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sexta-feira, 3 de abril de 2009

As Crónicas de Calcifer (3) - O Oráculo de UM SONHO ENCANTADO

Conhecem-me por filósofo. Desconhecem-me como astrólogo. Hoje é o dia em que conhecerão, pois, outros lados da minha viva e rebelde chama! Pois é, caros amigos... Hoje vou falar-vos de THE FALL ou de UM SONHO ENCANTADO. Mas de uma perspectiva nunca dantes falada. Sabe-se já que levou 4 anos a ser filmada, esta obra, e em 18 países ou mais. Tarsem é o realizador, sabe-se também. Sabe-se que o seu ano de produção é 2006, que estreou nos United States em Maio de 2008 e quem em Portugal... nunca chegou a estrear. Não há problema!!! Há os DVDs e os Blu-Rays! Ah pois, já me esquecia... só sairam por cá em edições de aluguer. Não há data para serem lançados no mercado, na venda ao público. Ah ah ah, eu vi o filme! eu vi o filme!

Não corram para os clubes de vídeo, o filme não vale nada. Tem umas imagens razoáveis, uma história simples. Mas, no geral, é fraquíssimo. Aliás, não havia de ser por acaso que aquele David Fincher se havia de associar ao projecto.

Vamos lá falar a verdade. Vamos lá ler as estrelas e lançar na mesa as cartas do destino:
Amigos, NUNCA SE VIU NADA ASSIM. THE FALL ou UM SONHO ENCANTADO é uma obra-prima genial e perfeita. É um daqueles feitos concretizados por génios, por homens, uma vez em muito tempo. THE FALL é mais do que um marco na história do cinema. É um marco na história da arte. Desde que há Homem. Chamem-me profeta, chamem-me mentiroso! Calcifer, a Faísca da Rebelião dos Aldrabões! Estão a ver um FIGHT CLUB? um THE FOUNTAIN? Aqueles filmes do éter, que só o Tempo os trará aos olhos do mundo? Pois bem, THE FALL é um desses filmes. É, numa palavra, perfeito. É um dos melhores filmes de sempre, no mais imperioso sentido da expressão, a constar obrigatoriamente nesses mesmos tops mundiais dos melhores filmes de todos os tempos.

Alguém disse que THE FALL é excelente, mas que tem uma história simples? Foi por que se deslumbraram pela excelente fotografia, pelo excelente guarda-roupa, pelos excelentes cenários e decorações. THE FALL é perfeito na banda sonora, nos efeitos especiais, no som, na encenação, nos desempenhos dos elenco e na realização. É perfeito! Não há volta a dar, Tarsem é um génio. Um nome que, assim que descoberto, constará em todos os manuais como um realizador genial, criador de uma obra especial, única, e sublime. Uma obra rara. Digo-vos, amigos, encontrarem-se com uma obra como THE FALL é a oportunidade de uma vida, uma experiência raríssima. Ver THE FALL é viver a perfeição de UM SONHO ENCANTADO.

E porquê? Porque THE FALL é isso tudo, até uma sublime homenagem ao cinema, só que não tem uma história simples. É o poema maior, na palavra, na imagem e no som. Todos eles se aliam na criação da alegoria suprema. É ESSE O TRUQUE: THE FALL é um filme alegórico. Se dizem que THE FALL tem uma história simples, poderão referir-se aos sermões de António Vieira como histórias simples. Amigos, não! Tudo o que está no filme é um símbolo, esconde A outra história. Cada palavra ou imagem é a chave para o outro campo de significação. Aquele que não está perante os nossos olhos, claramente. Ou pensam que o outro se chama Darwin por acaso? e que só há acasos? UM SONHO ENCANTADO é a História do Homem, a Odisseia do Homem, a Evolução do Homem, a Evolução da Sua Sociedade, no caminho para a derradeira Queda, a que estamos todos sujeitos: a Morte.

Não me esqueço e a minha força até que se alenta quando recordo:
Roy Walker: What's that?
Alexandria: Food.
Querem crítica maior à Religião? Vão dizer que a pobre Alexandria atirava laranjas aos padres por acaso.
E vão dizer que Otta Benga não é a sinédoque de toda a escravatura e símbolo da sua abolição e liberdade? Mystic, sinédoque das civilizações indígenas destruídas pelos descobridores (arda a árvore como símbolo dessa destruição.)? Ou o «explosive expert» sinédoque da guerra? O governador Odious tem esse nome por acaso? Esquecem-se que os heróis, sinédoques dos mais variados sentimentos humanos e seres humanos no tempo, vivem isolados até que as ideias de Darwin os libertam desse isolamento? Não reconhecerão as tantas, tantas e brilhantes metáforas desta belíssima e magnífica obra de Tarsem?

Digo, repito e direi as vezes que serão necessárias: É perfeito! É o filme de uma vida. Obrigado, Tarsem. Graças a ti, vivo agora entusiasmadamente. Deixa, não te preocupes, eles decobrirão a tua façanha. Venha o Tempo. E eu volterei com ele.

Para quem queira saber mais sobre Tarsem, este extraordinário homem, recomendo www.tarsem.org e... maravilhem-se!

AS CRÓNICAS DE CALIFER. A ironia, a sátira, o humor.
Nota: o conteúdo destas «Crónicas de Calcifer» não expressa, necessariamente, as opiniões e interesses do autor deste blog.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

THE FALL, segundo Carlos Duarte

O CINEROAD - A Estrada do Cinema inicia aqui uma parceria com vários críticos convidados, que de boa vontade aceitaram o convite de publicação das suas críticas sobre o filme...


THE FALL

Crítico Convidado: Carlos Duarte, autor do blog O Alto da Peúga
(http://oaltodapeuga.blogspot.com/)

Classificação: ***** - A não perder

Sinopse/Crítica: Às vezes pergunto-me como é possível que certos filmes não chegam a estrear-se nos cinemas. Num mundo vidrado e girado à volta da economia (o problema dos últimos tempos), como é que as distribuidoras portuguesas passaram ao lado de um título como The Fall, um excelente filme para ver numa sala de cinema? E a pergunta que se põe a seguir é porquê numa sala de cinema. Porquê? Porque concordo com aquela ideia de que um filme visto numa grande tela tem um maior impacto junto do espectador. E este teria, com toda a certeza.

Seis anos depois do seu filme de estreia A Cela (2000), com Jennifer Lopez, o realizador indiano Tarsem Singh presenteia-nos a sua grande obra até ao momento, The Fall, um projecto que levou quatro anos a ser concebido.

Inicio dos anos 20 do século XX. Alexandria e Roy são dois pacientes num hospital de Los Angeles que se encontram enfermos pela mesma razão: uma queda. Ela partiu um braço a apanhar laranjas e ele está paralisado da cintura para baixo por causa duma queda de cavalo. Um acidente de trabalho, já que Roy é duplo de cinema. Um simples acaso cruza estes dois seres e depressa se desenvolve uma empatia e uma amizade entre eles, graças a Roy, que começa a contar uma aventura épica a Alexandria. A imaginação da menina é tão intensa que rapidamente a realidade começa a ser confundida com a ficção.

Estamos perante um interessante exemplo cinematográfico de como é importante contar histórias. Mais interessante ainda é contar histórias dentro da história principal. Através da narração de Roy e da imaginação da pequena menina Alexandria vemos a narrativa avançar e a tomar formas, imagens, tal como nós quando lemos um livro e a nossa imaginação faz aparecer as imagens logo á nossa frente. Um pormenor curioso: Roy faz imensos intervalos, o que deixa Alexandria muito aborrecida, já que ele pára sempre na melhor parte. Existem duas significações possíveis, a meu ver, para tal acontecimento. Primeiro, para criar suspense, não desvendando logo muito, para tornar a história ainda mais cativante. Segundo, deixar o mundo da fantasia para voltar à realidade, à narrativa principal.

