domingo, 5 de dezembro de 2010

APOCALYPTO (2006)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Apocalypto
Realização
: Mel Gibson

Principais Actores: Rudy Youngblood, Dalia Hernandez, Jonathan Brewer, Morris Birdyellowhead, Raoul Trujillo, Rodolfo Palacios

Crítica: 


O ECLIPSE MORTAL


Apocalypto é um ritual de morte e sacrifício num mundo condenado à extinção. É trágico, brutal e sangrento. Aquele movimento de chariot inicial leva-nos into the wild e a selva e a natureza absorvem-nos por completo. Depois, é Mel Gibson que nos leva, dotado de mestria. E desta vez somos transportados - por inteiro - ao íntimo cultural e místico da sociedade Maia, perdida no tempo, perpetuada na memória e agora recriada sob um conceito visual arrojadíssimo: se os cenários se revelam, por um lado, grandiosos e cheios de detalhe, o guarda-roupa, por outro, é de uma concepção de todo incrível e arrebata-nos, falando por si só, diferenciando os diferentes extractos sociais. O trabalho de caracterização é, também, de uma qualidade e perfeição que nos transcende, reclamando autenticidade por todos os poros. Apesar da liberdade artística que não faz dele, propriamente, um documentário de rigor histórico, o filme demonstra um realismo atroz. Juntamente com a extraordinária fotografia de Dean Semler, Mel Gibson capta praticamente todo o espírito do argumento a partir da paisagem (seja ela natural ou artística) e isso é um feito admirável: é quase cinema em estado primitivo. Quantas não são as vezes, afinal, em que se precinde do diálogo para apenas ver e ouvir aqueles ambientes? É nessa qualidade que reside o principal fascínio de Apocalypto, esta obra sublime, de uma beleza impressionante.

Eu vi uma fossa no Homem, profunda como uma fome que nunca saciará. É ela que o torna triste e que o faz querer mais. Ele vai continuar a tomar mais e mais até ao dia em que o mundo dirá 'Já deixei de existir e nada mais tenho para dar.'

É assim que termina a fábula que o ancião a todos conta naquela última noite de paz na aldeia. O ancião significa conhecimento e é uma figura amplamente respeitada. Essa sabedoria popular, assim como as superstições, os presságios e os sonhos, desempenha um papel fundamental no dia-a-dia dos Maias. São conhecidos como uma civilização bastante sofisticada, mas também é certo que eram muito religiosos. A sua devoção aos deuses levou alguns povos à loucura e à auto-destruição. É essa a cegueira de muitos fundamentalismos. E é esse o motivo que desencadeia toda a trama de Apocalypto. As doenças devastam e dizimam a população, eles crêem que o solo está enfermo e que devem satisfazer os deuses, para que estes os abençoem com a cura e com a salvação. O sangue dos sacrifícios renovará a terra. Contudo, a pior doença corrói-os no espírito e disso não têm consciência. Uma obra como Apocalypto tece, pois, uma crítica mordaz às sociedades humanas, independentemente da sua época ou das suas origens: as suas convicções, impregnadas de maldade e avidez, podem conduzir aos mais hediondos e monstruosos actos. O próprio ser humano pode ser o mais perigoso dos animais, a face mais cruel da natureza.

Se até à perturbadora cena do eclipse, de encontro ao coração da cidade e da cultura Maia, a obra mostra uma intensidade, exotismo e estranheza crescentes, é certo que a partir daqui a diegese se centra no retorno a casa de Pata-Jaguar, de encontro ao coração da selva e da natureza humana. Mas nem por isso cai, pelo menos, a intensidade ou o exotismo daquele paraíso ameaçado. O filme ganha contornos empolgantes, excitantes e capaz de pôr os nervos à flôr-da-pele, à medida que as sequências de acção se sucedem e que a luta pela sobrevivência se dificulta e é levada aos limites da resistência. Mel Gibson filma esta aventura aos confins da América com alma e coração, sem nunca prescindir da sua estética sobre o lado negro e violento do Homem. Os desempenhos de Rudy Youngblood, Jonathan Brewer ou de Raoul Trujillo são notáveis. E a composição de James Horner é magnífica, fluindo naturalmente entre a afirmação e a subtileza, consoante as necessidades dramáticas.

Por fim, Apocalypto não é senão uma saga pelos valores ancestrais e intemporais da família:

Chamo-me Pedra-Céu e caço nesta floresta desde que me tornei homem. E o meu pai caçou nela comigo e já caçava nela antes de mim. O meu filho, Pata-Jaguar, caça nesta floresta comigo. E caçará com o filho dele depois de eu morrer.

A luta de Pata-Jaguar é a luta pela preservação da família, pelo respeito pelos antepassados e pelo assegurar de um futuro às gerações vindouras. E essa é - ou pelo menos deveria ser - a luta universal de cada um de nós.

Apocalypto é, pois, um filme inesquecível. Um grande pedaço de arte e um forte apelo à reflexão.

2046 (2004)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: 2046
Realização: Wong Kar Wai
Principais Actores: Tony Leung Chiu-Wai, Maggie Cheung, Zhang Ziyi, Faye Wong, Gong Li, Takuya Kimura, Carina Lau, Chang Chen

Crítica:

O SEGREDO

Todas as recordações são rastos de lágrimas.

O título 2046 parece invocar o futuro, mas - antes de tudo - significa uma viagem ao passado. Lembremo-nos que 2046 era, em Disponível Para Amar, o número do apartamento para o qual Chow Mo-wan se mudara, em 1962, precisamente ao lado do de Su Li-zhen; mulher pela qual se apaixonaria para sempre. A relação deles era proibida, estavam ambos casados, e resumiu-se ao platonismo, ainda que o filho que aparece no final do filme sugira um fruto do amor de ambos. Desde o dia em que se despediram, sem que praticamente se tocassem, nunca mais se voltaram a encontrar. Arrepender-se-iam, pois estavam destinados um ao outro.

O amor é apenas uma questão de oportunidade.
De nada vale encontrar a pessoa certa antes ou depois da altura certa.
Se vivesse noutra época ou local, a minha história poderia ter tido um desfecho muito diferente.

