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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O NÁUFRAGO (2000)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Cast Away
Realização: Robert Zemeckis
Principais Actores: Tom Hanks, Helen Hunt, Nick Searcy, Leonid Citer, David Allen Brooks, Semion Suradikov, Paul Sanchez

Crítica:

O SOBREVIVENTE

We live and we die by time. 
And we must not commit the sin of losing our track on time.

Quando Eurico de Barros disse «que há um filme a mais em Cast Away - O Náufrago, e que esse filme é o primeiro»*, não poderia estar mais de acordo. Há dois filmes neste O Náufrago: um que se completa com a abertura e com o final da obra e outro que consiste no seu meio. E este do meio é verdadeiramente sublime, desde o desempenho impressionante e transfigurador de Tom Hanks (a entrega do ator é total) a aspectos mais técnicos como o som, a fotografia ou a realização. Fosse só o filme este âmago inspirado e profundamente inspirador, que conta uma extraordinária história de sobrevivência, e atribuir-lhe-ia as cinco estrelas sem pestanejar; porque lhe são inteiramente merecidas e tem qualidade para se afirmar como um clássico absoluto. Porém, o restante filme, ainda que interessante e com uma prestação sentida de Helen Hunt, identifica-se facilmente como uma daquelas convencionais e sentimentais comédias americanas, sem especial mise-en-scène ou singularidade. Impõe-se, portanto, a questão: qual a necessidade?

Segue a reflexão: a necessidade do contraponto, para uma maior humanização da personagem e para o triunfo da mensagem junto da nossa consciência. Chuck Noland não é senão um ser humano comum, porventura igual a muitos dos espetadores: escravo do trabalho, de um sistema capitalista que nos conometra a respiração, e de uma civilização ocidental, que nos cega para o real sentido da vida e das coisas, para o que é verdadeiramente essencial e importante: o tempo para amar e ser amado, para construir uma família, para a realização pessoal. Não é por acaso que Chuck trabalha na FedEx, passe um de muitos casos de product placement, estabelecendo uma relação irónica com a estadia na ilha deserta. O dia-a-dia na distribuidora, a pressão, o stress, a viagem por todo o globo, o ritmo imparável, o verdadeiro consumo da existência, passando o tempo sem que se note. Quando a tempestade assola aquele fatídico avião e a tragédia se abate sobre o oceano, a morte bate à porta: e, se vier para ficar, todo o tempo gasto em prol da profissão foi tempo perdido, que jamais voltará. A possibilidade e a oportunidade de uma vida terá sido desperdiçada, sem que se tivessem alimentado raízes ou criado frutos; que é como quem diz: significados. Nesse momento, Zemeckis bate à porta do espetador: não como a morte, mas como mensageiro ou arauto: caro espetador, ainda vai a tempo de mudar a sua vida.

Encarando a reflexão e esta necessidade, compreendemos melhor a razão de ser do filme na civilização, em todos os seus contornos dramáticos, ainda que não a aceitemos totalmente. Podemos criar alguma ligação emocional com a sequência do regresso a casa (embora soe a anticlimático, a demasiado), mas seria preferível e mais enriquecedor deixar o final em aberto. Zemeckis e o argumentista William Broyles Jr. poderiam ter optado por deixar o ator à deriva ou partir para os créditos no momento em que o navio atravessa o frame em segundo plano. Mas enfim: qualquer filme é aquilo que é e não aquilo que gostaríamos que fosse. O Náufrago abre e fecha em círculo, numa encruzilhada - literalmente falando. Nunca sabemos aonde as nossas escolhas nos levam, percebemos o símbolo, e a escolha dos autores foi esta. Para todos os efeitos, o certo é que O Náufrago é um daqueles filmes aos quais retorno, de par em par de anos, e, a cada visualização, é como se tivesse o poder de me reposicionar perante a vida. A experiência de Chuck na ilha paradisíaca - que se tornará, durante anos, a ilha da solidão - remete-nos para a essência do ser humano no seu estado mais puro e primitivo e revela-nos aquilo que, porventura, esquecemos no nosso ocupado dia-a-dia. Ei-lo a (sobre)viver com a ajuda da imaginação, das memórias e da esperança, numa autêntica transformação física e psicológica. A escapar ao infortúnio, sabemo-lo, nunca mais será o mesmo.

Do imaginário de Robison Crusoé, o filme de Zemeckis invoca-nos as melhores recordações. A relação que estabelece com a bola de voleibol Wilson, qual Sexta-Feira, salva-lhe a vida, pela amizade e comunicação; caso contrário, o cerne do filme seria silêncio, vento e mar e pouco mais. Sem diálogos, sem música. A ação é deveras marcante e o nosso interesse jamais esmorece, tal é o fascínio com que o projeto é encenado, filmado e interpretado: um só ator, na posse plena do seu talento, na procura de um abrigo, de um navio no horizonte, de uma fagulha que desperte uma fogueira quente, que o proteja do frio. Contar os dias, as horas ou tentar esquecer o tempo... é tudo uma reaprendizagem, como se tivesse nascido novamente, noutra condição. A sonante música de Alan Silvestri, quando se ouve e sente, desvanece a desolação numa desejada sensação de conforto.

Não obstante e indubitavelmente, a força do filme está no homem e na ilha, na visceral e memorável performance de Tom Hanks.

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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

MELANCOLIA (2011)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Melancholia
Realização: Lars von Trier
Principais Actores: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Alexander Skarsgård, Brady Corbet, Cameron Spurr, Charlotte Rampling, Jesper Christensen, John Hurt, Stellan Skarsgård, Udo Kier, Kiefer Sutherland

Crítica:

O FIM DO MUNDO

The earth is evil. We don't need to grieve for it.
(...) we're alone. Life is only on earth, and not for long.

Melancolia é um filme bastante sui generis, como bastante sui generis é o cineasta Lars von Trier, todos sabemos. E este é o comentário mais redutor que se poderá tecer a respeito deste intenso e estranho melodrama de fim do mundo. 

