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domingo, 18 de agosto de 2013

A VIDA É UM ROMANCE (1983)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: La Vie Est Un Roman
Realização: Alain Resnais
Principais Actores: Vittorio Gassman, Ruggero Raimondi, Geraldine Chaplin, Fanny Ardant, Pierre Arditi, Sabine Azéma, Robert Manuel, Martine Kelly, Samson Fainsilber, Véronique Silver, André Dussollier, Guillaume Boisseau, Sabine Thomas, Bernard-Pierre Donnadieu, Rodolphe Schacher

Crítica:

O TEMPLO DA FELICIDADE

Ça, ce n'est pas de l'architecture, c'est de la pâtisserie.

Se há coisa que o cinema de Resnais é e representa é a liberdade. A Vida É Um Romance é, por isso, mais um devaneio criativo, em estado bruto, no seu percurso.

Uma ode à imaginação sem limites, que cruza os mais variados géneros e registos numa narrativa multifacetada e dificilmente acessível: um só espaço (o onírico castelo na floresta de Ardennes, o templo) e três tempos diegéticos: a viagem ao passado (em 1914 e depois na década de 20, quando o edifício é palco para a mais utópica e hedionda experiência de humanidade, o recomeço, o renascimento), o presente (década de 80, quando o castelo, feito colégio, é local para debater e filosofar a educação da sociedade) e ainda um tempo indeterminado mas aparentemente medieval - seguramente fantástico - onde o cenário é pontuado por ilustrações e sonhado por crianças. Reina, em cada um deles, a estranheza e a incompreensão no ensaio da vida. Da mistura dos três jamais poderia resultar, pois, um filme que não fosse alucinado quanto baste, mas aberto às mais variadas interpretações, tanto estéticas como temáticas. Sabine Azéma, Geraldine Chaplin e Vittorio Gassman destacam-se, pelas suas interpretações, deste excêntrico e desconcertante festival artístico.

Poderá a vida ser perfeita? O título lança a discussão e o filme em si alimenta o quebra-cabeças. É preciso ser adulto para querer compreender o filme, mas é essencial vê-lo com olhos de criança para poder entendê-lo ou, quando menos, para poder aceitá-lo. É por isso que assistir a A Vida É Um Romance, assim como a outros de Resnais, pode resultar numa experiência tão frustrante quanto fascinante. Se a felicidade é uma fantasia, então só as crianças entram no castelo; só elas detêm a chave da inocência. A fortaleza dos adultos está, irreversivelmente, arruinada. A utopia está no templo, que só é possível em maquetes. O regresso ao castelo é apenas possível pela imaginação. Neste sentido, a felicidade só é alcançável se vivermos a vida como se fosse um romance, como se fosse um pedaço de arte. De outro modo, a felicidade não existe e a vida não tem significado.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (2010)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
Título Original: Alice in Wonderland
Realização: Tim Burton
Principais Actores: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Crispin Glover, Anne Hathaway Vozes (versão original): Stephen Fry, Michael Sheen, Alan Rickman, Christopher Lee, Michael Gough, Timothy Spall

Crítica:

UM OUTRO LADO DO ESPELHO

The only way to achieve the impossible,
is to believe it's possible.

Visualmente deslumbrante, mas desmesuradamente artificial (ou melhor, digital), confusão de maravilhas coloridas com bizarrias excêntricas e tenebrosas e combinação-limite de animação com live action, Alice no País das Maravilhas explode com a chancela mágica da Disney, mas também com a assinatura única e inequívoca de Tim Burton.

Estão lá os seus actores fetiche, Johnny Depp e Helena Bonham Carter, a degladiarem-se entre a imensidão do seu talento e a vertiginosa e mal-(di)gerida narrativa, que se atropela de episódio em episódio à velocidade estonteante e extenuante da acção. Mia Wasikowska, julgo, cumpre eficazmente o seu papel. O maior encanto, creio todavia, irradia do guarda-roupa de Colleen Atwood, barroco e requintado, da inacreditável caracterização dos actores e da criatividade sem limites da produção artística. A banda sonora de Danny Elfman faz jus ao recriado universo de Lewis Carroll, tão exótico e divertido quanto perigoso e imprevisível (muito mais perigoso e imprevisível sob a visão de Burton, claro).

Sabe-nos bem, revisitar aqueles lugares que nos povoam a imaginação desde crianças (quais sonhos ou pesadelos de Alice), reencontrar aquelas personagens estranhas que se mantêm plenas de mistério. Mas a fatia deliciosa do bolo acaba aí. Tanta ousadia tem, por fim, um sabor um tanto ou quanto amargo, de tão insólita que se revela a experiência. Mais do que maravilhado, é provável que o espectador se sinta aliviado, no final, por ter sobrevivido a tanta correria e golpe de espada e ter regressado à realidade com a cabeça intacta.


PARNASSUS: O HOMEM QUE QUERIA ENGANAR O DIABO (2009)

PONTUAÇÃO: BOM
★★★★
Título Original: The Imaginarium of Doctor Parnassus
Realização: Terry Gilliam
Principais Actores: Heath Ledger, Johnny Depp, Colin Farrell, Jude Law, Christopher Plummer, Lily Cole, Andrew Garfield, Peter Stormare, Tom Waits

Crítica:

O FABULOSO MUNDO PARA LÁ DO ESPELHO

Can you put a price on your dreams?

Esta maravilhosa fantasia surrealista de Terry Gilliam supera habilmente os excessos de um barroco Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton. Não é porque seja menos infantil (esse não é um argumento válido, pois a qualidade dos filmes para crianças não corresponde à altura dos seus espectadores), nem é tão-somente por incluir menos cenas num universo artificialmente criado por computador (esse também nunca seria um argumento válido, afinal tudo é artifício e um julgamento depreciativo a respeito seria sempre uma questão de gosto). Ainda que não tenha um storytelling perfeito - longe disso, há passagens menos bem resolvidas e capazes de suscitar alguma confusão desnecessária no espectador - penso que é por aí, pelo storytelling, pela construção narrativa e pelo doseamento das emoções, que este Parnassus se sobrepõe. Quase a findar a comparação, que não é de todo o objectivo, creio que jamais os delírios criativos para lá do espelho abafam a essência narrativa, como no filme de Burton a determinada altura. É certo que há um ir e voltar constante e em Alice há uma viagem única, mas a dimensão onírica em Parnassus maravilha-nos, nunca nos cansa com um exibicionismo perpétuo. Obrigatoriamente inverosímil, aceitamos e deleitamo-nos com esse mundo de sonhos. O diálogo da influência estabelece-se, claramente, para com a tela de Dalí. Nessa relação irresistível, somente em Um Sonho Encantado terei encontrado, porventura, um arrojo e uma excelência maior. Sem esquecer, é claro, esse clássico mítico de Gilliam que é A Fantástica Aventura do Barão.