Chow é o narrador. A sua narrativa não obedece a leis cronológicas, saltita por vários tempos, por diversas linhas diegéticas, dando conta dos seus sentimentos, das suas angústias e da forma como toda a sua existência influencia a sua criatividade e o seu universo de escrita. 2046 é, igualmente, o nome do romance que está a conceber; é como que uma ingressão futurista sobre a infindável busca do amor, muito à semelhança da sua vida.

Todos os que vão para 2046 têm a mesma intenção: querem resgatar memórias perdidas. Porque em 2046... nada muda. Mas ninguém sabe ao certo se isso é verdade ou não. Porque nunca ninguém de lá regressou. Excepto eu. Porque eu preciso de mudar.


Viajar ao futuro, no seu romance - e note-se a audácia da ideia -, não corresponde senão a um escape por meio do qual ele próprio regressa ao passado, às suas memórias. Só revivendo as memórias poderá reviver aquele grande amor.

Os anos passaram e ele está diferente. Arrepende-se todos os dias de não ter vivido o hoje no ontem... e, quiçá em busca do tempo perdido, procura o amor em todas as mulheres pelas quais se interessa minimamente. Torna-se um mulherengo, um bon vivant.

Primeiro, conhecemos Lulu - a cantora do clube nocturno de Singapura com a qual Chow se envolvera e que o jornalista reencontra no hotel, a ocupar o quarto 2046. Lulu não se recorda do nosso protagonista, que opta por ocupar o 2047, mas o reencontro proporciona-lhe, a ele, um nostálgico regresso ao passado. Depois, são-nos apresentadas as duas filhas do Sr. Wang, proprietário do hotel. Jing-wen, a mais velha, está perdidamente apaixonada por um japonês, o que motiva intensas discussões com o pai, ao som de uma ópera magnífica, ainda que ensurdecedora para os moradores. A mais nova é uma miúda precoce e irresponsável, com sede de experiências sexuais, que cedo foge e deixa a família. Em seguida, é-nos introduzida a nova ocupante do 2046: Bai Ling. Os dois virão a envolver-se ardentemente, mas Chow limitar-se-á a usar essa irrersistível mulher, pagando-lhe os préstimos sexuais. Prostituta. Bai Ling, contudo, deixar-se-á envolver demasiado e apaixonar-se-á verdadeiramente... Ah Ping, o editor e amigo do jornalista, bem que a alerta que ele não é de confiança: Chow tem em Bai Ling uma oportunidade para se sentir realmente amado. Não obstante, jamais conseguirá substituir Su Li-zhen no seu coração. As memórias do passado não se extinguem.

Encontremo-nos novamente. Se continuares a achar que não devemos estar juntos, diz-mo sinceramente. Naquele dia, há seis anos, formou-se um arco-íris no meu coração. Ainda lá está. Arde como uma chama dentro de mim. Mas qual é a verdadeira natureza dos teus sentimentos por mim? São como um arco-íris, que se forma depois de uma chuvada? Ou será que... esse arco-íris se desvaneceu há muito? Espero uma resposta tua.

Quando Jing-wen regressa ao hotel, o seu amor proibido com o japonês continua... Chow revê-se naquela relação adiada... e torna-se amigo da jovem. Primeiro, passa a receber as cartas do enamorado nipónico, evitando as habituais discussões entre o senhorio e a filha. Depois, tornam-se amigos... Têm mais coisas em comum, Jing-wen também escreve e os dois inter-ajudam-se. Há uma altura em que Chow parece confundir as coisas, mas depressa percebe que isso não seria verdadeiro, antes ajudar aqueles dois amantes a unirem-se para sempre e a encontrarem a felicidade. Inspirado nesta história de paixão, Chow escreve 2047, um lúgubre conto entre o herói do seu romance e uma deslumbrante e ternurenta andróide, assistente do comboio (interpretada pela mesma Jing-wen).

Antigamente, se alguém tivesse algum segredo que não quisesse partilhar, subia uma montanha, procurava uma árvore... abria um buraco nela... e sussurrava o segredo dentro do buraco. A seguir, cobria-o com lama. E lá deixava o segredo para sempre...

Eles amam-se, ele deposita-lhe o seu segredo, mas ela hesita em partir com ele e os dois separam-se. Ela espera por ele 10 anos. 100 anos. 1000 anos. E o conto acaba com uma espera interminável, sem esperanças de um reencontro.


Na vida real, todavia, Jing-wen e o namorado acabam juntos. O amor é possível. O pai dela acaba por aceitar a relação e por dizer que o que quer, acima de tudo, é a felicidade da filha. Chow fica surpreendido com o sucesso da relação, com aquela felicidade que pensou inimaginável. Afinal, por 10, 100, ou 1000 anos, valerá sempre a pena esperar pelo verdadeiro amor. Jing-wen lê 2047, identifica-se bastante com a história, mas pede-lhe que altere aquele trágico e triste final. Face a este caso de sucesso, Chow lamenta - uma vez mais - as oportunidades perdidas no passado para amar a Srª Chan e percebe que quando não aceitamos uma resposta negativa, há sempre a possibilidade de conseguirmos o que queremos.

Por fim, em Singapura, aparece-lhe a Aranha Negra. Mais uma mulher, misteriosa e com uma mão enluvada. Coincidência? Chama-se Su Li-zhen. É fisicamente muito semelhante à sua amada de 62. Não é a mesma pessoa, ele sabe disso e esforça-se por convencer-se disso. Mais do que nunca, poderia tentar substituir aquela mulher que o marcou, mas seria mais um erro. No dia que se despediram, ela dise-lhe: abrace-me. Podem passar-se anos antes de nos voltarmos a ver. A invocação daquela fatídica despedida de 62 vem-nos novamente à memória. Desta vez, ele não resiste a convenções, não perde tempo, não quer repetir o passado: beija-a intensamente, demoradamente. Talvez um dia escape ao seu passado. Se isso acontecer, procure-me.

