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quarta-feira, 15 de junho de 2011

A QUADRILHA SELVAGEM (1969)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: The Wild Bunch
Realização: Sam Peckinpah
Principais Actores: William Holden, Ernest Borgnine, Robert Ryan, Edmond O'Brien, Warren Oates, Jaime Sánchez, Ben Johnson, Emilio Fernández, Strother Martin, L.Q. Jones, Albert Dekker, Bo Hopkins, Dub Taylor, Paul Harper, Jorge Russek, Alfonso Arau, Chano Urueta

Crítica:

OS PISTOLEIROS DO ENTARDECER

If they move, kill 'em!

Numa das primeiras imagens de A Quadrilha Selvagem, um escorpião vê-se cercado e vencido por um exército de formigas. Metáfora e sinédoque de todo o filme, a aclamada obra de Peckinpah supera a criatividade dos créditos de abertura com uma das mais brilhantes sequências de todo a obra. Nela, as grandes marcas do cinema do realizador e especialmente dos seus westerns - género pelo qual, aliás, se consagrou com irreverência: a acção desenfreada e explosiva (dos tiroteios), o humor e a crueza radical da tremenda exploração da violência no ecrã e a acutilância da montagem (Louis Lombardo) que, dando continuidade às várias linhas da cena num elegante slow motion, conferem à obra uma linguagem extremamente dinâmica, ritmada e prazerosa de se assistir.

A Quadrilha Selvagem trata o fim do oeste americano ou pelo menos o fim e a queda daquele oeste americano que o cinema tanto ajudou a mitificar. As primeiras décadas do século XX trouxeram a mudança dos tempos e novos modelos sociais, culturais e, por conseguinte, civilizacionais. A violência passou das mãos de justiceiros e noutros casos ladrões e assassinos detentores de um prezado código de honra, para as mãos de capitalistas ganaciosos e amorais, somente sedentos de poder. Peckinpah passa o filme inteiro a humanizar a quadrilha. Nos olhos de Pike (William Holden) e de Deke (Robert Ryan) - outrora amigos, pelo que sugerem alguns dos inúmeros flashbacks que povoam a obra - é espelhada a angústia interior de um grupo de cowboys que não soube fazer mais nada, ao longo da vida, senão perseguir, fugir ou disparar uma arma e que, meditando a sua existência, entende que se tiver que voltar a matar, que o fará por um motivo digno. Peckinpah contrapõe perfeitamente o companheirismo e a união destes bandidos pelos quais acabamos por empatizar à desumanidade e ao despudor com que o general Mapache e os seus guerrilheiros mexicanos disfrutam das mulheres e dos prazeres da vida, do carro, da metralhadora e da alta tecnologia dos armamentos americanos, à margem da lei negociados. Note-se, a propósito, a forma leviana e doentia com que os experimentam, indiscriminadamente sobre a população, sempre embebidos em álcool e em música. Há, portanto, um claro e evidente choque geracional que transfigura a paisagem e os valores, ao qual Pike e companhia jamais se rendem. Preferem sacrificar-se e aceitar a morte, que a Pike chega ironica, tragica e simbolicamente pelas mãos de uma criança. Qual escorpião cercado pelas formigas.

We all dream of being a child again, even the worst of us.
Perhaps the worst most of all.

Assistir à Quadrilha Selvagem de Peckinpah lembra-me sempre, pese muito embora o anacronismo da questão (que Harold Bloom facilmente fundamentaria) o também magistral Aguenta-te, Canalha, de Sergio Leone. São os dois objectos diferentes, mas com vários pontos em comum, quando muito não seja o espaço e o tempo históricos. Vivem ambos, e tanto, do virtuosismo da arte de filmar e também Aguenta-te, Canalha se inicia com um inglório império de formigas, que Leone rapida e engenhosamente desfaz com o espumante mijo de Rod Steiger (no filme, o hilariante Juan Miranda). Enfim, fica a nota de comparação.

Moral sem alguma vez cair, propriamente, no moralismo e sobretudo excitante e divertido, sem nunca parecer ridículo ou pouco realista, A Quadrilha Selvagem terá porventura contribuído para a estética do cinema de acção como poucos, no legado que se lhe seguiu. Eleva-se à memória como uma verdadeira fonte de inspiração, fotografado pelo suado e empoeirado esplendor de Lucien Ballard.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

ACONTECEU NO OESTE (1968)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: C'era una volta il West / Once Upon A Time in the West
Realização: Sergio Leone
Principais Actores: Henry Fonda, Claudia Cardinale, Jason Robards, Charles Bronson, Gabriele Ferzetti, Woody Strode

Crítica:

UMA DANÇA DE MORTE

Mais do que um western, Aconteceu no Oeste faz a antologia do próprio género, convocando, homenageando e criticando referências e resumindo toda uma mitologia com o mais profundo sentido artístico. Entre o calor e a poeira, entre a cavalgada e o disparo, entre a espera e o derradeiro compasso da morte, Aconteceu no Oeste vive, por isso, uma essência marcadamente estilizada, ganhando uma dimensão operática e imortalizando-se sob a aura imaculada de obra-prima.

Rendamo-nos aos factos: Sergio Leone reuniu uma equipa de genial talento. A partir da história que o próprio escreveu, em conjunto com Dario Argento e Bernardo Bertolucci, o mundo de pistoleiros justiceiros e foras-da-lei foi recriado com incrível verossilhança, assaz realismo e especial atenção ao detalhe. Os decórs (a cargo de Carlo Simi, Rafael Ferri e Carlo Leva) ou o guarda-roupa (Antonella Pompei, Carlo Simi) são a prova disso. A fotografia de Tonino Delli Colli é de uma beleza tal que nos extasia, sensível tanto aos planos criteriosos e mais ambiciosos como aos close-ups sobre os actores, tanto à imediatez do primeiro plano como aos enquadramentos e pormenores dos backgrounds. Sensível, tantas vezes, às deslumbrantes panorâmicas sobre uma América interior e vermelha, de paisagens irregulares, mas únicas e absolutamente inconfundíveis.

O filme é, todo ele, repleto de magistrais sequências de tensão e suspense, para as quais se revelam fundamentais o trabalho de montagem (Nino Baragli) e o tratamento dos efeitos sonoros: o perfeito exemplo disso é a memorável cena de abertura, onde os sons se assumem como um genuíno e arriscado tema musical, resultando, indiscutivelmente, numa das melhores cenas de abertura de todos os tempos. Mas temas magníficos são coisa que não falta, ou não fosse o compositor o lendário Ennio Morricone. Cada personagem principal tem o seu próprio tema: Harmonica, semblante da coragem e do mistério (Charles Bronson), a provocante e sensual Jill (Claudia Cardinale), central na história, o arguto Frank (Henry Fonda) ou o gracioso Cheyenne (Jason Robards). O elenco irradia, aliás, uma excelência inequívoca, denotando a qualidade intrínseca a toda a direcção de actores. O trabalho de encenação é brilhante e são muitas as cenas que se destacam pelo seu arrojo e arquitectura. A preparação daquele flashback final é, simplesmente, qualquer coisa de extraordinário... No seu todo, eis, pois, uma simbiose esteticamente triunfal, sob a inspirada e irrepreensível orquestração de Sergio Leone.

