz desta obra um autêntico prodígio visual.

Hino maior à prática da bondade e da diversão, eis pois um clássico absoluto e intemporal. Magistralmente bem feito e adorável sob todos os pontos de vista. Será certamente especial para as crianças, mas completamente irresistível para os adultos. Tenho dito.

terça-feira, 8 de março de 2011

OS AGENTES DO DESTINO (2011)

Já nas bancas, a MagazineHD nº 10.
Nela, a minha crítica ao filme Os Agentes do Destino, que passará por aqui também, brevemente.

sábado, 5 de março de 2011

A ARCA RUSSA (2002)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Russkiy kovcheg / Русский ковчег
Realização: Aleksandr Sokurov

Principais Actores: Sergei Dontsov, Mariya Kuznetsova, Leonid Mozgovoy, Mikhail Piotrovsky, David Giorgobiani, Aleksandr Chaban, Lev Yeliseyev, Oleg Khmelnitsky, Alla Osipenko, Maksim Sergeyev
Crítica:

A VIAGEM NO TEMPO
OU O GRANDE TEATRO

Todos conhecem o futuro,
mas ninguém conhece o passado.

O Hermitage de São Petersburgo, um dos maiores e mais belos palácios do mundo, é o palco de uma das mais ambiciosas encenações da História do Cinema. Pouco mais de noventa minutos de filmagem ininterrupta num virtuoso e único plano-sequência, de um enquadramento subjectivo, planeado ao pormenor. Ao ombro, a steadycam digital. O feito é incrível e emana um fascínio em tudo magnetizante.

Sobre um fundo negro:

Abro os olhos e não vejo nada. Recordo apenas uma grande tristeza.
Todos tentavam fugir. É impossível tentar lembrar-me do que aconteceu.

Quando a imagem floresce, coincide, o olhar da câmera, com o olhar de uma alma deambulatória e flutuante que percorre os corredores, os salões e as escadarias do edifício. Serei invisível ou apenas não reparam em mim? Coincide, o olhar da câmera, com o narrador omnisciente; uma voz interior que contempla, opina e faz juízos de valor. É a voz de um homem, que tão-somente interage e comunica com uma personagem, pois todas as outras não o vêem. Quem lhe fala é o estranho de negro, um cínico diplomata de cabelos grisalhos e desgrenhados, aparentemente louco: o Marquês de Custine. O Marquês será como que um guia pelas demoradas galerias de arte, repletas de frescos e de esculturas e de um esplendor arquitectónico imponente.

Apreciar e discutir a arte sublime dos homens é contemplar a História, viajar na representação do tempo. Passado, presente e futuro confluem poeticamente num genuíno e erudito compêndio de arte. Afinal, A Arca Russa partilha a sua acção entre o século XVIII e a actualidade. Aliás, é assaz surpreendente quando se abrem as portas da Grande Galeria Italiana e os majestosos figurinos da época oitocentista dão lugar às mais simples roupas dos turistas que, tão curiosamente, visitam o museu. Um dos visitantes interroga o Marquês a propósito da genialidade de Wagner e o velho questiona-se: Wagner? Quem é Wagner? O eterno narrador perde-se na admiração das obras maiores, em momentos de íntima e pura espiritualidade. Como pode o mundo cair em guerras e revoluções, quando a perfeição da arte estabelece a harmonia entre os homens? O argumento critica ainda o socialismo, que, durante anos e ferozmente, atentou contra a liberdade e soberania da arte no país e satiriza a transição do regime monárquico para o regime republicano.

Elas [as autoridades] não sabem de que se alimenta a árvore da cultura.
Mas se a árvore cai, o poder fica desequilibrado. Nada mais restará.


A Arca Russa é sobretudo um objecto consciente da sua construção ficcional e jamais mascara a sua essência enquanto artifício. O próprio narrador assume a brilhante encenação proposta por Sokurov:

Tenho o cuidado de não tocar em ninguém.
Um teatro... Que actores! E o guarda-roupa!

Cada vez que se abrem umas portas, paira o mistério sobre o que se seguirá: se um baile, se uma orquestra a tocar, se uma cerimónia real, se a preparação de um banquete, se uma refeição em família, se um mero fait-diver. A mise en scène é de um primor e requinte dignos de referência. Milhares de actores e figurantes desfilam de cenário em cenário, tantos deles protagonistas históricos. A última porta, essa, dá para o mar agitado e a voz interpela-nos:

Cavalheiro! Cavalheiro!
É pena que não esteja ao pé de mim. Compreenderia tudo.
Veja... o mar todo à volta.
Estamos destinados a navegar eternamente. A viver eternamente.

O dilúvio começa. Salve-se a intemporal arte humana, na Grande Arca.

A Arca Russa impõe-se, pois, como um feito singular e inimitável. Narrativa e sintaticamente, é de uma audácia sem precedentes. Sokurov concretiza uma obra verdadeiramente magistral e monumental.

quinta-feira, 3 de março de 2011

I'M NOT THERE - NÃO ESTOU AÍ (2007)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: I'm Not There
Realização: Todd Haynes
Principais Actores: Christian Bale, Cate Blanchett, Marcus Carl Franklin, Richard Gere, Heath Ledger, Ben Whishaw, Charlotte Gainsbourg, David Cross, Bruce Greenwood, Julianne Moore, Michelle Williams

Crítica:
NO DIRECTION HOME

I accept chaos.

I don't know whether it accepts me.

I'm Not There - Não Estou Aí emana genialidade, estética e confluência estética. É um biopic nada convencional, irreverente e original, uma viagem singular e extasiante com uma assinatura muito própria: Todd Haynes.

Inspired by the music and many lives of Bob Dylan, a personalidade multifacetada e controversa do artista ganha vida com as interpretações várias de Cate Blanchett (Jude Quinn, a estrela de rock que se refugia no vazio das palavras), Christian Bale (Jack Rollins, intérprete tanto de folk como do evangelho), Heath Ledger (ou Robbie Clark, o emocionalmente instável bon-vivant, intérprete de Jack Rollins e responsável pelo mise en abyme), Ben Wishaw (o assertivo Arthur Rimbaud), Marcus Carl Franklin (Woody Guthrie, a quem se destina o conselho: Live your own time, child, sing about your own time) ou Richard Gere (Billy the Kid, o que representa tudo aquilo que todos os outros apenas aspiraram: aquele que, realmente, is not there, o ser que vive na paz do anonimato e que se recusará sempre a encarar-se a si próprio, para não questionar a sua identidade). E todo o elenco, todo sem excepção, está portentoso nos seus desempenhos: a destacar, também, Charlotte Gainsbourg.

Ora ficcionando sobre a vida real, ora ficcionando a própria ficção, chegando a simular o documentário ou aventurando-se no surreal, I'm Not There - Não Estou Aí vive de um conceito arriscado e por demais audacioso, mas que se revelou magistral, triunfante. É uma obra assaz exótica, atravessada do início ao fim por um fio de pura ironia e por um humor provocador. Detentora de um prodigioso trabalho de montagem (Jay Rabinowitz) e ganhando múltiplos sentidos e uma alma eterna ao som das canções de Bob Dylan, é moldada dentro de enquadramentos e planos meticulosos, filmada por uma câmera inspirada que sabe o que quer e como quer filmar. Ora a cores ora a preto e branco, é - sempre - magnificamente fotografada (Edward Lachman). No desfecho da homenagem, uma breve imagem do verdadeiro Dylan...

Eis, sublime em toda a sua amálgama de registos, uma das experiências mais insólitas e enigmáticas que o cinema já nos proporcionou. Grande, grande filme!

CINEROAD ©2020 de Roberto Simões