Um dia cruza-se ainda com Bai Ling. Ela ainda o ama. Mas Chow segue a sua viagem:

Ele não se virou para trás. Foi como se tivesse embarcado num comboio muito longo, rumo a um futuro incerto... atravessando a noite insondável.

Visualmente perfeita, filmada com elegância, sedução e intensa paixão artística, eis, pois, uma obra esteticamente irretocável, a começar no trabalho fotográfico de Christopher Doyle e a terminar nas qualidades multifacetadas de William Chang (direcção artística, figurinos e montagem). Os actores, meticulosamente enquadrados, emanam desejo e pura infelicidade na expressividade dos seus semblantes... como que num derradeiro requiem ao amor. Tony Leung Chiu-Wai, Maggie Cheung, Zhang Ziyi, Faye Wong, Gong Li, Carina Lau... que elenco impressionante. A banda sonora (Shigeru Umebayashi, entre outros) é absolutamente extraordinária, majestosa, inesquecível.

Eis, pois, uma obra-prima incontornável. Um dos mais belos e mais puros pedaços de cinema a que tive o prazer de assistir...

BEN-HUR (1959)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Ben-Hur
Realização: William Wyler

Principais Actores: Charlton Heston, Jack Hawkins, Haya Harareet, Stephen Boyd, Hugh Griffith, Martha Scott, Cathy O'Donnell, Sam Jaffe, Finlay Currie, Frank Thring, Terence Longdon, George Relph, André Morell

Crítica:

O TOQUE DE DEUS


How do you fight an ideia?
With another idea.

Qual A Criação de Adão, que do tecto da Capela Sistina cintila como uma constelação, também em Ben-Hur se tocam a arte e a transcendência, capazes de fascinar o Homem eternamente. Karl Tunberg concebe, a partir do romance de Lew Wallace, o argumento de uma obra grandiloquente na escala e ínfima nos pormenores, arquitectada com toda a grandiosidade de uma mega-produção e magistralmente realizada por William Wyler. O maior épico de todos os tempos é, em todos os sentidos e sob todas as perspectivas, um prodigioso e inspirador triunfo da arte e da técnica cinematográfica.

In the Year of our Lord, Judea - for nearly a century - had lain under the mastery of Rome. In the seventh year of the reign of Augustus Caesar, an imperial decree ordered every Judean each to return to his place of birth to be counted and taxed. The converging ways of many of them led to the gates of their capital city, Jerusalem, the troubled heart of their land. The old city was dominated by the fortress of Antonia, the seat of Roman power, and by the great golden temple, the outward sign of an inward and imperishable faith. Even while they obeyed the will of Caesar, the people clung proudly to their ancient heritage, always remembering the promise of their prophets that one day there would be born among them a redeemer to bring them salvation and perfect freedom.
Balthasar

Vinte e seis anos depois do nascimento de Jesus, que acompanhámos a jeito de prólogo, o poder de Roma impõe-se sobre a Judeia, suscitando a revolta. Judah Ben-Hur (Charlton Heston), príncipe e comerciante muito rico, judeu, vive feliz numa casa abastada, com a mãe e a irmã, e com os escravos que para ele não são senão amigos. É um homem amistoso, bondoso, gentil, honesto e sábio. É um homem, acima de tudo, de consciência. Nutre um amor correspondido e muito especial para com Esther, que, no entanto, está noiva de um outro homem:

Judah Ben-Hur: If you were not a bride, I would kiss you goodbye.
Esther: If I were not a bride, there would be no goodbyes to be said.

Um dia, reencontra Messala (Stephen Boyd), um grande amigo de infância, agora tribuno entre as legiões romanas. O reencontro é deveras emocionante: muito foi aquilo que os uniu, em tempos, quando eram como irmãos inseparáveis.

It's an insane world, but in it there's one sanity, the loyalty of old friends. Judah, we must believe in one another.
Messala

Contudo, cada um seguiu as suas pisadas. Judah fortaleceu a sua identidade e defende o seu povo oprimido, crente em Deus e no messias que há-de vir. Messala cresceu entre os soldados romanos, sedento de riqueza, de poder e de glória, pleno de arrogância e defrontando todos os inimigos do império. Pertence agora a um mundo completamente diferente e incompatível:

Judah Ben-Hur: If I cannot persuade them, that does not mean I will help you... murder them. Besides, you must understand this, Messala. I believe in the past of my people, and in their future.
Messala: Future? You are a conquered people!
Judah Ben-Hur: You may conquer the land; you may slaughter the people. But that is not the end. We will rise again.
(...)
Messala: Be wise, Judah. It's a Roman world. If you want to live in it, you must become part of it... (...) It was fate that chose us to civilize the world - and we have. Our roads and our ships connect every corner of the earth, Roman law, architecture, literature and the glory of the human race.

Para Judah, Deus é Deus e os judeus deverão manter-se livres. Para Messala, Deus é o imperador e os judeus deverão submeter-se ao império.

Messala: Look to the West, Judah! Don't be a fool, look to Rome!
Judah Ben-Hur: I would rather be a fool than a traitor... or a killer!
Messala: I am a soldier!
Judah Ben-Hur: Yes! Who kills! For Rome! Rome is evil!
Messala: I warn you...
Judah Ben-Hur: No! I warn you! Rome is an affront to God! Rome is strangling my people and my country, the whole Earth! But not forever. I tell you the day Rome falls there will be a shout of freedom such as the world has never heard before!

A discussão intensifica-se, assolada pela diferença, até que se dá o inevitável:

Messala: You're either for me or against me! You have no other choice.
Judah Ben-Hur: If that is the choice, then I am against you.

A opção de ambos torna-se irreversível e as consequências da mesma revelar-se-ão profundamente trágicas.

Ben-Hur, a mãe e a irmã assistem ao desfile das tropas romanas da sua varanda quando, por culpa de um mero incidente, são acusados da tentativa de assassinato do governador da Judeia. São todos aprisionados, sem direito a julgamento, e o próprio Messala se assegura de que serão todos condenados. You're either for me or against me! Insurge-se o ódio, pelo sentimento de traição daquela amizade de anos. Ben-Hur ainda escapa da sela, enfrentando Messala e obrigando-o a libertar as duas mulheres... mas em vão. Acaba irremediavelmente preso, escravizado e condenado a uma vida de sofrimento, desconhecendo - de todo - o paradeiro da mãe e da irmã. May God grant me vengeance! I will pray that you live until I return!