O que suporta e sustém - com notável solidez - este rico e triunfante (às vezes bizarro, mas sempre engraçado) universo visual é a qualidade das interpretações, notem-se os nomes do elenco: Christopher Plummer (sempre brilhante), Heath Ledger (no seu último papel, falecido a meio das filmagens), Johnny Depp, Colin Farrell e Jude Law (que substituiriam Ledger, completando o alter-ego do seu Tony em paragens fantásticas) e os promissores Lily Cole e Andrew Garfield. Depois, a esmerada direcção artística de Anastasia Masaro e Caroline Smith (note-se cada cenário, cada detalhe) e o faustoso guarda-roupa de Monique Prudhomme. O trabalho de todos estes departamentos conjugado aprimora a pintura de todo e cada frame, inspiradamente enquadrado por Nicola Pecorini. A fotografia é essencial para o deslumbramento.

Entre o real e o imaginário, fica uma fábula excêntrica e a espaços alucinada, mas absolutamente fascinante, bem-humurada e endiabrada. Pura aventura, consciente do espectáculo que nos pode proporcionar. Lamentável apenas que a história, prolífera em ideias, não tenha sido melhor polida e aproveitada (o tratamento da personagem de Ledger parece-me às tantas desnorteado, mal-desenvolvido no que conduz à revelação da sua verdadeira identidade - pudera; ainda assim Terry Gilliam desenvencilhou-se muito bem do infortúnio). Enfim, you can't stop a story being told. Finalmente, o filme é dedicado a Ledger, que atravessou o espelho e nunca mais voltou.

Não se tornará um clássico, muito provavelmente, mas está longe de ser um caso perdido.

domingo, 1 de janeiro de 2012

AVATAR (2009)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
★★★
Título Original: Avatar
Realização: James Cameron

Principais Actores: Sam Worthington, Zoe Saldana, Sigourney Weaver, Stephen Lang, Joel Moore, Giovanni Ribisi, Michelle Rodriguez

Crítica:

O UNIVERSO MÁGICO DE PANDORA:
ENTRE A FERTILIDADE E A ESTERILIDADE

Everything is backwards now,
like out there is the true world, and in here is the dream.

O fenómeno global Avatar é compreensível à luz da inovação e dos avanços tecnológicos que desde cedo estiveram anunciados a este regresso do visionário James Cameron, doze anos após o arrebatador Titanic. Compreensível, na medida em que as massas deliram por experiências espectaculares e alucinantes, que as transportem imediatamente para realidades alternativas, tantas vezes fantasiosas, como é o caso.

Neste sentido, importa tratar a relevância do 3D. De qualquer modo, importaria sempre que a tratássemos, uma vez que Avatar é sinónimo de 3D: é, desde a sua raiz, uma tentativa de deslumbramento contínuo. De certa forma, esse objectivo é atingido e o filme revela-se pioneiro. O efeito do 3D, por mais atordoante que seja (e, pelo que entendi, esta consequência secundária varia bastante, consoante a predisposição, hábito ou preconceito do espectador), mostra-se não só surpreendente como impressionante, na forma como se co-relaciona com os nossos sentidos e com a nossa percepção. Parece-me, contudo e francamente, que o deslumbramento se alheou da importância nuclear da narrativa, o que é lamentável. Assim sendo, aquilo que poderia funcionar como um elemento complementar para a qualidade da obra, resume-se a um acessório cujos resultados são sensorialmente estimulantes e aparatosos mas sem maior papel narrativo.

Depois, claramente, importa tratar o filme a dois níveis, absolutamente dissociáveis: a real filmmaking e a motion capture. Sublinho absolutamente dissociáveis uma vez que não julgo perfeitamente conseguida a combinação das duas formas de fazer cinema; sim, mais do que duas técnicas, são duas formas distintas de fazer cinema, com linguagens e implicações completamente diferentes.

Avatar
inicia a sua estrutura episódica, unificada por uma narração mais ou menos eficaz, com a real filmmaking. O digital interfere na fotografia, mas é um mero complemento. E, neste campo, Cameron jamais se revela especialmente inspirado no enquadramento e no movimento da câmera. Até penetrarmos na vegetação abundante de Pandora - onde a motion capture e os efeitos digitais assumem a totalidade da moldura - aquilo a que assistimos é banalíssimo: cenários, fotografia e mise-en-scène iguais aos de outros tantos blockbusters norte-americanos, onde personagens sem dimensão vagueiam pelo set enquanto a voz off se faz ouvir. Cá para mim, uma obra extraordinária e sublime faz-se do primeiro ao último shot, do primeiro ao último frame. Pois bem, a postura de Cameron em tudo aquilo que se confunde ou não com o marketing ligado ao produto, é a de quem se preparava para apresentar não só o filme mais caro de sempre como uma obra-prima única, onde cada dólar gasto valeu a pena. Basta ficarmo-nos pelos primeiros minutos de Avatar para constatarmos que não estamos perante uma obra-prima e os indícios de que se trata de uma obra desequilibrada não tardarão a fazer notar-se.

Onde Cameron brilha - incontestavelmente - é na projecção imaginada de todo aquele universo exótico e alienígena. A direcção artística é não só prodigiosa como verdadeiramente sumptuosa e minuciosa na criação de Pandora e dos Na'vi. A exuberância e a diversidade da vegetação e da fauna originam visões mágicas, plantas multiformes e animais incríveis! A paisagem é de cortar a respiração... as montanhas suspensas são de uma beleza inebriante... e, quando a noite cai, o esplendor da bioluminescência e a extrema sensibilidade de todo aquele meio ambiente concretizam uma fabulosa e colorida dimensão onírica; identificam-se, facilmente, as formas e as influências do universo submarino que Cameron tão bem conhece. Estupendos, os efeitos digitais. Que fertilidade abundou, durante todo este processo criativo. A acção das batalhas é pujante e Cameron revela total mestria na matéria.

Agora, sejamos frontais: quando postas lado a lado, ou em diálogo - falo da real filmmaking e do pacto entre a motion capture e a criação digital - sobressai um desfasamento evidente e que não parece natural, por mais mérito que o detalhe da recriação digital mereça. Quando colocadas lado a lado, em ponto de igualdade, o universo de Pandora apresenta-se-nos artificial. O universo de Pandora, por mais que tente ser foto-realístico, está condenado à fronteira entre o real e a animação. E cá para mim, pende claramente para a animação. Afinal, quando o digital impera sobre o real, só podemos pisar o campo da animação. Avatar tem, pois, uma natureza híbrida e recusa-se a assumi-la: às tantas, estamos a assistir a um filme de animação e Avatar recusa essa categorização, a meu ver óbvia e legítima. Quer fazer-nos crer que tudo aquilo é real - percebo e compreendo esse desejo - mas Pandora não é real nem parece tão real quanto se pretendia. Isso condena qualquer hipótese de verossimilhança, essencial para que um filme de fantasia funcione. Deste modo, Avatar representa um grande avanço técnico, mas não basta para se afirmar como um clássico do género.