Depois de um prólogo visualmente impressionante e irrepreensível, pleno de força cinematográfica ao som de Tristão e Isolda de Wagner, em que o slow motion anima a simbologia em tons de pesadelo, duas partes de filme: na primeira, intitulada Justine, seguimos a deslumbrante noiva de Kirsten Dunst, alheada numa depressão profunda, absorta numa existência inconsciente, como se a sua palavra ou ação não tivesse mais significado. Seguimo-la de trémula câmera ao ombro, desde a sinuosa curva que atrasa a limousine dos recém-casados ao mais inesperado copo d'água de que há memória, numa mansão-quase-castelo repleta de familiares e amigos que não se adoram propriamente. Cai a máscara, progressivamente, caindo com ela todas as aparências de um casamento feliz. O sonho dá lugar à frustração, à desilusão. Ao alto, na imensidão do firmamento, Justine identifica um ponto mais luminoso do que as restantes estrelas da noite - o mesmo ponto crescente que, na segunda parte, a irmã da noiva (herdou-se a Charlotte Gainsbourg do genial e anterior Anticristo), cujo nome Claire dá nome ao capítulo, prefere abster-se de vislumbrar ao telescópio, como se pela privação acalmasse o seu penoso pressentimento de que o planeta - chamado Melancolia - está a dias de colidir com a Terra e de acabar com todas as coisas. As previsões matemáticas e científicas de que isso não acontecerá e das quais o marido está tão seguro teimam em inquietá-la ao invés de pacificá-la. Essa ameaça que vem desde o prólogo, que na primeira parte não passa de um mero apontamento, mas que na segunda parte acaba por se tornar o centro de toda a ação, de todo o filme, funciona como força magnética e gravitacional, como se atraísse as personagens para a melancolia do seu nome e para a desgraça e o abismo inevitável que a sua colisão representa e significa. A sua omnipresença assola, em crescendo e irredutivelmente, o destino das duas irmãs, aniquilando quaisquer possibilidades de família ou de futuro. Por isso mesmo o casamento - instituição associada à união dos seres, à construção da relação ou da família - não deixa de funcionar como ironia, pois quaisquer tentativas de criação estão, a priori, condenadas pela destruição vindoura.

A ópera termina em tragédia; o que não admira, tal é o desencanto da visão. O que talvez surpreenda é o intimismo alcançado - tão contrastante com a natureza espetatular e desenfreada da maioria dos filmes apocalíticos - capaz de causar algum mal-estar no espetador, porém infinitamente distante do tom repugnante e provocatório de outras obras com a assinatura do realizador. Aqui contemplamos a apatia, distante de viscerais sentimentos, resignados, como de mãos e pés atados mas sem força ou vontade de ficarmos livres, por nos darmos por vencidos ou derrotados pelas circunstâncias. Não há escape nem salvação possível. Melancolia não deixa, portanto, de ser Lars von Trier fiel a si próprio, tanto na estética como na essência temática: tornamos à mulher como cúmulo da dor humana, como caminho para a transcedência. Fica a sensação de uma expiação criativa, de alguma fragilidade estrutural, todavia de absoluta singularidade.

domingo, 24 de novembro de 2013

A VIDA DE PI (2012)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Life of Pi
Realização: Ang Lee
Principais Actores: Suraj Sharma, Irrfan Khan, Ayush Tandon, Gautam Belur, Adil Hussain, Tabu, Ayan Khan, Mohd Abbas Khaleeli, Vibish Sivakumar, Rafe Spall, Gérard Depardieu, James Saito, Jun Naito, Andrea Di Stefano, Shravanthi Sainath, Elie Alouf

Crítica:

A ARCA DE PI

In the end, the whole of life becomes an act of letting go, 
but what always hurts the most is not taking a moment to say goodbye.

A Vida de Pi é, em si mesmo, um milagre, um acto de fé. Mesmo numa era em que os efeitos digitais se superam todos os dias, atingindo tantas vezes o impossível, a dúvida perdurava à tona, sem ceder... seria viável a adaptação do consagrado romance de Yann Martel à grande tela mágica? E depois de vislumbrar o filme... e de voltar a assisti-lo, ganhando maior consciência daquilo a que realmente assisti - do  tremendo trabalho, esforço e mérito por detrás de cada cena e de cada frame -, as dúvidas dissipam-se, tornando a conclusão tão clara e transparente como o reflexo dourado dos céus sobre a paz e a imensidão do oceano. A arrojada experiência visual e artística (tantos há que se deixam cegar, a priori, pela experiência ou pelo preconceito) confunde-se com a profunda viagem emocional, num filme absolutamente mágico e inspirador.

Doubt is useful, it keeps faith a living thing. 
After all, you cannot know the strength of your faith until it is tested. 

Parábola sobre o fim da inocência, sobre a religião e o seu significado na existência humana, a fluída narrativa demora-se no prazer de contar uma pequena grande história: a história do jovem Pi, que desde cedo descobre, questiona e abraça o hinduísmo, o cristianismo, o islamismo... como se ao conhecer cada face de Deus se completasse o mistério da vida. Thank you Vishnu, for introducing me to Christ, profere a dado momento. O pai, amante da ciência, para quem a religião é obscuridade, chega a gracejar-lhe: You only need to convert to three more religions, Piscine, and you'll spend your life on holiday. E acrescenta: If you believe in everything, you will end up not believing in anything at all.

Quando se vê forçado a abandonar, na companhia dos pais e do irmão, a exuberante Índia que sempre conheceu, o zoo da família onde cresceu ou a sua primeira paixão da adolescência pela procura de uma vida melhor, percebe que a sua vida nunca mais será a mesma. Ao atravessar a Fossa das Marianas, lugar mais profundo da Terra, uma tempestade tremenda assola o navio onde seguiam e a tragédia precipita-se para o naufrágio, irreversivelmente. Espera-o uma odisseia de sobrevivência: assustadoramente traumática, fustigante, extenuante. Um verdadeiro teste à sua coragem, à sua fé, à sua força.

Sabemos da história pela voz do Pi adulto (Irrfan Khan), que desde o início no-la relata em tom de mistério, testando também a nossa capacidade para acreditar no seu testemunho. Em pleno flashback, a tragédia dá progressivamente lugar à fábula, à fascinante contracena de
Suraj Sharma com uma zebra de perna partida, uma hiena faminta, uma oragotango maternal e claro... um tigre feroz, perigoso e por demais selvagem e persistente. Animals have souls... I have seen it in their eyes. Permitam-me o parênteses: fenomenal revelação, a do agora ator; trata-se de uma daquelas escolhas de casting que não só marcaram como transformaram o destino de um talentoso mas mero rapaz dos confins da Índia numa estrela eternamente global. Mérito do próprio e de toda uma equipa que o encontrou e preparou intensamente para os desígnios que o papel exigia; Ang Lee chegou a considerar-se, inclusivé, o seu guru. Suraj Sharma transfigura-se, física e emocionalmente, a um daqueles raros papéis de uma vida. A sua entrega é total e determinante para o sucesso deste arriscado projeto. 

Das provações do deserto - que é o mar aberto - ao delirante e desejado oásis da Ilha da Abundância, repleta de suricatas, da fome, frio e solidão à difícil e exigente relação com o tigre de Bengala, de nome Richard Parker - sobre todas, a mais prodigiosa criação da equipa de efeitos digitais, tão real na textura, na robustez, na captação de movimentos... até que ponto distinguimos o tigre autêntico deste artificial? -, da caça ao cardume de peixes alados à encantatória e colorida bioluminiscência das águas e seus microorganismos, ao gigante e imponente cetáceo que, explodindo das profundezas e brilhando ao luar, vem transcender o espetáculo de puro esplendor... A Vida da Pi é um feito derradeiramente belo e maravilhoso. São 227 dias de sobrevivência e de absoluta dádiva. 