Até à chegada do Cavalo de Ferro à vila em construção, o tempo passa e a história acontece... ao ritmo próprio a que o realizador nos acostumou... E nós temos então a certeza de que experienciamos uma obra de arte no mais imperioso sentido da expressão. Bertolucci diz, a respeito, que Leone deu uma nova identidade ao western*. Não poderia estar mais de acordo. Tal como o comboio, a obra veio, ficou e revolucionou.


_________________________________________
Nota especial para péssima escolha do título português.
*Di-lo Bernardo Bertolucci num dos documentários da Edição de Coleccionador, em DVD.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

HAVERÁ SANGUE (2007)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: There Will Be Blood
Realização: Paul Thomas Anderson

Principais Actores: Daniel Day-Lewis, Dillon Freasier, Paul Dano, Ciarán Hinds, Kevin J. O’Connor

Crítica:

A EDIFICAÇÃO DO ÓDIO


Haverá Sangue é pura arte. É o grande épico da ambição humana, da incessante busca material ao oportunismo eloquente e à manipulação retórica, da ascenção do nada à riqueza insaciável, à angústia existencial, à solidão e à final constatação da nossa miserável condição. É sobre a religião e o capitalismo que, na grande farsa hipócrita, sustentam uma ilusão às custas da própria sociedade. O petróleo é um prenúncio de guerra e sangue. E pode jorrar sangue negro de uma terra perfurada pela ganância, mas a grande ferida é a da alma: a avidez cega-nos por dentro, seca-nos por inteiro e extingue o melhor que há em nós.

I have a competition in me.
I want no one else to succeed.

O mínimo que se poderá dizer de Paul Thomas Anderson é que, uma vez mais, arquitectou e concretizou uma obra visionária, arrojada no seu conceito e desconcertante na sua forma. A sua arte de filmar é premeditada, rigorosa e detalhista. O seu denso argumento (livremente baseado no romance Oil!, de Upton Sinclair) é um autêntico concentrado metafórico, submerso numa fascinante e poderosa atmosfera sufocante, centrado na edificação do ódio, é certo, mas também no estimulante combate entre forças económicas e religiosas - respectivamente simbolizadas pelas personagens de Daniel Day-Lewis (Daniel Plainview, o magnata do petróleo) e de Paul Dano (Eli Sunday, o profeta evangélico). É curioso perceber como duas dimensões que aparentemente estariam nos antípodas uma da outra têm tantas afinidades e semelhanças: ambas são motivadas pela crença exacerbada e pelo fanatismo, ambas se prostituem em nome dos seus interesses e dos seus interesses apenas (contrariando os valores que defendem e apregoam), ambas crescem perante a conquista e aproveitamento de novos adeptos. Ambas se impõem por jogos de fé e triunfam numa relação de interdependência dissimulada. No entanto, ambas se degladiarão sempre, com orgulho e rancor, pela autoridade. Notem-se cenas fulcrais como a do baptismo de Plainview:

Eli Sunday: Daniel, you have come here and you have brought good and wealth, but you have also brought your bad habits as a backslider. You've lusted after women, and you have abandoned your child. Your child that you raised, you have abandoned all because he was sick and you have sinned. So say it now- I am a sinner.
Plainview: I am a sinner. Eli Sunday: Say it louder - I am a sinner!
Plainview: I am a sinner.
(...)
Plainview: I've abandoned my child! I've abandoned my child! I've abandoned my boy!
(...)
Plainview
: There is a pipeline.

Ou a visceral cena que precede o espancamento e a vingança final, na sala de bowling:

Eli Sunday: Daniel, I'm asking if you'd like to have business with the Church of the Third Revelation in developing this lease on young Bandy's thousand acre tract. I'm offering you to drill on one of the great undeveloped fields of Little Boston!
Plainview: I'd be happy to work with you.
Eli Sunday: You would? Yes, yes, of course. Wonderful.
Plainview: But there is one condition for this work.
Eli Sunday: Alright.
Plainview: I'd like you to tell me that you are a false prophet... I'd like you to tell me that you are, and have been, a false prophet... and that God is a superstition.
Eli Sunday: ...but that's a lie... it's a lie, I cannot say it.
(...)
Eli Sunday: I am a false prophet! God is a superstition! I am a false prophet! God is a superstition! I am a false prophet! God is a superstition!


Haverá Sangue tem uma essência marcadamente ontológica, ou não buscasse as origens do capitalismo e, por consequência, os valores basilares das sociedades ocidentais para tentar compreender a realidade contemporânea. Afinal, a religião e a economia decidem o futuro dos Homens. Nelas se espelham e por elas se multiplicam os piores defeitos da humanidade: o egoísmo, a soberba, a vingança ou a indiferença e menosprezo para com os outros. O ódio para com os outros. Tanto Daniel como Eli apresentam estes traços de personalidade. Quais são as causas de tamanha e perigosa desumanização? A frustração pessoal e a falta de afectos. E ambos os factores são partilhados pelos vigaristas empreendedores. São dois homens destruídos e sedentos por destruição, às tantas incapazes de confiar em alguém senão neles próprios e incapazes de reconhecer o amor genuíno: note-se como Eli trata o pai ou como Daniel abanona o filho - surdo e, aos seus olhos, agora inútil. Não esqueçamos que ainda a explosão de fogo ascendia aos céus e o jovem H.W. se resguardava do acidente e Plainview já dizia:

There's a whole ocean of oil under our feet! No one can get at it except for me!

Lembremos também, por exemplo, como o pai trata o filho nos últimos instantes:

You have none of me in you. You're just a bastard from a basket. You're a bastard from a basket!

Ao irmão Henry, o depressivo oportunista que é incapaz de atingir o sucesso, Daniel confessa:

I hate most people.

I see the worst in people. (...) I've built my hatreds up over the years, little by little.

If it's in me, it's in you. There are times when I look at people and I see nothing worth liking. I want to earn enough money that I can get away from everyone.

De que valerá a ambição e a riqueza perante a ruína das relações, a decadência moral e a derradeira queda na solidão? Pois bem, essa é a questão central de todo o filme. Fica sugerida a reflexão.

Tanto Daniel Day-Lewis como Paul Dano, tenho a dizer, são absolutamente extraordinários na construção das suas personagens. O Daniel Plainview de Day-Lewis é um verdadeiro assombroso, um dos mais geniais papéis da carreira do actor.

A nível técnico, a obra é irrepreensível. Desde a primorosa fotografia de Robert Elwist (sublime em todas as cores e enquadramentos e revisitando a mítica paisagem do werstern: na aridez do deserto, nos moinhos de vento, nas pequenas vilas empoeiradas, nos caminhos de ferro, na exploração dos ranchos e na expansão pelo oeste americano) à aterrorizante, operática e desoladora banda sonora (Jonny Greenwood, Brahms, Arvo Pärt), o retrato é frio e desconcertante... à semelhança da história e das personagens. A cena de abertura, imersa em estranheza e circular na forma, confronta-nos com uma experiência que se adivinha única e irrepetível, tão impressionante nos silêncios como na excelência da retórica e da eloquência narrativa. Ainda brilhante na encenação e na mise-en-scène e exímio na reconstituição histórica, todo o filme é um milagre de erudição, de auto-glorificação artística e um prodigioso pedaço de perfeição. Em suma, uma obra-prima como poucas.