Se há esterilidade em Avatar - e há muita, lamentavelmente - essa faz-se notar mais nitidamente nas performances dos actores e no argumento. Quanto aos actores - sempre que os temos - não há uma única personagem que seja digna de nota. Custa a crer, mas nem uma é modelada ou tem profundidade. Se não temos, desde logo, boas personagens, como poderia a história vingar? E chegamos ao argumento. De Danças com Lobos a Pocahontas, as referências ou paráfrases são mais do que conhecidas. Em boa verdade, a história de Avatar não é nada que já não tenhamos visto. Da história pedia-se muito mais, do argumento pedia-se muito mais também: entendo que a narrativa não respira, não há silêncios nem pausas, os episódios sucedem-se sem tempo para amadurecer as linhas de sentido e com tamanha previsibilidade. A forma como a história é contada dá ênfase ao deslumbramento visual e às sequências de acção, estendendo a duração do filme e não privilegiando propriamente a história. Não há, diga-se de passagem, um único diálogo memorável. Já piadas brejeiras, há inúmeras. Para além do mais, o planeta e a cultura Na'vi têm tanto potencial e tanto por onde explorar e, no entanto, fica-nos apenas uma amostra luminosa e pirotécnica inconfundível, sem grande substância... A única substância é a pertinente mensagem ecológica. Mas até que ponto é que o ritmo e as prioridades do filme não a abafam? Às tantas, mais parece que a mensagem ecológica lá está para limpar a natureza comercial da obra. A banda sonora de James Horner tem os seus momentos altos, mas quantas vezes não nos vêm à memória os temas de Titanic ou de Tróia. De As Quatro Penas Brancas há inclusivé reciclagem. Enfim... cessem as lamentações.

Continuo a pensar que Avatar é o esboço daquela que poderia ter sido uma obra extraordinária. Perdeu-se na ambição. Há quem diga que Avatar é um excelente produto de entretenimento. Entre algum aborrecimento constrangedor, poder-se-á dizer que assegura um entretenimento fora do comum. No fim de contas, entre a fertilidade e a esterilidade... penso que a esterilidade levou a melhor. Conquistou-me a sua fantástica proposta conceptual. Mas de James Cameron esperava mais.

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A crítica resulta, inclusivé, da visualização das versões alargadas do filme.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

IMORTAIS (2011)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
Título Original: Immortals
Realização: Tarsem Singh
Principais Actores: Henry Cavill, Mickey Rourke, Stephen Dorff, Freida Pinto, Luke Evans, John Hurt, Joseph Morgan, Isabel Lucas

Crítica:


OS DEUSES E OS HOMENS

Fight! For immortality!


Para os admiradores maiores da mitologia clássica, Imortais soar-lhes-ia, logo à partida, como uma proposta irresistível e absolutamente irrecusável. Não morre, afinal, a esperança de encontrar no cinema uma adaptação à altura do nosso fascínio pela cultura grega. O trailer, contudo – e sejamos francos - já nos fazia temer um produto com pouco mais interesse do que o meramente comercial, apesar da promessa de prodígio visual. Na verdade, aquilo que temos em Imortais é um épico gorado, tremendamente eloquente na sua retórica inócua, profundamente ridículo para os puristas que esperariam o impossível da reconstituição histórica, com base num mito amplamente cultuado através dos séculos, mas aqui um tanto ou quanto desvirtuado em prol de um filme para adolescentes, assente no maniqueísmo das suas personagens e no facilitismo dos seus processos narrativos. Imortais é, sobre todas as coisas, espectáculo. Espectáculo que se quer rentável. Os deuses da indústria pouco se interessam, ao que parece, com a memória dos Homens.

Depois da obra-prima visual que é The Fall – Um Sonho Encantado, num circuito mais independente, Tarsem abraça finalmente o cinema de massas. Já em 2000 havia dado que falar com o seu filme de estreia, protagonizado por Jennifer Lopez, A Cela, onde cruzou, pela primeira vez, o thriller policial centrado num bizarro psicopata – muito ao género de Silêncio dos Inocentes e de Sete Pecados Mortais – com o seu universo perfeccionista, fantasioso e surreal, onde o esplendor visual atinge o mais elevado requinte. Imortais dá continuidade a essa estética, entregando-se finalmente às infinitas potencialidades do digital. Neste campo, Imortais é deslumbrante. Quem nos dera experienciar pessoalmente aquelas visões do Olimpo. O detalhado e assombroso trabalho de guarda-roupa, por fim, completa o raro vislumbre que o filme constitui e, por isso, merece todo o reconhecimento. Emanuel Levy diz que Tarsem Singh is a gifted, eccentric visual artist but he is certainly not a storyteller (Cf. http://www.emanuellevy.com/review/immortals/). Conclusão compreensível, se só tivermos visto este seu titânico filme.

Dos mesmos produtores de 300, o filme partilha várias características que aproximam ambos os filmes: a proeminência dos efeitos digitais na construção dos cenários e no acabamento da fotografia (contribuindo para uma maior similitude com os jogos de computador), a exploração da violência e da brutalidade como recurso estilístico, em sequências de acção plenas de sangue e testosterona, as impressionantes (e muitas vezes excelentes, inclusive) coreografias de lutas (onde o slow motion se impõe como um verdadeiro trunfo), a pouca profundidade e desenvoltura das personagens e a fraca articulação dos episódios, tendo como compensação um excesso de movimentos de câmara, a utilização abusiva dos efeitos sonoros (um pouco como nos filmes de terror, aos quais recorrem para prender desesperadamente o espectador) ou uma operática banda sonora (nada de novo, somente a cópia da cópia, da etc., do original). Henry Cavill e Freida Pinto, emanando sensualidade e erotismo, são, independentemente das suas qualidades como actores, criaturas por demais abençoadas pelos deuses, tão belos e perfeitinhos em cada uma das curvas dos seus corpos. Particularmente na cena do discurso para a multidão (lugar-comum incontornável, no qual Teseu (Cavill) incita os soldados para a guerra) é notável a inconsistência na construção da personagem: até ali jamais demonstrara possuir o dom da palavra e de, um momento para o outro, assume-se como um herói fluente. Somente Mickey Rourke, Stephen Dorff e Joseph Morgan (escusado será referir John Hurt) nos lembram, de tempos a tempos embora aprisionados nas limitações dos seus papéis, que existem actores nesta produção; sabem, daqueles que representam. Em ambos os filmes, o físico dos protagonistas é cuidado e determinante; todavia, com um look actual em demasia para um filme que, por mais fantástico que seja, almeja a viagem no tempo, de regresso a tempos idos. . Ecoam ainda as influências de megalomanias recentes, como Tróia, Alexandre, o Grande ou Confronto de Titãs, que Tarsem luta por superar em escala e grandeza. Para isso, nada como expandir exércitos e paisagens e edificar mais uns metros de muro.

Não partilhando de especial entusiasmo pelo 3D, há que salientar a notória evolução da tecnologia, cada vez mais funcional, alcançando o seu propósito original, muito embora a sua utilidade se resuma a isso: possibilitar que o espectador entre no mundo do filme, tela adentro.

