sexta-feira, 5 de novembro de 2010

«As Escolhas dos 20» #3

20 Escolhidos revelam 5 escolhas que definem a 7ª Arte.

Escolhido #3 - Jorge P.,
autor do blogue O Puto (Bebe)

O filme de Terror por excelência :Shining (1980), de Stanley Kubrick

O melhor Drama de todos os tempos:Voando Sobre Um Ninho de Cucos (1975), de Milos Forman

O Western que define o género:Aconteceu no Oeste (1968), de Sergio Leone

O expoente máximo do Cinema Oriental:Dolls (2002), de Takeshi Kitano

O filme que define os últimos 3 anos de cinema:Gran Torino (2008), de Clint Eastwood

Agradecimentos especiais: Jorge P.

Quem será o Escolhido #4? E quais serão as suas Escolhas? Brevemente.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

«As Escolhas dos 20» #2

20 Escolhidos revelam 5 escolhas que definem a 7ª Arte.

Escolhido #2 - Pedro Emanuel Cabeleira,
autor do blogue Estúpido Maestro

O Biopic dos Biopics:Haverá Sangue (2007), de Paul Thomas Anderson

O maior Romance de todos os tempos:Morrer em Las Vegas (1995), de Mike Figgis

O Drama que define o género:Ladrões de Bicicletas (1948), de Vittorio De Sica

O filme que define os últimos três anos de cinema:Em Bruges (2008), de Martin McDonagh

A Comédia por excelência:Pulp Fiction (1994), de Quentin Tarantino

Agradecimentos especiais: Pedro Emanuel Cabeleira

Quem será o Escolhido #3? E quais serão as suas Escolhas?

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A RAINHA (2006)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: The Queen
Realização: Stephen Frears
Principais Actores: Helen Mirren, Michael Sheen, James Cromwell, Alex Jennings, Helen McCrory, Sylvia Syms, Roger Allam, Tim McMullan

Crítica: Com mais ou menos especulação, A RAINHA constitui um interessantíssimo retrato/reconstituição histórico/a. Helen Mirren e Michael Sheen estão magníficos nos seus papéis. É a este retrato portentoso que se deve a pontuação atribuída. No entanto, e em cinema, dificilmente atribuiria uma pontuação superior. As palavras de João Lopes a respeito deste filme tendem a concluir perfeitamente o meu raciocínio: 'É um retrato linear (...) um pouco como se estivéssemos a observar a política e os políticos no interior de um telejornal ligeiramente ficcionado (...) A RAINHA tem muito pouco de cinema – em boa verdade, estamos perante um vulgaríssimo telefilme, como muitas dezenas que as televisões britânicas todos os anos produzem'*. Eu talvez só não o adjectivasse como «vulgaríssimo».

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*Consulte-se a ficha do filme em http://www.cinema2000.pt/ficha.php3?id=5884

Estreia: «As Escolhas dos 20»

20 Escolhidos revelam 5 escolhas que definem a 7ª Arte.

Escolhido #1 - André Marques, autor do blogue Blockbusters

O filme que define os últimos três anos de cinema:Avatar (2009), de James Cameron

O maior Romance de todos os tempos:
Titanic (1997), de James Cameron

O Musical que define o género:
Moulin Rouge (2001), de Baz Luhrmann

O Biopic dos Biopics:
Ray (2004), de Taylor Hackford

O filme de Ficção-Científica por excelência:
Alien - O 8º Passageiro (1979), de Ridley Scott

Agradecimentos especiais: André Marques

Quem será o Escolhido #2? E quais serão as suas Escolhas?

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O CASTELO NO CÉU (1986)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Tenkû no shiro Rapyuta
Realização: Hayao Miyazaki

Filme de Animação


Crítica:

A CIDADE FLUTUANTE


O mundo antigo, o paraíso perdido, o sonho e a fantasia de voar. A lenda, o mito e a mais bela história de encantar, de quando os Homens abandonaram os céus e povoaram a terra. A cidade e o campo, a indústria e a natureza, o choque e os perigos da evolução civilizacional. A importância de estabelecer um equilíbrio, onde o progresso seja guardião da essência natural das coisas. A importância do amor, dos sentimentos e dos valores, numa realidade de ódio, rancor e intolerância. A necessidade de escape e de evasão dos problemas mundanos para um universo fantástico. A experiência e a descoberta da vida, num ritual fundamental de crescimento e amadurecimento. A busca da identidade e a humanização do espírito.