A narrativa, depois, irrepreensivelmente fluída e dotada de uma intriga assaz envolvente, acompanha a tortuosa travessia no deserto, na qual Ben-Hur e os restantes prisioneiros, tornados escravos, seguem acorrentados, inteiramente desidratados e sequeosos. Uma vez, enfraquecido, Ben-Hur deixa-se cair sobre o chão da Nazaré, atordoado. Um transcendente e misterioso tema musical entra em cena, anunciando uma mão generosa e estendida. É Jesus, sabemo-lo, que lhe dá a beber a água renegada. À luz do contexto bíblico em que a própria obra nos insere, desde o início, depreendemos facilmente a identidade daquele vulto cuja voz ou rosto jamais conheceremos. Ainda que não fique a conhecer o nome do benfeitor, Judah ficar-lhe-á eternamente grato por tamanho gesto, numa hora tão difícil...

Segue-se uma cena extraordinária e ambiciosa, plena de efeitos especiais: a cena da batalha naval. Passados três anos, a viagem segue, em alto-mar, a bordo das galeras romanas. Duzentos escravos são levados à exaustão pela força braçal exigida para mover os enormes remos. São chicoteados, são obrigados a acompanhar o ritmo dos tambores às mais variadas velocidades. Battle speed!... Attack speed!... Ramming speed! A banda sonora de Miklós Rózsa, genial, coincide com cada batida, com cada andamento. Ben-Hur - o 41, como é chamado pelo general Quintus Arrius - é, porventura, o mais forte e destemido de todos os escravos. O general apercebe-se também que ele é um homem de muita fé. Sabe que ele é essencial para aquele barco, para a motivação dos companheiros. We keep you alive to serve this ship. Row well, and live. Quintus Arrius admira-o; é por isso que, na imediação do ataque, o manda libertar, para lhe dar uma hipótese de sobrevivência. 41, why did he do that? - interroga o remador 42. E o judeu responde: I don't know. Once before, a man helped me. I didn't know why then. Cresce, pois, o sentimento de que não está só, que Deus o acompanha. Com o naufrágio, que encerra a cena, Ben-Hur revela todo o seu carácter; se ainda dúvidas existissem: não só ajuda a libertar os colegas dos cadeados, antes de um aterrador adeus, como salva o general, retribuindo-lhe o gesto. Quando o oficial acorda, à deriva num dos destroços da embarcação, ainda tenta o suicídio, pensando que fora derrotado em combate. Ben-Hur impede-o da morte, uma vez mais:

Quintus Arrius: Why did you save me?
Judah Ben-Hur: Why did you have me un-chained?
Quintus Arrius: What is your name, 41?
Judah Ben-Hur: Judah Ben-Hur.
Quintus Arrius: Judah Ben-Hur. Let me die.
Judah Ben-Hur: We keep you alive to serve this ship. Row well, and live.

Por fim, são recolhidos por uma vela romana. Afinal, haviam vencido a refrega. Mal sabia o judeu que Quintus Arrius, a quem salvara a vida, era não só general do exército como cônsul do imperador. Chegados à capital do império, Quintus e Judah são recebidos como heróis pelas multidões. São recebidos, inclusivé, pelo imperador. Judah Ben-Hur é então congratulado pelo seu feito, torna-se auriga e herdeiro de Quintus e conhece Pôncio Pilatos, o próximo governador da Judeia. Contudo, com aquelas vestes romanas, desfilando por todos aqueles palacetes... não parecia mais o mesmo. Não fora tomado pela ganância, mas pesava-lhe na consciência uma contradição: o que fazia por ali um judeu, tornado romano... Sobretudo depois de tudo o que havia acontecido. A saudade da sua querida mãe, da sua querida irmã... A angústia de não saber se haviam falecido à escuridão dos calabouços ou sobrevivido às injustiças de Messala e da cúria romana... Tudo isso o consumia sem dó nem piedade.

É no intuito e na esperança de salvar as familiares que torna a África. No caminho cruza-se com o ancião Balthasar: a voz que nos introduzira na história, crente no messias, e que foi uma das pessoas que seguiu a estrela sagrada naquela noite fria: Pardon me - you are a stranger here. Would you be from Nazareth? Balthasar confunde-o com Jesus. I thought... you might be the one... the one I have come back from my country to find. He would be about your age. (...) When I find him, I shall know him. É por intermédio do velho que Ben-Hur conhece o Sheik Ilderim (Hugh Griffith, num desempenho hilariante e verdadeiramente brilhante), um comerciante árabe que trata os cavalos como filhos e que se lhe dirige, inquirindo: One God, that I can understand; but one wife? That is not civilized. (...) I've got six... no, seven. E Balthasar intervém, de imediato: I have counted eight, and that is because he is traveling. At home, he has more. Estes comic reliefs são importantíssimos para a digestão dramática, pois o que aí vem é doloroso e trágico. Quando Ilderim descobre que Ben-Hur foi auriga na Grande Arena, depressa o incita a tratar dos seus quatro cavalos brancos. O judeu não desgosta da ideia, mas primeiro está a sua missão: regressar à Judeia. I hope to see you again, Judah Ben-Hur, despede-se o árabe.

Chegado a casa, finalmente, nada mais lhe parece igual. Judah reencontra Esther, solteira, e a possibilidade do amor, mas nunca mais se soube nada da mãe ou da irmã. O pai de Esther alerta-o para a eventualidade de estarem mortas, para lhe reduzir as esperanças e, desse modo, atenuar-lhe o sofrimento. Mas Ben-Hur não se resigna.

O destino traçou-lhe um caminho bem penoso. Aquele que parecia inicialmente um caminho para Deus, transformou-se numa odisseia de ódio e de vingança. Ben-Hur está decidido a enfrentar Messala de uma vez por todas, desafiando a sua própria vida se necessário, na esperança cada vez mais obsessiva de reencontrar a mãe e a irmã.