No seu todo, eis uma embalagem por demais sugestiva e atractiva para o público jovem, que encontra nestes escapes lúdicos as mais memoráveis (ainda que por pouco tempo) experiências cinematográficas. Para o público que dispensa entretenimento espalhafatoso e que está mais habituado a obras sublimes – entre os quais também existem jovens, outros jovens - o filme tornar-se-á num bocejo tão encantador quanto entediante. A concretização de uma epopeia em filme, baseada na mitologia clássica, fica para outro dia. Quanto a Tarsem, esperemos que ganhe a credibilidade suficiente junto dos grandes estúdios (que sabemos ser fundamental, em Hollywood) para voltar às grandes obras de arte, daquelas verdadeiramente imortais; talento e visão não lhe faltam e isso já deixou mais do que comprovado. Não sei é se será para já. Que é como quem diz, com Mirror, Mirror… O trailer já circula por aí – e sejamos francos – não nos incentiva por aí além.


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Originalmente publicada na edição 28 da revista Take.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

EDUARDO MÃOS DE TESOURA (1990)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Edward Scissorhands
Realização: Tim Burton
Principais Actores: Johnny Depp, Winona Ryder, Dianne Wiest, Anthony Michael Hall, Vincent Price

Crítica: Eduardo Mãos de Tesoura é das fantasias mais ternurentas e infantis que Tim Burton concretizou em live-action, onde brilham e contrastam as cores berrantes dos cenários, o corte e costura do guarda-roupa ou a sofisticação da caracterização e penteados. Conta com uma comevedora interpretação de Johnny Depp, que na maioria das cenas nos arrebata apenas com o olhar. O cómico de situação (aliado à sátira social: o que as mulheres fazem na ausência dos maridos concede ao filme algumas das suas cenas mais hilariantes) e o cómico de personagem (cada uma mais caricata do que a outra, aqui estereotipadas e caricaturizadas ao sabor da fábula) fazem-se balançar com a tragédia de Eduardo (desde a sua incompleta criação à inadaptação insuperável, ao amor impossível e à eterna solidão). Por tudo isto e tanto mais, Eduardo Mãos de Tesoura tem o dom de nos aquecer o coração.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

HARRY POTTER E O CÁLICE DE FOGO (2005)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Harry Potter and the Goblet of Fire
Realização: Mike Newell
Principais Actores: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Ralph Fiennes, Maggie Smith, Alan Rickman, Robbie Coltrane, Stanislav Ianevski, Timothy Spall, Miranda Richardson, Michael Gambon, Brendan Gleeson, Robert Pattinson

Crítica:

CARNE, SANGUE E OSSO:
O REGRESSO DO SENHOR DAS TREVAS

I can touch you... now!

O Cálice de Fogo é o ponto de viragem na saga Harry Potter. A atmosfera é mais negra e tenebrosa do que nunca, o tempo é pesado e chuvoso e o céu ilumina-se constantemente de relâmpagos e trovões. Harry, Ron e Hermione já não são crianças, floresce a adolescência em todos os seus sentidos, nomeadamente no despertar das hormonas. O Baile de Inverno potencia, a propósito, o cenário perfeito para a comédia romântica. Mas é nos pesadelos premonitórios, nas aventuras fatais e no inevitável regresso do Senhor das Trevas que o filme aprofunda o seu coração narrativo.

Na verdade, este quarto capítulo - tão intensamente trágico, glorioso e crucial - tinha história para dois filmes. A distribuição das sequências por duas partes permitiria uma melhor digestão dos episódios, sem pressas. Assim sendo, temos um concentrado - harmonioso, embora apertado na sua considerável duração de 157 minutos - de filme de aventuras, comédia adolescente e terror fantástico. Mike Newell, na realização, não tem espaço para grandes liberdades criativas; creio que se rende ao argumento e às ambições do estúdio num trabalho equilibrado e impecável, do ponto de vista técnico. Dentro do vasto núcleo de actores, os destaques vão para Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint, para Michael Gambon (que finalmente tem linhas mais do que suficientes para mostrar o seu valor), Brendan Gleeson e Miranda Richardson, mas sobretudo para essa terrível e magnetizante criação que é o Voldemort de Ralph Fiennes, Aquele cujo nome não deve ser pronunciado.

Nos departamentos técnicos, John Williams abandona a composição musical da saga e entra para o seu lugar Patrick Doyle, com uma nova sonoridade. Alguns dos seus temas (impetuosos, esquizofrénicos, poderosamente sonantes) lembram-me o melhor de Howard Shore à frente da trilogia O Senhor dos Anéis; o que por si só é elogioso quanto baste. A fabulosa fotografia é de Roger Pratt, que também creditou o departamento n'A Câmara dos Segredos. A direcção artística (Stuart Craig, Stephenie McMillan), o guarda-roupa (Jany Temime), a caracterização (Nick Dudman, Amanda Knight) ou a edição de som esmeram-se ao nível da excelência, elevando claramente os valores de produção.

Na série, o filme concretiza um espectáculo pirotécnico sem precedentes, onde a audácia e a megalomania dos efeitos especiais encontram facilmente o seu auge. Estádios monumentais, tecnologicamente avançados, cavalos alados e navios que emergem das profundezas magicamente, dragões voadores que espalham a sua fúria e chamas pelos telhados de Hogwarts, sereias e as mais estranhas e malignas criaturas subaquáticas e, para além da bruma do labirinto, raios do Bem e do Mal que materializam o antagonismo das forças. Felizmente, o filme equilibra bem estas prodigiosas maravilhas digitais e a pura adrenalina da acção, tão queridas do entretenimento de massas, com o factor emotivo e com toda a riqueza do universo potteriano, jamais descurado. A história, aliás, densifica-se e complexifica-se. O leque de personagens continua a crescer, assim como as ligações entre elas, o passado tende a interferir cada vez mais no presente e no futuro da acção e há muitos pormenores a ter em mente para a compreensão total de certas passagens; sem contar, claro, com a condução do suspense, intrínseco a cada capítulo, que lhe marca a técnica e o estilo, e cujo mistério é revelado ou resolvido somente no final.

Um desafio difícil, porém superado com êxito. A ponte necessária para os últimos e derradeiros filmes da fantasia.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN (2004)


PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Harry Potter and the Prisioner of Azkaban
Realização: Alfonso Cuarón
Principais Actores: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Gary Oldman, David Thewlis, Robbie Coltrane, Michael Gambon, Alan Rickman, Maggie Smith, Tom Felton, Emma Thompson, Timothy Spall, Julie Christie, Julie Walters


Crítica:

A LUZ E AS TREVAS

Mysterious thing, time.

Entre ratos, lobos e assustadores dementors, eis que a saga Harry Potter respira ar fresco pelas mãos do talentosíssimo Alfonso Cuarón. Fazendo jus às qualidades intrínsecas à própria narrativa de J. K. Rowling, a fantasia densifica-se, emerge ainda mais nos seus segredos, pisa o terror e transforma-se em algo inegavelmente mais negro.