As demais virtudes técnicas, que procuram a perfeição da imagem, conferindo-lhe um determinado estilo, ecoam no assombro e na excelência da fotografia de Claudio Miranda. E a banda sonora (Mychael Danna), outra das maravilhas da obra, é como que o guia espiritual, que nos conduz pela demanda e nos faz suscitar os mais variados sentimentos. E se A Vida da Pi é obra de delicada sensibilidade ou de fortes sentimentos, ou não fosse Ang Lee o cineasta por detrás desta fantástica visão. O 3D é a ferramenta utilizada, precisamente, para intensificar ainda mais a carga emocional, muito para além dos estímulos sensoriais dos quais, sabemos, é capaz. Ang Lee é eficaz no recurso; creio, não obstante, que o filme resulta extraordinariamente bem no 2D, pelo que o 3D, não sendo fundamental, também não é acessório.

Assumindo o triunfo do filme e que, na sua maior parte, pouco mais é do que um ator, uma embarcação e um tanque de água que a pós-produção transforma mais tarde em oceano, define um horizonte e um céu glorioso e adiciona as personagens virtuais... isto faz-nos pensar muito, nomeadamente sobre a própria definição de cinema e a sua essência artística. O que importa transmitir. E, claro, na sua relação simbólica, o rumo que aquela embarcação, representando o cinema, toma...

O desfecho é chocante para todos quantos ousaram acreditar. Quantos, mesmo conhecendo a segunda versão - que, sejamos sinceros, deve mais ao realismo - não preferem acreditar na fantasia poética?  So which story do you prefer? É uma forma - mais fácil - de superar a dor. So it goes with God.  
 
Não deixa de ser curioso que certos filmes nos ofusquem pela estranheza, na primeira vez que os vemos e que, mal lhes seja dada uma outra oportunidade, nos conquistem tão seguramente. Aconteceu-me mais uma vez com A Vida de Pi, não só pela expectativa, também pelo 3D que teima em parte em distrair-me, em distanciar-me do âmago das coisas e até em causar-me algum desconforto. Ao revê-lo, finalmente concentrado e inteiramente absorvido... A Vida de Pi consegue rasgar-nos o coração, mas ao mesmo tempo reconfortar-nos o espírito. É pleno de alma, mesmo no artifício. E isso... faz toda a diferença. Que pérola de filme.

domingo, 18 de agosto de 2013

UM ELÉTRICO CHAMADO DESEJO (1951)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: A Streetcar Named Desire
Realização: Elia Kazan
Principais Actores: Vivien Leigh, Marlon Brando, Kim Hunter, Karl Malden, Rudy Bond, Nick Dennis, Peg Hillias, Wright King, Richard Garrick, Ann Dere, Edna Thomas, Mickey Kuhn

Crítica:

A ACTRIZ E O MACACO

A line can be straight, or a street.
But the heart of a human being?

Equiparo Blanche a uma actriz, porque ela é uma mentira. Vivien Leigh dá-lhe corpo e alma, fabulosamente, perdida em ilusões e em declamações teatrais. Essas reminiscências, as teatrais, repercutem-se na calorosa representação dos actores (magistralmente dirigidos), na encenação interior, quase claustrofóbica (focada no essencial: as relações humanas) e na palavra: A Streetcar Named Desire é a adaptação cinematográfica da peça de Tennessee Williams, que Elia Kazan também encenou. Tal como no extraordinário Suddenly, Last Summer, que Mankiewicz mais tarde adaptaria, os temas recorrentes de Tennessee Williams: a loucura, o passado que assombra o presente e o segredo sobre as pecaminosas e imorais relações sexuais que marcaram as personagens para sempre. Em ambos os filmes, o poder do implícito (potenciado pela censura).

Blanche é uma mulher perturbada: pouco sabemos sobre ela e quanto mais descubrimos maior é a pena que sentimos. Às tantas esperamos pela sua redenção. Mas por mais burguesa e requintada que tenha sido a sua educação, a vida empurrou-a para a ruína, para um caminho difícil e vergonhoso, do qual não há retorno possível. É por isso que chega a Nova Orleães, onde ninguém a conhece a não ser a irmã Stella, onde poderá tentar o recomeço. Traz uma mala repleta de memórias, de excentricidades, mas não passam elas de um guarda-roupa de backstage, que alimentará novamente o embuste. Ela é uma fraude, fomentada pela tragédia e pela solidão.

O coração do filme encontra-se na relação antagónica - eu diria explosiva - entre esta lunática e refinada Blanche e o bruto e violento Stanley (o cunhado, o touro enraivecido, brilhantemente interpretado por Marlon Brando).

He's like an animal. He has an animal's habits. There's even something subhuman about him. Thousands of years have passed him right by, and there he is. Stanley Kowalski, survivor of the Stone Age, bearing the raw meat home from the kill in the jungle.
Blanche

No ar, há uma tensa e permanente atmosfera de desejo; qual nome do eléctrico que sobe e desce a rua, diariamente. Essa atmosfera é uma e outra vez refreada pelos tempos da acção, mas jamais extinta. Apesar do desejo não-assumido, apesar do corpo sensual e suado do polaco que inebria o olhar de Blanche, há ódio. O ódio é a lei da atracção. Stanley desconfia da cunhada, insiste em desmascará-la. Blanche afronta-o, desafia a sua autoridade máscula. Existe Stella, no meio como um peão, que adora a irmã e idolatra o marido, sem personalidade própria. Mas existem sobretudo estes dois, que suplantam o protagonismo da obra. Há tanta loucura na mácula dela como na efeverscência dele, como na arrogância e desejo dos dois. Na verdade, lutam a força e a fragilidade. Não esteve desde sempre ditada a vitória, então? O contraste entre ambos estabelece-se até pelos estilos de representação: ele, tão mais realista e voraz; ela, tão mais articifial, como Shakespeare. Tudo isto culmina, como sabemos, num espelho partido e consumado. O tabu do sexo ou do sexual, que esteve na origem da tragédia, prevalece na meta-diegese, na representação da acção, nas subtilezas do argumento e na construção de Desire enquanto objecto fílmico; que não foi alheio a controvérsia, como seria de esperar. Anos 50.

Eis, pois, um filme profundamente humano, um concentrado de muito boa representação e de muito boa sátira, que magnetiza a nossa atenção e que conquista a nossa memória.

DOLLS (2002)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Dolls
Realização: Takeshi Kitano
Principais Actores: Miho Kanno, Hidetoshi Nishijima, Tatsuya Mihashi, Chieko Matsubara, Kyôko Fukada, Tsutomu Takeshige, Nao Omori, Hawking Aoyama, Yuuko Daike, Ren Osugi, Kayoko Kishimoto

Crítica:

O INVERNO DO AMOR

Dolls é um filme profundamente cruel, tanto para as suas personagens como para o espectador. Kitano filma o amor em tons de tragédia, conduzindo as suas personagens para o abismo, qual manipulador de marionetas do Bunkaru. O teatro tradicional japonês e as suas desgraçadas histórias são o ponto de partida, a assumida fonte de inspiração para o mosaico que, engenhosamente, se comporá. No Bunkaru, aliás, é filmado o prólogo, mais a jeito de epígrafe, com que o filme abre; o que não deixa de ser insólito. É desmascarada, de forma mais do que evidente, a artificialidade da representação, inaugurando linhas de sentido que serão sustentadas ao longo de toda a obra. As personagens são a concretização plena da mimesis. Os actores personificam o momento em que os bonecos ganham vida. O cineasta está escondido, mas decidirá sempre o destino das suas marionetas.