Plainview: I'm finished.

domingo, 2 de janeiro de 2011

RIO BRAVO (1959)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Rio Bravo
Realização: Howard Hawks
Principais Actores: John Wayne, Walter Brennan, Ward Bond, Dean Martin, Ricky Nelson, Angie Dickinson
 
Crítica:

A LEI DO XERIFE

Em Rio Bravo, essencialmente, é tudo uma questão de diálogos e de actores. A câmera revela uma presença subtil e discreta e o espectador entra na esquadra, no saloon, no Hotel Alamo e em todas as ruas empoeiradas da cidade, sentindo-se como um dos seus passivos e atemorizados habitantes, familiarizado com todas as suas extraordinárias personagens.

Em poucos minutos e com uma acção bem humurada, conhecemos o xerife John T. Chance, um àspero mas correcto homem-da-lei (John Wayne, numa performance repleta de nuances expressivas; sejam elas gestos, olhares ou significativos silêncios). Ao contrário do marshall de O Comboio Apitou Três Vezes - filme que motivou Hawks a realizar este Rio Bravo, em jeito de contra-resposta - em que Will Kane (Gary Cooper) passava a maior parte do filme a pedir ajuda aos habitantes da cidade, aqui John T. Chance passa o filme a rejeitar as ajudas que os mais próximos lhe teimam em oferecer. Afinal, Chance está consciente do seu papel na sociedade e, em concreto, na sua cidade. Ele é o xerife, é a autoridade e, por isso, deve proteger os seus conterrâneos, zelando sempre e acima de tudo pela ordem e pela lei. É esse o seu papel, não o de mais ninguém, e deve entregar a sua vida à sua causa.

Feathers: How does a man get to be a sheriff?
John T. Chance: Gets lazy. Gets tired of selling his gun all over. Decides to sell it in one place.

Como parceiros da sua trupe justiceira, tem, de estrela ao peito, o velho e aleijado Stumpy (genial e hilariante Walter Brennan), um cowboy de coração ferido e perdido no álcool, Dude Borachón (Dean Martin, estupendo no acting e na canção My Rifle, My Pony, and Me). Mais tarde, junta-se-lhes o jovem e destemido Colorado (Ricky Nelson), a cumplicidade-extra de Carlos, o latino-fala-barato-dono-do-hotel que vive sempre amedrontado pela sua esposa Consuela e o vaso oportuno da insolente, vigarista, forasteira, procurada, sensual e deslumbrante Feathers (Angie Dickinson, numa performance memorável, que viverá com o protagonista um verdadeiro romance à moda antiga). Por todo o mérito alcançado pelas interpretações, há a salientar a magistral direcção de actores.

A narrativa avança a um ritmo lento; para o espectador, revela-se um exercício extremamente prazeroso de se acompanhar. Num compasso de espera repleto de improvisos, aguardamos a chegada do marshall que decidirá o que fazer com o assassino Joe Burdette, aprisionado com empenho. Até lá, seguimos com tensão e suspense as sucessivas tentativas dos malfeitores para resgatarem o malfeitor. A notável competência do guarda-roupa e da direcção artística compõe a moldura, perfeitamente iluminada e enquadrada (fotografia de Russell Harlan).

Grande western de Hawks. Uma lição de amizade, liderança, respeito e redenção.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

FORTE APACHE (1948)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Fort Apache
Realização: John Ford
Principais Actores: John Wayne, Henry Fonda, Shirley Temple, Pedro Armendáriz, Ward Bond, George O'Brien, Victor McLaglen, Anna Lee, Grant Withers
 
Crítica:

OFICIAIS,
CAVALHEIROS E SELVAGENS

De um candor elegíaco e grandioso, um western profundamente belo e humano: Forte Apache resplandece sob um radioso e imenso céu, tão monumental quanto a rocha e a poeira que envolvem o glorioso Monument Valley. No horizonte, as silhuetas de índios e cavaleiros - eternos inimigos deste cenário mítico - recortam a paisagem, manchada de sangue, de ódio e de racismo, mas igualmente suada de honra, de medo e de esperança. John Ford filma-o magistralmente, numa inconfundível e perfeita fusão de registos. Do romance ao drama, do humor à música, do silêncio da imensidão aos gritos e disparos da batalha. É o início da aclamada Trilogia da Cavalaria, que continuará com Os Dominadores e que terminará com Rio Grande.

Destacado para o meio de nenhures, o Tenente Coronel Owen Thursday (Henry Fonda, num fortíssimo desempenho), fazendo-se acompanhar da filha Philadelphia, torna-se o novo líder do Forte. Extremamente ambicioso e rigoroso, no que à sua carreira e postura militar diz respeito, respectivamente, Thursday será um oficial perfeitamente ciente da sua elevada patente e mostrar-se-á implacável e inflexível na aplicação da sua autoridade.

Gentlemen, I did not seek this command, but since it's been assigned me, I intend to make this regiment the finest on the frontier. I fully realize that prolonged duty in a small outpost can lead to carelessness... and inefficiency and laxity in dress and deportment. I call it to your attention that only one of you has reported here this morning properly dressed. The uniform, gentlemen, is not a subject for individual, whimsical expression. We're not cowboys at this post... or freighters with a load of alfalfa.
Thursday

Inicialmente habituados à liderança informal e carismática do Capitão Yorke (John Wayne, na competência que lhe é característica), os soldados terão alguma dificuldade em, dia após dia, se apresentarem de farda engomada, sóbrios e determinados na sua postura e resposta. Enfim, ordem e disciplina que a sua memória rapidamente se incubirá de restabelecer. Até o próprio Yorke, no terreno tão mais experiente do que o superior, terá que se reduzir à sua posição na hierarquia:

Thursday: What, no debate this time, Captain?
Yorke: No debate, sir; no questions.

Acostumada à vida da cidade, Philadelphia vê-se confrontada com uma nova realidade, despida de conforto e dos melhores móveis. Quando o seu destino se cruza com o do Sargento-mor Michael O'Rourke, é amor à primeira vista... Mas o senhor seu pai rapidamente se ocupará de manter a rédea curta entre os dois, proibindo-os de se encontrarem, nomeadamente.

Para além dos fait-divers do dia-a-dia na aldeia, tanto amorosos como militares, o filme aprofundar-se-á com a questão do choque cultural e civilizacional. Desde os finais da Guerra Civil Americana que o Forte tem a sensível missão de lidar com os índios locais e a chegada de Thursday terá sérias implicações nas conversações até então estabelecidas entre ambas as partes. Numa pertinente discussão entre o Tenente Coronel e o Capitão Yorke, nota-se a ignorância e o preconceito de um e o conhecimento e bom-senso de outro:

Thursday: We here have little chance for glory or advancement. While some of our brother officers are leading their well-publicized campaigns against the great Indian nations - the Sioux and the Cheyenne - we are asked to ward off the gnat stings and flea bites of a few cowardly digger Indians.
Yorke: Your pardon, Colonel. You'd hardly call Apaches digger Indians, sir.
Thursday: You'd scarcely compare them with the Sioux, Captain.
Yorke: No, I don't. The Sioux once raided into Apache territory. Old-timers told me you could follow their line of retreat by the bones of their dead.
Thursday: I suggest the Apache has deteriorated since then, judging by a few of the specimens I've seen on my way out here.
Yorke: Well, if you saw them, sir, they weren't Apaches.