Envolvente e apaixonante, todo o storytelling desenvolvido por Steve Kloves. Descolando-se de quaisquer condicionamentos maiores, inerentes à adaptação, o argumento flui finalmente a um ritmo próprio, saboreando a essência de cada episódio e edificando um desejável efeito de coesão e de surpresa até ao clímax. A forma como o filme trata o tempo, nomeadamente, é de uma habilidade notável, superando-se no twist.

Cuarón explora magistralmente a atmosfera da história, gélida e sinistra, mas também o espaço: primeiramente, a Londres nocturna e os seus fantasmas - a viagem no autocarro louco, pelas ruas da cidade, é completamente alucinada e electrizante, contrastando com o universo mágico e paralelo, interdito aos muggles, aqui dotado de uma beleza visual quase lírica e poética. Depois e especialmente, Hogwarts e arredores, por meio dos quais traz a história para o exterior, para fora dos corredores meio-iluminados da fortificação. Deslumbrante e romântica, a propósito, a sequência do vôo no hipogrifo, onde a fotografia (Michael Seresin) e a composição musical (do lendário John Williams) se combinam perfeitamente. A câmera do cineasta lança um novo olhar sobre a trama e sobre as suas personagens - um olhar mais maduro e pessoal, provalvelmente mais autoral, estilisticamente mais refinado e sobretudo mais sensível às subtilezas dramatúrgicas e à progressiva perda da inocência, que é um tema central em Harry Potter. Por outro lado, o facto dos alunos terem abandonado as fardas, por exemplo, aproxima imediatamente a narrativa da contemporaneidade, preparando terreno para os capítulos sucessores. Os efeitos digitais aliam-se a todo o design de produção na concretização de um mundo ainda mais pormenorizado, sofisticado e, também por isso, mais credível.

No elenco... Gary Oldman, David Thewlis, Robbie Coltrane, Michael Gambon, Alan Rickman, Maggie Smith, Emma Thompson, Timothy Spall... um elenco de luxo com prestações ao mesmo nível, cristalizando uma essência sólida. O trio de protagonistas - Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint -, revela, por fim, trabalho e talento adicionais, para além do carisma infantil que lhe conhecíamos.

Este terceiro filme é, talvez por tudo isto, um dos mais maravilhosos da saga, cinematograficamente mais gratificantes e memoráveis. Absolutamente brilhante.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

HARRY POTTER E A CÂMARA DOS SEGREDOS (2002)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Harry Potter and the Chamber of Secrets
Realização: Chris Columbus
Principais Actores: Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Richard Harris, Kenneth Branagh, Maggie Smith, Robbie Coltrane, Alan Rickman, Tom Felton, Jason Isaacs, Christian Coulson

Crítica:


MISTÉRIOS ANCESTRAIS

Enemies of the Heir, Beware.

Entre serpentes, aranhas e carros voadores, eis que Harry Potter e a Câmara dos Segredos se impõe como um capítulo ainda mais espectacular. O regresso de Chris Columbus a Hogwarts faz-se, sem sombra de dúvida, com outra imaginação e desenvoltura: o realizador está mais ousado, servindo-se exemplarmente dos elevados valores de produção que tem ao seu dispôr. Por outro lado, encontramos maiores economia e coesão ao longo de toda a adaptação narrativa (J. K. Rowling e Steve Kloves), o que permite, por si só, um filme organicamente mais fluído, consistente e aprofundado e mais livre para a exploração da linguagem cinematográfica. Estes foram, claramente - a realização e o argumento -, os dois pontos fracos que apontei no primeiro filme da saga e que aqui vejo irrepreensivelmente superados.

O elenco, em alto nível, serve-nos um leque de personagens memoráveis. O suspense envolve e aprisiona o espectador, progressivamente, e as maravilhosas sequências de acção tornam a aventura absolutamente excitante e assustadora. Note-se, a propósito, a sofisticação dos sempre presentes efeitos especiais (Jim Mitchell, Nick Davis, John Richardson e Bill George). Dobby, o elfo doméstico, afirma-se, aqui, como um dos feitos mais desafiantes levados a cabo pela equipa. O requinte do design de produção, dos cenários, da decoração e dos figurinos e o esplendor que emana a cada fotograma, como que numa tentativa de contínuo deslumbramento visual, decidem a excelência da obra. Roger Pratt, à frente da iluminação e da fotografia, tem para esse efeito um papel determinante. Os estimados valores técnicos estendem-se finalmente tanto à banda sonora como à minuciosa combinação dos sons.

Fantástica adaptação. Entretenimento incrivelmente divertido e emocionante, moralmente pertinente, a ver e rever.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL (2001)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Harry Potter and the Sorcerer's Stone
Realização: Chris Columbus
Principais Actores: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Tom Felton, Richard Harris, Maggie Smith, Robbie Coltrane, Alan Rickman, Ian Hart, John Cleese, John Hurt

Crítica:

O RAPAZ QUE SOBREVIVEU

It's true then, what they're saying on the train.
Harry Potter has come to Hogwarts.

Expansão do imaginário, fusão e recriação fantástica de mitos e mitologias ou aventura meramente escapista: o fenómeno Harry Potter justifica-se à luz de um sem fim de atributos e méritos próprios. Creio que um factor determinante para o sucesso da saga foi o de, livro após livro, filme após filme, a história acompanhar o crescimento da criança que se fez homem e que perdeu a inocência, ao mesmo tempo que acompanhava toda uma geração (mundo fora), que fazia exactamente o mesmo percurso. Harry Potter fez a ponte entre o real e o imaginário, entre o quotidiano londrino dos finais do século XX/século XXI, quase que radicalmente despido de crenças e superstições sobrenaturais, e uma idade como que parada no tempo, algures entre o antigamente e o tempo onde a magia é possível. E é mesmo isso que Harry Potter representa: o regresso da magia. Com Harry Potter e A Pedra Filosofal, a magia torna ao grande ecrã e a fantasia resulta - coisa rara em cinema - triunfalmente, com doses certas de coerência, verosimilhança e imaginação.

Após mais um entediante e sofrido Verão em casa dos tios muggles, eis que chega a sua data de aniversário e o início da maior aventura da sua vida: Harry descobrirá as suas origens, a sua própria identidade e um mundo completamente inacreditável, onde a luz e as trevas andarão sempre lado a lado. Após um violento confronto, aquele cujo nome não deve ser pronunciado deixou-lhe uma cicatriz na testa, passou-lhe infindáveis poderes e o mistério da sua orfandade. Seria inimaginável pensar este encantatório, perigoso e derradeiramente arrebatador mundo de Harry Potter sem as infinitas potencialidades dos efeitos digitais. Da edificação dos cenários à composição da atmosfera, da concepção das mais variadas e maravilhosas criaturas e bruxarias à captação do verdadeiro espírito do livro, os efeitos digitais (cada vez mais sofisticados) elevam significativamente a experiência. Fale-se da monumental direcção artística de Stuart Craig, tão ambiciosamente empenhada em dar vida ao mundo de J. K. Rowling, da plataforma 9 3/4 às ruas da Diagon Alley e às imponentes galerias e escadarias de Hogwarts. Fale-se da fotografia de John Seale, ainda que por vezes excessivamente escura. Fale-se da icónica e emblemática banda sonora de John Williams - o seu Hedwig's Theme tornou-se instantaneamente um clássico e sinónimo de sétima arte. Fale-se desse elenco de carismáticas e prometedoras crianças-actores: Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson - como Harry Potter, Ron e Hermione, respectivamente - que mais tarde se viriam a revelar escolhas mais do que acertadas. Fale-se desse fundamental leque de actores seniores - grandes actores, em extraordinários desempenhos: Richard Harris como Albus Dumbledore (que me desculpe Michael Gambon, mas para mim Richard Harris será sempre um melhor Dumbledore), Alan Rickman como Severus Snape (uma das mais enigmáticas, ricas e fascinantes personagens da saga), Maggie Smith como Minerva McGonagall ou Robbie Coltrane como Rubeus Hagrid.