Máquinas voadoras, hélices, rodas e engrenagens, barulho e fumos e, por outro lado, extensos prados verdejantes e floridos, águas cintilantes e cristalinas, ventos mansos e silêncios. Tudo isto povoa o imaginário de O Castelo no Céu. Pazu é um menino feito homem: órfão, vive da ajuda dos amigos e do trabalho árduo nas minas. Não é um escravo do trabalho. É, antes, um engenhoso rapaz que
cedo provou as dificuldades da vida e da miséria e que conhece perfeitamente o peso e a recompensa das responsabilidades. Um dia, cai-lhe do céu uma menina flutuante, iluminada por poderoso e iluminado cristal azulado. A menina dorme, aparentemente em paz, mas o prólogo que antecedeu os créditos iniciais bem que nos deu conta do contexto conflituoso que lhe provocou a queda.

A pequena, de seu nome Sheeta,
é - sem saber - a princesa Lusheeta Toel Ul Laputa, herdeira do fabuloso rochedo. Detém uma raríssima Pedra da Levitação, preciosidade de um mineral ancestral chamado Etério, que a avó lhe dera antes de abandonar o mundo dos vivos e que é a única pista para descobrir o paradeiro da misteriosa ilha, suspensa na imensidão dos céus (a intertextualidade com a obra de Jonathan Swift, As Viagens de Gulliver é obvia. Outras fontes de inspiração são assumidas, como Júlio Verne ou a Bíblia). Por isso é perseguida pelos piratas de Dola e pelos oficiais de Muska, que a todo o custo querem saquear os tesouros da fortaleza errante. Pazu, por sua vez, carrega os sonhos do pai, aviador, que afirmara ter avistado um dia Laputa, sem que ninguém tivesse acreditado nele.

A emocionante e envolvente música de Joe Hisaishi seduz-nos e inebria-nos numa viagem sem igual, numa mágica e extraordinária aventura. Sem limites. A exuberância visual da animação tradicional de Miyazaki deslumbra-nos
. A história faz de nós, espectadores, verdadeiros reféns, vibrando ao sabor da acção desenfreada ou rindo, genuinamente, com as hilariantes personagens que compõem a riqueza plural da narrativa. No final, toda a ambição do Homem conduz à destruição. Robots e gigantes objectos voadores engolem os seus destinos. Quando as ruínas de uma imponente e esplendorosa arquitectura vacilam, a árvore persiste e resiste. A imagem detém uma carga simbólica imensa, que fala por si só.

O Castelo no Céu não é, pois, senão um dos mais maravilhosos e imprescindíveis filmes de Hayao Miyazaki. De um candor etéreo e puro e de uma beleza desarmante, que - certamente - fascinará miúdos e graúdos, gerações após gerações. A mim, conquistou-me por completo e atrevo-me a dizer que é um dos melhores filmes de animação de todos os tempos.

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Louvável, a recente Colecção Estúdio Ghibli que a LNK empreendeu.
Lamentável, no entanto, que a legendagem se faça a partir da dobragem em inglês, que nem sempre coincide com o idioma original japonês que vigora no DVD. Ou seja, são frequentes as legendas que aparecem magicamente no ecrã, sem correspondência sonora.

A LISTA DE SCHINDLER (1993)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: The Schindler's List
Realização: Steven Spielberg

Principais Actores: Liam Neeson, Ben Kingsley, Ralph Fiennes, Caroline Goodall, Jonathan Sagall, Embeth Davidtz, Malgoscha Gebel, Shmulik Levy, Mark Ivanir, Béatrice Macola, Andrzej Seweryn, Friedrich von Thun

Crítica:
O INFERNO NA TERRA


Whoever saves one life, saves the world entire.

