sexta-feira, 25 de março de 2011

A ESTRADA (2009)

PONTUAÇÃO: BOM

Título Original: The Road
Realização
: John Hillcoat

Principais Actores: Viggo Mortensen, Kodi Smit-McPhee, Robert Duvall, Guy Pearce, Molly Parker, Michael Kenneth Williams, Garret Dillahunt, Charlize Theron

Crítica:

PAI E FILHO

All I know is the child is my warrant
and if he is not the word of God, then God never spoke.

É, verdadeiramente, de partir o coração. A Estrada, de John Hillcoat, é profundamente desolador - um filme sobre a assustadora e traumatizante realidade de um hipotético fim do mundo. A partir do romance de Comarc McCarthy, seguimos a história de um pai (magnífico Viggo Mortensen) que, na desesperada luta pela sobrevivência, faz absolutamente de tudo para salvar o filho (Kodi Smith-McPhee). As personagens nem têm nomes, não vale a pena. O planeta está a morrer e a paisagem perdeu todas as cores da esperança. A humanidade está em ruínas: impera o medo e a desconfiança, o pó e a morte. Há fome, frio e doenças. Os Homens cederam ao canibalismo e aos instintos mais selvagens. A estrada é um lugar extremamente perigoso. Whoever made humanity will find no humanity here.

O argumento (Joe Penhall) é construído à base de cenas e momentos impressionantes e de diálogos intensos e profundos: as memórias do passado, o adeus à fotografia, a cave dos moribundos, o bunker da comida e mantimentos, as passagens do velho cego (Robert Duvall, portentoso), a morte na praia, If I were God, I would have made the world just so and no different. And so I have you... I have you.

Como é que um pai pede a um filho para que o mate e que ele próprio se mate em seguida, com as únicas balas que lhes restam? Como é que se explicam a uma criança que nunca conheceu a paz ou a felicidade, os valores que fazem os Homens bons? Como é que, numa situação-limite como esta, completamente insuportável e onde o caminho mais fácil é o suicídio, se explica a uma criança que vale a pena viver, amar, ser solidário, confiar, acreditar?

Pai - You have to keep carrying the fire.
Filho - What fire?
Pai - The fire inside you.

Visualmente arrebatador (excelente fotografia de Javier Aguirresarobe), dotado de uma direcção artística irrepreensível (Chris Kennedy, Gershon Ginsburg e Robert Greenfield) e de uma banda sonora tocante e de extrema sensibilidade (Nick Cave e Warren Ellis), creio que só faltou a este A Estrada uma encenação e uma arte de filmar superiores. Estivesse o filme nas mãos de um melhor realizador e veríamos aqui assinada uma obra de arte sublime.

Ainda assim, A Estrada impõe-se como um filme para nos repensarmos a nós próprios, ao nosso planeta e à nossa humanidade. Às tantas, o pai pergunta ao velho forasteiro: Do you ever wish you would die? E o ancião responde: No. It's foolish to ask for luxuries in times like these. Perante uma visão tão pessimista e inquietante, resta-nos dar valor às nossas vidas, tão longe - esperemos - de um horizonte destes...

sexta-feira, 18 de março de 2011

KIKI, A APRENDIZ DE FEITICEIRA (1989)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Majo no takkyûbin
Realização: Hayao Miyazaki


Filme de Animação

Crítica: Uma jovem e insegura bruxinha, sempre acompanhada da sua vassoura voadora e do seu gato preto, cujo talento é ajudar os outros. No mais apurado e colorido requinte visual, Miyazaki conta-nos mais uma das suas adoráveis fábulas sobre bondade e inocência, plenas de esperança na humanidade. Do campo vs. cidade ao eterno fascínio do homem pelo vôo, a descoberta da amizade e a afirmação da essência individual. Lindo filme.

domingo, 13 de março de 2011

NAUSICAÄ DO VALE DO VENTO (1984)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Kaze no tani no Naushika
Realização: Hayao Miyazaki


Filme de Animação

Ainda que sem o prodígio técnico das mais recentes obras do cineasta, um épico belíssimo e muito bem construído, com personagens sólidas e com um argumento poderosíssimo, da maior consciência ecológica.
[Crítica em espera]

quarta-feira, 9 de março de 2011

MARY POPPINS (1964)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Mary Poppins
Realização: Robert Stevenson

Principais Actores: Julie Andrews, Dick Van Dyke, David Tomlinson, Glynis Johns, Hermione Baddeley, Karen Dotrice, Matthew Garber, Elsa Lanchester, Ed Wynn, Reta Shaw, Jane Darwell
Crítica:

AS MARAVILHAS
DE MARY POPPINS


Never judge things by their appearance...
...even carpetbags.