A aventura épica que está a ser narrada pelo duplo define desde logo a sua relação com a pequena menina. Uma amizade iniciada por culpa das suas enfermidades, que com o tempo e com o decorrer da história, se transforma num grande amor fraterno. A menina vê nele a figura paterna que já não tem e ele, que perdeu o grande amor da sua vida para outra pessoa devido ao seu estado de saúde, começa a perceber que tem ali alguém que gosta dele, que lhe quer bem e isso dá-lhe um novo sentido para vida. O espectador sente esta relação e consegue conectar-se com ela.

Para além da história, o filme destaca-se pela exuberância da sua fotografia e montagem.

Uma autêntica viagem pelo mundo. Diversos e diferentes locais duma enorme beleza paisagística e arquitectónica, ao qual não ficamos indiferentes. Parece que nos encontramos em locais mágicos, só possíveis nos nossos mais grandiosos sonhos. Planos deslumbrantes, quais telas pintadas, obras de arte duma rara beleza, criando atmosferas de fantasia e até uma estética própria. Um visual arrojado, cheio de cor e vida. Sublime é a palavra certa.

Existe também uma bela sequência de animação stop-motion (como em A Noiva Cadáver, de Tim Burton), que engrandece a diversidade estilística e artística do filme.

O filme é passado nos primórdios do cinema de Hollywood, anos 20. Cinema que ainda era mudo, mas que de mudo não tinha nada. Havia uma panóplia de sons que acompanhavam as imagens, como comprova a projecção cinematográfica final. Filme mudo com acompanhamento musical a violino. Percebe-se o fascínio vincado no rosto de Alexandria por aquelas imagens e em especial pelas acrobacias especiais do seu amigo Roy. Fascínio equiparável ao do pequeno Salvatore "Toto" Di Vita, em Cinema Paraíso (1988). Existem outras referências cinematográficas alusivas à história do cinema relativas às suas primeiras máquinas de projecção, os cinematógrafos. Por exemplo, numa das cenas iniciais, vemos um raio de luz solar que atravessa o buraco da fechadura duma porta e projecta uma imagem exterior na parede da sala. Um cavalo, ainda que invertido.

Contextualizado ainda mais, por essa altura, a Califórnia era já uma região de muito imigrantes, vindos de todos os cantos do planeta, especialmente para trabalharem nas vinhas e nos pomares de laranjeiras, duas das grandes produções agrícolas da zona.

The Fall é um filme que mostra a grande possibilidade fazer grandes trabalhos artísticos com uma bela e simples história. Porque o cinema ainda é fantasia, imaginação e é, sobretudo, magia. E é magia que faz falta nos filmes de hoje em dia. Magia.

Título: The Fall

Ano: 2006 (só estreou nos cinemas em 2008)

Realização: Tarsem Singh

Elenco: Lee Pace, Catinca Untaru, Justine Waddell, Daniel Caltagirone, Robin Smith, Jeetu Verma, Leo Bill e Marcus Wesley

Género: Fantasia, Aventura e Drama

País: Índia, Reino Unido e E.U.A.

Produção: Tarsem Singh, Ajit Singh e Tommy Turtle

Argumento: Dan Gilroy, Nico Soultanakis e Tarsem Singh, baseado no argumento de Valeri Petrov, do filme de 1981, Yo ho ho, de Zako Heskija

Música: Krishna Levy

Fotografia: Colin Watkinson

Montagem: Robert Duff

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Agradecimentos especiais a

Carlos Duarte

sexta-feira, 6 de março de 2009

THE FALL, segundo Álvaro Martins

THE FALL
Crítico Convidado: Álvaro Martins, autor do blog Preto e Branco
(http://alvaromartins.blogspot.com/)
sendo que também participa regularmente no blog Portal Cinema
(http://portalcinema.blogspot.com/)

Dois mundos, duas realidades, duas fantasias, esta é a essência de The Fall. O cineasta traz-nos uma história simples, onde um homem está hospitalizado por causa duma tentativa de suicídio e uma menina de 5 anos revê na sua figura a posição paternal que outrora teve e futuramente deseja. A sua conduta para com aquele indivíduo faz com que este se sinta de novo útil e, com o desejo da morte ainda bem presente em si, se aproveite desta criança que deseja insistentemente saber o fim duma história que este lhe vai contando para tentar de novo o suicídio. O real e o imaginário misturam-se nessa história e a dada altura os personagens e o destino destes desenvolve-se conforme a acção real.
Uma história, um conto, a realidade, a ficção, tudo se vai misturar nesta obra de Tarsem Singh e transportar-nos para um mundo mágico, imaginário e heróico. Não há muito para falar sobre esta obra, tem de ser obrigatoriamente vista pois não há palavras que a descrevam. Singh cria uma fábula mágica para nos falar de coragem, de amizade, de ilusão, de depressão, da morte, da ingenuidade infantil e de fantasia.


The Fall é um filme belo e fascinante que nos deixa a reflectir na nossa condição humana como resultado das acções realizados pelo Homem enquanto indivíduo numa sociedade recriminadora e sufocadora, ou seja, somos aquilo que fazemos de nós, somos nós que construímos o nosso destino e por muitas vicissitudes que nos sucedam, seja de que natureza for, é o Homem que tem (ou não) força psicológica para aguentar (ou não) e ultrapassar ou desistir dessas adversidades que o invadem.
Segundo filme de Tarsem Singh, que vem numa estética visual semelhante à sua primeira obra, The Cell, e que promete deixar a sua marca (ainda mais) no cinema.
Pena não ter ainda saído em DVD por cá em terras lusitanas.

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Agradecimentos especiais:
Álvaro Martins

quarta-feira, 4 de março de 2009

THE FALL, segundo João Bizarro

THE FALL

Crítico Convidado: João Bizarro, autor do blog Cantinho das Artes
(http://cantinhodasartes.blogspot.com/)

Classificação: 9/10

The Fall é um filme de uma beleza invulgar, quer a nível de imagem, quer a nível da história.
No inicio dos anos 20, numa altura que o cinema dava os primeiros passos, Alexandria e Roy são pacientes num hospital de Los Angeles. Ambos estão hospitalizados devido a uma queda. Roy é duplo de cinema, Alexandria, uma menina de 5 anos é filha de imigrantes que trabalham na apanha de laranja. Os dois conhecem-se e Roy começa a contar histórias a Alexandria, entre elas uma aventura épica de cinco heróis que juntam forças para derrubar um tirano. A fértil imaginação de Alexandria e o facto de Roy colocar personagens reais na história com o intuito de cativar a atenção da menina, faz com que esta por vezes confunda ficção com realidade e nós somos arrastados para estes dois mundos e damos por nós a ter as mesmas sensações que Alexandria tem quando por exemplo Roy faz uma das diversas interrupções da história ou quando é contra o desenrolar da mesma questionando várias vezes Roy sobre o porquê de certos acontecimentos.