Em 1933, a subida ao poder de Adolf Hitler instalaria - na Alemanha e nos seus sonhos de império - uma verdadeira ditadura de terror. O egoísmo e o racismo, o ódio e a intolerância, amplamente potenciados por uma arbitrariedade fanática e doentia, extreminariam - sem dó nem piedade - gerações inteiras de vidas humanas, tantas delas inocentes e alheias ao conflito. O Holocausto Nazi protagonizou, tão-somente, um dos mais negros, monstruosos e vergonhosos capítulos da História, identificando, discriminando, separando, concentrando e por fim dizimando polacos, eslavos e soviéticos, deficientes, homossexuais e dissidentes políticos e, entre tantos outros, milhões de judeus.


Today is history. Today will be remembered. Years from now the young will ask with wonder about this day. Today is history and you are part of it. Six hundred years ago when elsewhere they were footing the blame for the Black Death, Casimir the Great - so called - told the Jews they could come to Krakow. They came. They trundled their belongings into the city. They settled. They took hold. They prospered in business, science, education, the arts. With nothing they came and with nothing they flourished. For six centuries there has been a Jewish Krakow. By this evening those six centuries will be a rumor. They never happened. Today is history.
Amon Goeth

A Lista de Schindler é uma homenagem primeira a todas essas vítimas. É um daqueles raros casos em que a arte se aproxima, com manifesta autenticidade, da captação da realidade, condenando o passado e perpetuando a memória e a esperança rumo ao futuro. Note-se a coda: as notas de Williams e a cor de Kaminski fazem a ponte entre os dois tempos, sobre a qual caminhará a salvação, grata e honrada pela sobrevivência dos pais e avós. Depois, é claro, é uma homenagem ao herói e empresário alemão, o homem que salvou 1200 trabalhadores judeus dos horrores das câmaras de gás, dos campos de trabalho e dos fuzilamentos imediatos.

Amon Goeth: You want these people?
Oskar Schindler: These people. My people. I want my people.
Amon Goeth: Who are you? Moses?

Contudo, é sobretudo uma obra de arte e uma representação da realidade, não um pedaço de História ou um
documentário, por mais que as técnicas de filmagem imprimam realismo, nos intervalos do mais imaculado e refulgente preto e branco; e isso jamais deverá ser esquecido. A Lista de Schindler é uma obra de arte.

Quem foi Oskar Schindler? O retrato, que Steven Spielberg tão inspiradamente concretiza, traça-lhe um perfil enigmático. O protagonista é apresentado entre o luxo e pompa de um jantar: flui
o tango, as bailarinas, os cantores e a sucessão de flashes, note-se o refinado brio da direcção artística (Allan Starski, Ewa Braun) ou a aprimorada mise en scène, não só notável como irrepreensível. Com uma elegância ímpar, um braço estende a nota ao garçon. O Oskar Schindler de Liam Neeson é em tudo brilhante. Cravado ao peito, pode ostentar um distintivo do Partido Nazi, mas a sua atitude transcenderá a sua própria aparência: o seu sorriso misterioso e o seu olhar sedutor encobrem um homem tremendamente lúcido do seu poder, da sua influência e da sua humanidade.

The unconditional surrender of Germany has just been announced. At midnight tonight, the war is over. Tomorrow you'll begin the process of looking for survivors of your families. In most cases... you won't find them. After six long years of murder, victims are being mourned throughout the world. We've survived. Many of you have come up to me and thanked me. Thank yourselves. Thank your fearless Stern, and others among you who worried about you and faced death at every moment. I am a member of the Nazi Party. I'm a munitions manufacturer. I'm a profiteer of slave labor. I am... a criminal. At midnight, you'll be free and I'll be hunted. I shall remain with you until five minutes after midnight, after which time - and I hope you'll forgive me - I have to flee.
(...)
I know you have received orders from our commandant, which he has received from his superiors, to dispose of the population of this camp. Now would be the time to do it. Here they are; they're all here. This is your opportunity. Or, you could leave, and return to your families as men instead of murderers.
(...)
In memory of the countless victims among your people, I ask us to observe three minutes of silence.
Oskar Schindler

Com a ajuda do arguto e perspicaz contabilista Itzhak Stern (Ben Kingsley, num admirável underacting), Schindler começará a recrutar para a sua fábrica de tachos e panelas toda uma lista de trabalhadores, que lhe ficará eternamente agradecida. My father was fond of saying you need three things in life - a good doctor, a forgiving priest, and a clever accountant. Só o hilariante e tão bem montado casting das secretárias ficará a cargo do próprio Herr Direktor.