Dolls é, provavelmente, o filme mais belo de Kitano. Refiro-me ao lirismo visual almejado e por demais alcançado, à poética construção da imagem que se impõe. Essencial, para o efeito, o jogo simbólico de cores fortes, em especial do vermelho. O vermelho que é amor e sangue, no cordão que liga os dois vagabundos e no vestido da eterna espera. Há vários aspectos notáveis e intensamente significantes: a fotografia de Katsumi Yanagijima (multiplicam-se as imagens memoráveis, de encantos vários), a montagem (a cargo do próprio realizador, com sobreposições poderosíssimas) e a banda-sonora (do lendário Joe Hisaishi, que amplifica a dimensão humana e intimista de todo o retrato). São muitas, as cenas que nos conquistam pela sua simplicidade (seja somente pelo enquadramento ou pela expressividade ou inexpressividade dos elementos cénicos), mas todas elas nos imbuem na essência sentimental e entristecedora da obra. O casal Sawako e Matsumoto, pela sua singularidade e simbolismo, merecerão com certeza um lugar de destaque entre os mais icónicos pares românticos da História do Cinema.

O amor resiste ao tempo? Um sopro de melancolia estremece cada amante e percorre cada história. Os fios enleiam-se, mas a borboleta está partida, o coração despedaçado, o destino irreversível e irremediável. Desolador em todos os silêncios, no vazio e na impossibilidade das uniões, Dolls atinge-nos como uma experiência desarmante e contemplativa, plena de romantismo. A câmera, graciosa no movimento, conduz-nos o olhar para a cegueira, para a solidão a que se entregam aquelas almas. O amor de Kitano atravessa as quatro estações, mas é no Inverno, sempre mais rigoroso, que é conhecido o fim. É paradoxal, que a esperança mova aqueles fantasmas, quando não têm futuro. É neste paradoxo que reside a tragédia.

Grande filme.

sábado, 17 de agosto de 2013

MÃE E FILHO (1997)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Português: Mat y Syn
Realização: Aleksandr Sokurov
Principais Actores: Aleksei Ananishnov, Gudrun Geyer

Crítica:

O ÚLTIMO PASSEIO
OU O ESPECTRO DA MORTE E DA EXISTÊNCIA

As pessoas não precisam de uma razão para viver,
mas morrem sempre por uma ou por outra.

Criação... és maravilhosa - diz, às tantas, uma das personagens. Na verdade, seja ela artística ou real, a criação é qualquer coisa de extraordinário, de transcendente. É assim numa relação entre mãe e filho e é assim nesta representação de Sokurov. Cada imagem é como um quadro pintado de fresco, borrado pela chuva... desfocado por uma lágrima... ou simplesmente distorcido pela dor e pelo aperto do coração.

Se Mãe e Filho tivesse cheiro, cheiraria a morte. Essa fatalidade, inevitável e por isso mesmo trágica, está omnipresente em toda a obra, sobretudo na atmosfera que se impõe, onde reina o silêncio e os sons do vento, das folhas, dos pássaros, dos trovões... No campo, profundamente isolados do mundo, o elo de sangue, o vínculo inexplicável, a entrega mútua. A dedicação extrema. O amor. Contemplamo-lo, consumindo o frio e o tempo, embebidos em compaixão. O filho com a mãe ao colo - gela-nos, tal imagem. É a inversão derradeira e natural dos papéis. O comboio passa como uma miragem - enquanto a mãe respirar, não passará disso: uma miragem, não haverá fuga ou recomeço. Há o medo da morte, mas há sobretudo o medo da solidão.

Os planos são longos e lentos. A beleza poética daquilo a que assistimos é tremenda; ao mesmo tempo, tão assustadoramente real. Só recuperamos o fôlego quando o filme finda. Qual doença ou promessa de adeus, é devastador. Uma obra-prima em todos os sentidos.


sexta-feira, 16 de agosto de 2013

ADEUS, MINHA CONCUBINA (1993)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Ba Wang Bie Ji
Realização: Kaige Chen
Principais Actores: Leslie Cheung, Fengyi Zhang, Li Gong, Qi Lu, Da Ying, You Ge, Chun Li, Han Lei, Di Tong

Crítica:

A ÓPERA DE PEQUIM

Um sorriso desperta na Primavera, uma lágrima escurece o mundo inteiro. 
Como é que isto te beneficia, se apenas tu possuis tal qualidade?
Mestre Yuan

Assisti ao magistral Adeus, Minha Concubina. Poucos filmes terão aguardado tanto tempo, na minha prateleira, por serem vistos e descobertos. A razão por que me decidi a vê-lo foi a mesma que justificou a sua espera: nenhuma em particular. Vislumbrado o filme, o que dizer? Quando uma obra de arte se transcende e nos transcende, revela-se extremamente difícil escapar à poesia ou à crítica impressionista... O perfume ficou, as memórias estão intoxicadas pelo seu mistério e sedução.

Adeus, Minha Concubina será, justamente, uma das pérolas maiores do cinema chinês. Imortaliza a beleza, o candor e o profundo dramatismo da tradicional e popular Ópera de Pequim; por meio dessa representação faz-se a homenagem, tanto dessa espirituosa forma de teatro como da arte em geral. A exuberância visual - da caracterização ao guarda-roupa e aos cenários - pinta uma tela viva de cores quentes e de exotismo. É verdadeiramente assombrosa, pois, a fotografia de Changwei Gu. Nos seus contornos épicos, a obra concretiza também uma viagem no tempo durante mais de cinquenta anos, desde a China do Generalissimo, ainda nos anos 20, à ocupação japonesa durante a 2ª Guerra Mundial, à chegada do comunismo e à Revolução Cultural dos anos 60, que imporia transformações especialmente devastadoras na vida das personagens principais, actores da Ópera, outrora adorados e agora humilhados pelos tumultos da modernidade. Adeus, Minha Concubina é tudo isto. Mas não é tudo isto senão o pano de fundo para o essencial, que é o romance impossível, o percurso extraordinário e a tragédia íntima, pessoal e profissional de Cheng Dieyi (visceral e inesquecível desempenho de Leslie Cheung) e o triângulo amoroso que se edifica em torno dele, do amigo e colega de infância Duan Xiaolou (Fengyi Zhang) e de uma filha d'A Casa das Flores, Juxian (Li Gong). 