Com o desenrolar destes encontros, Alexandria vai começar a ver em Roy a figura paternal que perdeu e Roy que foi deixado pela namorada devido à sua paralisia, vê na menina alguém que gosta dele como ele é.
O realizador Tarsem Singh (que tinha realizado o esquisito A Cela) transporta-nos pelos 4 cantos do mundo, com a história de Roy e a imaginação de Alexandria, no meio de paisagens magnificas e paradisíacas cheias de vida e cor. The Fall é uma experiência fascinante que merece uma (ou mais) visualização. Um filme sobre os primórdios do cinema, sobre aquilo que sentimos quando estamos a ler um livro ou a ver um filme.

Spike Jonze e David Fincher baptizam.

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Agradecimentos especiais:

João Bizarro

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

ALEXANDRE, O GRANDE (2004)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Alexander
Realização: Oliver Stone
Principais Actores: Colin Farrell, Val Kilmer, Anthony Hopkins, Jared Leto, Rosario Dawson, Angelina Jolie, Jonathan Rhys-Meyers, Rory McCann, Elliot Cowan, Joseph Morgan

Crítica:

O HOMEM E O MITO


We are most alone when we are with the myths.

All men reach and fall... reach and fall... - disserta o velho Ptolomeu (Anthony Hopkins), ao narrar a história de Alexandre ao escriba Cadmos, na Grande Biblioteca de Alexandria, Egipto, quarenta anos após a morte do lendário rei. Ptolomeu acompanhou, desde cedo, as campanhas de Alexandre pelo norte de África, pela Ásia... até à Índia. Viveu de perto aquele mito vivo: I've known many great men in my life, but only one colossus. (...) He was a god, Cadmos, or as close as anything I've ever seen.

Na verdade, a infância de Alexandre foi profundamente marcada pelos clássicos de Homero e pela mitologia grega. A cena da Gruta dos Mitos, com o seu pai Filipe (Val Kilmer, excepcional), rei da Macedónia e de um só olho, é toda ela um autêntico compêndio mitológico que estabelece um paralelo muito próximo com a própria existência de Alexandre. Primeiro, Filipe eleva a tocha na escuridão e ilumina a gravura de Aquiles. He could've had a long life, but there would be no glory. Alexandre já conhecia, desde o berço, a história do bravo herói do assalto a Tróia: He's my favorite. (...) He loved Patroclus, and avenged his death. (...) He lived without fear. Afinal, Olímpia, sua mãe, acreditava descender do sangue real de Aquiles. Desde que o seu querido filho nascera que o tratava por: my little Achilles. Depois, seguiu-se Prometeu, titã filho de Jápeto, aquele que roubou o segredo do fogo e o deu ao Homem. Zeus ficou tão zangado que o amarrou a uma pedra, no Grande Cáucaso. Todos os dias a águia divina lhe debicava o fígado, mas todos os dias o órgão se regenerava para ser debicado no dia seguinte. A tocha aclareou, de imediato, a imagem de Édipo, que furou os olhos ao descobrir que matou o pai e que desposou a mãe. Em seguida, Medeia, que matou os dois filhos por vingança quando Jasão a trocou por uma mulher mais nova. Alexandre jamais admitiria que a mãe fosse capaz de tamanha monstruosidade. Porém, Filipe adverte-o: It's never easy to escape our mothers, Alexander. All your life beware of women. They're far more dangerous than men. Por fim, Héracles, que mesmo após ter completado os doze trabalhos, se viu punido pela loucura e dizimou a descendência. Aquiles, Prometeu, Édipo, Medeia, Héracles. As cinco figuras mitológicas apresentadas nesta cena metaforizam a história de Alexandre, nas suas mais variadas relações com os seus próximos, e traçam-lhe um autêntico roteiro psicanalítico. Nesta cena, é o pai quem o aconselha e prepara para o futuro:

A king isn't born, Alexander, he is made. By steel and by suffering. A king must know how to hurt those he loves. It's lonely. Ask anyone. Ask Heracles. Ask any of them. Fate is cruel. No man or woman can be too powerful or too beautiful without disaster befalling. They laugh when you rise too high. And they crush everything you've built with a whim. What glory they give in the end, they take away. They make of us slaves.

Contudo, é a mãe Olímpia, fiel devota do deus grego Dioniso, a pessoa mais próxima de todas, a pessoa em quem ele mais confia. E ela e Filipe odeiam-se. Alexandre sabe-o perfeitamente. Aliás, vive neste ambiente de rivalidade entre pai e mãe desde que se lembra. Numa das primeiras cenas do filme, Alexandre assiste a uma fortíssima discussão entre o pai bêbedo e irado e a mãe, sempre rodeada de serpentes e sedenta de vingança: In my womb I carried my avenger! Também ela o aconselha, seduzindo-o para os seus planos:

Why won't you ever believe me? Philip did not want you! You had a condition of the breathing and he wanted to leave you in the mountains for the birds to peck out your eyes!
You are everything Phillip was not. He was coarse, you are refined. He was a general, you are a king. He could not rule himself. And you shall rule the world.

Beware most of all of those closest to you. They are like snakes, and can be turned. (...) in you, the son of Zeus, lies the light of the world. Your companions will be shadows in the underworld when you are a name living forever in history as the most glorious, shining light of youth. Forever young, forever inspiring. Never will there be an Alexander like you, Alexander the Great.


O equilíbrio, Alexandre encontra-o na educação que os seus perceptores lhe dão, tanto nas lutas corpo a corpo como no cultivo da mente. Aristóteles foi seu mentor. Ensinou-lhe geografia, história, lendas e mitos, ensinou-lhe sabedoria, moderação e sensatez. Mas desde novo que ansiava por se equiparar os heróis lendários, quiçá ultrapassá-los. Expandir o reino e criar um império até à Índia, por onde viajaram Héracles e Dioniso, Teseu, Jasão e Aquiles, todos eles vitoriosos, unindo todos os povos. The East has a way of swallowing men and their dreams, but still to think it's these myths that lead us toward the greatest glory... (...) Beware of what you dream - for the gods have a way of punishing such pride - alerta-o o grande mestre. Aristóteles fala-lhe também do verdadeiro potencial do amor entre os homens:

When men lie in lust it is a surrender to the passions and it does nothing to the excellence in us. (...) But when men lie together and knowledge and virtue are passed between them, that is pure and excellent. When they compete to bring out the good, best in each other, this is the love between men that can build a city state and lift us from our frog pond.

Qual Aquiles e Pátroclo, também o amor entre Alexandre e Hefaísto será determinante para os sucessos do futuro imperador. It was said later that Alexander was never defeated in his lifetime, except by Hephaistion's thighs - remata Ptolomeu, na narração, com saudável humor. De louvar a bravura de Oliver Stone no retrato despudorado da pansexualidade de Alexandre.

Com o assassinato de Filipe (Oliver Stone deixa no ar a possibilidade de ter sido Olímpia a arquitectar a fatal conspiração, receosa de que os bastardos viessem um dia a assumir o trono), Alexandre é proclamado rei da Macedónia. The king lives! Alexander, son of Phillip! May the gods bless Alexander! Alexander is king! Os seus ideiais têm finalmente oportunidade para se expandirem; Édipo. Alexandre reúne então um exército de quarenta mil soldados treinados e avança para a invasão da Pérsia, planeada desde o tempo de seu pai. Marcha até ao Egipto, sempre vencedor, onde é proclamado faraó. Com apenas vinte e um anos, o Oráculo de Siwa aclama-o declara-o o verdadeiro filho de Zeus. Alexandre esteve para Zeus como Jesus para Deus. Não dá que pensar na incomensurável importância da sua figura na altura?