Messala: By what magic do you bear the name of a Consul of Rome?
Judah Ben-Hur: You were the magician, Messala. When my ship was sunk, I saved the Consul's life. (...) Find them, Messala. Restore them to me and I'll forget what I vowed with every stroke of that oar you chained me to!
Quando os enviados de Messala procuram nos registos dos calabouços pelas familiares de Ben-Hur, deparam-se com as duas ainda vivas, mas doentes, e libertam-nas. As duas correm sorrateiramente até casa e apresentam-se, a custo, a Esther. Perguntam por Judah, procurando reconforto, mas não pretendem que ele as torne a ver naquele estado. Por isso, pedem a Esther que diga ao amado que as duas morreram. Quando Ben-Hur conhece a terrível mentira, fica cego pelo ódio. O espectro da tragédia clássica e até mesmo da tragédia shakespeariana ecoa, então, pelo argumento.


Um espectáculo sem precedentes tem lugar, logo após o interlúdio. Magnificente, colossal, absolutamente excitante em toda a sua acção e adrenalina. Refiro-me, claro está, à já mítica cena da Corrida de Quadrigas, com Ben-Hur e Messala como principais aurigas. O primeiro com os brancos corséis de Ilderim. O segundo com impetuosos cavalos negros e com um tão engenhoso quanto perigoso carro grego. O confronto é avassalador e fatal. Os cenários da Grande Arena são intermináveis, de um design sofisticadíssimo e preenchidos por dezenas de milhares de figurantes e por estátuas gigantescas e imponentes. O trabalho de guarda-roupa e de direcção artística é monumental. A fotografia de Robert Surtees é completamente deslumbrante, as pinturas de mate compõem muito bem os fundos e a imagem de 70mm amplia o espectáculo a uma escala impressionante. A montagem (John D. Dunning, Ralph E. Winters e Margaret Booth) é incrível, a técnica de filmar as perseguições é voraz e a elegância e a nobreza dos equídeos é sobejamente enaltecida. Enfim, que feito memorável... Espantoso! Para o vencedor, no momento da glória, a coroa de louros e a aclamação das multidões.

Messala: Triumph complete, Judah. The race won. The enemy destroyed.
Judah Ben-Hur: I see no enemy.
Messala: What do you think you see? The smashed body of a wretched animal! Is enough of a man still left here for you to hate? Let me help you...You think they're dead. Your mother and sister. Dead. And the race over. It isn't over, Judah. They're not dead.
Judah Ben-Hur: Where are they? Where are they? Where are they?
Messala: Look for them in the Valley of the Lepers, if you can recognize them! It goes on. It goes on, Judah. The race, the race is not over.

Espiritualmente de rastos, Judah resigna à cidadania romana, que entretanto auferira, corta com toda essa vida fora da Judeia e tenta reencontrar-se a si próprio. Que papel de uma vida, este de Charton Heston. Que performance genuinamente assombrosa.

De regresso a casa, seco por dentro, confronta Esther:


Judah Ben-Hur: Why did you tell me they were dead?
Esther: It was what they wanted. Judah, you must not betray this faith. (...) Judah, love them in the way they most need to be loved: not to look at them! (...) It will tear them apart if they see you!

Apesar da alegria de o tornar a ver, Esther não encontra mais o mesmo homem:

It was Judah Ben-Hur I loved. What has become of him? You seem to be now the very thing you set out to destroy, giving evil for evil! Hatred is turning you to stone. It is as though you had become Messala! I've lost you, Judah.

Entretanto, já todos na Judeia tinham ouvido falar de Jesus. Diziam-no o filho de Deus, o Rei dos Judeus, o messias prometido, o milagreiro. Ben-Hur recusara, certo dia, juntar-se a Esther e a Balthasar, que entretanto reencontrara entre as suas gentes, no famoso sermão da montanha. Mas agora, era o momento de se entregar à fé. Desloca-se ao Vale dos Leprosos, com Esther, resgata ambas as mulheres e leva-as à cidade, na esperança da salvação, onde - inesperadamente - decorre o julgamento de Jesus sob a direcção de Pôncio Pilatos. As últimas cenas de Ben-Hur fecham o círculo bíblico em que a obra se inscrevera, resconstituindo os fatídicos episódios das últimas horas do messias até à crucificação. E até esse final sublime, de milagre e de perdão - Father, forgive them for they know not what they do -, a realização de William Wyler mantém toda a sua mestria e majestade, com incrível graciosidade no movimento de câmera. Acção, romance, drama, tragédia, comédia... todos os géneros se aliam perfeitamente numa experiência ímpar.

Veredicto? Um autêntico pedaço do éter. Uma das maravilhas maiores da História do Cinema. Um dos melhores filmes de sempre.

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Nota especial para a excelência da remasterização.
Um restauto impecável.

O CAVALEIRO DAS TREVAS (2008)

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ELEPHANT (2003)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Elephant
Realização: Gus Van Sant
Principais Actores: Alex Frost, Eric Deulen, John Robinson, Elias McConnell, Jordan Taylor, Carrie Finklea, Nicole George, Brittany Mountain, Alicia Miles, Kristen Hicks, Bennie Dixon

Crítica:

ADOLESCÊNCIA(S)

Um clássico instantâneo. Que nem um Alex DeLarge, também o Alex de Gus Van Sant é um profundo admirador de Beethoven; neste caso, também intérprete. Ambos os jovens são símbolos máximos da ultra-violência representada no cinema.

Porém, este Alex de Elephant é muito mais do que metafórico: é... tão real. Juntamente com o seu comparsa, a violência surge representada sem preocupações
morais, sem causa ou explicação. E é por isso que o filme é tão perturbante: o mal está entre nós, poderá revelar-se a qualquer instante. O que o desperta? O preconceito, o traumatizante bullying, os problemas familiares e as relações superficiais, a alienação nos jogos de computador, a televisão ou simplesmente as nuvens e a mudança de tempo. São todas hipóteses possíveis; todas elas são invocadas, ainda que subtilmente.

