Crítica:
O HOMEM E O MITO
We are most alone when we are with the myths.
All men reach and fall... reach and fall... - disserta o velho Ptolomeu (Anthony Hopkins), ao narrar a história de Alexandre ao escriba Cadmos, na Grande Biblioteca de Alexandria, Egipto, quarenta anos após a morte do lendário rei. Ptolomeu acompanhou, desde cedo, as campanhas de Alexandre pelo norte de África, pela Ásia... até à Índia. Viveu de perto aquele mito vivo:
I've known many great men in my life, but only one colossus. (...)
He was a god, Cadmos, or as close as anything I've ever seen.
Na verdade, a infância de Alexandre foi profundamente marcada pelos clássicos de Homero e pela mitologia grega. A cena da Gruta dos Mitos, com o seu pai Filipe (Val Kilmer, excepcional), rei da Macedónia e de um só olho, é toda ela um autêntico compêndio mitológico que estabelece um paralelo muito próximo com a própria existência de Alexandre. Primeiro, Filipe eleva a tocha na escuridão e ilumina a gravura de Aquiles.
He could've had a long life, but there would be no glory. Alexandre já conhecia, desde o berço, a história do bravo herói do assalto a Tróia:
He's my favorite. (...) He loved Patroclus, and avenged his death. (...) He lived without fear. Afinal, Olímpia, sua mãe, acreditava descender do sangue real de Aquiles. Desde que o seu querido filho nascera que o tratava por:
my little Achilles. Depois, seguiu-se Prometeu, titã filho de Jápeto, aquele que roubou o segredo do fogo e o deu ao Homem. Zeus ficou tão zangado que o amarrou a uma pedra, no Grande Cáucaso. Todos os dias a águia divina lhe debicava o fígado, mas todos os dias o órgão se regenerava para ser debicado no dia seguinte. A tocha aclareou, de imediato, a imagem de Édipo, que furou os olhos ao descobrir que matou o pai e que desposou a mãe. Em seguida, Medeia, que matou os dois filhos por vingança quando Jasão a trocou por uma mulher mais nova. Alexandre jamais admitiria que a mãe fosse capaz de tamanha monstruosidade. Porém, Filipe adverte-o:
It's never easy to escape our mothers, Alexander. All your life beware of women. They're far more dangerous than men. Por fim, Héracles, que mesmo após ter completado os doze trabalhos, se viu punido pela loucura e dizimou a descendência. Aquiles, Prometeu, Édipo, Medeia, Héracles. As cinco figuras mitológicas apresentadas nesta cena metaforizam a história de Alexandre, nas suas mais variadas relações com os seus próximos, e traçam-lhe um autêntico roteiro psicanalítico. Nesta cena, é o pai quem o aconselha e prepara para o futuro:
A king isn't born, Alexander, he is made. By steel and by suffering. A king must know how to hurt those he loves. It's lonely. Ask anyone. Ask Heracles. Ask any of them. Fate is cruel. No man or woman can be too powerful or too beautiful without disaster befalling. They laugh when you rise too high. And they crush everything you've built with a whim. What glory they give in the end, they take away. They make of us slaves.
Contudo, é a mãe Olímpia, fiel devota do deus grego Dioniso, a pessoa mais próxima de todas, a pessoa em quem ele mais confia. E ela e Filipe odeiam-se. Alexandre sabe-o perfeitamente. Aliás, vive neste ambiente de rivalidade entre pai e mãe desde que se lembra. Numa das primeiras cenas do filme, Alexandre assiste a uma fortíssima discussão entre o pai bêbedo e irado e a mãe, sempre rodeada de serpentes e sedenta de vingança:
In my womb I carried my avenger! Também ela o aconselha, seduzindo-o para os seus planos:
Why won't you ever believe me? Philip did not want you! You had a condition of the breathing and he wanted to leave you in the mountains for the birds to peck out your eyes!
You are everything Phillip was not. He was coarse, you are refined. He was a general, you are a king. He could not rule himself. And you shall rule the world.
Beware most of all of those closest to you. They are like snakes, and can be turned. (...) in you, the son of Zeus, lies the light of the world. Your companions will be shadows in the underworld when you are a name living forever in history as the most glorious, shining light of youth. Forever young, forever inspiring. Never will there be an Alexander like you, Alexander the Great.