Filho de uma prostituta - por isso, desde cedo estigmatizado - Dieyi é entregue ainda criança à rígida, violenta e revoltante formação da Ópera de Pequim. Perde-se um dedo e qualquer outra possibilidade de destino. Dieyi apresenta o perfil ideal - pela sua fisionomia e sensibilidade - para vir um dia a desempenhar o papel principal de concubina, na peça que dá nome ao filme. É forçado a assumir-se como uma rapariga, numa espécie de ritual fundamental para personificar o papel. O certo é que todos estes factores se reflectirão mais tarde no desenvolvimento das suas personalidade e sexualidade (notar-se-á o fanatismo e o perfeccionismo estético ou a paixão incondicional por Xiaolou). Com o tempo e naturalmente, Deiyi acabará por assumir o papel de concubina também na vida real, em toda a sua intensidade e complexidade, unificando as duas dimensões (a real e a teatral) e entregando-se, desse modo, à traição e à fatalidade às quais a sua personagem está inevitavelmente condenada. O argumento (Pik Wah Li, Bik-Wa Lei e Wei Lu) é, em toda a sua construção, um empreendimento de notável inteligência, ostentando the lushness of Bertolucci - referência ao excelso e, em certos aspectos, equiparável O Último Imperador - and the sweeping narrative confidence of an old Hollywood epic*. Eis, provavelmente, uma das razões que justificam o êxito e o reconhecimento crítico do filme no ocidente. Na China, a honestidade e a ousadia do testemunho motivou a acção da censura, antes ainda de qualquer leitura artística; o que é compreensível, ou não tivesse o filme de Chen tamanho significado e impacto político. A Revolução Cultural traiu a própria China, a sua própria identidade e encarar o espelho nem sempre é fácil. 

Longe de terminar a reflexão, voltam-me à ideia a estranheza e o eco daquele canto, a graciosidade dos movimentos em palco, o encanto de tão estilizada e ao mesmo tempo de tão humana obra, o fulgor de tão genuína paixão. É isso que importa. Não se orquestram as palavras para exprimir o filme, mas não faltam as sensações, não se extinguem ou enfraquecem as memórias da experiência. Todos os filmes têm essa dimensão num espectador, todos eles são tanto mais do que palavras. Adeus, Minha Concubina é sublime. 

UM VIOLINO NO TELHADO (1971)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Fiddler on the Roof
Realização: Norman Jewison
Principais Actores: Topol, Norma Crane, Leonard Frey, Molly Picon, Paul Mann, Rosalind Harris, Michele Marsh, Neva Small, Paul Michael Glaser

Crítica:

UM JUDEU NO TELHADO

I know, I know. We are Your chosen people.
But, once in a while, can't You choose someone else?

Cantam os primeiros pássaros da manhã e o esplendor da aurora abraça os campos da Rússia czarista, no principiar do século XX. Fiddler on the Roof trata de desmontar a metáfora do seu título, assim que o sol nasce. A imagem é por demais poética e servirá na perfeição os intuitos do musical, mas o tema nuclear é a tradição e o quão difícil é, por vezes, equilibrar a vida perante as adversidades, mediando o conservadorismo e os velhos valores com as ideias e os costumes dos novos tempos, sem perder a identidade do povo do qual se faz parte.

Here, in our little village of Anatevka, you might say every one of us is a fiddler on the roof trying to scratch out a pleasant, simple tune without breaking his neck. It isn't easy. You may ask 'Why do we stay up there if it's so dangerous?' Well, we stay because Anatevka is our home. And how do we keep our balance? That I can tell you in one word: tradition! (...) Traditions, traditions. Without our traditions, our lives would be as shaky as... as... as a fiddler on the roof! 
Tevye

Tevye (entrega absoluta e genuína, empática e memorável de Topol, no papel de uma vida) é um leiteiro pobre - judeu como todos quantos habitam a pequena e pacata comunidade local. Tem ao seu lado uma mulher de fibra, que mais parece ser o homem da casa, e cinco filhas solteiras, três delas em idade de casar. Após a contextualização - o hino e a glorificação da tradição, cultura e religião judaica em que consistem as primeiras e contagiantes canções (temas de Jerry Bock e letras de Sheldon Harnick, adaptadas pelo mestre John Williams) e onde nos são apresentados os papéis sociais do papa (que trabalha e alimenta a família), da mama (dona de casa e mãe exemplar), dos filhos (formação religiosa), filhas (formação doméstica) e de personagens-tipo como a casamenteira, o pedinte ou o amado rabino, a acção centrar-se-á nos três pedidos de noivado às filhas mais velhas. 

A primeira filha escapa ao casamento arranjado com o velho e endinheirado carniceiro e casa-se por amor, com o franzino e desgraçado alfaiate, amigo de infância. A segunda, ainda antes de qualquer arranjo, perde-se de amores pelo marxista universitário recém-chegado à cidade, cujos ideais fazem tremer a sabedoria secular. E a terceira, igualmente em nome do amor, foge para casar com um gracioso e charmoso goy - um não-judeu. Pedido a pedido, Tevye, enquanto pai e patriarca, é confrontado com dilemas morais, que o levam a equacionar os prós e os contras de abençoar e permitir tais casamentos. É curiosa a forma como essas cenas são encenadas - Jewison distancia, magicamente, o protagonista do casal em questão e coloca-o a avaliar a situação em conversa aberta com Deus (conversas essas regulares ao longo de toda a obra, seja com Deus ou connosco, espectadores - Tevye é também o nosso guia pela história). Na balança, sempre a tradição, a família e aquilo que é ou não aceitável; no fim de contas, o bom-senso à luz dos tempos, o que é bastante revelador do carácter de Tevye. Na sua meia-idade, não é um fanático intolerante, antes é um homem bondoso e justo, que quer o melhor para os seus. No primeiro caso, even a poor tailor is entitled to some happiness! acaba por ressoar na sua consciência e por levar a melhor. É hilariante, a propósito, a forma que o leiteiro encontra para convencer a mulher de que o alfaiate e não o talhante é o melhor partido para a filha. No segundo caso, também a nova lei do amor acaba por vencer: 

He loves her. Love, it's a new style... On the other hand, our old ways were once new, weren't they?... On the other hand, they decided without parents, without a matchmaker!... On the other hand, did Adam and Eve have a matchmaker?... Well, yes, they did. And it seems these two have the same Matchmaker! 
Tevye

Seria de esperar, portanto, que perante o terceiro pedido de noivado a deliberação fosse favorável. Afinal, Tevye cede uma e outra vez. Mas o inesperado acontece - o pai jamais poderá aceitar o casamento da filha com um não-judeu. Isso iria contra tudo aquilo em que acredita, poria em causa a sua dignidade, a sua fé e toda a sua tradição. Chava insiste e casa com o enamorado, às escondidas, o que significa a tragédia e a ruína interior de Tevye e da sua família - a não-aceitação acarreta uma dor imensa e um afastamento definitivo da filha, que para ele é como se tivesse morrido. Nem sempre a felicidade está sobre a tradição, concluimos. 

How did this tradition get started? I'll tell you!
I don't know. But it's a tradition... and because of our traditions... 
Every one of us knows who he is and what God expects him to do. 
Tevye

No final, fugindo ao anti-semitismo, deixam-se os lares e parte-se novamente de encontro à Terra Prometida, seja ela onde for. We've been waiting all our lives for the Messiah. Wouldn't now be a good time for Him to come? Eis o destino de um povo, profundamente fiel às suas crenças e tradições.