Em Gaugamela, o exército de Alexandre defrontou duzentos e cinquenta mil bárbaros, liderados pelo Dário III da Pérsia. Digo-vos, muito sinceramente: está ainda para nascer, na História do Cinema, uma cena de batalha simultaneamente tão complexa, tão massiva e impressionante como aquela que tão genialmente Oliver Stone criou. Conquer your fear, and I promise you, you will conquer death! Da grandiloquência de Alexandre, avançamos, praticamente sem diálogos, para o fulgor da guerra. Setas, lanças, espadas, escudos, cavalos, camelos, carros. Força, pujança, espectáculo. A câmera, como ninguém, lidera a narrativa, plena de ousadia, avançando e esvoaçando sobre a refrega. Tomar o ponto de vista da águia, que desde os primeiros tempos anuncia a glória de Alexandre, é qualquer coisa de extraordinário. Há planos aéreos milagrosos, em muito graças às infinitas possibilidades dos efeitos digitais. Há slow motion, há ritmo frenético e avassalador, em toda a encenação. As estratégias das cargas desenham-se em imagens belíssimas, magnificamente fotografadas por Rodrigo Prieto e com uma paleta de cores notável. A batalha é dourada, empoeirada pelas areias do deserto, enobrecida pelo vermelho do sangue e de algum figurino. Todo o trabalho de montagem (Yann Hervé, Gladys Joujou, Alex Marquez e Thomas J. Nordberg) e de orquestração dos efeitos sonoros é verdadeiramente incrível. E a banda sonora de Vangelis, por Zeus!, é uma das maravilhas maiores do Cinema! Genial, genial, genial. Que triunfo monumental. Por fim, a chacina revela-se vantajosa. Fortune favours the bold. Alexandre opta por ajudar o flanco de Parménio e deixa Dário escapar, mas antes disso profere aos céus: You can run till the ends of the earth, you coward! But you'll never run far enough!


Após o confronto, Alexandre chora entre os feridos. All greatness comes from loss. A águia alimenta-se das vísceras dos cadáveres. Um flashback lembra a gravura de Prometeu, na Gruta dos Mitos.

A entrada na exótica e deslumbrante cidade da Babilónia é inteiramente gloriosa. Alexandre é recebido por milhares e milhares e sente-se amado por todos. Introdu-lo na exuberância e beleza transcendentais daquele autêntico paraíso um onírico e celestial tema de Vangelis. Abundam os jardins, os haréns, os animais raros, o luxo e as cores vivas. O guarda-roupa (Jenny Beavan) assume-se prodigiosamente faustoso. A direcção artística, audaz, concebe um trabalho megalómano, da elegância do design arquitectónico (Jan Roelfs) aos mais ínfimos pormenores da decoração (Jim Erickson). Alexandre jamais se impõe. Antes, coexiste, rendendo-se às maravilhas do mundo novo e ambicionando uma cultura global. Tamanho visionário, tão à frente do seu tempo.

Alexandre: Look at those we've conquered. They leave their dead unburied, they smash their enemies skulls and drink them as dust, they mate in public! How can they think, or sing, or write when none can read? But as Alexander's army they could go where they never thought possible. They can soldier, or work in the cities. From the Alexandrias, from Egypt to the outer ocean. We could connect these lands, Hephaistion. And the people.
Hefaísto: Some say these Alexandrias have become extensions of Alexander himself. They draw people into the cities so as to make slaves.
Alexandre
: But we've freed them, Hephaistion, from the Persias, where everyone lived as slaves! To free the people of the world!

No terraço do Grande Palácio, contemplando a noite sobre as luzes da cidade em festa, Alexandre e Hefaísto trocam juras de amor:

Alexandre: All I know is I trust only you in this world. I've missed you. I need you. It is you I love, Hephaistion. No other.
Hefaísto: You still hold you head cocked like that.
Alexandre: [rindo-se] I have to stop that.
Hefaísto: No, like a dear listening in the wind you strike me still, Alexander. You have eyes like no other. I sound as stupid as a school boy, but you're everything I care for. And by the sweet breath of Aphrodite I'm so jealous of losing you to this world you want so badly.
Alexandre: You'll never lose me, Hephaistion. I'll be with you always. 'Til the end.

Nas cartas que recebe, Olímpia planta o seu veneno ou a sua preocupação de mãe. Frase atrás de frase, previne-o dos invejosos conspiradores e dos possíveis traidores. Alerta-o para a necessidade de voltar ao seu reino. Mas Alexandre segue o seu sonho. Durante três anos, a campanha avança para nordeste. Dário é encontrado morto, envenenado. Numa das suas muitas paragens, conhece uma sensual e perigosa dançarina, sem relevância política: Roxana (Rosario Dawson). If only you were not a pale reflection of my mother's heart. Um comandante bactriano adverte-o: those who love too much lose everything. Those who love with irony... last. E, na verdade, esta é uma frase nuclear para perceber a decisão futura de Alexandre: a de desposar a asiática, arreliando os patriotas macedónios. O seu amor verdadeiro era para com Hefaísto, sabemo-lo, mas só um amor mascarado com a estrangeira poderia garantir-lhe um herdeiro, a união das tribos e a consolidação do império. E o casamento acontece. Como símbolo do grande amor sentido entre os dois, Hefaísto dá-lhe o anel que Alexandre ternamente usará até ao seu leito de morte. I'll be with you always. 'Til the end.

Aos poucos, porém, a divisão entre as tropas começa a fazer-se sentir. Roxana não dá à luz nenhum herdeiro, os principais cabecilhas e conselheiros do rei revelam outros interesses. Uma conspiração partilhada entre Parménio e o filho Filotas quase que envenena sua majestade. Alexandre manda executá-los. Depois de não resistir à tentação da carne com Bagoas, o dançarino enfeminado, a viagem continua. Chegam a Hindu Kush, o Cáucaso das Índias. E prosseguem em frente, descendo os declives nevados e penetrando, por fim, nas densas florestas da Índia, onde macaquinhos povoam as árvores e intensas chuvadas regam a terra durante sessenta dias e sessenta noites.


Numa estadia merecida, banhada em música, dança e álcool, o ambiente é marcadamente tenso. Exaustos e desejosos por voltar aos lares, às mulheres, filhos e netos que nunca conheceram, a discordância à flor da pele assume-se em palavras quentes e ofensivas:

Cleitus: How can you, so young, compare yourself to Heracles?
Alexandre: Why not? I've achieved more in my years. Traveled as far. Probably farther.
Cleitus: Heracles did it by himself! Did you conquer Asia by yourself, Alexander? I mean, who planned the Asian invasion when you were still being spanked on your bottom by my sister? Was it not your father? Or is his blood no longer good enough?
Alexandre: You insult me, Cleitus. You mock my family, be careful.
Cleitus: Never would your father take barbarians as friends or ask us to fight with them as equals in war. Are we not good enough any longer? I remember a time when we could talk as men, strait to the eye, none of this scraping and groveling. I remember a time when we hunted, when we wrestled on the gymnasium floor. And now you kiss them? Take a barbarian, childless wife, and dare call her Queen?
Alexandre: [profundamente insultado] Go quickly, Cleitus, before you ruin your life.
Cleitus: Doesn't your great pride fear the gods any longer? This army's your blood, boy! Without it you're nothing!
Alexandre: You no longer serve the purpose of this march! Get him from my sight! (...) Arrest him for treason! Who's with him? I call father Zeus to witness! I call you to trial before him! And we'll see how deep this conspiracy cuts!
(...)
Cleitus: Now look at you! Great Alexander! Hiding behind his guards! Are you too great to remember whose life was saved by me? I am more man than you'll ever be! (...) What a tyrant you are! Evil tyrant you've become, Alexander. You speak about plots against you? What about poor Parmenion? He served you well! Look how you repaid him! Have you no shame?
Alexandre: You ungrateful wretch! No one, not my finest enemy has spoken like you to me!