A realização de Gus Van Sant é magistral e profundamente inspirada, assombrosa em todos os travellings, no slow motion e nos jogos de perspectiva. Há longas sequências, enaltecidas com a alternância de focagem, nas quais o segundo plano ganha uma relevância que é essencial para o entendimento da obra. Depois há Für Elise e Moonlight (este último é para
mim o tema mais lúgubre alguma vez concebido) que encerram um mistério incomensurável.

Elephant
é, pois, um triunfo de uma sublimidade inquestionável, de uma frieza e contenção desmedidas. Um realista e por demais fiel retrato da adolescência, carregado de vazio existencial, que termina, antes das nuvens também elas carregadas de poder enigmático, com um esperançoso e tão simbólico toque entre pai e filho.

MOULIN ROUGE! (2001)

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AUSTRÁLIA (2008)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Australia
Realização: Baz Luhrmann
Principais Actores: Hugh Jackman, Nicole Kidman, Brandon Walters, David Gulpilil, David Wenham, Jack Thompson, Bruce Spence, Bryan Brown

Crítica:

DE VOLTA ÀS ORIGENS

There's no place like home...

Austrália é o regresso de Baz Luhrmann às suas origens e, sob o efeito de mise en abyme, o reencontro do presente histórico de um país com o seu passado original. A invasão dos estrangeiros europeus, que se verificou na Austrália sobretudo a partir da segunda metade do século XVIII, impôs uma cultura de racismo discriminatória e mortal. Do cruzamento de brancos e aborígenes, tantas vezes extraconjugal, nasceram milhares de crianças mulatas, condenadas à morte e à alienação. E à semelhança do que aconteceu noutros pontos do mundo, verificou-se um significativo decréscimo da população nativa australiana; o que acabou por transformar, de forma drástica, a identidade secular do país. Perdeu-se o misticismo, que Luhrmann recupera religiosamente:

Aboriginal and Torres Strait Islander viewers should exercise caution when watching this film as it may contain images and voices of deceased persons.

Assim adverte, ainda antes de se iniciarem os créditos. Não é por acaso, pois, que o argumento tem como narrador o pequeno Nullah (Brandon Walters, quão luminosa revelação).

My grandfather, King George, he tave me a walkabout. Teach me black fella way. Grandfather teach me most important lesson of all. Tell'em a story.

Mais do que uma vasta terra de cangurus e jacarés, barões de gado e chefes guerreiros, a Austrália de Luhrmann é um país de crianças mulatas cruelmente retiradas às famílias, como se não tivessem raízes ou como se não fossem gente. São as gerações roubadas, que só em 2008 receberam o formal pedido de desculpas por parte do governo (como o filme faz questão de frisar, no final).

See, i not black fella. I not white fella, either. Them white fellas call me mix blood. Half-caste. Creamy. I belong no one. (...) King George say them white fellas bad spirit. Must be taken from this land.

Com uma ambiciosa visão épica, Luhrmann concretiza um emocionante e arrebatador romance de aventuras, onde a comédia, o drama e a tragédia correm - sempre - lado a lado, num deslumbrante entretenimento familiar. Da história étnica e familiar de Nullah e do avô King George (David Gulpilil), à paixão primeiramente hilariante e desconcertante e depois vibrante e envolvente entre a aristocrata Sarah Ashley (Nicole Kidman) e o vaqueiro Drover (magnífico desempenho de Hugh Jackman), da travessia das intermináveis manadas pela paisagem (piscar de olhos às travessias d'O Rio Vermelho, de Hawks) às explosões japonesas no eclodir da 2ª Grande Guerra em Darwin, Austrália revela-se um produto claramente competente e acima da média; para um espectador mais exigente, contudo, a enorme manta de retalhos que o argumento constitui, entre as mais variadas influências, referências e lugares comuns e como não poderia deixar de ser, acaba por resultar numa experiência decepcionante. Crikey! (...) Welcome to Australia!

Digo como não poderia deixar de ser porque Austrália tinha tudo para ser um clássico à altura de um E Tudo o Vento Levou, ou seja: um acontecimento deveras marcante e impressionante: em primeiro lugar, porque tinha grandes nomes da indústria à frente do projecto. Em seguida, um orçamento assaz generoso. O que é que falha, em Austrália? Não falharão, certamente, um sem número de qualidades técnicas: banda sonora (David Hirschfelder), som (vasta equipa de talentosos técnicos), guarda-roupa (Catherine Martin) ou direcção artística (novamente Catherine Martin, Ian Gracie, Karen Murphy, Beverley Dunn)... o filme revela-se exímio em todos eles. À primeira vista, o que falha é a fotografia, ainda que não na sua plenitude. Mandy Walker faz um trabalho de excelência; porém, a enorme carga de CGI com que foi tratada grande parte dos planos captados, descredibiliza a paisagem, corrompe a autenticidade do filme e reclama uma artificialidade à beleza daquilo que vemos absolutamente desnecessária e indesejável.

Depois, é evidente, o argumento tem as suas falhas. Aparte a falta de originalidade da história - quantas vezes já não a vimos - o filme tem os seus devaneios criativos, os seus excessos e outra coisa não seria de esperar; afinal, estamos perante um filme de Luhrmann e as suas marcas autorais mantêm-se, por mais pop que sejam. Porém, impõe-se uma questão: até que ponto é que esses excessos ficam bem e se enquadram no registo específico deste género de filme? Bem conheço e admiro o traço autoral do realizador, mas tenho de reconhecer que nestes contornos épicos (por mais multifacetados que eles sejam, no campo do western nomeadamente) o traço não cai bem, não assenta como desejado. Há uma mescla de registos que, na intenção de formular uma identidade autoral, cai no mais puro autismo, destruindo qualquer hipótese de identidade. É por isso que Austrália falha as suas intenções de reinvenção, fazendo-as soar a colagens ridículas e desinteressantes, que se sucedem umas às outras sem que haja um fio condutor forte, sólido e coerente. O traço assenta na perfeição no ritmo frenético e tresloucado de Moulin Rouge, mas não aqui. Por exemplo: o final, com o bombardeamento de Darwin, como que nos decalca Pearl Harbor da memória, por sua vez decalcado de Tora! Tora! Tora!, numa construção e montagem caóticas e despachadas. Qual era, pois, a necessidade de incorporar este ataque na história do filme? Entendo a sua inclusão numa lógica dramática, porém surge-nos aqui forçada, não desenhando propriamente uma nova linguagem, um novo terreno criativo, antes denunciando o clichê. A travessia do gado já tinha sido feita. A história podia acabar ali. Não precisávamos de assistir a um filme já visto.