As posições radicalmente distintas destes dois homens acabam por ser, ao fim e ao cabo, a sinédoque da mentalidade americana da época. Também os índios têm voz:

The Apaches are a great race. (...) They've never been conquered. But it is not well for a nation to be always at war. The young men die... the women sing sad songs... and the old ones are hungry in the winter. And so I led my people from the hills. And then came this man.

Quando a diplomacia falha e o orgulho e o egoísmo falam mais alto - Your word to a breech-clouted savage! An illiterate, uncivilized murderer and treaty-breaker! There is no question of honor, sir, between an American officer and Cochise - impõe-se a guerra como inevitável solução. Com ela e com a marcha da cavalaria pelo deserto, Forte Apache concretiza algumas das suas sequências mais extraordinárias e tecnicamente audazes. A fotografia de Archie Stout e do não-creditado William H. Clothier é verdadeiramente fabulosa: sucedem-se os grandes planos, em enquadramentos de cortar a respiração; tal é o seu esplendor visual. As sonantes composições de Richard Hageman preparam o espectáculo que se seguirá. Com a acção ao rubro, a câmera mover-se-á, empolgante, a um ritmo e destreza notáveis, num clímax absolutamente memorável.

No final, mais do que exacerbar o patriotismo, Ford acaba por imortalizar os heróis da História. Não pelo maniqueísmo redutor, fazendo deles modelos irrepreensíveis, agentes do bem vs. mal, mas dramatizando a ambiguidade da natureza humana que é, no fim de contas, universal. A mortal selvajaria dos homens residirá, sempre, na sua cruel intolerância e incompreensão.
A sua superioridade, por sua vez, na sua capacidade de diálogo e de entendimento.

They aren't forgotten because they haven't died. They're living - right out there. Collingwood and the rest. And they'll keep on living as long as the regiment lives. The pay is thirteen dollars a month; their diet: beans and hay. Maybe horsemeat before this campaign is over. Fight over cards or rotgut whiskey, but share the last drop in their canteens. The faces may change... the names... but they're there: they're the regiment... the regular army... now and fifty years from now. They're better men than they used to be. Thursday did that. He made it a command to be proud of.
Yorke

Enfim, que magnífica sessão de cinema. Grande filme de John Ford.

domingo, 5 de dezembro de 2010

AUSTRÁLIA (2008)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Australia
Realização: Baz Luhrmann
Principais Actores: Hugh Jackman, Nicole Kidman, Brandon Walters, David Gulpilil, David Wenham, Jack Thompson, Bruce Spence, Bryan Brown

Crítica:

DE VOLTA ÀS ORIGENS

There's no place like home...

Austrália é o regresso de Baz Luhrmann às suas origens e, sob o efeito de mise en abyme, o reencontro do presente histórico de um país com o seu passado original. A invasão dos estrangeiros europeus, que se verificou na Austrália sobretudo a partir da segunda metade do século XVIII, impôs uma cultura de racismo discriminatória e mortal. Do cruzamento de brancos e aborígenes, tantas vezes extraconjugal, nasceram milhares de crianças mulatas, condenadas à morte e à alienação. E à semelhança do que aconteceu noutros pontos do mundo, verificou-se um significativo decréscimo da população nativa australiana; o que acabou por transformar, de forma drástica, a identidade secular do país. Perdeu-se o misticismo, que Luhrmann recupera religiosamente:

Aboriginal and Torres Strait Islander viewers should exercise caution when watching this film as it may contain images and voices of deceased persons.

Assim adverte, ainda antes de se iniciarem os créditos. Não é por acaso, pois, que o argumento tem como narrador o pequeno Nullah (Brandon Walters, quão luminosa revelação).

My grandfather, King George, he tave me a walkabout. Teach me black fella way. Grandfather teach me most important lesson of all. Tell'em a story.

Mais do que uma vasta terra de cangurus e jacarés, barões de gado e chefes guerreiros, a Austrália de Luhrmann é um país de crianças mulatas cruelmente retiradas às famílias, como se não tivessem raízes ou como se não fossem gente. São as gerações roubadas, que só em 2008 receberam o formal pedido de desculpas por parte do governo (como o filme faz questão de frisar, no final).

See, i not black fella. I not white fella, either. Them white fellas call me mix blood. Half-caste. Creamy. I belong no one. (...) King George say them white fellas bad spirit. Must be taken from this land.

Com uma ambiciosa visão épica, Luhrmann concretiza um emocionante e arrebatador romance de aventuras, onde a comédia, o drama e a tragédia correm - sempre - lado a lado, num deslumbrante entretenimento familiar. Da história étnica e familiar de Nullah e do avô King George (David Gulpilil), à paixão primeiramente hilariante e desconcertante e depois vibrante e envolvente entre a aristocrata Sarah Ashley (Nicole Kidman) e o vaqueiro Drover (magnífico desempenho de Hugh Jackman), da travessia das intermináveis manadas pela paisagem (piscar de olhos às travessias d'O Rio Vermelho, de Hawks) às explosões japonesas no eclodir da 2ª Grande Guerra em Darwin, Austrália revela-se um produto claramente competente e acima da média; para um espectador mais exigente, contudo, a enorme manta de retalhos que o argumento constitui, entre as mais variadas influências, referências e lugares comuns e como não poderia deixar de ser, acaba por resultar numa experiência decepcionante. Crikey! (...) Welcome to Australia!

Digo como não poderia deixar de ser porque Austrália tinha tudo para ser um clássico à altura de um E Tudo o Vento Levou, ou seja: um acontecimento deveras marcante e impressionante: em primeiro lugar, porque tinha grandes nomes da indústria à frente do projecto. Em seguida, um orçamento assaz generoso. O que é que falha, em Austrália? Não falharão, certamente, um sem número de qualidades técnicas: banda sonora (David Hirschfelder), som (vasta equipa de talentosos técnicos), guarda-roupa (Catherine Martin) ou direcção artística (novamente Catherine Martin, Ian Gracie, Karen Murphy, Beverley Dunn)... o filme revela-se exímio em todos eles. À primeira vista, o que falha é a fotografia, ainda que não na sua plenitude. Mandy Walker faz um trabalho de excelência; porém, a enorme carga de CGI com que foi tratada grande parte dos planos captados, descredibiliza a paisagem, corrompe a autenticidade do filme e reclama uma artificialidade à beleza daquilo que vemos absolutamente desnecessária e indesejável.

Depois, é evidente, o argumento tem as suas falhas. Aparte a falta de originalidade da história - quantas vezes já não a vimos - o filme tem os seus devaneios criativos, os seus excessos e outra coisa não seria de esperar; afinal, estamos perante um filme de Luhrmann e as suas marcas autorais mantêm-se, por mais pop que sejam. Porém, impõe-se uma questão: até que ponto é que esses excessos ficam bem e se enquadram no registo específico deste género de filme? Bem conheço e admiro o traço autoral do realizador, mas tenho de reconhecer que nestes contornos épicos (por mais multifacetados que eles sejam, no campo do western nomeadamente) o traço não cai bem, não assenta como desejado. Há uma mescla de registos que, na intenção de formular uma identidade autoral, cai no mais puro autismo, destruindo qualquer hipótese de identidade. É por isso que Austrália falha as suas intenções de reinvenção, fazendo-as soar a colagens ridículas e desinteressantes, que se sucedem umas às outras sem que haja um fio condutor forte, sólido e coerente. O traço assenta na perfeição no ritmo frenético e tresloucado de Moulin Rouge, mas não aqui. Por exemplo: o final, com o bombardeamento de Darwin, como que nos decalca Pearl Harbor da memória, por sua vez decalcado de Tora! Tora! Tora!, numa construção e montagem caóticas e despachadas. Qual era, pois, a necessidade de incorporar este ataque na história do filme? Entendo a sua inclusão numa lógica dramática, porém surge-nos aqui forçada, não desenhando propriamente uma nova linguagem, um novo terreno criativo, antes denunciando o clichê. A travessia do gado já tinha sido feita. A história podia acabar ali. Não precisávamos de assistir a um filme já visto.