Hefaísto bem que tenta acalmar o amado, mas já é tarde demais. Alexandre crava uma lança no ventre de Cleitus, com as suas próprias mãos, e precipita-se, num ímpeto de ira, a tragédia. Depois desse episódio, Alexandre fica doente durante dias. Só Hefaísto o consola:

Hefaísto: You know better than any great deeds are donned by men who took, and never regretted. You're Alexander! Pity and grief will only destroy you.
Alexandre: Have I become so arrogant that I am blind?
Hefaísto: Sometimes to expect the best from everyone is arrogance.
Alexandre: Then it's true. I have become a tyrant!
Hefaísto: No! But perhaps a stranger. We've come too far. They don't understand you anymore.

The world is yours. Take it! A cena do discurso - quando os exércitos, completamente desmoralizados e indignados, ameaçam o motim, é arrebatadora. Aquela retórica e aquela devoção total ao sonho e à causa... Que visceral desempenho de Colin Farrell. Que líder, Alexandre foi. Oliver Stone filma a cena magistralmente. Dá-se a revolta, mas Alexandre, de pulso firme, dizima os adversários. Men of Macedon, we're going home. Mas primeiro, a conquista da Índia.


A sangrenta batalha final, entre as florestas da Índia, é absolutamente colossal e arrepiante. A última carga sobre os elefantes, tão genialmente filmada - plena de coragem, loucura e ferocidade - e sua dimensão operática, convocada pela assombrosa composição de Vangelis, concretizam uma derradeira apoteose. O frente-a-frente entre Bucéfalo e o elefante, sem efeitos especiais, e no qual o cavalo avança vários passos - sem medo - é... de nos deixar sem palavras. E para terminar a sequência, mais um golpe de génio: os tons de vermelho-carmim assumem a acção e o esplendor da imagem, numa passagem poética, simbólica e sublime.

Seis anos passados no Oriente, Alexandre e as suas tropas regressam à Babilónia. Todavia, fate is cruel. No man or woman can be too powerful or too beautiful without disaster befalling. Hefaísto é envenenado e sucumbe. A sua despedida é a mais dolorosa de todas. Sem amor, Alexandre é tomado pela loucura, consumido pela agonia e entrega-se à morte, bebendo o cálice amaldiçoado. Hoje, sabemo-lo, também conquistou a eternidade.

The truth is never simple and yet it is. The truth is we did kill him. By silence we consented... because we couldn't go on. (...) I never believe in his dream. None of us did. That's the truth of his life. The dreamers exhaust us. They must die before they kill us with their blasted dreams.
Ptolomeu

O grande defeito do filme prende-se tão-somente com o argumento que, apesar de tão bem escrito, tem uma estruturação... bizarra. São lamentáveis, todos aqueles avanços e recuos na narrativa, até Gaugamela, ou a inclusão forçada do episódio do regicídio na Índia, após a morte de Cleitus. Não fossem essas opções incompreensíveis e estaríamos perante um clássico absoluto, ao qual não hesitaria em atribuir a pontuação máxima.

Ainda assim, Alexandre, O Grande é um dos épicos mais poderosos e imponentes a que já assisti. Deveras apaixonante.

In the end, when it's over, all that matters is what you've done.

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Leitura complementar: Breves notas sobre ALEXANDER REVISITED

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

MOULIN ROUGE! (2001)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Moulin Rouge!
Realização: Baz Luhrmann

Principais Actores: Nicole Kidman, Ewan McGregor, John Leguizamo, Jim Broadbent, Richard Roxburgh, Garry McDonald, Jacek Koman, Matthew Whittet, Kerry Walker, Caroline O'Connor, Christine Anu, David Wenham, Kylie Minogue, Ozzy Osbourne, Deobia Oparei

Crítica:

AMOR EM VERMELHO

Come what may, I will love you until my dying day.

O burburinho da plateia. O maestro. As enormes e imponentes cortinas vermelhas, debruadas a ouro. O sinal, o primeiro som - o pano sobe.

Paris, 1900. Surge o postal ilustrado, a preto e branco ou criteriosamente tratado a cores, num esplendor absoluto (Donald McAlpine, num trabalho deslumbrante). Nele, uma cidade boémia, repleta de bêbedos e de prostitutas, de vagabundos e de libertinos, de pintores e de escritores e de... idealistas. The Children of Revolution. A bandeira: Liberdade, Beleza, Verdade e, sobre todas as coisas, o Amor. Love is a many splendored thing. Love lifts us up where we belong. All you need is love! O Amor... a avassaladora paixão que é capaz de enfrentar tudo e todos. Uma certeza - não é fácil fazer mais um filme sobre o Amor. Milhares de filmes trataram o sentimento, banalizando-o completamente. Moulin Rouge!, um filme sobre o Amor? Lamechas, acusá-lo-ão sempre, todos aqueles que não toleram a insaciável fonte dos românticos. Always this ridiculous obsession with love!, gritarão ferozmente, que nem o pai de Christian. A obra de Baz Luhrmann tem a resposta para todos eles: não importa que se conte mais uma história de Amor, ainda para mais bigger than life, como é o caso. O que importa é cantar o Amor e cantá-lo para sempre, uma e outra e outra vez. The greatest thing you'll ever learn is just to love and be loved in return. O Amor é o grande ideal, eternamente inspirador. And that's a fact.

Vamos à história. There was a boy, a very strange enchanted boy... Christian. Recém-chegado a Paris, não é senão um jovem inocente e cheio de sonhos. Sonha tornar-se um escritor conhecido e apaixonar-se, sonha viver a vida ao máximo. E o destino fá-lo encontrar o Amor, o maior Amor de todos.

Never knew I could feel like this.
Like I've never seen the sky before.
Want to vanish inside your kiss,
every day I'm loving you more and more.

Listen to my heart, can you hear it sing?
Come back to me - and forgive everything!
Seasons may change, winter to spring...
I love you... 'til the end of time.

Porém, quis o destino que o poeta se apaixonasse por uma cortesã, no centro da vida boémia de Paris, no mítico Moulin Rouge. Never fall in love with a woman who sells herself. It always ends bad. (...) We are creatures of the underworld. We can't afford to love. Quis o destino, o mesmo que o elevou da terra ao céu, que a sua história de amor sofresse um desfecho profundamente trágico; desfecho esse, aliás, que nos é desde logo revelado, dolorosamente dactilografado na máquina de escrever:

The Moulin Rouge. A night club, a dance hall and a bordello. Ruled over by Harold Zidler. A kingdom of night time pleasures. Where the rich and powerful came to play with the young and beautiful creatures of the underworld. The most beautiful of these was the one I loved. Satine. A courtesan. She sold her love to men. They called her the "Sparkling Diamond", and she was the star... of the Moulin rouge. The woman I loved is... dead.

A tuberculose, que ainda durante o século XX ceifava vidas como o diabo, a grande responsável pela morte de Satine.