Um pedaço de cinema extremamente criativo, colorido e divertido, capaz de seduzir e encantar completamente o verdadeiro amante de musicais ou qualquer cinéfilo mais passional. Mary Poppins é delicioso como uma fatia de bolo, afinal. Contudo, é ousado e arrojado o suficiente, esteticamente falando, para conquistar o sentido crítico de qualquer espectador mais exigente.

Na verdade, a fantasia permite a um filme como Mary Poppins toda uma liberdade criativa sem limites. A mágica combinação entre a real motion e a animação atinge e concretiza quase na perfeição essa visão outrora impossível. No fim de contas, entrar para dentro de um quadro e passear pelo parque desenhado, como que entrando num encantado mundo dos clássicos animados da Disney seria, outrora, qualquer coisa de inimaginável.

Assim que a ama Mary Poppins (Julie Andrews - bela, radiosa e brilhante) desce das nuvens de Londres e entra pela mansão dos Banks adentro, o dia-a-dia dos travessos Jane e Michael vira um corrupio de surpresas. Até que o canhão do vizinho almirante ressoe novamente, anunciando novos ventos, as mais mirabolantes peripécias não terão fim. Desde cantar com o cordeiro, com o cavalo, com a vaca, com o porco e com os patinhos da quinta a passar pela Árvore do Chás, onde pinguins-garçons fazem sapateado... Desde entrar num carrossel e saltar montado nos corcéis pelo prado fora, até integrar uma corrida no hipódromo... O que os artistas por de trás do filme conseguiram foi uma interacção harmoniosa e quase perfeita entre estas duas formas de fazer cinema. O efeito é maravilhoso, é supercalifragilisticexpialidocious! Depois, a contagiante risota sob o tecto do tio Albert, as extraordinárias coreografias sobre os telhados, entre os limpa-chaminés... O filme está recheado de cenas marcantes e inesquecíveis, assim como de canções lindíssimas, que o tempo eternizou: The Life I Lead, The Perfect Nanny, A Spoonful of Sugar ou a já referida Supercalifragilisticexpialidocious, entre tantas outras. O guarda-roupa e a caracterização são igualmente dignos de nota. Por sua vez, a direcção artística (Carroll Clark, William H. Tuntke, Hal Gausman, Emile Kuri) é de um arrojo irretocável, assim como a fabulosa fotografia de Edward Colman, que aliada aos efeitos especiais faz desta obra um autêntico prodígio visual.

Hino maior à prática da bondade e da diversão, eis pois um clássico absoluto e intemporal. Magistralmente bem feito e adorável sob todos os pontos de vista. Será certamente especial para as crianças, mas completamente irresistível para os adultos. Tenho dito.

terça-feira, 8 de março de 2011

OS AGENTES DO DESTINO (2011)

Já nas bancas, a MagazineHD nº 10.
Nela, a minha crítica ao filme Os Agentes do Destino, que passará por aqui também, brevemente.

sábado, 5 de março de 2011

A ARCA RUSSA (2002)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Russkiy kovcheg / Русский ковчег
Realização: Aleksandr Sokurov

Principais Actores: Sergei Dontsov, Mariya Kuznetsova, Leonid Mozgovoy, Mikhail Piotrovsky, David Giorgobiani, Aleksandr Chaban, Lev Yeliseyev, Oleg Khmelnitsky, Alla Osipenko, Maksim Sergeyev
Crítica:

A VIAGEM NO TEMPO
OU O GRANDE TEATRO

Todos conhecem o futuro,
mas ninguém conhece o passado.

O Hermitage de São Petersburgo, um dos maiores e mais belos palácios do mundo, é o palco de uma das mais ambiciosas encenações da História do Cinema. Pouco mais de noventa minutos de filmagem ininterrupta num virtuoso e único plano-sequência, de um enquadramento subjectivo, planeado ao pormenor. Ao ombro, a steadycam digital. O feito é incrível e emana um fascínio em tudo magnetizante.