Apenas o espírito de sonhar e de acreditar de O Feiticeiro de Oz, ciclicamente motivado pelo tema Somewhere Over the Rainbow, me parece triunfar verdadeiramente nesta panóplia de homenagens. Afinal, There's no place like home e é a casa que Nullah regressa, simbolica e literalmente. Dentro do elenco principal, só o durão Hugh Jackman (e, à sua medida, o jovem Brandon Walters) superaram o teste da construção das personagens, sem cairem no ridículo das caricaturas habituais de Luhrmann; note-se Kidman, note-se David Wenham. Não imagino, aliás, nenhum outro actor no papel de Drover - nem sequer Crowe, cujo talento tanto aprecio e que durante tanto tempo esteve ligado ao projecto.

Concluindo, gostei do filme, mas Austrália não é tão momumental como se esperava, como se propunha a ser e como poderia ter sido, efectivamente. É somente um bom filme, que assegura o entretenimento com assaz eficácia e que tão-pouco envergonha o realizador e todos quantos estiveram envolvidos no projecto. No seu candor especial, enaltece uma homenagem maior a todos os nativos, dando-lhes voz e perspectiva na grande tela mágica e marcando a justiça sobre a imoralidade dos homens: just because it is, doesn't mean it should be.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

POR MAIS ALGUNS DÓLARES (1965)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Per Qualche Dollaro in Più / For a Few Dollars More
Realização: Sergio Leone
Principais Actores: Clint Eastwood, Lee Van Cleef, Gian Maria Volonté, Mara Krupp, Luigi Pistilli, Klaus Kinski, Joseph Egger, Panos Papadopulos, Benito Stefanelli, Roberto Camardiel, Aldo Sambrell, Luis Rodríguez, Tomás Blanco

Crítica:

A CAÇA AO TESOURO

Where life had no value, death, sometimes, had its price.
That is why the bounty killers appeared.

Por Mais Alguns Dólares ainda se mata sem remorso, disparando as balas e eliminando os adversários sem grandes preocupações morais. A preocupação maior é tão-somente o entretenimento, desta vez por meio de uma história bem mais excitante e envolvente do que aquela que Por Um Punhado nos permitia. Sergio Leone aprimora a sua técnica, ainda sem a mestria de câmera que viria a alcançar em O Bom, O Mau e O Vilão e sem aquele tão corrosivo, irreverente e desconcertante humor, capaz de promover as mais espontâneas gargalhadas. Ainda assim, há humor quanto baste neste segundo capítulo da trilogia, momentos de genuína paródia até, que flui sagaz ao ritmo dos tiroteios.

Clint Eastwood (Monco) e Lee Van Cleef (Mortimer) formam uma dupla verdadeiramente apaixonante e cheia de carisma. When two hunters go after the same prey, they usually end up shooting each other in the back. And we don't want to shoot each other in the back. Os dois brilham sob a orquestração inspirada de Leone, que capta nos mais ambiciosos e arriscados close-ups a inteligência sem limites daqueles enigmáticos olhares. El Indio, a personagem de Gian Maria Volonté, é o inimigo perfeito, também ele amoral e adepto das mortes gratuitas, um fora-da-lei sem escrúpulos sedento de ouro e de sangue, dotado de um riso sarcástico e contagiante.

A banda sonora, a cargo de Ennio Morricone, jamais poderá dispensar a mais fervorosa menção. Afinal, o trabalho do compositor é sempre extraordinário e fundamental, ao ponto de ser inimaginável conceber um western spaghetti destes, assinado por Leone, sem a sua tão distinta sonoridade e alma. Destaques imprescindíveis vão também para a luminosa fotografia de Massimo Dallamano ou para a portentosa direcção artística, a cargo de Ángel Cabero, Montoro, Rafael Ferri, Carlo Leva e Carlo Simi. O trabalho de sonoplastia assume por vezes um tom caricatural; nada que não condiga, afinal, com o registo natural da obra.

Há alguns erros crassos e não há porque ignorá-los - talvez o exemplo mais flagrante seja mesmo aquela despedida final em que um cavalga sobre o entardecer e o outro, simultaneamente, conta os mortos em pleno fulgor da tarde - mas o certo é que nos deixamos prender pela trama, pelo candor de cenas como o do tiroteio sobre os chapéus, pela energia e imprevisibilidade crescentes dos sucessivos reencontros daquelas personagens e pela paciente espera que faz esticar o suspense ao limite.

No final, há para os vencedores as tão esperadas recompensas, como sempre, mas para nós, espectadores, fica a recompensa maior que é a sensação e a certeza de termos acabado de assistir, durante pouco mais de duas horas e tão agradavelmente, a um grande filme.

domingo, 12 de setembro de 2010

AGUENTA-TE, CANALHA (1971)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Giù la Testa
Realização: Sergio Leone
Principais Actores: James Coburn, Rod Steiger, Maria Monti, Rik Battaglia, Franco Graziosi, Romolo Valli, Domingo Antoine, Antoine Saint-John, Vivienne Chandler, David Warbeck, Giulio Battiferri

Crítica:

ERA UMA VEZ A REVOLUÇÃO

A revolution is not a social dinner, a literary event, a drawing on an embroidery; it cannot be done with elegance and courtesy.
The revolution is an act of violence.

Mao Tse-tung

México, 1913. Antes da dinamite, uma intensa e espumante chuva de mijo; a abrir o filme, indesperadamente, provocando o caos numa comunidade de formigas, aparentemente pacata. Chom, chom!... Chom, chom!... Sacode-se o instrumento, sacodem-se os pés sujos e descalços, empoeirados pela aridez da paisagem, fecha-se a braguilha. Rosto barbudo e anafado, tez suada e cozida pelo sol, um chapéu a condizer com o fato grosseiro e miserável. Chom, chom, chom!... Está apresentado o protagonista do filme.

Ressoa um estrondo de arma, Juan Miranda vislumbra ao longe uma veloz e apetecível carruagem, que se aproxima. Quando a caravana passa por ele, chicoteada sobre oito cavalos, Juan faz-lhe sinal. A princípio, parece ignorá-lo, oferecendo-lhe o desprezo condizente com o seu aspecto - desprezível. Todavia, pára mais à frente e o vagabundo corre para ela: Señor! Señor! Señor! Pede boleia para San Felipe, com a melhor das desculpas: my mother is dead! Um dos condutores da carruagem diz-lhe que vá a pé, enquanto aperta as correias dos animais. Mas enfim, nada que uma notinha não resolva, $$$$$, não é verdade? Chom, chom!... Chom, chom!... Antes de entrar, é revistado, não vá tratar-se de um desses bandidos ou assassinos que fazem esperas no deserto. No entanto, encontram-lhe apenas uma... meia-sandes, que fazem questão de atirar para o chão e a qual Juan se recusa a desperdiçar, recuperando-a rapidamente.