Uma das mais notáveis qualidades de Moulin Rouge! creio ser a multiplicidade de registos que o argumento assume e a facilidade com que transita de uns para os outros, com uma intensidade rasgada em todos eles. Temos momentos de uma tragédia desoladora e, noutro extremo, instantes da mais hilariante comédia. Para assegurar o riso, uma panóplia de personagens secundárias absolutamente memorável: um anão tagarela com um nome que, escrito em altura, sem dúvida rivalizaria com a Torre Eiffel: Henri Marie Raymond Toulouse-Lautrec Montfa. Um argentino de voz grossa, tarado sexual nos tempos livres e narcoléptico a tempo - quase - inteiro e ainda mais uns tantos viciados em absinto que, numa ronda de álcool e cantoria, acabarão sempre por alucinar com a mais sexy das fadinhas verdes: Kylie Minogue, numa participação especial.

Depois das hélices do moinho, o anfitrião é Harold Zidler (Jim Broadbent, numa interpretação genuinamente sublime e brilhante). Dentro da sua afamada sala de negócio, como o próprio diria: we can cancan. Yes we can cancan! O pop irrompe pela multidão, o cenário arrojado (Catherine Martin, Annie Beauchamp, Ian Gracie e Brigitte Broch) acolhe um cast de bailarinos e figurantes completamente frenético e louco. O ritmo é mais do que acelerado, é vertiginoso, é estonteante. A prodigiosa montagem de Jill Bilcock marca o compasso, com uma cadência e execução perfeitas. Desfila o guarda-roupa (Catherine Martin e Angus Strathie), riquíssimo em detalhe. Saias de mil cores, folhos, roupa interior. Lábios, pernas, apalpões. Sensualidade, provocação. Audácia e delírio. As coreografias sucedem-se, as músicas também. Rewind. Revisitamos uma época, mas flui uma excitante sonoridade contemporânea. Lady Marmelade. Quando a música pára, um rasto cintilante se anuncia das alturas. Baz Lhurmann faz de Nicole Kidman uma autêntica diva. A estrela desce solenemente do firmamento, num baloiço iluminado com encanto:

The French are glad to die for love.
They delight in fighting duels.
But I prefer a man who lives...
and gives expensive... jewels.

(...) A kiss on the hand may be, quite continental,but diamonds are a girls best friend!
A kiss may be grand but it,

won't pay the rental on your humble flat,

or help you feed your mmhm pussycat!


Men grow cold as girls grow old,

and we all loose our charms in the end...

But square-cut or pear-shaped,

these rocks don't loose their shape;
Diamonds are a girl's best friend!

As piscadelas de olho às grandes referências do cinema musical são inúmeras. De Música no Coração, Serenata à Chuva e Mary Poppins a Os Homens Preferem as Loiras, A Roda da Fortuna, Gigi, Um Americano Em Paris ou até mesmo a Cabaret. Mas as alusões, mais ou menos directas, a outros clássicos não-musicais são também frequentes: recordo, com especial apreço, Le Voyage dans la Lune e Nosferatu, O Vampiro. A torre do Duque (Richard Roxburgh) - onde acontece uma das mais cómicas e burlescas sequências musicais da obra, ao som da inesperada versão de Like a Virgin, de Madonna - tem toda ela uma atmosfera gótica e draculeana; passe o neologismo. Para além de Madonna, muitos outros artistas do século XX viram os seus maiores sucessos incluídos entre as faixas desta sensacional banda sonora, entre eles Christina Aguilera, Lil' Kim, Mia, Pink, Beck, Fatboy Slim, Valeria, Nirvana, Elton John e o admirável David Bowie. A tocante composição original, essa, é da autoria de Craig Armstrong.

Com a tão-pouco-musical personagem de Roxburgh - quem viu o filme sabe perfeitamente a que me refiro - a história de Amor entre o poeta e a sua musa torna-se proibida e o triângulo amoroso ganha forma. O malvado ricaço afiançar-se-á às escrituras do bordel e de tudo fará para disfrutar da esplendorosa Satine. She is mine:

Why should the courtesan chose the penniless sitar player over the maharajah who is offering her a lifetime of security? That's real love. Once the sitar player has satisfied his lust he will leave her with nothing. I suggest that the courtesan chose the maharajah.

Sobre o imponente Elefante do Amor, duas das mais fascinantes e mágicas sequências do filme - a paixão entre Christian e Satine floresce nas alturas, entoando surpreendentes e inspirados medleys: All You Need Is Love, One More Night, Pride (In The Name Of Love), etc., que é como quem diz... The Beatles, Phil Collins e U2... Algures no entreacto, entre a costura, The Show Must Go On, verdadeiramente arrepiante e, mais perto do final, o poderosíssimo e extasiante Tango de Roxanne, com a fantástica e rouca voz de Jacek Koman. Magnífico. Enfim, tantas cenas emblemáticas e eternas num só filme...

Às tantas, Zidler profere: Outside things may be tragic, but in here we feel its magic. E esta poder ser, perfeitamente, uma das grandes máximas do musical - assistir a um tem efectivamente a ver com magia, com fantasia, com todo um universo alternativo onde o real e o inverosímil se cruzam e confluem, segundo a natureza e o cânone próprios do género. As leis do musical são conhecidas à partida. No musical, o que importa é a emoção e o profundo sentido de espectáculo, de entretenimento. Nesse sentido, pois, aquilo que Baz Luhrmann faz com Moulin Rouge! é não só genial e visionário como inteiramente revolucionário: a magnificent, opulent, tremendous, stupendous, gargantuan, bedazzlement, a sensual ravishment, como o próprio Zidler diria. Uma operática e alucinante apoteose de sensações, uma excêntrica e exuberante produção artística, um acontecimento histórico do mais elevado requinte, spectacular, spectacular. Uma irreverente, electrizante e arrebatadora experiência cinematográfica, capaz de redefinir o género, aproximando-o do grande público e das mais novas gerações que o menosprezavam. Uma obra-prima.

Days turned into weeks, weeks turned into months. And then, one not-so-very special day, I went to my typewriter, I sat down, and I wrote our story. A story about a time, a story about a place, a story about the people. But above all things, a story about love. A love that will live forever.

O pano cai. Ouve-se o aplauso. The End.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

10 Breves Perguntas (16) - O Final

Eis, pois, o desfecho da 1ª Série da iniciativa "10 Breves Perguntas".

Desta vez... Eu próprio não resisti ao desafio para responder a estas 10 breves questões com 10 breves respostas. Como facilmente entenderão, fui a pessoa menos capaz para dar "breves" respostas ;)

1. Um realizador:
P.T. Anderson/
Aronofsky/Peter Jackson/Scorsese/Malick
2. Um argumento:
Magnolia/Fight Club/
The Fountain/Good Will Hunting/The Lord of the Rings
3. Um actor:
Jack Nicholson
/Russell Crowe/Brad Pitt/Leonardo DiCaprio
4. Uma actriz:
Cate Blanchett/Kate Winslet

5. Um filme-desilusão:
Kingdom of Heaven (Theatrical Version)/Elizabeth - The Golden Age/ Australia
6. Um filme-surpresa: Kill Bill/The Fountain/The Fall/Irréversible
7. Um filme sobrevalorizado: Pulp Fiction/The Dark Knight
8. Um filme subvalorizado:
Good Will Hunting/
Titanic/The Kingdom of Heaven (Director's Cut)/The Fall/Lady in the Water
9. Um filme em que chorei:
Titanic/La Vita è Bella/Dancer in the Dark

10. Último DVD: A History of Violence/AristoCats

Compare as respostas dadas por todos os convidados até ao momento: AQUI

Obrigado, uma vez mais, a todos os convidados especiais.