Sobre um fundo negro:

Abro os olhos e não vejo nada. Recordo apenas uma grande tristeza.
Todos tentavam fugir. É impossível tentar lembrar-me do que aconteceu.

Quando a imagem floresce, coincide, o olhar da câmera, com o olhar de uma alma deambulatória e flutuante que percorre os corredores, os salões e as escadarias do edifício. Serei invisível ou apenas não reparam em mim? Coincide, o olhar da câmera, com o narrador omnisciente; uma voz interior que contempla, opina e faz juízos de valor. É a voz de um homem, que tão-somente interage e comunica com uma personagem, pois todas as outras não o vêem. Quem lhe fala é o estranho de negro, um cínico diplomata de cabelos grisalhos e desgrenhados, aparentemente louco: o Marquês de Custine. O Marquês será como que um guia pelas demoradas galerias de arte, repletas de frescos e de esculturas e de um esplendor arquitectónico imponente.

Apreciar e discutir a arte sublime dos homens é contemplar a História, viajar na representação do tempo. Passado, presente e futuro confluem poeticamente num genuíno e erudito compêndio de arte. Afinal, A Arca Russa partilha a sua acção entre o século XVIII e a actualidade. Aliás, é assaz surpreendente quando se abrem as portas da Grande Galeria Italiana e os majestosos figurinos da época oitocentista dão lugar às mais simples roupas dos turistas que, tão curiosamente, visitam o museu. Um dos visitantes interroga o Marquês a propósito da genialidade de Wagner e o velho questiona-se: Wagner? Quem é Wagner? O eterno narrador perde-se na admiração das obras maiores, em momentos de íntima e pura espiritualidade. Como pode o mundo cair em guerras e revoluções, quando a perfeição da arte estabelece a harmonia entre os homens? O argumento critica ainda o socialismo, que, durante anos e ferozmente, atentou contra a liberdade e soberania da arte no país e satiriza a transição do regime monárquico para o regime republicano.

Elas [as autoridades] não sabem de que se alimenta a árvore da cultura.
Mas se a árvore cai, o poder fica desequilibrado. Nada mais restará.


A Arca Russa é sobretudo um objecto consciente da sua construção ficcional e jamais mascara a sua essência enquanto artifício. O próprio narrador assume a brilhante encenação proposta por Sokurov:

Tenho o cuidado de não tocar em ninguém.
Um teatro... Que actores! E o guarda-roupa!

Cada vez que se abrem umas portas, paira o mistério sobre o que se seguirá: se um baile, se uma orquestra a tocar, se uma cerimónia real, se a preparação de um banquete, se uma refeição em família, se um mero fait-diver. A mise en scène é de um primor e requinte dignos de referência. Milhares de actores e figurantes desfilam de cenário em cenário, tantos deles protagonistas históricos. A última porta, essa, dá para o mar agitado e a voz interpela-nos:

Cavalheiro! Cavalheiro!
É pena que não esteja ao pé de mim. Compreenderia tudo.
Veja... o mar todo à volta.
Estamos destinados a navegar eternamente. A viver eternamente.

O dilúvio começa. Salve-se a intemporal arte humana, na Grande Arca.

A Arca Russa impõe-se, pois, como um feito singular e inimitável. Narrativa e sintaticamente, é de uma audácia sem precedentes. Sokurov concretiza uma obra verdadeiramente magistral e monumental.

quinta-feira, 3 de março de 2011

I'M NOT THERE - NÃO ESTOU AÍ (2007)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: I'm Not There
Realização: Todd Haynes
Principais Actores: Christian Bale, Cate Blanchett, Marcus Carl Franklin, Richard Gere, Heath Ledger, Ben Whishaw, Charlotte Gainsbourg, David Cross, Bruce Greenwood, Julianne Moore, Michelle Williams

Crítica:
NO DIRECTION HOME

I accept chaos.

I don't know whether it accepts me.

I'm Not There - Não Estou Aí emana genialidade, estética e confluência estética. É um biopic nada convencional, irreverente e original, uma viagem singular e extasiante com uma assinatura muito própria: Todd Haynes.