Roger Ebert disse, a respeito: it's become so polished, so packaged (...) that it's become just another pleasant product of American entertainment industrialism*. Não deixo de concordar. Não obstante, é deslumbrante em cada enquadramento (inspirada fotografia de Oswald Morris), a câmera de Jewison passeia pela vila com a maior graciosidade, a banda sonora é magnífica, recheada de grandes canções, Topol magnetiza todas as atenções e apaixona-nos. Os cenários e decoração sustêm a verosimilhança do retrato e envolvemo-nos inteiramente na história, gozando do tão bem-humurado entretenimento das sequências musicais. Fiddler on the Roof é, pois, um caloroso clássico, não só no palco como no cinema, que merece ser apreciado geração após geração.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A MALDIÇÃO DA FLOR DOURADA (2006)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Man cheng jin dai huang jin jia
Realização: Zhang Yimou
Principais Actores: Li Gong, Yun-Fat Chow, Jay Chou, Ye Liu, Dahong Ni, Junjie Qin, Man Li, Jin Chen

Crítica:

A TRAGÉDIA IMPERIAL

Aquilo que eu não concedo,
não deves tirar à força.
Imperador Ping

Festival de exuberância, banquete de cores e emoções. A Maldição da Flor Dourada, de Zhang Yimou, vive sobremaneira da ostentação visual, barroca em todos os seus obssessivos excessos e detalhes, megalómana em toda a sua escala, como se no máximo requinte da direcção artística (Tingxiao Huo) e do guarda-roupa (Chung Man Yee) atingisse a transcendência. O feito e o efeito alcançado são, aos olhos de qualquer espectador, absolutamente impressionantes. A deslumbrante fotografia de Xiaoding Zhao cristaliza, se ainda alguma dúvida bastasse, esse glorificado ideal da beleza; marca tão proeminente na filmografia de Yimou (veja-se, a título de exemplo, os magistrais Herói e O Segredo dos Punhais Voadores).

Não obstante, A Maldição da Flor Dourada também alcança a sua epicidade característica na sinédoque da tragédia familiar, protagonizada pela figura central da Imperatriz (Li Gong, numa interpretação brilhante e assombrosa), pelo Imperador (Yun-Fat Chow) e pelos três príncipes descendentes (papéis de Jay Chou, Ye Liu e Junjie Qin). O restante elenco de luxo concretiza esta trama de segredos e de relações incestuosas, de poder e de submissão, de conspiração e de intriga palaciana. Uma história de família e uma batalha interior, encerrada nos confins da Cidade Proibida, mas simultaneamente o reflexo da cultura e de uma sociedade no tempo - o povo chinês durante a dinastia Tang, século X. Depreende-se facilmente a mise-en-abyme. Afinal, qualquer golpe familiar no seio daqueles corredores arco-íris constituirá sempre um derradeiro golpe de estado, tendo consequências imediatas no destino da nação. No final, ressalve-se a moral... Seguir o caminho certo, desafiando a razão e abraçando a coragem, mesmo que traindo a instituição que se representa e da qual se faz parte. Mesmo que conhecendo, de antemão, a impossibilidade da nossa missão.

A Maldição da Flor Dourada não é, de todo, o melhor filme de Zhang Yimou; falta-lhe a subtileza e o virtuosismo com que aprimorou outros pedaços de arte, no passado. Contudo, jamais se lhe poderemos negar as qualidades, que são tantas e tão evidentes - a nível da banda musical (Shogeru Umebayashi) e sonora (Jing Tao e Roger Savage), nomeadamente. Pela sua aura, candor e exotismo, ser-me-á sempre um filme irresistível.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO (1964)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: The Fall of the Roman Empire
Realização: Anthony Mann

Principais Actores: Sophia Loren, Christopher Plummer, Stephen Boyd, Alec Guinness, James Mason, Anthony Quayle, John Ireland, Omar Sharif, Mel Ferrer, Eric Porter, Finlay Currie, Andrew Keir

Crítica:

O ÚLTIMO IMPÉRIO

A great civilization is not conquered from without
until it has destroyed itself from within.
Will Durant*

Roma renasceu das cinzas - em todo o esplendor e máxima glória - pelas mãos dos artistas, arquitectos e estudiosos que, com esmerado entusiasmo, assumiram a direcção artística deste majestoso e opulento A Queda do Império Romano. Pelos grandiosos cenários, desfilam centenas de figurantes, todos criteriosamente trajados e caracterizados (todos os méritos vão para a dupla Veniero Colasanti e John Moore), movendo-se perante as cadências da sinfónica e genial composição musical de Dimitri Tiomkin. Do aspecto romântico da pintura apuram-se, entre tons e texturas, verdadeiros e impressionantes quadros vivos. Frame by frame. Absolutamente assombroso, o trabalho do director de fotografia Robert Krasker, em constante uníssono com as orientações e potencialidades da mise-en-scène. Anthony Mann capta toda a aura do tempo romano e da civilização antiga com assaz verosimilhança e com uma mestria profundamente conhecedora das técnicas cinematográficas. A câmera capta a imitação da realidade com uma fluidez precisa; notem-se os enquadramentos e os movimentos de câmera, sempre irrepreensíveis, elevando a nobreza da arte de contar uma história.

Quando falamos de elenco, a beleza inconfundível de Sophia Loren (Lucilla) tende a ofuscar-nos o verbo; contudo, não esqueçamos as extraordinárias interpretações de Alec Guiness (como Marcus Aurelius), Christopher Pulmmer (como Commodus), Stephen Boyd (como Livius) ou James Mason (como Timonides). Envolvente e extremamente bem construído, o storytelling, ao longo das três horas de duração; os créditos, atribuem-se ao trio de argumentistas Ben Barzman, Basilio Franchina e Philip Yordan que, sem fantasiar crassamente a História, conceberam um retrato e um ensaio sobre a ambição desmedida e a tremenda sede de poder que, algures no passado, cegaram um homem, condenando um sonho baseado na igualdade, na paz e na liberdade, em ideais gregos de cidadania que se perpetuaram pela filosofia e pela ética. Um sonho chamado Roma.

Oh, Livius. What a world... when its future rests in such as these.
Timonides

Igualmente notável e determinante para o triunfo narrativo, diga-se, é a montagem de Robert Lawrence. Das batalhas e sequências de acção aos bastidores da cena política, da retórica do senado à intriga palaciana e de volta ao espectáculo de larga escala, a montagem esculpe, perante as mais variadas necessidades narrativas, uma velocidade eximia e proporcionalmente doseada.

Poucos filmes do género poderão rivalizar com a magnificência deste A Queda do Império Romano. Sem envelhecer num só compasso que seja, a obra de Anthony Mann alcança o panteão da imortalidade. É, sem sombra de dúvida, um dos maiores e melhores épicos de todos os tempos.