Já no interior do veículo, segue a viagem, depara-se com gente da alta sociedade, toda muito elegante e requintada, que o olha de alto a baixo, dando depois continuidade à sua conversa chata e racista. O silêncio é tanto de cortar à faca... como de rir às gargalhadas. A situação até que é séria, mas com uma personagem tão simples e desajeitada como Juan, sempre a coçar-se por todos os lados, e com uma encenação plena de ironia como a de Sergio Leone, é completamente impossível. Aguenta-te, Canalha é simplesmente notável enquanto comédia.

A seguir, que montagem extraordinária, assinada por Nino Baragli: faces, bocas, olhos, faces, bocas, olhos... bocas, olhos, bocas, olhos, bocas, olhos; uma brilhante sequência de extremos e obssessivos zooms e close-ups, invocando a boa memória de A Greve (1925), de Eisenstein, enquanto os ricaços degustam uma saborosa e variada refeição e Juan quase boceja. Mas a monotonia não dura para sempre.

Mais à frente, a carruagem cruza-se com um bando de pistoleiros ladrões e o tiroteio começa. Quem são, quem são, esses espalhafatosos foras-da-lei? O Papa, Chulo e os outros chulitos! Que é como que diz, o suposto pai de Juan e os seus seis filhos, todos eles de mães diferentes! Chom, chom, chom!... Está apresentada a família do hilariante Juan Miranda, pela qual nos apaixonamos, desde logo, e que rapidamente fuzila ou desnuda os viajantes, atirando-os por fim aos porcos e assumindo a posse de todos os seus bens.

Logo depois, é-nos apresentada a personagem de James Coburn, o enigmático John H. Mallory. Irlandês, de poucas palavras mas de farto bigode e fumador de charutos, é um profundo amante da revolução e um adepto absoluto da dinamite. I used to believe in many things, all of it! Now, I believe only in dynamite. O forasteiro viaja tranquilo e seguro da si na sua motocicleta, quando as balas de Juan o abordam. Ardiloso, o estrangeiro não tarda em surpreender tudo e todos com as suas artes mágicas, possantemente explosivas. É por esses instantes que a Juan lhe ocorre: que bando implacável formariam, se John se juntasse à família! John e Juan, os dois, a assaltarem bancos até à América. Nem que lhe torne a furar os pneus uma e outra vez, terá que conseguir tamanho elemento para a sua estirpe de bandoleiros! Perante tão lucrativa ideia, Leone chega mesmo a colocar um letreiro imaginário sobre a cabeça do irlandês, dizendo: Banco Internacional de Mesa Verde! $$$$$! Chom, chom!... Chom, chom!...

 ... the most beautiful, wonderful, fantastic, gorgeous, magnificent bank in the whole world! When you stand before the bank and you see it has the gates of gold, like it was the gates of heaven. And when you go inside, everything, everything is gold! Gold spittoons, gold handles, and money, money, money is everywhere. And you know, I know 'cause I saw this when I was eight years old. I went there with my father. He tried to rob the bank, but they caught him. (...) Listen, Firecracker. Now you listen to me. Listen, why don't you come with me, eh? And we will work together and we will become rich!
Juan Miranda

John, contudo, não está minimamente interessado na parceria. Está no México com outros intuitos. Sempre que pode, por isso, esquiva-se e evapora-se. Nem desconfia o mexicano que está perante um terrorista fortemente procurado, pelo qual o governo inglês oferece a aliciante quantia de 300 libras! $$$$$! Quem é, afinal, John Mallory? Noutros tempos, fora um activista revolucionário no seu país. Os constantes flashbacks ao longo de toda a obra dão conta de um passado feliz, ao qual nunca mais voltou nem nunca mais poderá voltar. As revoluções, afinal, têm consequências irreversíveis.

John Mallory: Oh, we fought a revolution in Ireland.
Juan Miranda: A revolution? Seems to me the revolutions are all over the world. You know, they're like the crabs! We had a revolution here. When it started, all the brave people went in it, and what it did to them was terrible. Pancho Villa, the best bandit chief in the world, you know that? This man had two balls like the bull. He went in the revolution as a great bandit. When he came out, he came out as what? Nothing. A general, huh? That, to me, is the bullshit!

Sempre que se separam, o destino volta a reuni-los. A acção é pausada, ao melhor estilo de Leone, mas os encontros são explosivos. Duck, you sucker! Com o tempo, John envolve Juan na grande conspiração revolucionária do México - tierra y libertad! - tornando-o num herói aclamado pelo povo!

Where there's revolution there's confusion and when there's confusion a man who knows what he wants stands a good chance of getting it.
John Mallory

Desde a libertação dos presos ao assalto ao comboio, a missão torna-se cada vez mais arriscada e perigosa e a comédia dá lugar ao drama, à reflexão sobre a violência, sobre a revolução e sobre as suas consequências. A pólvora é uma invenção mortal e até o maior dos bandidos tem coração, quando a tragédia bate à sua porta, dizimando os seus entes mais queridos. A contemplação dos mortos e o desolamento esbatido no rosto de Juan é assombroso. Quantos não são os sacrifícios pessoais que não se seguirão em nome da causa. A banda sonora de Ennio Morricone (numa nova cooperação com Leone e uma vez mais fascinante, irreverente e singular) torna-se mais lírica e finalmente soa, com sotaque certeiro: - não o chom... chom... chom!, mas o - sean... sean... sean!

A câmera de Leone é implacável, magistral. Como as suas obras beneficiam dessa arte verdadeiramente destemida, audaciosa e, em última instância, sublime de saber filmar. As interpretações dos actores são tão carismáticas como as de O Bom, O Mau e O Vilão ou de Aconteceu no Oeste, tanto James Coburn como Rod Steiger agarram os seus papéis com especial dedicação, contribuindo eficazmente para o triunfo e sucesso da obra.

Depois, o entretenimento puro volta à carga, pondo fim à melancolia. E como? Com a queda de um cocó, na tola do mexicano. Chom, chom!... Chom, chom!... A dupla John e Juan avança para a concretização do plano final e a irrepreensível técnica do cineasta manifesta-se a cada compasso. O choque frontal dos comboios é impressionante. Quando os créditos assumem o ecrã, apetece-nos gritar: Raios! O filme é mesmo bom! Mas só cantarolamos, repetidamente: Chom, chom, chom!...

Grande, grande filme. Absolutamente memorável.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

DANÇAS COM LOBOS (1990)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Dances with Wolves
Realização: Kevin Costner
Principais Actores: Kevin Costner, Mary McDonnell, Graham Greene, Rodney A. Grant, Floyd `Red Crow` Westerman, Tantoo Cardinal, Robert Pastorelli, Charles Rocket, Maury Chaykin, Jimmy Herman, Nathan Lee Chasing His Horse, Michael Spears

Versão Alargada

Crítica:

O CORAÇÃO DA AMÉRICA


Rezam as crónicas que a Guerra Civil Americana (1861-1865) ceifou a vida a mais de 950 mil pessoas, de entre as quais 618 mil eram soldados. As causas? Motivos políticos, ganância por poder, terras, riqueza... 618 mil morreram nas frentes de batalha, nas trincheiras, por quilómetros e quilómetros de terra, manchando a paisagem de sangue. 618 mil pereceram em nome de uma bandeira.