O equilíbrio, Alexandre encontra-o na educação que os seus perceptores lhe dão, tanto nas lutas corpo a corpo como no cultivo da mente. Aristóteles foi seu mentor. Ensinou-lhe geografia, história, lendas e mitos, ensinou-lhe sabedoria, moderação e sensatez. Mas desde novo que ansiava por se equiparar os heróis lendários, quiçá ultrapassá-los. Expandir o reino e criar um império até à Índia, por onde viajaram Héracles e Dioniso, Teseu, Jasão e Aquiles, todos eles vitoriosos, unindo todos os povos.
The East has a way of swallowing men and their dreams, but still to think it's these myths that lead us toward the greatest glory... (...) Beware of what you dream - for the gods have a way of punishing such pride - alerta-o o grande mestre. Aristóteles fala-lhe também do verdadeiro potencial do amor entre os homens:
When men lie in lust it is a surrender to the passions and it does nothing to the excellence in us. (...) But when men lie together and knowledge and virtue are passed between them, that is pure and excellent. When they compete to bring out the good, best in each other, this is the love between men that can build a city state and lift us from our frog pond.
Qual Aquiles e Pátroclo, também o amor entre Alexandre e Hefaísto será determinante para os sucessos do futuro imperador.
It was said later that Alexander was never defeated in his lifetime, except by Hephaistion's thighs - remata Ptolomeu, na narração, com saudável humor. De louvar a bravura de Oliver Stone no retrato despudorado da pansexualidade de Alexandre.
Com o assassinato de Filipe (Oliver Stone deixa no ar a possibilidade de ter sido Olímpia a arquitectar a fatal conspiração, receosa de que os bastardos viessem um dia a assumir o trono), Alexandre é proclamado rei da Macedónia.
The king lives! Alexander, son of Phillip! May the gods bless Alexander! Alexander is king! Os seus ideiais têm finalmente oportunidade para se expandirem; Édipo. Alexandre reúne então um exército de quarenta mil soldados treinados e avança para a invasão da Pérsia, planeada desde o tempo de seu pai. Marcha até ao Egipto, sempre vencedor, onde é proclamado faraó. Com apenas vinte e um anos, o Oráculo de Siwa aclama-o declara-o o verdadeiro filho de Zeus. Alexandre esteve para Zeus como Jesus para Deus. Não dá que pensar na incomensurável importância da sua figura na altura?
Em Gaugamela, o exército de Alexandre defrontou duzentos e cinquenta mil bárbaros, liderados pelo Dário III da Pérsia. Digo-vos, muito sinceramente: está ainda para nascer, na História do Cinema, uma cena de batalha simultaneamente tão complexa, tão massiva e impressionante como aquela que tão genialmente Oliver Stone criou.
Conquer your fear, and I promise you, you will conquer death! Da grandiloquência de Alexandre, avançamos, praticamente sem diálogos, para o fulgor da guerra. Setas, lanças, espadas, escudos, cavalos, camelos, carros. Força, pujança, espectáculo. A câmera, como ninguém, lidera a narrativa, plena de ousadia, avançando e esvoaçando sobre a refrega. Tomar o ponto de vista da águia, que desde os primeiros tempos anuncia a glória de Alexandre, é qualquer coisa de extraordinário. Há planos aéreos milagrosos, em muito graças às infinitas possibilidades dos efeitos digitais. Há
slow motion, há ritmo frenético e avassalador, em toda a encenação. As estratégias das cargas desenham-se em imagens belíssimas, magnificamente fotografadas por Rodrigo Prieto e com uma paleta de cores notável. A batalha é dourada, empoeirada pelas areias do deserto, enobrecida pelo vermelho do sangue e de algum figurino. Todo o trabalho de montagem (Yann Hervé, Gladys Joujou, Alex Marquez e Thomas J. Nordberg) e de orquestração dos efeitos sonoros é verdadeiramente incrível. E a banda sonora de Vangelis, por Zeus!, é uma das maravilhas maiores do Cinema! Genial, genial, genial. Que triunfo monumental. Por fim, a chacina revela-se vantajosa.
Fortune favours the bold. Alexandre opta por ajudar o flanco de Parménio e deixa Dário escapar, mas antes disso profere aos céus:
You can run till the ends of the earth, you coward! But you'll never run far enough!

Após o confronto, Alexandre chora entre os feridos.
All greatness comes from loss. A águia alimenta-se das vísceras dos cadáveres. Um
flashback lembra a gravura de Prometeu, na Gruta dos Mitos.