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(*) O consagrado historiador Will Durant foi contratado para aconselhar os argumentistas e artistas da produção, zelando pela objectividade e pela acuidade histórica. É com esta sua frase que o épico encerra.

O SEGREDO DOS PUNHAIS VOADORES (2004)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Shi mian mai fu
Realização: Zhang Yimou 
Principais Actores: Takeshi Kaneshiro, Andy Lau, Ziyi Zhang, Dandan Song

Crítica:

A DANÇA DO VENTO

Uma pérola de cores e encantos, sedutoramente belo. Um puro regalo para os sentidos, visualmente arrebatador, cristalino nos sons e nas melodias. De um sublime romantismo, O Segredo dos Punhais Voadores continua o percurso de excelência do cineasta Zhang Yimou.

A magnificência da obra estende-se, magistralmente, a todos os departamentos: tecnicamente, note-se a deslumbrante e mágica fotografia de Xiaoding Zhao, a exímia montagem de Long Cheng ou o sumptuoso guarda-roupa de Emi Wada. A paisagem e o primor estético da direcção artística (Tingxiao Huo, Zhong Han e Bin Zhao) perpetuam a arte do belo. No notável virtuosismo da arte de filmar, o slow motion e a graciosidade dos movimentos, que ecoam na excepcionalidade das coreografias. Extrema sensibilidade na perfeição dos enquadramentos, que absorve o espectador numa espiritualidade que o extasia e pacifica, continuamente. Subtil e extremamente eficaz, o recurso aos artifícios digitais.

No argumento, fluído como o vento, há poesia nas palavras. Ziyi Zhang e Takeshi Kaneshiro - quão talentosos se assumem os jovens actores - protagonizam a paixão central, inesperada e irresistível, tão intensa quanto proibida, ameaçada e condenada ao mais trágico dos destinos. Andy Lau compõe o terceiro vértice, no jogo de estratégias e aparências, máscaras e farsas partilhadas entre os guerreiros do governo e os rebeldes do clã - às tantas, sacrificando o seu próprio segredo, o seu próprio coração.

A cegueira da qual Mei padece é, ela própria, um elemento fundamental na construção da ilusão, tanto a um nível diegético como a um nível metadiegético, na percepção e compreensão que o espectador tem ou vai tendo, surpreendentemente, da história. As cenas memoráveis são incontáveis, os destaques vão para as fabulosas sequências de acção, com lutas de cortar a respiração, para as cavalgadas e perseguições nas florestas, ou para aquela dança inicial dos tambores.

Magnífica execução. Um clássico instantâneo e absolutamente apaixonante.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

CLEÓPATRA (1963)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Cleopatra
Realização: Joseph L. Mankiewicz, Rouben Mamoulian, Darryl F. Zanuck

Principais Actores: Elizabeth Taylor, Richard Burton, Rex Harrison, Pamela Brown, Martin Landau, Robert Stephens, Andrew Keir, Kenneth Haigh, George Cole, Cesare Danova, Martin Benson, Francesca Annis, Hume Cronyn, Roddy McDowall, Desmond Llewelyn

Crítica:

A ESFINGE

Queens. Queens. Strip them naked
as any other woman, they are no longer queens.

A megalomania no cinema encontra em Cleópatra, de Joseph L. Mankiewicz, um dos seus expoentes máximos. Chegava ao fim a era de ouro dos épicos, plenos de esplendor e majestade, ou, pelo menos, uma das mais proeminentes eras do género. Na verdade, depois de Cleópatra, poucos mais épicos se fizeram assim, em Hollywood; a odisseia que foi produzir o filme, numa loucura para lá da ousadia, quase arruinou os estúdios da 20th Century Fox. Raramente encontraremos, de forma tão real, massiva e impressionante, tantos e tão grandiosos cenários, tantos e tão ornamentados figurinos, tantos e tão bem orquestrados figurantes. Da deslumbrante fotografia de Leon Shamroy, emana uma beleza quente, sensual e exótica, que cristaliza na memória a perfeição de tão exacerbado primor técnico. A escala alcançada - e longe de qualquer carácter hiperbólico - mais parece ultrapassar o humanamente possível e tocar o divino.

O filme imortalizou, para sempre, o talento e o encanto de Elizabeth Taylor. Ao lado de Rex Harrison e de Richard Burton (Júlio César e Marco António, respectivamente), montou-se o triângulo principal do elenco, com magníficas prestações. Memorável e absolutamente espectacular, a cena da chegada de Cleópatra, a Roma; sem dúvida, a melhor cena do filme, de uma encenação tremenda. Ela, a mulher, a governante e a divindade - para lá do poder, das ambições e das traições políticas, as ligações amorosas, o sonho de Alexandre e o trágico destino de todos os homens e mulheres que cobiçaram o divino: a ascensão e o declínio.

Ironia ou não, o filme teve a mesma ambição e o mesmo destino: ainda que não totalmente, acabou por fracassar e dele contam-se hoje as grandes façanhas. Diria que o seu maior erro foi o desequilíbrio narrativo - não a duração, propriamente, como tantos apontam. Afinal, a longa duração de um filme não dita, por si só, a sua qualidade. Importa que haja história para contar - e aqui há quanto baste - e um equilíbrio salutar entre a declamação e a acção. Às tantas, terá faltado mais acção à história. A partir da Batalha de Ácio, no último quarto do filme, é notório o equilíbrio entre ambas as componentes, acabando a narrativa por triunfar magistralmente; fosse todo o filme assim. Depois de todos problemas e contrariedades que a produção atravessou, o desequilíbrio foi certamente um reflexo disso mesmo.

Na pedra, resistente a qualquer erosão, fica a marca de um filme que, ainda que desproporcionado, se consagrou monumental.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

CLEÓPATRA (1934)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Cleopatra
Realização: Cecil B. DeMille

Principais Actores: Claudette Colbert, Warren William, Henry Wilcoxon, Joseph Schildkraut, Ian Keith, Gertrude Michael, C. Aubrey Smith, Irving Pichel, Arthur Hohl, Edwin Maxwell, Ian Maclaren, Eleanor Phelps, Leonard Mudie, Grace Durkin, Ferdinand Gottschalk, Claudia Dell, Harry Beresford, Jayne Regan, William Farnum

Crítica:
Together we could conquer the world.

Um guarda-roupa faustoso (Vicky Williams), desfilando por entre cenários grandiosos e imponentes (Roland Anderson, Hans Dreier), é sublimado pelo olhar ambicioso e perfeccionista de Cecil B. DeMille. Esta estética megalómana e refinada, de elevado esplendor visual (quão requintada é a fotografia de Victor Milner), é, aliás, uma das grandes marcas do realizador.

Claudette Colbert, a musa, por detrás de um olhar sedutor e enigmático, magnetiza o espectador numa performance verdadeiramente memorável. Henry Wilcoxon e Warren William destacam-se, no protagonismo dos seus papéis, da tragédia shakespeariana - a sombra de Shakespeare e do seu Júlio César foi inultrapassável, desde os tons do discurso e da proclamação à construção ou reconstrução episódica da narrativa, até certo ponto.