É certo que Chris Columbus, na realização, nunca é tão extraordinário como o próprio universo que Harry Potter nos dá a descobrir, mas é igualmente certo que assegura a aventura e o entretenimento familiar, num tom marcadamente infantil, com uma eficácia mais ou menos assegurada. Encontro na excessiva colagem à narrativa do livro, contudo, o ponto mais negativo do filme. A adaptação, quem sabe se excessivamente supervisionada pela autora da obra, tenta condensar demasiada informação em pouco tempo, prejudicando uma desejável fluidez do ritmo e o amadurecimento dos episódios; tarefa árdua, admitamos, na apresentação ao mundo de tão complexa história, tão recheada de detalhes. Apesar disso, eis um tomo absolutamente fascinante e plausível. Quem resistiria, afinal, a apanhar o comboio para Hogwarts?

segunda-feira, 16 de maio de 2011

A MOSCA (1986)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
Título Original: The Fly
Realização: David Cronenberg
Principais Actores: Jeff Goldblum, Geena Davis, John Getz, Joy Boushel, Leslie Carlson, George Chuvalo, Michael Copeman, David Cronenberg, Carol Lazare, Shawn Hewitt
Crítica: A Bela e o Monstro, as consequências éticas das mais tresloucadas ou criativas experiências científicas, a degeneração moral e a identidade humana, o entretenimento e o terror - não tanto o psicológico, mais o físico, pelo nojo. Eleva-se na mediania pela equilibrada e sustentada construção do drama humano, claramente superior aos devaneios fantasiosos da caracterização e da premissa.

sábado, 2 de abril de 2011

O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE (2001)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Le Fabuleux Destin D'Amélie Poulain
Realização: Jean-Pierre Jeunet
Principais Actores: Audrey Tautou, Mathieu Kassovitz, Rufus, Lorella Cravotta, Serge Merlin, Jamel Debbouze, Clotilde Mollet, Claire Maurier, Isabelle Nanty, Dominique Pinon, Artus de Penguern, Yolande Moreau

Crítica:

A VIDA É UM MILAGRE

Les temps sont durs pour les rêveurs.

O Fabuloso Destino de Amélie é um daqueles raros, preciosos e apaixonantes filmes capazes de mudar uma vida. Uma comédia genuína, excêntrica e original, sobre os simples prazeres do dia-a-dia. Por intermédio da contagiante e encantatória composição de Yann Tiersen, deixa-se docemente invadir... pela melancolia, pela nostalgia da infância e pela solidão trágica do ser humano. É cinema em estado puro, de irrepreensível sofisticação técnica, visual e narrativa. Um universo mágico, repleto de cores e de fantasia, dotado de memoráveis performances, onde o pequeno fait divers encontra uma dimensão hilariante e universal. Onde a bondade e a humildade, no fim de contas, renovam a esperança no ser humano. Genial, a obra-prima de Jean-Pierre Jeunet, com uma adorável e carismática Audrey Tautou no papel principal.

A pequena e graciosa Amélie (Flora Guiet) acompanha-nos nos créditos iniciais: colando a boca e o nariz aos vidros, fazendo brincos com cerejas, pintando de bonecos, o queixo e as mãos. Os prazeres da infância, nas muralhas em dominó, que ao mais simples toque ou sopro se destroem, a música que nasce dos dedos, à volta sobre a boca dos copos de cristal, o barulho do chupar das palhinhas, o assobio com as folhas de árvore, o descolar das peles de cola dos dedos, o soprar das serpentinas, o rodar das moedas sobre a mesa, o comer das amoras, uma a uma enfiadas nos dedos. Ainda nos lembramos nós do que foi sermos crianças? Desde logo e por identificação, Amélie invoca em nós, espectadores, a memória e a recordação.

Desde o prólogo, que antecede os créditos, e até ao final da obra, a narração - pilar tão fundamental neste filme. Omnisciente, a voz de André Dussollier introduz - de uma forma tão peculiar e com um detalhe e precisão notáveis - as mais variadas e caricatas personagens. Amélie é sobretudo um filme de personagens e é através da sua pluralidade que a mensagem do filme sai enriquecida. Para apresentar a sua protagonista, no presente diegético, o narrador recua e principia no momento da concepção:


Le 3 Septembre 1973 à 18 heures, 28 minutes et 32 seconds, une mouche bleue de la famille des Calliphoridés pouvant produire 14670 battements d'ailes la minute se posait rue Saint-Vincent, à Montmartre. A la même seconde, à la terrasse d'un restaurant, le vent s'engouffrait sous une nappe, faisant danser les verres sans que personne ne s'en aperçoive. Au même instant, au 5e étage du 28, avenue Trudaine dans le 9e, Eugène Koler, après l'enterrement de son ami, Émile Maginot, en effaçait le nom de son carnet d'adresse. Toujours à la même seconde, pourvu d'un chromosome X de M. Raphaël Poulain atteignait l'ovule de Mme Poulain, née Amandine Fouet. 9 mois plus tard naissait Amélie Poulain.

Depois, descreve os ambientes e as personagens (reais ou imaginárias) que figuraram no passado de Amélie. Começa, pois, por falar dos pais da menina. Permitam-me, a propósito, a irresistível e bem humurada paráfrase: Raphaël Poulain (Rufus), o pai de Amélie, não gosta: de urinar com alguém ao lado, de um olhar de desdém sobre as suas sandálias, sair de água e sentir o fato-de-banho colado. Raphaël Poulain gosta: de arrancar bocados inteiros do papel de parede, de alinhar e polir os seus sapatos, de esvaziar, limpar e tornar a arrumar a sua caixa de ferramentas. Amandine Fouet (Lorella Cravotta), mãe de Amélie, não gosta: que os dedos fiquem enrugados pela água quente do banho, que alguém de que não goste lhe toque ao de leve na mão, de acordar com as marcas dos lençóis no rosto. Amandine Fouet gosta: dos fatos de patinagem artística que vê na televisão, de pôr o soalho a brilhar com o suor dos seus chinelos, de esvaziar, limpar e tornar a arrumar a sua mala.