A entrada na exótica e deslumbrante cidade da Babilónia é inteiramente gloriosa. Alexandre é recebido por milhares e milhares e sente-se amado por todos. Introdu-lo na exuberância e beleza transcendentais daquele autêntico paraíso um onírico e celestial tema de Vangelis. Abundam os jardins, os haréns, os animais raros, o luxo e as cores vivas. O guarda-roupa (Jenny Beavan) assume-se prodigiosamente faustoso. A direcção artística, audaz, concebe um trabalho megalómano, da elegância do
design arquitectónico (Jan Roelfs) aos mais ínfimos pormenores da decoração (Jim Erickson). Alexandre jamais se impõe. Antes, coexiste, rendendo-se às maravilhas do mundo novo e ambicionando uma cultura global. Tamanho visionário, tão à frente do seu tempo.
Alexandre:
Look at those we've conquered. They leave their dead unburied, they smash their enemies skulls and drink them as dust, they mate in public! How can they think, or sing, or write when none can read? But as Alexander's army they could go where they never thought possible. They can soldier, or work in the cities. From the Alexandrias, from Egypt to the outer ocean. We could connect these lands, Hephaistion. And the people.
Hefaísto:
Some say these Alexandrias have become extensions of Alexander himself. They draw people into the cities so as to make slaves.
Alexandre:
But we've freed them, Hephaistion, from the Persias, where everyone lived as slaves! To free the people of the world!
No terraço do Grande Palácio, contemplando a noite sobre as luzes da cidade em festa, Alexandre e Hefaísto trocam juras de amor:
Alexandre:
All I know is I trust only you in this world. I've missed you. I need you. It is you I love, Hephaistion. No other.
Hefaísto:
You still hold you head cocked like that.
Alexandre: [
rindo-se]
I have to stop that.
Hefaísto:
No, like a dear listening in the wind you strike me still, Alexander. You have eyes like no other. I sound as stupid as a school boy, but you're everything I care for. And by the sweet breath of Aphrodite I'm so jealous of losing you to this world you want so badly.
Alexandre:
You'll never lose me, Hephaistion. I'll be with you always. 'Til the end.
Nas cartas que recebe, Olímpia planta o seu veneno ou a sua preocupação de mãe. Frase atrás de frase, previne-o dos invejosos conspiradores e dos possíveis traidores. Alerta-o para a necessidade de voltar ao seu reino. Mas Alexandre segue o seu sonho. Durante três anos, a campanha avança para nordeste. Dário é encontrado morto, envenenado. Numa das suas muitas paragens, conhece uma sensual e perigosa dançarina, sem relevância política: Roxana (Rosario Dawson).
If only you were not a pale reflection of my mother's heart. Um comandante bactriano adverte-o:
those who love too much lose everything. Those who love with irony... last. E, na verdade, esta é uma frase nuclear para perceber a decisão futura de Alexandre: a de desposar a asiática, arreliando os patriotas macedónios. O seu amor verdadeiro era para com Hefaísto, sabemo-lo, mas só um amor mascarado com a estrangeira poderia garantir-lhe um herdeiro, a união das tribos e a consolidação do império. E o casamento acontece. Como símbolo do grande amor sentido entre os dois, Hefaísto dá-lhe o anel que Alexandre ternamente usará até ao seu leito de morte.
I'll be with you always. 'Til the end.
Aos poucos, porém, a divisão entre as tropas começa a fazer-se sentir. Roxana não dá à luz nenhum herdeiro, os principais cabecilhas e conselheiros do rei revelam outros interesses. Uma conspiração partilhada entre Parménio e o filho Filotas quase que envenena sua majestade. Alexandre manda executá-los. Depois de não resistir à tentação da carne com Bagoas, o dançarino enfeminado, a viagem continua. Chegam a Hindu Kush, o Cáucaso das Índias. E prosseguem em frente, descendo os declives nevados e penetrando, por fim, nas densas florestas da Índia, onde macaquinhos povoam as árvores e intensas chuvadas regam a terra durante sessenta dias e sessenta noites.

Numa estadia merecida, banhada em música, dança e álcool, o ambiente é marcadamente tenso. Exaustos e desejosos por voltar aos lares, às mulheres, filhos e netos que nunca conheceram, a discordância à flor da pele assume-se em palavras quentes e ofensivas:
Cleitus:
How can you, so young, compare yourself to Heracles?
Alexandre:
Why not? I've achieved more in my years. Traveled as far. Probably farther.