Os nativos do Novo Mundo tinham uma cultura de respeito pela natureza e pela família, de generosidade e amizade entre si. Rendiam-se aos simples prazeres da vida: rir, fumar, dançar, conversar. Não se prendiam à matéria, sentiam-se no espírito.

They were a people so eager to laugh, so devoted to family, so dedicated to each other. The only word that comes to mind is harmony.
John Dunbar

Não cobiçavam, rendiam-se à troca. Deparavam-se com a morte todos os dias, pela caça; naturalmente subsistindo. Quando travavam uma batalha, entre tribos distintas, faziam-no em nome da protecção dos seus, em nome das reservas alimentares que lhes decidiriam a sobrevivência quando a neve caísse.

It was hard to know how to feel. I had never been in a battle like this one. This had not been a fight for territory or riches or to make men free. This battle had no ego. It had been fought to preserve the food stores that would see us through winter, to protect the lives of women and children and loved ones only a few feet away. I felt a pride I had never felt before.
John Dunbar

The white men who wore this came around the time of my grandfather's grandfather. Eventually we drove them out. Then the Mexicans came. But they do not come here any more. In my own time, the Texans. They have been like all the others. They take without asking. But I think you are right. I think they will keep coming. When I think of that, I look at this helmet. I don't know if we are ready for these people. Our country is all that we have, and we will fight to keep it.
Ten Bears

Conseguiremos imaginar o quão trágico foi para os povos índios a chegada da Guerra Civil às suas fronteiras? Dificilmente. Danças com Lobos, concepção magistral de Kevin Costner, pinta um retrato possível como resposta. Sem maniqueísmos. A fotografia de Dean Semler é deslumbrante e encantatória, perfeita a cada enquadramento. A banda sonora de John Barry é absolutamente memorável. Assim como o elenco. E o argumento traduz-se num exercício de muito boa escrita, ritmado ao compasso da natureza indígena: é uma viagem de descoberta, de auto-descoberta. De um homem e de um país. Quando o tenente John Dunbar é feito cativo pelos guardas do forte e decide falar a língua dos Sioux... esse momento marca o assumir de uma nova identidade e o reconhecer da verdadeira justiça...

You are the only white man I have ever known. I have thought about you a lot. More than you think. And I understand your concern. But I think you are wrong. The white man the soldiers are looking for no longer exists. Now there is only a Sioux named Dances With Wolves.
Ten Bears

I had never really known who John Dunbar was. Perhaps because the name itself had no meaning. But as I heard my Sioux name being called over and over, I knew for the first time who I really was.
John Dunbar

É na aldeia que o Homem-Branco se apercebe da essência das coisas, da Verdade. É lá que descobre a felicidade e um caminho. É idílica, esta visão, onde o diálogo é possível e se rompem as fronteiras do preconceito. Mas como seria bom regressar às nossas origens...

Danças com Lobos não é, pois, senão um clássico absoluto e essencial.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

POR UM PUNHADO DE DÓLARES (1964)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
Título Original: Per un pugno di dollari / A Fistful of Dollars
Realização: Sergio Leone
Principais Actores: Clint Eastwood, Marianne Koch, Gian Maria Volonté, Wolfgang Lukschy, Sieghardt Rupp, Antonio Prieto, José Calvo, Margarita Lozano, Daniel Martín, Benito Stefanelli, Bruno Carotenuto, Joseph Egger, Mario Brega, Aldo Sambrell

Comentário: Foi com alguma desilusão que assisti ao primeiro filme da Trilogia dos Dólares. Não sei se foi a péssima qualidade da cópia ou o facto de não me conseguir abstrair, de todo, da dobragem em italiano sobre as falas do Clint Eastwood. Deixo o benefício da dúvida para uma segunda visualização. De resto e para já, fora um ou outro movimento de câmera virtuoso, os famosos compassos de espera, a autenticidade da direcção artística e a extraordinária banda sonora de Ennio Morricone, o filme fica algures entre o disparo e o disparatado. O final é um grande final, mas o que ficou para trás deixou-me na dúvida.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

A DESAPARECIDA (1956)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Searchers
Realização: John Ford
Principais Actores: John Wayne, Jeffrey Hunter, Vera Miles, Natalie Wood, John Qualen, Ward Bond, Olive Carey, Henry Brandon

Crítica:

RASTOS DE ÓDIO

Abre-se a porta e passamos da sombra à luz: rochedos altos e imponentes, uma paisagem empoeirada, com cheiro a terra e a suor, com um céu azul radioso, num todo absolutamente belo e extasiante. Bem-vindos ao Oeste, ao Oeste de John Ford, à imensidão de Monument Valley e às cavalgadas pelas pradarias de vegetação rarefeita, à América tradicional e empreendedora, ainda que racista e à procura de si própria.

Texas, 1868. Ethan Edwards (John Wayne, naquela que é unanimamente considerada uma das suas mais intensas e complexas interpretações) regressa da Guerra Civil, três anos após o seu término. Torna a casa de Aaron, o irmão, qual the Prodigal Brother!, onde vivem também a cunhada Martha (pela qual sente um amor não assumido que se depreende no subtexto narrativo), as sobrinhas Lucy e Debbie e Martin (Jeffrey Hunter), o órfão mestiço, eighth Cherokee. Ethan é um homem solitário e misterioso, forte e obstinado, com aura de herói mas não é propriamente um herói. Nutre um ódio de morte pelos índios (daí menosprezar Martin, apesar de o ter resgatado ao infortúnio, no passado) e tem atitudes humanamente desprezíveis, apesar de não ser também um vilão. É, pois, um ser humano em toda a sua ambiguidade, com motivações pessoais contraditórias e conflitos internos que doseiam a história de imprevisibilidade e realismo; e não mais um formato vazio, personagem-tipo de atirador sem dó nem piedade.

Na manhã seguinte à sua chegada, o Reverendo e Capitão Samuel Clayton (Ward Bond) vem buscar ajuda entre os homens da casa para solucionar um roubo de gado no rancho do vizinho Lars Jorgensen. Ethan ainda hesita, mas acaba por juntar-se a Martin na perseguição. Durante a sua ausência, todavia, um ataque de índios reduz a casa a chamas e cinzas e a tragédia abate-se sobre a família. Quando tornam, deparam-se com Aaron e Martha brutalmente chacinados e com os indícios do sequestro de Lucy e Debbie. A dor corrói-lhes então a alma. A sede de vingança, friamente personificada por Ethan, e a esperança de resgatar as pequenas, inesgotavelmente personificada por Martin, assumem-se determinantes para a desenfreada caça ao homem que empreenderiam durante cinco longos anos.

O argumento (Frank S. Nugent, a partir do romance de Alan LeMay) condensa um sem fim de frases memoráveis, um outro tanto de referências bíblicas e um leque de personagens memorável, mas acima de tudo uma trama extremamente bem escrita e bem construída, onde se cruzam com perfeição o drama, o melodrama, a acção, a aventura e, também, a comédia. A cena do casamento é, claramente, muito mais do que um ocasional compêndio de comic reliefs. Comic reliefs, esses, que, diga-se de passagem, pontuam a obra com alguma frequência. As implicações e os efeitos narrativos da leitura da carta, pela encantadora e apaixonada Laurie (Vera Miles), nomeadamente os cinco anos que por meio dela se condensam, resulta, quanto a mim, num dos feitos mais admiráveis do argumento.