Amélie teve uma infância solitária. A sua personalidade presente não é senão o reflexo dessa vivência especial e concreta: o pai, médico militar, nunca lhe expressou afecto. A intimidade excepcional de uma das habituais consultas entre pai e filha até fez com que o seu juvenil coração disparasse. Tanto, que Raphaël se convenceu de que a filha sofria de anomalia cardíaca. Por isso, nunca foi à escola, nunca se relacionou com crianças da sua idade. A nervosa da mãe, nada afectuosa também, acabou por ser a sua professora. Até Cachalot, o alaranjado peixe lá de casa, se tornou neurasténico e suicida com tamanho mau ambiente. O escape de Amélie era a fantasia, a Kodak instantânea que a mãe lhe oferecera e os conflitos com os vizinhos que, tão convictamente, levava a cabo. Quando um turista se atira das alturas da Notre Dame e cai bizarramente sobre Amandine Fouet, Amélie fica órfã de mãe. Até crescer e sair de casa, viverá com a irremediável apatia do pai e com o confortável silêncio do seu ursinho de peluche.


Amélie Poulain gosta: de se virar para trás no cinema e ver a cara dos outros espectadores, de notar os pormenores, na tela, nos quais mais ninguém repara, dos antigos filmes americanos onde os condutores dos automóveis nem olham para a estrada enquanto guiam, de afundar a mão nas sacas de sementes, de partir o leite queimado com a ponta da colher, de coleccionar pedrinhas para fazer ricochetes na água.

C'est l'angoisse du temps qui passe qui nous fait tant parler du temps qu'il fait.

La vie n'est qu'une interminable répétition d'une représentation qui n'aura jamais lieu.
Hipolito

Paris, bairro de Montmartre, 1997. Amélie não é uma jovem especial. Não será vítima da tragédia nem do sucesso. Divide a sua simples e humilde existência entre os afazeres de casa, o trabalho no Café des Deux Moulin e os sonhos mais mirabolantes, na parafernália da cidade ou na quietude do seu quarto. Em seu redor, os mais vulgares exemplares da espécie humana: Suzanne, a patroa e proprietária do estabelecimento, é coxa mas jamais entornou um copo. A eficiente Gina gosta de estalar os dedos e de testar a bondade dos outros através de provérbios. Georgette tem a mania das doenças, Joseph gosta de reventar bolhas de plástico e Hipólito é um poeta fatalista e falhado. Philomene é assistente de bordo e gosta de ouvir o bater da taça do gato sobre o chão. Será a cúmplice de Amélie nos passeios internacionais do gnomo de Raphaël Poulain pelos quatro cantos do mundo. É esta riqueza e pormenor na descrição das mais variadas personagens que é deveras apaixonante. Ao nível da comédia e sempre acompanhadas por flashbacks (tantos deles a preto e branco), revelam uma eficácia tremenda. No rol de habitués do bairro, faltam ainda o mal-disposto e resmungão Sr. Collignon, proprietário da mercearia da esquina (também ele, mais tarde, alvo do Zorro justiceiro de Amélie) e o coitado do cretin Lucien, sempre alvo das rimas fanfarronas do patrão. Felizmente, e por contraste, é um eterno bem-disposto e, ainda que não directamente, é capaz de gozá-lo à altura: Collignon, crêpe-chignon! Collignon, face de fion! Collignon, tête à gnon!

O dia 30 de Agosto de 1997 traz pela televisão - sempre a televisão - a chocante notícia da morte da Lady Di. A vida mais ou menos inconsequente de Amélie mudaria, então, para sempre. O ímpeto da notícia faz com que Amélie deixe cair a tampa do perfume, que descobrirá num esconderijo do rodapé uma misteriosa caixa de lembranças de infância. Às 4 da manhã do dia 31, tem uma ideia luminosa: esteja onde estiver, encontrará o dono da caixa e devolver-lhe-á o seu tesouro. Se isso o comover, está decidido: intrometer-se-á na vida dos outros.

Na demanda em busca de Dominique Bretodeau, o legítimo dono da caixa, como descobrirá mais tarde, conhecerá a chorosa Madeleine Wallace (magistral Yolande Moreau), cujo cão petrificou à espera do dono desaparecido há décadas, os pais do merceeiro Collignon e o eterno falsificador de Renoir, Raymond Dufayel (Serge Merlin), l'homme de verre, com o qual partilhará as mais deliciosas cassetes de vídeo.

C'est drôle la vie. Quand on est gosse, le temps n'en finit pas de se trainer, et puis du jour au lendemain on a comme ça 50 ans. Et l'enfance tout ce qui l'en reste ça tient dans une petite boite. Une petite boite rouillée.
Dominique Bretodeau

Bretodeau emociona-se bastante ao reencontrar a sua caixa. É precisamente da mesma natureza, o sentimento que nos invade ao reconhecermos ou compararmos a nossa infância naquelas imagens. Dado o sucesso da sua missão, Amélie avança então no sentido de se intrometer na vida das pessoas à sua volta, proporcionando-lhe felicidade. A sua missão não é, repare-se, salvar o mundo, nem sequer o seu bairro. É tão-somente a de trazer um sorriso a quem se cruzar com ela; fosse essa a missão de todos nós, ainda que num só dia por ano. O cego: Amélie encontra um cego a escutar a solidão nos versos de Piaf, na estação do metropolitano. Cena memorável, a que se segue: Amélie dá-lhe o braço e atravessa com ele a rua, descrevendo-lhe tudo aquilo que vê, tal é a euforia que sente em poder ajudar os outros. Uma luz divina desce sobre aquele homem, quando ela o deixa, como que metaforizando a nobreza do gesto. No café, servirá de cupido entre Joseph e Georgette. O estabelecimento até estremecerá, tão comicamente, ao ritmo do sexo que se pratica contra a porta do W.C..

Uma felicidade imensa compensa o altruísmo de Amélie. Ela sente-a por dentro. Contudo, ao chegar a casa, vê espelhado no televisor o reflexo da sua solidão. Adagio for Strings potencia a atmosfera desoladora. É uma boa samaritana, uma Madre Teresa de Calcutá. É uma jovem bonita e adorável, mas está só. Porque não arrisca Amélie a sua própria felicidade?

Raymond Dufayel: [sobre a misteriosa rapariga do copo de água, no Le Déjeuner des Canotiers] Autrement dit, elle préfère s'imaginer une relation avec quelqu'un d'absent, plutôt que de créer des liens avec ceux qui sont présents.
Amélie: Non, p'têtre même qu'au contraire elle se met en quatre pour arranger les cafouillages de la vie des autres.
Raymond Dufayel: Mais elle, et les cafouillages de la sienne, de vie, qui va s'en occuper?
Amélie: Bin en attendant, mieux vaut se consacrer aux autres qu'à un nain de jardin!