Apenas o espírito de sonhar e de acreditar de O Feiticeiro de Oz, ciclicamente motivado pelo tema Somewhere Over the Rainbow, me parece triunfar verdadeiramente nesta panóplia de homenagens. Afinal, There's no place like home e é a casa que Nullah regressa, simbolica e literalmente. Dentro do elenco principal, só o durão Hugh Jackman (e, à sua medida, o jovem Brandon Walters) superaram o teste da construção das personagens, sem cairem no ridículo das caricaturas habituais de Luhrmann; note-se Kidman, note-se David Wenham. Não imagino, aliás, nenhum outro actor no papel de Drover - nem sequer Crowe, cujo talento tanto aprecio e que durante tanto tempo esteve ligado ao projecto.

Concluindo, gostei do filme, mas Austrália não é tão momumental como se esperava, como se propunha a ser e como poderia ter sido, efectivamente. É somente um bom filme, que assegura o entretenimento com assaz eficácia e que tão-pouco envergonha o realizador e todos quantos estiveram envolvidos no projecto. No seu candor especial, enaltece uma homenagem maior a todos os nativos, dando-lhes voz e perspectiva na grande tela mágica e marcando a justiça sobre a imoralidade dos homens: just because it is, doesn't mean it should be.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Ciclo «Músicas Eternas»

Desta vez, o CINEROAD - A Estrada do Cinema propicia a todos os seus leitores e visitantes um complemento musical à leitura das suas publicações, com algumas das mais emblemáticas bandas sonoras de todos os tempos.

Esta experiência teve uma duração limitada.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

MOULIN ROUGE! (2001)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Moulin Rouge!
Realização: Baz Luhrmann

Principais Actores: Nicole Kidman, Ewan McGregor, John Leguizamo, Jim Broadbent, Richard Roxburgh, Garry McDonald, Jacek Koman, Matthew Whittet, Kerry Walker, Caroline O'Connor, Christine Anu, David Wenham, Kylie Minogue, Ozzy Osbourne, Deobia Oparei

Crítica:

AMOR EM VERMELHO

Come what may, I will love you until my dying day.

O burburinho da plateia. O maestro. As enormes e imponentes cortinas vermelhas, debruadas a ouro. O sinal, o primeiro som - o pano sobe.

Paris, 1900. Surge o postal ilustrado, a preto e branco ou criteriosamente tratado a cores, num esplendor absoluto (Donald McAlpine, num trabalho deslumbrante). Nele, uma cidade boémia, repleta de bêbedos e de prostitutas, de vagabundos e de libertinos, de pintores e de escritores e de... idealistas. The Children of Revolution. A bandeira: Liberdade, Beleza, Verdade e, sobre todas as coisas, o Amor. Love is a many splendored thing. Love lifts us up where we belong. All you need is love! O Amor... a avassaladora paixão que é capaz de enfrentar tudo e todos. Uma certeza - não é fácil fazer mais um filme sobre o Amor. Milhares de filmes trataram o sentimento, banalizando-o completamente. Moulin Rouge!, um filme sobre o Amor? Lamechas, acusá-lo-ão sempre, todos aqueles que não toleram a insaciável fonte dos românticos. Always this ridiculous obsession with love!, gritarão ferozmente, que nem o pai de Christian. A obra de Baz Luhrmann tem a resposta para todos eles: não importa que se conte mais uma história de Amor, ainda para mais bigger than life, como é o caso. O que importa é cantar o Amor e cantá-lo para sempre, uma e outra e outra vez. The greatest thing you'll ever learn is just to love and be loved in return. O Amor é o grande ideal, eternamente inspirador. And that's a fact.

Vamos à história. There was a boy, a very strange enchanted boy... Christian. Recém-chegado a Paris, não é senão um jovem inocente e cheio de sonhos. Sonha tornar-se um escritor conhecido e apaixonar-se, sonha viver a vida ao máximo. E o destino fá-lo encontrar o Amor, o maior Amor de todos.

Never knew I could feel like this.
Like I've never seen the sky before.
Want to vanish inside your kiss,
every day I'm loving you more and more.

Listen to my heart, can you hear it sing?
Come back to me - and forgive everything!
Seasons may change, winter to spring...
I love you... 'til the end of time.

Porém, quis o destino que o poeta se apaixonasse por uma cortesã, no centro da vida boémia de Paris, no mítico Moulin Rouge. Never fall in love with a woman who sells herself. It always ends bad. (...) We are creatures of the underworld. We can't afford to love. Quis o destino, o mesmo que o elevou da terra ao céu, que a sua história de amor sofresse um desfecho profundamente trágico; desfecho esse, aliás, que nos é desde logo revelado, dolorosamente dactilografado na máquina de escrever:

The Moulin Rouge. A night club, a dance hall and a bordello. Ruled over by Harold Zidler. A kingdom of night time pleasures. Where the rich and powerful came to play with the young and beautiful creatures of the underworld. The most beautiful of these was the one I loved. Satine. A courtesan. She sold her love to men. They called her the "Sparkling Diamond", and she was the star... of the Moulin rouge. The woman I loved is... dead.

A tuberculose, que ainda durante o século XX ceifava vidas como o diabo, a grande responsável pela morte de Satine.