Inspired by the music and many lives of Bob Dylan, a personalidade multifacetada e controversa do artista ganha vida com as interpretações várias de Cate Blanchett (Jude Quinn, a estrela de rock que se refugia no vazio das palavras), Christian Bale (Jack Rollins, intérprete tanto de folk como do evangelho), Heath Ledger (ou Robbie Clark, o emocionalmente instável bon-vivant, intérprete de Jack Rollins e responsável pelo mise en abyme), Ben Wishaw (o assertivo Arthur Rimbaud), Marcus Carl Franklin (Woody Guthrie, a quem se destina o conselho: Live your own time, child, sing about your own time) ou Richard Gere (Billy the Kid, o que representa tudo aquilo que todos os outros apenas aspiraram: aquele que, realmente, is not there, o ser que vive na paz do anonimato e que se recusará sempre a encarar-se a si próprio, para não questionar a sua identidade). E todo o elenco, todo sem excepção, está portentoso nos seus desempenhos: a destacar, também, Charlotte Gainsbourg.

Ora ficcionando sobre a vida real, ora ficcionando a própria ficção, chegando a simular o documentário ou aventurando-se no surreal, I'm Not There - Não Estou Aí vive de um conceito arriscado e por demais audacioso, mas que se revelou magistral, triunfante. É uma obra assaz exótica, atravessada do início ao fim por um fio de pura ironia e por um humor provocador. Detentora de um prodigioso trabalho de montagem (Jay Rabinowitz) e ganhando múltiplos sentidos e uma alma eterna ao som das canções de Bob Dylan, é moldada dentro de enquadramentos e planos meticulosos, filmada por uma câmera inspirada que sabe o que quer e como quer filmar. Ora a cores ora a preto e branco, é - sempre - magnificamente fotografada (Edward Lachman). No desfecho da homenagem, uma breve imagem do verdadeiro Dylan...

Eis, sublime em toda a sua amálgama de registos, uma das experiências mais insólitas e enigmáticas que o cinema já nos proporcionou. Grande, grande filme!

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

ANDREI RUBLIOV (1966)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Андрей Рублёв / Andrey Rublyov
Realização: Andrei Tarkovsky
Principais Actores: Anatoli Solonitsyn, Ivan Lapikov, Nikolai Grinko, Nikolai Sergeyev, Irma Rauch, Nikolai Burlyayen, Yuri Nazarov

Crítica:

ENTRE O SAGRADO E O PROFANO:
A ARTE COMO EXPERIÊNCIA RELIGIOSA

Qual é o tempo e o lugar da arte,
num mundo assim?

Andrei Rubliov é, até certo ponto, como que uma variação d'O Sétimo Selo, acrescente-se o sexo, a violência e a contemplação. É um épico medieval magistralmente bem filmado onde, tal como na obra-prima de Bergman, é vivida uma crise de fé pelo protagonista, enquanto o país (a Rússia, neste caso) vive um conturbado e turbulento período de invasões, de sangrentas batalhas e de repressão religiosa. Todavia, n'O Sétimo Selo, a redenção da Humanidade chega apenas na Morte e com ela se atingem todas as respostas capazes de saciar a angústia existencial. Em Andrei Rubliov, a misericórdia e o perdão de Deus são intensamente procurados na Vida e o apaziguamento é repetidamente procurado, tentem os Homens voar de balão ou edificar um sino.

Corre o século XV e o monge Rubliov é já um conhecido e afamado pintor de ícones, frescos e iluminuras. A narrativa é distribuída por um prólogo, sete episódios e por um epílogo. Porém, muita sabedoria, muita tristeza. Quem multiplica o saber, aumenta a sua angústia. Quanto mais cultiva o seu caminho de iluminação e de purificação, mais se apercebe dos problemas do mundo, do Mal que corrói o Homem e que o distancia de Deus e da palavra de Cristo. O Novo Testamento ecoa, aliás, por toda a obra e o reflexo medieval não lhe faz jus. Rubliov cessa a inspirada arte das pinturas para observar o mundo e para reflectir sobre o real sentido da fé... e o que encontra? Um povo ignorante e obscuro, seguindo às cegas a hipocrisia dos representantes de Deus, conformados com o estado da humanidade:

Tudo é vaidade e perecível! Todas as tolices e vilanias já foram concebidas. Agora, nada mais se faz do que repeti-las. Todo volteia e roda nos mesmos circuitos. Se Cristo voltasse à Terra, seria de novo crucificado!