Ao passar pelo photomaton do metro, um dia, Amélie vislumbra, pela primeira vez, Nino Quincampoix (Mathieu Kassovitz). É o destino, avança o narrador. Já em pequenos comunicavam sem se conhecerem, cada um na sua janela e com o seu espelho brilhante. Nino divide a sua existência entre a feira de diversões, na Casa Fantasma, e o trabalho numa sex shop. Não é um galã rico e bonitão, é um jovem comum que gosta de coleccionar as fotografias rasgadas dos photomatons num álbum já impressionante. É precisamente nos photomatons, pelo metro ou na Gare d'Lest, que Amélie o reencontrará, num outro dia em que Nino perderá o seu precioso álbum em busca do enigmático L'inconnu des photomatons. Será Amélie quem ficará com ele e que, assim, terá a oportunidade ou a desculpa perfeita para se aproximar de Nino, escapando à timidez e ultrapassando os seus medos e inseguranças. É a oportunidade para ser feliz, como merece.

La chance, c'est comme le Tour de France: on l'attend longtemps et ça passe vite!


Voilà, ma petite Amélie, vous n'avez pas des os en verre. Vous pouvez vous cogner à la vie. Si vous laissez passer cette chance, alors avec le temps, c'est votre cœur qui va devenir aussi sec et cassant que mon squelette. Alors, allez y, nom d'un chien!
Raymond Dufayel

Um jogo de escondidas vai começar; como Amélie é perita nestas brincadeiras. O romantismo ganha aqui uma pureza infantil. O encontro desejado entre os dois acontecerá inesperadamente e com uma beleza e ternura indescritíveis. Abre-se a porta e nem uma palavra. Apenas o olhar apaixonado... Amélie envolve-se, subtilmente, naquela delicada sequência de beijinhos... no canto do lábio, no pescoço, no sobrolho... depois, é Nino quem repete os beijos subtis. Não há palavras para descrever um clímax desta sensibilidade... Não há muitos filmes românticos assim, estou certo.

Amélie a soudain le sentiment étrange d'être en harmonie totale avec elle-même. Tout est parfait en cet instant: la douceur de la lumière, ce petit parfum dans l'air, la rumeur tranquille de la ville. Elle inspire profondément et la vie lui parait alors si simple et si limpide, qu'un élan d'amour, comme un désir d'aider l'humanité entière, la submerge tout à coup.

Zooms, chariots, os mais variados split screens, fast motion, e toda uma variedade de técnicas numa câmera em movimento constante. A exímia montagem de Hervé Schneid junta-se à criatividade sem limites de Jeunet, na marcação de um ritmo imparável e imprevisível. A mise-en-scène, tratada ao pormenor, alia-se magistralmente ao jogo de cores e de luzes da belíssima fotografia de Bruno Delbonnel. Excepcional, toda a concepção artística dos cenários e da decoração (Aline Bonetto, Volker Shäfer, Marie-Laure Valla). Não admira, pois, que assistir a O Fabuloso Destino de Amélie se torne uma experiência tão arrebatadora. Amélie é um sublime pedaço de arte e um milagre de filme! C'est tout.

sexta-feira, 18 de março de 2011

KIKI, A APRENDIZ DE FEITICEIRA (1989)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Majo no takkyûbin
Realização: Hayao Miyazaki


Filme de Animação

Crítica: Uma jovem e insegura bruxinha, sempre acompanhada da sua vassoura voadora e do seu gato preto, cujo talento é ajudar os outros. No mais apurado e colorido requinte visual, Miyazaki conta-nos mais uma das suas adoráveis fábulas sobre bondade e inocência, plenas de esperança na humanidade. Do campo vs. cidade ao eterno fascínio do homem pelo vôo, a descoberta da amizade e a afirmação da essência individual. Lindo filme.

domingo, 13 de março de 2011

NAUSICAÄ DO VALE DO VENTO (1984)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Kaze no tani no Naushika
Realização: Hayao Miyazaki


Filme de Animação

Ainda que sem o prodígio técnico das mais recentes obras do cineasta, um épico belíssimo e muito bem construído, com personagens sólidas e com um argumento poderosíssimo, da maior consciência ecológica.
[Crítica em espera]

quarta-feira, 9 de março de 2011

MARY POPPINS (1964)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Mary Poppins
Realização: Robert Stevenson

Principais Actores: Julie Andrews, Dick Van Dyke, David Tomlinson, Glynis Johns, Hermione Baddeley, Karen Dotrice, Matthew Garber, Elsa Lanchester, Ed Wynn, Reta Shaw, Jane Darwell
Crítica:

AS MARAVILHAS
DE MARY POPPINS


Never judge things by their appearance...
...even carpetbags.

Um pedaço de cinema extremamente criativo, colorido e divertido, capaz de seduzir e encantar completamente o verdadeiro amante de musicais ou qualquer cinéfilo mais passional. Mary Poppins é delicioso como uma fatia de bolo, afinal. Contudo, é ousado e arrojado o suficiente, esteticamente falando, para conquistar o sentido crítico de qualquer espectador mais exigente.

Na verdade, a fantasia permite a um filme como Mary Poppins toda uma liberdade criativa sem limites. A mágica combinação entre a real motion e a animação atinge e concretiza quase na perfeição essa visão outrora impossível. No fim de contas, entrar para dentro de um quadro e passear pelo parque desenhado, como que entrando num encantado mundo dos clássicos animados da Disney seria, outrora, qualquer coisa de inimaginável.

Assim que a ama Mary Poppins (Julie Andrews - bela, radiosa e brilhante) desce das nuvens de Londres e entra pela mansão dos Banks adentro, o dia-a-dia dos travessos Jane e Michael vira um corrupio de surpresas. Até que o canhão do vizinho almirante ressoe novamente, anunciando novos ventos, as mais mirabolantes peripécias não terão fim. Desde cantar com o cordeiro, com o cavalo, com a vaca, com o porco e com os patinhos da quinta a passar pela Árvore do Chás, onde pinguins-garçons fazem sapateado... Desde entrar num carrossel e saltar montado nos corcéis pelo prado fora, até integrar uma corrida no hipódromo... O que os artistas por de trás do filme conseguiram foi uma interacção harmoniosa e quase perfeita entre estas duas formas de fazer cinema. O efeito é maravilhoso, é supercalifragilisticexpialidocious! Depois, a contagiante risota sob o tecto do tio Albert, as extraordinárias coreografias sobre os telhados, entre os limpa-chaminés... O filme está recheado de cenas marcantes e inesquecíveis, assim como de canções lindíssimas, que o tempo eternizou: The Life I Lead, The Perfect Nanny, A Spoonful of Sugar ou a já referida Supercalifragilisticexpialidocious, entre tantas outras. O guarda-roupa e a caracterização são igualmente dignos de nota. Por sua vez, a direcção artística (Carroll Clark, William H. Tuntke, Hal Gausman, Emile Kuri) é de um arrojo irretocável, assim como a fabulosa fotografia de Edward Colman, que aliada aos efeitos especiais faz desta obra um autêntico prodígio visual.

Hino maior à prática da bondade e da diversão, eis pois um clássico absoluto e intemporal. Magistralmente bem feito e adorável sob todos os pontos de vista. Será certamente especial para as crianças, mas completamente irresistível para os adultos. Tenho dito.

CINEROAD ©2020 de Roberto Simões