Como em produto vencedor não se mexe e dado o relativo sucesso da iniciativa,
uma 2ª Série de "10 Breves Perguntas" está já a ser preparada e terá estreia marcada no já tão próximo ano de 2010.
Por isso, atenção às vossas caixas de e-mail, caros visitantes!

sábado, 7 de março de 2009

THE FALL em DVD será realidade! Pelo menos, nos clubes de vídeo.


É com todo o contentamento que vos anuncio:

THE FALL vai estrear em DVD em Portugal
com o nome: UM SONHO ENCANTADO.

Data de lançamento prevista: 10 de Março

Fiquem com o trailer:


Posso mesmo dizer, longe vão os tempos desta iniciativa.

Obrigado a todos os que enviaram as suas críticas!
THE FALL em DVD ou UM SONHO ENCANTADO,
não mais será uma falta no nosso mercado de DVD.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

THE FALL, segundo Dr. Johnny Strangelove


THE FALL

Crítico Convidado: Dr. Johnny Strangelove, autor do blog Cine JP
(http://strangelovebloger.blogspot.com/)

Classificação: *****

Nem todas às vezes conseguimos entregar ótimos textos. Às vezes não sabe o que escrever, ou pior, não está sabendo como colocar ou expressar o que foi visto em palavras. Muitas vezes não é nem culpa do filme, e sim nossa. Não estamos livres da falta de criatividade no momento que mais precisamos expandir o filme conferido em palavras. Mas graças ao destino, sempre aparece um para reascender o gosto da escrita e o prazer de falar do nosso maior prazer: o cinema.

Sabe qual é o lugar mais prospero para fertilizar sentimentos, despertar sensações verdadeiras e principalmente expandir a nossa imaginação? Em um hospital. Quantas vezes conseguimos nos emocionar por ver crianças que mesmo com a dor de estar em um corredor onde anda junto, em uma linha tênue e invisível, o dom do inicio da vida e a porta de entrada para a morte premeditada. As crianças com todas as desavenças que ocorrem, nunca deixam de sonhar ou de ter um sorriso.


Era uma vez em Los Angeles, em ser mais preciso em um hospital. Uma menina chamada Alexandria está com o braço quebrado começa a criar uma amizade com um jovem dublê que está de cama. A partir dessa relação o jovem duble começa a contar uma história fantástica de cinco heróis que juntam forças para derrubar um governador tirano. Viajando em lugares exóticos e únicos, juntos irão enfrentar exércitos e perigos.


O que apenas posso falar desse filme em razões de conhecimento como: o filme foi rodado em vários paises do mundo e inclusive o Brasil; É estrelado por Lee Pace e Catinca Untaru; o diretor do longa é o mesmo de A Cela e do clipe Losing My Religion de R.E.M, Tarsem Singh; Que o filme ganhou o premio de Sitges como melhor filme que teve ainda como ganhadores Sam Rockwell pela atuação em Joshua, Chan Wook Park pelo roteiro de I’m A Cyborg But That’s Ok!.

O longa de Tarsem em muitos momentos consegue transfigurar e confundir o espectador se está vendo um filme ou uma obra de arte. Em muitos momentos, o longa parece aqueles quadros antigos onde cada apreciação consegue fazer a mente salivar pela beleza e pelo primor da obra. Aplausos para toda a equipe técnica. E principalmente por Tarsem por conseguir sem precisar de lugares mágicos para construir uma fabula onde a beleza natural do nosso planeta pode oferecer.


Lee Pace e Catinca Untaru fazem a dupla de protagonistas. Existe uma relação mágica entre os dois que ultrapasse os sentidos de emoção durante a tela. A química entre os dois protagonistas é tão forte que sentimos a alegria, a dor, a gloria e a decepção. E ainda para fortalecer essa relação, foi passada uma informação de que o ator Lee Pace era um paraplégico, já que no personagem vive numa cama, para os pais da menina e o diretor aproveitou dessa informação para deixar mais verdadeiro a atuação da menina, mas depois foi tudo esclarecido.


Agora o que mais dói no peito desse cinéfilo é o descaso terrível das distribuidoras nacionais que muitas vezes deixam de lado grandes filmes e dão valor a películas que tem o intuito de grandes bilheterias (alguns sendo justos e outros que nem merecem). Infelizmente não se sabe quando esse filme poderá chegar aqui e assim contabilizando a lista infinita de grandes filmes que não se sabe e provavelmente não darão as caras por aqui, tomando como exemplo Half Nelson, Sherrybaby e entre outros.

Não poupo em dizer que The Fall é um dos melhores filmes do ano. Um filme que não consegue cumprir sua promessa, mas sim, superar. Um filme que exala beleza desde primeira cena até a ultima. Um filme que coloca a fantasia no nível que deve ser tratada, como uma porta para imaginação do espectador para momentos extraordinários. E se um dia chegar a algum multiplex da vida, não deixem de perder momentos únicos que só o cinema pode propor, assim como os sonhos e sentimentos de uma criança cheia de vida. Uma prova concreta de que o cinema consegue ser o caminho mais próximo das nossas fantasias de criança, mesmo sendo uma fabula adulta.

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Agradecimentos especiais:

Dr. Johnny Strangelove

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

E TUDO O VENTO LEVOU (1939)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Gone with the Wind
Realização: Victor Fleming
Principais Actores: Clark Gable, Thomas Mitchell, Vivien Leigh, Barbara O'Neil, Leslie Howard, Olivia de Havilland, Evelyn Keyes, George Reeves, Ann Rutherford, Fred Crane, Hattie McDaniel, Oscar Polk, Butterfly McQueen

Crítica:

There was a land of Cavaliers and Cotton Fields called the Old South...
Here in this pretty world Gallantry took its last bow... 

Amor em Tempo de Guerra

Here was the last ever to be seen of Knights and their Ladies Fair, of Master and of Slave... Look for it only in books, for it is no more than a dream remembered. A Civilization gone with the wind...

O maior épico romântico de todos os tempos é, também e indiscutivelmente, um dos maiores e melhores filmes de sempre. E Tudo o Vento Levou... um feito absolutamente histórico e monumental, uma obra-prima profundamente bela e mágica, de gradiloquência romântica, com rasgo de génio e de aura imortal, eternizada por uma banda sonora carismática e poderosíssima (Max Steiner, genialmente inspirado), por interpretações magníficas e por uma paleta de cores verdadeiramente impressionante (Ernest Haller, Lee Garmes).

Ambição maior do produtor David O. Selznick e arrojada orquestração a várias mãos - imensamente talentosas: Victor Fleming (único realizador creditado, responsável por outra obra-prima incontornável do mesmo ano, O Feiticeiro de Oz), George Cukor e Sam Wood, entre outros, E Tudo o Vento Levou é a extraordinária adaptação do romance homónimo de Margaret Mitchell, que conta a história de Scarlett O'Hara (Vivien Leigh, num dos melhores desempenhos femininos de que há memória), uma Cinderela mimada, rica mas lindíssima, que adora seduzir todos os homens.

Scarlett é a mais velha de três irmãs, vive no paraíso de Tara, numa solarenga e perfumada fazenda de algodão, cheia de escravos e de jardins. Mammy, a hilariante e rezingona governanta negra (excepcional Hattie McDaniel), é quase como uma mãe para ela e Pork e Big Sam revelar-se-ão leais durante toda a vida. É por entre flores e àrvores que Scarlett passeia a sua juventude, qual Branca de Neve, radiante e feliz e embelezada por majestosos e deslumbrantes vestidos (o guarda-roupa é um trabalho verdadeiramente excelente e exuberante, desenhado e concretizado por Walter Plunkett).