Entre intrigas e traições, o triunfo do amor. E, mais espectacular do que totalmente magistral, um épico absolutamente apaixonante.

domingo, 7 de setembro de 2008

TITANIC (1997)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Titanic
Realização: James Cameron

Principais Actores: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Billy Zane, Kathy Bates, Frances Fisher, Gloria Stuart, Bill Paxton, Bernard Hill, David Warner, Victor Garber, Jonathan Hyde, Suzy Amis

Crítica: É... uma obra-prima. Nunca filme algum conseguiu transportar para a grande tela mágica o infindável poder do amor (o amor-paixão), capaz de ultrapassar todas as barreiras e até a própria imensidão da morte, como este filme. Titanic é uma obra colossal, um feito espectacular e sem igual. Resultado da reunião de ingredientes perfeitos, temos em Titanic um elenco com performances extraordinárias, a começar pelos eternos Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, que se imortalizaram com este navio de sonho e tragédia. Tecnicamente irrepreensível, seja dos cenários à fotografia ou do guarda-roupa à banda sonora, o filme revolucionou toda a história dos efeitos especiais. A realização e argumento, a cargo de James Cameron, aliam-se genialmente. Titanic é um triunfo sem precedentes, emocionante em cada lágrima que não conseguimos ou não queremos conter.

PEARL HARBOR (2001)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Pearl Harbor
Realização: Michael Bay

Principais Actores: Ben Affleck, Josh Hartnett, Kate Beckinsale, Alec Baldwin, Jon Voight, Cuba Gooding Jr., Dan Aykroyd, Tom Sizemore, William Lee Scott, Graham Beckel, Ewen Bremner, Nicholas Farrell, Tomas Arana, Peter Firth, Tom Everett, Michael Shannon, John Diehl, Jaime King, Catherine Kellner, Jennifer Garnerr

Crítica:
ASES PELOS ARES

There's nothing stronger than the heart of a volunteer. 

Michael Bay é internacionalmente conhecido e reconhecido como o realizador das explosões. A fama poderá ser redutora, mas o homem fez por isso. Pearl Harbor entrou, inclusive, para o livro de recordes do Guiness como o filme, até então, em que mais explosivos foram accionados. O surpreendente ataque dos japoneses à base havaiana na manhã de 7 de Dezembro de 1941 é, qual batalha naval, violentamente retratado e simulado. Os números, só para rebentar com os barcos do porto em alguns segundos de exibição, foram astronómicos: qualquer coisa como 700 barras de dinamite, 700 metros de fios e mais de 15 mil litros de gasolina. 
Pearl Harbor é, efectivamente, um filme ambicioso e de acção explosiva. Mas não apenas pelas explosões. Bay conseguiu distanciar-se, aqui - e muito -, do registo meramente comercial a que nos habituara, por exemplo, no meteórico Armageddon. Avaliando a obra no seu todo, o resultado é francamente positivo e a crítica negativa que envolve a obra, desde a sua estreia, creio, tem muito que ver com a demonização do realizador por parte de puristas tão intelectualóides que se se soubessem divertir, de quando em vez, seriam certamente mais felizes.

Os filmes de Bay poderão descurar, na grande parte das vezes, a importância vital do argumento e o desenvolvimento das personagens (julgo, nomeadamente, que o artista piorou nesse aspecto depois deste filme, salvo raras excepções), mas... não tanto aqui. Não alinho na opinião dominante, porque não é isso que vejo e não é isso que sinto a cada vez que assisto ao filme. A eficácia e consistência do argumento acontecem pela variedade de registos que este abraça, privilegiando o romance (identificamos o fôlego e a influência de Titanic) e doseando com equilíbrio o drama e a comédia, a acção e a tragédia. O script, a cargo de Randall Wallace, argumentista de Braveheart, ainda que aqui e ali com o dedo de Bay, prima essencialmente por isso. Baseia-se num acontecimento histórico, que manchou a honra dos Estados Unidos da América e despoletou a 2ª Grande Guerra e não tem quaisquer pretensões de documentário. É uma obra assumidamente ficcional, mas sem uma densidade por aí além: ao mesmo tempo que suscita a reflexão, emociona e faz espairecer a cabeça, enquanto se devora um guloso balde de pipocas. Não há mal nenhum nisso. Fossem todos os blockbusters das terras do tio Sam tão bem conseguidos quanto este. 

Relativamente ao elenco, os secundários são notáveis: Alec Baldwin e o seu destemido e bem-humurado coronel Dolittle, Cuba Gooding Jr. e o seu corajoso e decente Doris Miller, oficial negro num tempo de tão maior preconceito, e Jon Voight e o seu eloquente e emocionante presidente Franklin Roosevelt. Todos inspiradores, todos heróis. A abordagem ao romance, muito cliché e ao género do que se fazia no cinema dos anos quarenta do século XX, leva a personagens sem uma dimensionalidade extraordinária, um pouco como se de personagens-tipo se tratassem. Não penso, por isso, que o casting dos protagonistas ou o desempenho dos próprios ponham o filme em causa. Para os papéis em questão, julgo mesmo que defendem bem as suas personagens. Ben Affleck pode, na sua pouca expressividade, não ir muito além de um jovem viril, bonito e com o seu charme, mas é isso que se espera de um galã dos anos quarenta. Beckinsale é também bonita, uma voz belíssima e no tom certo para dar alento à narração epistolar - quando chega a hora das emoções, não defrauda. E a completar o triângulo, Hartnett: um quebra-corações, que também não falha no seu entusiasmo juvenil.

Bay é de um perfeccionismo e ousadia incríveis no que toca a filmar sequências de acção. Revela-se, em Pearl Harbor - e, provavelmente, mais do que nunca -um prodigioso ás da câmera, verdadeiramente magistral na orquestração dos céus. O seu contributo para o género e para a indústria do entretenimento de massas é, a meu ver, inegável e indesmentível. A fotografia de John Schwartzman deslumbra a cada frameHans Zimmer compõe uma das suas mais belas e emocionantes bandas sonoras, que culmina na redentora canção de Faith Hill e que se alia perfeitamente aos sofisticados efeitos digitais, num espetáculo em tudo vibrante e de cortar a respiração. O poderoso trabalho de sonoplastia (cuja montagem foi premiada pela Academia, naquele que é o único Óscar para um filme do cineasta) proporciona uma experiência absolutamente empolgante e assombrosa. 

Por tudo isto, Pearl Harbor torna-se, para mim e facilmente, o melhor filme do realizador. Uma obra de entretenimento triunfal, bem capaz de inspirar uma nova geração de rapazes a pilotar e a sonhar os céus. Muitas vezes, volto ao filme. E sabe-me tão bem. Já agora: o DVD do filme de Bay partilha a prateleira com Dreyer, Ford e Tati (todos mortos, que é para não sobrarem dúvidas do meu bom gosto cinematográfico).

CINEROAD ©2020 de Roberto Simões