Itzhak Stern: By law I have to tell you, sir, I'm a Jew.
Oskar Schindler: Well, I'm a German, so there we are.


Itzhak Stern: Let me understand. They put up all the money. I do all the work. What, if you don't mind my asking, would you do?
Oskar Schindler: I'd make sure it's known the company's in business. I'd see that it had a certain panache. That's what I'm good at. Not the work, not the work... the presentation.

Oskar Schindler: In every business I tried, I can see now, it wasn't me that failed. Something was missing. Even if I'd known what it was, there's nothing I could have done about it because you can't create this thing. And it makes all the difference in the world between success and failure.
Emilie Schindler: Luck?
Oskar Schindler: War.

Ainda que não o pudesse assumir, para não ser exposto, a sua arrogante ganância tinha uma natureza profundamente ambígua e irónica. E é esse o enigma que vamos descodificando ao longo do filme. Porque razão aceitaria Schindler, por exemplo, um deficiente de um braço só, seleccionado por Stern, como trabalhador da sua indústria? Não daria tal admissão demasiado nas vistas? Schindler defenderá sempre os seus trabalhadores, mesmo frente às maiores autoridades, desculpando-se com o argumento de que são uma fundamental e imprescindível fonte de rendimento.

This list... is an absolute good. The list is life.
All around its margins lies the gulf.
Itzhak Stern

A montagem de Michael Kahn, mítico na sua relação com Spielberg, faz a alternância entre Herr Direktor Schindler e Herr Kommandant das SS Amon Goeth (Ralph Finnes, numa assombrosa interpretação), durante o acto de barbear, e contrapõe duas personalidades muito sui generis. Dois modelos completamente diferentes de alemão. Ambos são figuras poderosas e ambos se diferenciam tão radicalmente nas suas atitudes e comportamentos, naquilo que tão bem ou tão mal fazem com o poder que detêm. O primeiro salva vidas. O segundo extermina-as.

Oskar Schindler: Power is when we have every justification to kill, and we don't.
Amon Goeth: You think that's power?
Oskar Schindler: That's what the Emperor said. A man steals something, he's brought in before the Emperor, he throws himself down on the ground. He begs for his life, he knows he's going to die. And the Emperor... pardons him. This worthless man, he lets him go.
Amon Goeth: I think you are drunk.
Oskar Schindler: That's power, Amon. That is power.

Um corte abrupto da acção contrapõe a vida extremamente prazerosa dos militantes alemães com a marcha viril de dezenas de soldados sobre as ruas da humilhação. Constantemente deportados, só com o Blauschein tinham a possibilidade de, por tempo indeterminado, trabalharem. Só pelo Blauschein se distinguiam os trabalhadores essenciais dos (considerados) inúteis. Os restantes estavam todos condenados:


Not essential? I think you misunderstand the meaning of the word. I teach history and literature, since when it's not essential?
Chaim Nowak


Aquando da extradição para o ghetto, desfilam os figurinos (excelente trabalho de Anna Sheppard). Uma criança alemã injuria, cruel: Goodbye jews! Goodbye jews! Deste modo, é-nos dado o verdadeiro e terrível contexto da história. Sempre que escapamos à diegese principal, somos chamados a conhecer a experiência traumática dos secundários e figurantes, a fome, as doenças, os sapatos, os óculos, as pratas e as fotografias, os relógios e os dentes... que se amontuam por entre suspiros apavorados e abafados.

Daqui em diante, A Lista de Schindler torna-se progressivamente mais revoltante e repugnante para qualquer espectador com coração. A tragédia e o drama precipitam-se para o terror e os nossos olhos assistem, incrédulos, no mais valioso e inconsciente conforto. Pactuando com as atrocidades, a banda sonora realça o carácter lúdico e simultaneamente mórbido daquela brincadeira de vísceras e sangue; não admira, pois, que o filme se torne, não só forte como indigesto. E a extraordinária carga simbólica daquela menina de vermelho, que às tantas floresce do cinzento e percorre as ruas sem alento, é simplesmente genial. De uma sublimidade inquestionável. Pela manipulação do sistema cromático se atingiu um dos momentos maiores da História do Cinema. Creio que em poucas ocasiões se foi capaz de dizer tanto com tão pouco.