É a heroína da história, é certo, mas pouco fica a dever ao seu cânone de personagem: para além de extremamente mimada, Scarlett é uma mulher provocadora, emancipada e caprichosa, interesseira, ardilosa e mentirosa sempre que necessário. Enquanto aos homens lhes interessava o brandy, os charutos, os negócios e os sonhos de vitória, às mulheres cabia-lhes o silêncio, a resignação, o dormir a sesta, as tertúlias e a casa. Mas Scarlett não é nenhuma dessas mulheres - Scarlett é uma mulher de armas, uma lutadora corajosa e empreendedora, capaz de desafiar as convenções. Veja-se, a propósito, a facilidade com que decide casar, em mera resposta ao noivado de Ashley com Melanie (Scarlett ama Ashley desde criança e sempre sonhara casar com ele), e a forma como ela depois assume a viuvez perante todos, escandalizando o meio. Quantas não são as vezes em que ela tem vontade de fugir? Imensas. Mas agarra-se sempre à terra, a Melanie e às promessas que fez, à paixão por Ashley... esforça-se sempre por encontrar esperanças que sustentem a sua força de viver. What a woman. Scarlett marca, aliás, a inversão do paradigma, quando as mulheres tiveram de arregaçar as mangas e fazer-se à vida e à subsistência, face à ausência dos homens no confronto. Um momento histórico na afirmação do papel social e familiar da mulher.

Depois há Rhett Butler (Clark Gable), um galante e bem humurado gentleman, que escuta uma desesperada declaração de amor de Scarlett a Ashley, e que a partir de então guarda um segredo do qual se aproveita sempre que se quer aproximar da jovem. Desde o início que a relação entre ambos se caracteriza pela provocação mútua - provocação essa que aumenta gradualmente ao longo do filme, assim como o amor entre eles. I don't think I will kiss you, although you need kissing, badly. That's what's wrong with you. You should be kissed and often, and by someone who knows how. O amor de Rhett é, todavia, desde cedo declarado. Scarlett, por sua vez, só se aperceberá do seu amor por ele bem mais tarde, quem sabe se não tarde de mais, o que faz desesperar a audiência pelo entendimento do par romântico.

Quando o amor chega, porém, o mundo deles acaba. A Guerra Civil bate-lhes à porta e Ashley e os outros homens partem para a refrega. Rhett, afortunado pela sua condição, riqueza e influências escapa ao chamamento. Scarlett está agora em Atlanta, longe de Tara e a cuidar de Melanie em vésperas de dar à luz. A cidade arde em chamas e o regresso a casa impõe-se: a agonia e o horror do escape ao vermelho infernal resulta numa das cenas mais extraordinárias de todo o filme.


A morte choveu dos céus, trovejaram canhões até que o silêncio caiu, por fim. Take a good look my dear. It's an historic moment you can tell your grandchildren about - how you watched the Old South fall one night. Contudo, Rhett não acompanhará a amada durante todo o percurso. Confrontado com a tragédia da nação, decide alistar-se no exército. Como reage Scarlett a tão inesperada decisão?

Scarlett O'Hara: Oh, Rhett! Please, don't go! You can't leave me! Please! I'll never forgive you!
Rhett Butler: I'm not asking you to forgive me. I'll never understand or forgive myself. And if a bullet gets me, so help me, I'll laugh at myself for being an idiot. There's one thing I do know... and that is that I love you, Scarlett. In spite of you and me and the whole silly world going to pieces around us, I love you. Because we're alike. Bad lots, both of us. Selfish and shrewd. But able to look things in the eyes as we call them by their right names.
Scarlett O'Hara: Don't hold me like that!
Rhett Butler: [ele envolve-a nos seus braços] Scarlett! Look at me! I've loved you more than I've ever loved any woman and I've waited for you longer than I've ever waited for any woman. [ele beija-lhe a testa]
Scarlett O'Hara: [ela vira a cara] Let me alone!
Rhett Butler: [ela força-a a olhá-lo nos olhos] Here's a soldier of the South who loves you, Scarlett. Wants to feel your arms around him, wants to carry the memory of your kisses into battle with him. Never mind about loving me, you're a woman sending a soldier to his death with a beautiful memory. Scarlett! Kiss me! Kiss me... once...

E beijam-se... no culminar de tão arrebatadora cena.

O beijo, apesar de tudo, não assegura um futuro feliz. Scarlett regressa a casa, pelo caminho defunto, com Prissy, Melanie e o recém-nascido... mas sem Rhett.

Scarlett O'Hara: Rhett, how could you do this to me, and why should you go now that, after it's all over and I need you, why? Why?
Rhett Butler: Why? Maybe it's because I've always had a weakness for lost causes, once they're really lost. Or maybe, maybe I'm ashamed of myself. Who knows?

Chegada a casa, a jovem apercebe-se de que a partida de Rhett foi apenas o prenúncio de um infortúnio maior. No auge da desgraça, depara-se com a mansão saqueada, a família arruinada, a mãe falecida e o pai enlouquecido. A terra, longe de qualquer abundância e tal e qual a sua alma, está completamente devastada. Bonds - diz-lhe o pai - They're all we've saived, all we have left. Bonds. Porém, Land is the only thing in the world worth workin' for, worth fightin' for, worth dyin' for, because it's the only thing that lasts. É esta força telúrica que a fará erguer-se das cinzas e re-erguer-se uma vez mais: As God is my witness, as God is my witness they're not going to lick me. I'm going to live through this and when it's all over, I'll never be hungry again. No, nor any of my folk. If I have to lie, steal, cheat or kill. As God is my witness, I'll never be hungry again.

Quando a segunda parte começa, logo após o entre-acto, a narração por escrito preenche novamente o ecrã. O tempo passa, magistralmente filmado e montado, a Guerra Civil conhece novos desenvolvimentos e nós esperamos ansiosamente que Scarlett reconstrua, pedra por pedra, o seu palácio. Como prometera, mentirá, roubará, enganará, matará. Tudo em nome da família, do amor, da terra. Da justiça e da esperança de um dia encontrar a felicidade. A cada elipse, uma tragédia... um segundo casamento, uma segunda viuvez, um terceiro casamento, mais uma farsa... Haverá, no fim de tudo, espaço para o verdadeiro amor? O amor que sente por Rhett mas do qual não se apercebe? Suportará Rhett, às tantas, tamanha indiferença, tamanha mágoa?

Scarlett O'Hara: What are you doing?
Rhett Butler: I'm leaving you, my dear. All you need now is a divorce and your dreams of Ashley can come true.
Scarlett O'Hara: Oh, no! No, you're wrong, terribly wrong! I don't want a divorce. Oh Rhett, but I knew tonight, when I... when I knew I loved you, I ran home to tell you, oh darling, darling!
Rhett Butler: Please don't go on with this, Leave us some dignity to remember out of our marriage. Spare us this last.
Scarlett O'Hara: This last? Oh Rhett, do listen to me, I must have loved you for years, only I was such a stupid fool, I didn't know it. Please believe me, you must care!
(...)
Scarlett O'Hara: Rhett... if you go, where shall I go, what shall I do?
Rhett Butler: Frankly, my dear, I don't give a damn.

Às vezes, pedir desculpa não basta para emendar o passado. Rhett desaparece no nevoeiro e a esperança de um final feliz reside agora e somente no amanhã...
Um filme eterno.

CINEROAD ©2020 de Roberto Simões