Uma das mais notáveis qualidades de Moulin Rouge! creio ser a multiplicidade de registos que o argumento assume e a facilidade com que transita de uns para os outros, com uma intensidade rasgada em todos eles. Temos momentos de uma tragédia desoladora e, noutro extremo, instantes da mais hilariante comédia. Para assegurar o riso, uma panóplia de personagens secundárias absolutamente memorável: um anão tagarela com um nome que, escrito em altura, sem dúvida rivalizaria com a Torre Eiffel: Henri Marie Raymond Toulouse-Lautrec Montfa. Um argentino de voz grossa, tarado sexual nos tempos livres e narcoléptico a tempo - quase - inteiro e ainda mais uns tantos viciados em absinto que, numa ronda de álcool e cantoria, acabarão sempre por alucinar com a mais sexy das fadinhas verdes: Kylie Minogue, numa participação especial.

Depois das hélices do moinho, o anfitrião é Harold Zidler (Jim Broadbent, numa interpretação genuinamente sublime e brilhante). Dentro da sua afamada sala de negócio, como o próprio diria: we can cancan. Yes we can cancan! O pop irrompe pela multidão, o cenário arrojado (Catherine Martin, Annie Beauchamp, Ian Gracie e Brigitte Broch) acolhe um cast de bailarinos e figurantes completamente frenético e louco. O ritmo é mais do que acelerado, é vertiginoso, é estonteante. A prodigiosa montagem de Jill Bilcock marca o compasso, com uma cadência e execução perfeitas. Desfila o guarda-roupa (Catherine Martin e Angus Strathie), riquíssimo em detalhe. Saias de mil cores, folhos, roupa interior. Lábios, pernas, apalpões. Sensualidade, provocação. Audácia e delírio. As coreografias sucedem-se, as músicas também. Rewind. Revisitamos uma época, mas flui uma excitante sonoridade contemporânea. Lady Marmelade. Quando a música pára, um rasto cintilante se anuncia das alturas. Baz Lhurmann faz de Nicole Kidman uma autêntica diva. A estrela desce solenemente do firmamento, num baloiço iluminado com encanto:

The French are glad to die for love.
They delight in fighting duels.
But I prefer a man who lives...
and gives expensive... jewels.

(...) A kiss on the hand may be, quite continental,but diamonds are a girls best friend!
A kiss may be grand but it,

won't pay the rental on your humble flat,

or help you feed your mmhm pussycat!


Men grow cold as girls grow old,

and we all loose our charms in the end...

But square-cut or pear-shaped,

these rocks don't loose their shape;
Diamonds are a girl's best friend!

As piscadelas de olho às grandes referências do cinema musical são inúmeras. De Música no Coração, Serenata à Chuva e Mary Poppins a Os Homens Preferem as Loiras, A Roda da Fortuna, Gigi, Um Americano Em Paris ou até mesmo a Cabaret. Mas as alusões, mais ou menos directas, a outros clássicos não-musicais são também frequentes: recordo, com especial apreço, Le Voyage dans la Lune e Nosferatu, O Vampiro. A torre do Duque (Richard Roxburgh) - onde acontece uma das mais cómicas e burlescas sequências musicais da obra, ao som da inesperada versão de Like a Virgin, de Madonna - tem toda ela uma atmosfera gótica e draculeana; passe o neologismo. Para além de Madonna, muitos outros artistas do século XX viram os seus maiores sucessos incluídos entre as faixas desta sensacional banda sonora, entre eles Christina Aguilera, Lil' Kim, Mia, Pink, Beck, Fatboy Slim, Valeria, Nirvana, Elton John e o admirável David Bowie. A tocante composição original, essa, é da autoria de Craig Armstrong.

Com a tão-pouco-musical personagem de Roxburgh - quem viu o filme sabe perfeitamente a que me refiro - a história de Amor entre o poeta e a sua musa torna-se proibida e o triângulo amoroso ganha forma. O malvado ricaço afiançar-se-á às escrituras do bordel e de tudo fará para disfrutar da esplendorosa Satine. She is mine:

Why should the courtesan chose the penniless sitar player over the maharajah who is offering her a lifetime of security? That's real love. Once the sitar player has satisfied his lust he will leave her with nothing. I suggest that the courtesan chose the maharajah.

Sobre o imponente Elefante do Amor, duas das mais fascinantes e mágicas sequências do filme - a paixão entre Christian e Satine floresce nas alturas, entoando surpreendentes e inspirados medleys: All You Need Is Love, One More Night, Pride (In The Name Of Love), etc., que é como quem diz... The Beatles, Phil Collins e U2... Algures no entreacto, entre a costura, The Show Must Go On, verdadeiramente arrepiante e, mais perto do final, o poderosíssimo e extasiante Tango de Roxanne, com a fantástica e rouca voz de Jacek Koman. Magnífico. Enfim, tantas cenas emblemáticas e eternas num só filme...

Às tantas, Zidler profere: Outside things may be tragic, but in here we feel its magic. E esta poder ser, perfeitamente, uma das grandes máximas do musical - assistir a um tem efectivamente a ver com magia, com fantasia, com todo um universo alternativo onde o real e o inverosímil se cruzam e confluem, segundo a natureza e o cânone próprios do género. As leis do musical são conhecidas à partida. No musical, o que importa é a emoção e o profundo sentido de espectáculo, de entretenimento. Nesse sentido, pois, aquilo que Baz Luhrmann faz com Moulin Rouge! é não só genial e visionário como inteiramente revolucionário: a magnificent, opulent, tremendous, stupendous, gargantuan, bedazzlement, a sensual ravishment, como o próprio Zidler diria. Uma operática e alucinante apoteose de sensações, uma excêntrica e exuberante produção artística, um acontecimento histórico do mais elevado requinte, spectacular, spectacular. Uma irreverente, electrizante e arrebatadora experiência cinematográfica, capaz de redefinir o género, aproximando-o do grande público e das mais novas gerações que o menosprezavam. Uma obra-prima.

Days turned into weeks, weeks turned into months. And then, one not-so-very special day, I went to my typewriter, I sat down, and I wrote our story. A story about a time, a story about a place, a story about the people. But above all things, a story about love. A love that will live forever.

O pano cai. Ouve-se o aplauso. The End.

EXPIAÇÃO (2007)

Leia a crítica ao filme Expiação, aqui!
CINEROAD ©2020 de Roberto Simões