Cleitus:
Heracles did it by himself! Did you conquer Asia by yourself, Alexander? I mean, who planned the Asian invasion when you were still being spanked on your bottom by my sister? Was it not your father? Or is his blood no longer good enough?
Alexandre:
You insult me, Cleitus. You mock my family, be careful.
Cleitus:
Never would your father take barbarians as friends or ask us to fight with them as equals in war. Are we not good enough any longer? I remember a time when we could talk as men, strait to the eye, none of this scraping and groveling. I remember a time when we hunted, when we wrestled on the gymnasium floor. And now you kiss them? Take a barbarian, childless wife, and dare call her Queen?
Alexandre: [
profundamente insultado]
Go quickly, Cleitus, before you ruin your life.
Cleitus:
Doesn't your great pride fear the gods any longer? This army's your blood, boy! Without it you're nothing!
Alexandre:
You no longer serve the purpose of this march! Get him from my sight! (...) Arrest him for treason! Who's with him? I call father Zeus to witness! I call you to trial before him! And we'll see how deep this conspiracy cuts!
(...)
Cleitus:
Now look at you! Great Alexander! Hiding behind his guards! Are you too great to remember whose life was saved by me? I am more man than you'll ever be! (...)
What a tyrant you are! Evil tyrant you've become, Alexander. You speak about plots against you? What about poor Parmenion? He served you well! Look how you repaid him! Have you no shame?
Alexandre:
You ungrateful wretch! No one, not my finest enemy has spoken like you to me!
Hefaísto bem que tenta acalmar o amado, mas já é tarde demais. Alexandre crava uma lança no ventre de Cleitus, com as suas próprias mãos, e precipita-se, num ímpeto de ira, a tragédia. Depois desse episódio, Alexandre fica doente durante dias. Só Hefaísto o consola:
Hefaísto:
You know better than any great deeds are donned by men who took, and never regretted. You're Alexander! Pity and grief will only destroy you.
Alexandre:
Have I become so arrogant that I am blind?
Hefaísto:
Sometimes to expect the best from everyone is arrogance.
Alexandre:
Then it's true. I have become a tyrant!
Hefaísto:
No! But perhaps a stranger. We've come too far. They don't understand you anymore.
The world is yours. Take it! A cena do discurso - quando os exércitos, completamente desmoralizados e indignados, ameaçam o motim, é arrebatadora. Aquela retórica e aquela devoção total ao sonho e à causa... Que visceral desempenho de Colin Farrell. Que líder, Alexandre foi. Oliver Stone filma a cena magistralmente. Dá-se a revolta, mas Alexandre, de pulso firme, dizima os adversários.
Men of Macedon, we're going home. Mas primeiro, a conquista da Índia.

A sangrenta batalha final, entre as florestas da Índia, é absolutamente colossal e arrepiante. A última carga sobre os elefantes, tão genialmente filmada - plena de coragem, loucura e ferocidade - e sua dimensão operática, convocada pela assombrosa composição de Vangelis, concretizam uma derradeira apoteose. O frente-a-frente entre Bucéfalo e o elefante, sem efeitos especiais, e no qual o cavalo avança vários passos - sem medo - é... de nos deixar sem palavras. E para terminar a sequência, mais um golpe de génio: os tons de vermelho-carmim assumem a acção e o esplendor da imagem, numa passagem poética, simbólica e sublime.
Seis anos passados no Oriente, Alexandre e as suas tropas regressam à Babilónia. Todavia,
fate is cruel. No man or woman can be too powerful or too beautiful without disaster befalling. Hefaísto é envenenado e sucumbe. A sua despedida é a mais dolorosa de todas. Sem amor, Alexandre é tomado pela loucura, consumido pela agonia e entrega-se à morte, bebendo o cálice amaldiçoado. Hoje, sabemo-lo, também conquistou a eternidade.
The truth is never simple and yet it is. The truth is we did kill him. By silence we consented... because we couldn't go on. (...) I never believe in his dream. None of us did. That's the truth of his life. The dreamers exhaust us. They must die before they kill us with their blasted dreams.
Ptolomeu
O grande defeito do filme prende-se tão-somente com o argumento que, apesar de tão bem escrito, tem uma estruturação... bizarra. São lamentáveis, todos aqueles avanços e recuos na narrativa, até Gaugamela, ou a inclusão forçada do episódio do regicídio na Índia, após a morte de Cleitus. Não fossem essas opções incompreensíveis e estaríamos perante um clássico absoluto, ao qual não hesitaria em atribuir a pontuação máxima.