Qual o sentido da religião quando não há esperança? Quando a fé se resume ao cumprimento escrupuloso de um sem fim de códigos e condutas, desprovidas de valor e de essência? Rubliov lembra a Paixão de Cristo e a Cruz do Homem, que se deveria repetir através dos tempos. Mas o que prevaleceu após o Tempo de Cristo? O Tempo Corrompido... Qual o sentido de proclamar o sagrado por oposição ao profano, quando as principais fundações da crença estão tão fortemente abaladas? Os ortodoxos condenam o paganismo, a nudez da feitiçaria e a noite das orgias... a leviandade, a indecência... o amor vergonhoso e bestial... mas, na verdade, todos os Homens se sentem atraídos pelo desejo... Até mesmo Rubliov, que não cede à carne, mas que ainda assim prova o beijo do pecado. Qual o sentido de proclamar a paz e a justiça entre os Homens quando a guerra se repercute e se intensifica nas duas margens do rio? Os tártaros massacram, violam, saqueiam, devastam... mas não será a mesma, a nossa fé? Não será a mesma, a nossa terra, o nosso sangue? Um tártaro sorria, gritando: mesmo sem nós, dareis cabo uns dos outros, como lobos. E o inimigo estava certo. A doença corre-nos e consome-nos no sangue. Para mal dos nossos pecados, o Mal ganha uma aparência humana. Quem atenta ao Mal, atenta à carne e ao osso humano.

Hipocrisia, ignorância, paganismo, terror: todos estes factores motivam a crise de fé e a desilusão no mundo. Perante o conflito, qual é o diálogo possível entre Deus e os Homens? As palavras, mesmo quando irrompem do silêncio, nascem já corrompidas. A religião revela-se igualmente corrompida, pedante. É por isso que, às tantas, Andrei Rubliov se penitencia com o silêncio. Sentiu-se tentado pela sedução dos corpos. Matou um homem, no calor da batalha. Que homem seria, se não se penitenciasse? Tão hipócrita e impuro como qualquer um dos outros à sua volta?

Perante este estado das coisas, resta a um artista perguntar-se: como encontrar a beleza num mundo assim? A resposta é simples: na arte, despida de palavras. Na pintura. O mestre Cirilo apercebe-se, no final, que as pinturas são como janelas para o céu. Mesmo quando representa acontecimentos terrenos, a pintura (nas igrejas, conventos e catedrais) é qualquer coisa de transcendente, um intermédio entre Deus e os Homens. O artista é, por isso mesmo, um ser privilegiado. E, por esta linha de leitura, Tarkovsky introduz na obra a sua Verdade: a arte, como experiência religiosa, tem um papel fundamental para tantos quantos percorram o caminho da iluminação. A religião, onde outrora se encontrava apaziguamento para as angústias da existência, não é mais suficiente para responder às necessidades dos Homens iluminados. A religião e o passado estão manchados de sangue. A arte é a nova religião, cujas potencialidades se confundem na eternidade. Tarkovsky tenta demonstrá-lo no final, quando a cor dá lugar ao preto e branco e ascende, poderosíssima, a música operática. Para o realizador, assistir a um filme como Andrei Rubliov, é como assistir a um fresco vivo - uma experiência igualmente transcendente.

Entre a luz e as trevas, dotado de excepcionais performances, cenários e banda sonora, eis pois um filme absolutamente magnífico.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

ACONTECEU NO OESTE (1968)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: C'era una volta il West / Once Upon A Time in the West
Realização: Sergio Leone
Principais Actores: Henry Fonda, Claudia Cardinale, Jason Robards, Charles Bronson, Gabriele Ferzetti, Woody Strode

Crítica:

UMA DANÇA DE MORTE

Mais do que um western, Aconteceu no Oeste faz a antologia do próprio género, convocando, homenageando e criticando referências e resumindo toda uma mitologia com o mais profundo sentido artístico. Entre o calor e a poeira, entre a cavalgada e o disparo, entre a espera e o derradeiro compasso da morte, Aconteceu no Oeste vive, por isso, uma essência marcadamente estilizada, ganhando uma dimensão operática e imortalizando-se sob a aura imaculada de obra-prima.