Esses cinco longos anos são também uma odisseia pessoal de aproximação entre Ethan e Martin, ao jeito de relação pai-filho. Para o primeiro, é uma oportunidade para desenvolver laços emocionais com alguém e uma forma de atenuar os seus ódios e preconceitos raciais, por meio de uma maior compreensão da natureza humana e da pluralidade cultural. Para o segundo, é um caminho para atingir a maturidade, para cimentar e lutar pelos seus bons valores e princípios e para descobrir o amor. Aos poucos, apercebemo-nos das semelhanças entre Ethan e Scar, o índio-chefe dos Comanches - o que separa e diferencia os brancos dos índios é, afinal e essencialmente, os costumes. Somente os costumes. Há humanidade em ambos os povos. Heróis e vilões, bons e maus... em ambos os povos. O próprio cowboy se apercebe e se rende a essa realidade; daí a reviravolta final, que um close-up verdadeiramente notável já deixara antever: let's go home, Debbie.

Deste modo, A Desaparecida impõe-se, sob todos os primas, como uma viagem derradeiramente marcante, em que o western, consciente do seu simplismo maniqueísta, se aventura a abraçar novos horizontes, plenos de humanidade - tal como ela é: ambígua. Ao mesmo tempo que dá seguimento ao cânone, glorificando a paisagem mítica do Oeste, o filme condena o racismo e a violência que o próprio género representou, vezes e vezes sem conta. É por isso que lhe é indissociável uma forte ressonância reflexiva e moral sobre as consequências da violência e sobre a tragédia do choque de culturas. É, por isso mesmo também, um filme que marca a maturidade do género.

Eis, pois, um dos mais deslumbrantes filmes de sempre, magistralmente filmado por John Ford, dotado de um monumental trabalho de fotografia e iluminação (Winton C. Hoch), de um exímio trabalho de cenografia (James Basevi, Frank Hotaling e Victor A. Gangelin) e de uma magnífica composição musical (Max Steiner).

No final, dita a forma que se fine o círculo. A câmera recua para a escuridão do interior da casa. A paisagem fica ao longe. Ethan Edwards caminha, elegante e apaziguado, de regressa ao Oeste. A porta fecha-se.

Fica-nos um clássico absoluto. Absolutamente essencial.

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Notas adicionais (1) para a infeliz escolha do título português e (2) para a excepcional remasterização da mais recente versão do filme.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

IMPERDOÁVEL (1992)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Unforgiven
Realização: Clint Eastwood
Principais Actores: Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman, Richard Harris, Jaimz Woolvett, Saul Rubinek, Frances Fisher, Anna Thomson

Crítica:

O MITO
E A ORIGEM DO MITO

All right, I'm coming out. Any man I see out there, I'm gonna shoot him. Any sumbitch takes a shot at me, I'm not only gonna kill him, but I'm gonna kill his wife, all his friends, and burn his damn house down.
Bill Munny

Em Imperdoável há todo um passado que assombra o presente; o que ecoa e se dimensiona, essencialmente, a dois níveis. Primeiramente, a um nível diegético. Depois, a um nível conceptual, de género.

1. A nível diegético.

A personagem de Clint Eastwood, William Munny, recalca a essência do seu ser assassino na construção de uma vida campestre e pacata, em família e sem whisky. O seu fiel companheiro dos velhos tempos, Ned Logan (Morgan Freeman), também se encontra aposentado; sabendo que consegue acertar no olho de um pássaro em pleno vôo, hesita agora em acertar no alvo. I guess I'd rather be blind and ragged than dead. Little Bill, o cherife desempenhado por Gene Hackman, há muito que renunciou às armas e se reconfortou confiantemente no poder da Lei. Na sua vila, Big Whiskey, não permite qualquer tipo de confronto ou violência e de forma pacífica assume a figura do justiceiro. Serve-se de Bob English (Richard Harris), aliás, para ditar o exemplo. The Schofield Kid, interpretado por Jaimz Woolvett, é o jovem no meio de tantos senhores do western, que, sem noção do que é matar, vive do mito e sonha tornar-se um grande pistoleiro. Será um elemento essencial para o confronto geracional que se estabelecerá e se fortalecerá. Finalmente, o mito e a origem do mito encontram-se... a personagem de Saul Rubinek, o escritor, simboliza a entidade responsável pelo mito: o western virou história em livro e repercute-se em edições - mas num registo fantasioso, com bons e maus e onde a violência não tem consequências morais. Beauchamp vive, como muitos ficcionistas, mais da própria mitologia do que da dura e crua realidade do western. O mito e os demónios do passado persistem e perseguem as personagens até ao último fôlego.

I ain't like that no more. I ain't the same (...) Just 'cause we're goin' on this killing, that don't mean I'm gonna go back to bein' the way I was. I just need the money, get a new start for them youngsters.
Bill Munny

Clint Eastwood mostra-se irrepreensível na direcção de actores; é evidente a sublimidade atingida pelas performances.


2. A nível conceptual, de género.

O argumento de David Web Peoples, de uma qualidade dramatúrgica inegável, permite que o western se confronte a si mesmo, se questione, amadureça e se transforme. A figura do escritor, aliás, configura a mise-en-abyme, através da qual o género se espelha a si mesmo e se auto-critica. É com Imperdoável, pois, que se dá a reconversão da fórmula que definia o género e se emancipam notórias diferenças:

- não há mais romance; a figura da mulher de Munny, por exemplo, é assumidamente fundamental para o filme, embora ausente: note-se a pertinência do prólogo e do epílogo e a carga emotiva que a sua imagem acarreta no dia-a-dia do cowboy. A própria figura feminina, representada pelas prostitutas, desencadeia a trama e assume protagonismo, não sendo mais um mero acessório.
Just because we let them smelly fools ride us like horses don't mean we gotta let 'em brand us like horses. Maybe we ain't nothing but whores but we, by god, we ain't horses.
Strawberry Alice

- não há sentido de espectacularidade no gunplay. A acção desenfreada, as cavalgadas e a gritaria, outrora constantes, perdem o protagonismo para dar lugar à profundidade psicológica dos cowboys; não mais maniqueístas, mas agora vítimas de uma violência imperdoável, angustiados pela consciência que lhes corrompe a alma. A violência emana, mas não mais ao acaso; agora, com conflito moral. Não há mais o matar por matar.

Eis a introspecção e consciência crítica da essência do western. Daí o estatuto especial que o filme de Eastwood tem para a reconfiguração do género: lida com o remorso, faz a catarse e honra a memória como nenhum outro.

I've killed women and children. I've killed everything that walks or crawls at one time or another. And I'm here to kill you, Little Bill, for what you done to Ned.

It's a hell of a thing, killin' a man. Take away all he's got, and all he's ever gonna have.
Bill Munny

Magnificamente fotografado (Jack N. Green) e montado (Joel Cox), Imperdoável reclama autenticidade a cada cena, imerso numa atmosfera histórica de detalhe e bom gosto. Eis, pois, e desta feita assombrado pelo futuro, um clássico absoluto. Magistralmente bem feito.

CINEROAD ©2020 de Roberto Simões