Com a destruição do ghetto, a obra atinge níveis de violência arrepiantes. Não há clemência. E daí ao fumo negro dos campos, onde rastejam esqueléticos cadáveres arquejantes... O filme é frio, é negro, é real. E tamanha consciência de realidade parte-nos o coração e envergonha-nos. Mesmo que não sejamos responsáveis. O final, ao som da tocante partitura de John Williams, faz-nos ter orgulho nas centelhas de humanidade que, tão fragilmente, se acendem e apagam no Inferno. Só uma réstea bem acalorada pode fazer a diferença, se alimentar a chama de um mundo melhor. A redenção existe, mas não é para todos.

There will be generations because of what you did.
Itzhak Stern

Uma curiosidade: Schindler's Ark, o título do romance original de Thomas Keneally, no qual se baseou o magnífico argumento de Steven Zaillian, estabelecia um paralelismo directo com a imagem bíblica da Arca da Aliança, que assegurou o futuro para as mais variadas espécies terrestres, aquando do grande dilúvio.


Conclusões: A Lista de Schindler é muito mais do que três horas de longa duração, como muitos criticam. É uma obra-prima incontestável, de uma enorme maturidade e de uma perfeição arrebatadora. Magistral, na arte de filmar. Uma grande reflexão sobre a humanidade e sobre o Holocausto Nazi. Um monumento. A Lista de Schindler é, enfim, Spielberg no seu melhor. Spielberg, o génio.

ANTICRISTO (2009)

Leia a crítica ao filme Anticristo, aqui!

PRINCESA MONONOKE (1997)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Mononoke-hime
Realização: Hayao Miyazaki

Filme de Animação


Crítica:

A NATUREZA, O HOMEM E A MÍSTICA HARMONIA


Sítios mágicos, criaturas falantes, espíritos inquietos, histórias incríveis. Princesa Mononoke não é senão uma dessas extraordinárias criações do mestre Hayao Miyazaki, concebida com assaz sensibilidade e passada nesse rico e fascinante universo de fantasia. Visualmente deslumbrante e encantatória, a história da rapariga que vive entre os lobos e que defende a floresta da destrutiva ambição dos humanos da Cidade do Ferro é também uma aventura épica, de contornos violentos e manchados de sangue. Uma narrativa complexa, metafórica e imersa em símbolos que vem provar que a animação é muito mais do que mero entretenimento para crianças. É a arte do belo, ao nível das mais conceituadas expressões cinematográficas.

Quando o jovem Ashitaka, defendendo o seu povo, é amaldiçoado de morte por um demónio estrangeiro, vê-se no dever de seguir os desígnios da vidente da aldeia e abandonar os Emishi para sempre, procurando a cura nos confins do desconhecido, num Japão onde confluem mitos e referências medievais. Os destinos do rapaz conduzem-no até Tataraba, a Cidade do Ferro, governada por Eboshi - uma mulher tão aplicada na defesa dos seus protegidos (leprosos e refugiadas de bordéis, nomeadamente) como na exploração dos recursos da floresta, para impulsionar a indústria da cidade. Uma mulher, aliás, como qualquer uma das personagens da obra: de natureza ambígua, de natureza humana, longe de maniqueísmos redutores. Ninguém é, portanto, totalmente bom ou totalmente mau. Quando Ashitaka conhece San, a princesa Mononoke, desenvolve para com ela uma enorme cumplicidade: afinal, ela representa a coexistência ideal entre o Homem e a Natureza. Sem nunca tomar uma das posições contrárias, antes lutando pelas duas naquilo que elas têm de melhor, Ashitaka ver-se-á no meio de uma guerra de interesses entre as gentes de Tataraba, os samurais do imperador e os deuses do bosque (sejam eles javalis, lobos ou espíritos mágicos).

A mensagem ecológica subjacente é importantíssima. A alegoria traça o esboço de uma espécie capaz de dizimar os seus recursos naturais, os habitats de inúmeras espécies (vegetais e animais) e que acabará por sofrer a derradeira vingança da Natureza. Desse prisma, Princesa Mononoke é uma viagem espiritual. Um profundo e emocionante reencontro com os nossos valores primordiais, de paz e respeito para com o ambiente circundante - pulmão e coração da Terra e essência da nossa vida.