Rendamo-nos aos factos: Sergio Leone reuniu uma equipa de genial talento. A partir da história que o próprio escreveu, em conjunto com Dario Argento e Bernardo Bertolucci, o mundo de pistoleiros justiceiros e foras-da-lei foi recriado com incrível verossilhança, assaz realismo e especial atenção ao detalhe. Os decórs (a cargo de Carlo Simi, Rafael Ferri e Carlo Leva) ou o guarda-roupa (Antonella Pompei, Carlo Simi) são a prova disso. A fotografia de Tonino Delli Colli é de uma beleza tal que nos extasia, sensível tanto aos planos criteriosos e mais ambiciosos como aos close-ups sobre os actores, tanto à imediatez do primeiro plano como aos enquadramentos e pormenores dos backgrounds. Sensível, tantas vezes, às deslumbrantes panorâmicas sobre uma América interior e vermelha, de paisagens irregulares, mas únicas e absolutamente inconfundíveis.

O filme é, todo ele, repleto de magistrais sequências de tensão e suspense, para as quais se revelam fundamentais o trabalho de montagem (Nino Baragli) e o tratamento dos efeitos sonoros: o perfeito exemplo disso é a memorável cena de abertura, onde os sons se assumem como um genuíno e arriscado tema musical, resultando, indiscutivelmente, numa das melhores cenas de abertura de todos os tempos. Mas temas magníficos são coisa que não falta, ou não fosse o compositor o lendário Ennio Morricone. Cada personagem principal tem o seu próprio tema: Harmonica, semblante da coragem e do mistério (Charles Bronson), a provocante e sensual Jill (Claudia Cardinale), central na história, o arguto Frank (Henry Fonda) ou o gracioso Cheyenne (Jason Robards). O elenco irradia, aliás, uma excelência inequívoca, denotando a qualidade intrínseca a toda a direcção de actores. O trabalho de encenação é brilhante e são muitas as cenas que se destacam pelo seu arrojo e arquitectura. A preparação daquele flashback final é, simplesmente, qualquer coisa de extraordinário... No seu todo, eis, pois, uma simbiose esteticamente triunfal, sob a inspirada e irrepreensível orquestração de Sergio Leone.

Até à chegada do Cavalo de Ferro à vila em construção, o tempo passa e a história acontece... ao ritmo próprio a que o realizador nos acostumou... E nós temos então a certeza de que experienciamos uma obra de arte no mais imperioso sentido da expressão. Bertolucci diz, a respeito, que Leone deu uma nova identidade ao western*. Não poderia estar mais de acordo. Tal como o comboio, a obra veio, ficou e revolucionou.


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Nota especial para péssima escolha do título português.
*Di-lo Bernardo Bertolucci num dos documentários da Edição de Coleccionador, em DVD.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O PROTEGIDO (2000)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Unbreakable
Realização: M. Night Shyamalan
Principais Actores: Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Robin Wright Penn, Spencer Treat Clark

Crítica:

HERÓI VS. VILÃO

Nunca o universo dos super-heróis e da banda desenhada ganhou contornos tão humanos ou humanizados como nesta magnífica obra de M. Night Shyamalan. O Protegido revela-se como uma proeza de genuína subtileza, um trabalho de grande contenção e crescente tensão, suportado por um argumento assaz sensível e inspirado.

O que é um super-homem? Existe um super-herói? É interessante a forma como nos é apresentada a personagem de Samuel L. Jackson, Elijah Price, um homem atraiçoado pelos genes que o condicionarão às fragilidades da vida: nós aceitamo-lo como um ser real. Porque não aceitar também, com semelhante facilidade, o oposto do Sr. de Vidro, um homem forte e resistente a doenças e aos azares do destino? A questão é deveras pertinente. E o exercício dramatúrgico confrontar-nos-á tanto com a hipotética origem da mitologia de vilões e super-heróis (numa fronteira praticamente inexistente entre realidade e fantasia) como com a verdade sobre cada um dos protagonistas (essencial para saberem o seu lugar no mundo).

Eis, pois, um filme extremamente original, de construção inteligente e performances impressionantes e comovedoras, onde a mestria de Shyamalan emana especialmente em todas as cenas de maior duração, nos premeditados e vagarosos movimentos de câmera, nos planos meticulosos ou no constante jogo entre sons e silêncios. A banda sonora e o tratamento das cores e da cinematografia revelam-se cruciais para a criação do ambiente de suspense. Que assombro de filme.

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Nota especial para a infeliz escolha do título português.
CINEROAD ©2020 de Roberto Simões