Detentora de banda sonora magnífica (Joe Hisaishi), de uma fotografia sublime (Atsushi Okui) e de uma montagem notável (Hayao Miyazaki e Takeshi Seyama), Princesa Mononoke irradia esplendor na perfeição do seu desenho e no detalhe da sua pintura. Um clássico instantâneo, magistralmente filmado, emocionalmente poderoso.

A BELA ADORMECIDA (1959)

Comente o filme A Bela Adormecida, aqui!

PONYO À BEIRA-MAR (2008)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Gake no ue no Ponyo
Realização: Hayao Miyazaki

Filme de Animação


Crítica:

A MENINA DO MAR

A vida é misteriosa e maravilhosa
- diz Lisa, a mãe de Sosuke - e assim é a animação de Hayao Miyazaki.
Ponyo à Beira-Mar é um autêntico delírio visual - mais um, cheio de cores e magia, misturando com extraordinária imaginação e criatividade universos tão distintos como o real e o imaginário. Num tom mais infantil, o japonês revisita valores clássicos como a beleza, a pureza, a inocência, a bondade e o amor num filme absolutamente refrescante na sua filmografia.

A obra abre, ainda antes dos créditos iniciais, com uma sequência de slumbrante e quase inebriante nas profundezas do oceano. Depois, até ao final, somos envolvidos num mundo fabuloso e irresistível, imerso em mitologias e superstições, à deriva em sonhos, mas a salvo em humanidade. Não devemos julgar os outros pelo aspecto. A minha cena favorita é aquela em que o Sosuke e a mãe comunicam com o pai em alto mar, por meio da luz cintilante. É tão bonita, tão tocante... E é claro, outras tantas inesquecíveis como aquela em que a jovem se transforma em humana e corre as águas e os peixes, ou aqueloutra em que a Deusa do Mar aparece entre o luar e brilhos dourados, na surreal agitação das ondas.

A narrativa é linear e mais simples do que noutros títulos do autor, é certo, mas n ão é por isso que abandona, por completo, o carácter metafórico e ambíguo que é habitual. O filme conta com uma grande componente auto-biográfica (Sosuke representa, por exemplo, o filho do próprio realizador e a velha rezingona Toki a sua mãe), com alegorias e significados muito pessoais, e ainda com a crítica à poluição dos mares e à caça abusiva: por outras palavras, os excessos do Homem e as suas destrutivas consequências para a Natureza - Os seres humanos são nojentos! - tópico aliás recorrente, note-se a obra Princesa Mononoke. Implícita está ainda a capacidade de a Natureza, ela própria, se vingar pelas catástrofes e procurar, desse modo, o equilíbrio primordial.

Quando as cheias devastam a cidade portuária e Sosuke e Ponyo partem à proc ura da mãe do rapaz naquele barco enfeitiçado, há um confronto com a morte, atenuado pela poesia da animação. Aquela bolha no fundo do mar, que acolheu a gente do lar de idosos, não é senão uma metáfora do Paraíso. Quando, fugindo à maldição de Fujimoto, Sosuke cai nos braços da velhota da cadeira de rodas, dá-se o encontro simbólico entre o filho e a mãe de Miyazaki, entre o ser-se velho e ser-se criança: o estado priveligiado do próprio Miyazaki, capaz de abraçar a morte, na poesia do adeus, e de atingir, pela arte, a imortalidade.

Naquela bolha marítima, há milagres e magia e tudo é possível... É possivel transcender a morte, ultrapassar os desígnios naturais que uma intempérie daquelas causaria. É possível regressar à superfície, onde o amor triunfará. Na arte tudo é possível. Não há limites. E assim é o cinema de Miyazaki. Enquanto crianças, poderemos ficar-nos sempre pela simplicidade de uma primeira leitura. E, da mesma forma, perder-nos-emos na fantasia... e na infinitude dos sonhos.

Irrepreensível no desenho e na pintura e dotado ainda de uma magnífica e cristalina banda sonora (Joe Hisaishi), eis, pois, um filme totalmente delicioso.

CINEROAD ©2020 de Roberto Simões