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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

PULP FICTION (1994)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Pulp Fiction
Realização: Quentin Tarantino
Principais Actores: John Travolta, Samuel L. Jackson, Uma Thurman, Harvey Keitel, Bruce Willis, Tim Roth, Christopher Walken, Ving Rhames, Eric Stoltz, Maria de Medeiros, Quentin Tarantino, Steve Buscemi

Crítica:

GERAÇÃO VIOLÊNCIA

pulp /'pэlp/ n. 1. A soft, moist, shapeless mass of matter.
2. A magazine or book containing lurid subject matter and being characteristically printed on rough, unfinished paper.
in American Heritage Dictionary
New College Edition

What just happened was a fucking miracle! Não, não será essa a minha justificação, qual Jules Winnfield. What is significant is that I felt the touch of God. God got involved. Não, não houve intervenção divina. Mudei - drasticamente - de opinião, e tal se deve, essencialmente (1) à evolução natural da minha apreciação artística e (2) às condições e estado de espírito com que assisti, uma vez mais, à unânime e consagrada obra-prima de Quentin Tarantino. Vou ser frontal: tenho ainda as minhas dúvidas se estamos perante uma obra-prima. De qualquer das formas, deixo o assunto para a subjectividade de opiniões, habilitada e habituada a esse tipo de pertinências. Lá que estamos perante um filme brilhante e magistral, isso estamos - e dou a mão à palmatória.

All right, everybody be cool, this is a robbery! É assim que se interrompe o primeiro longo diálogo de Pulp Fiction. Any of you fucking pricks move, and I'll execute every motherfucking last one of ya! Na verdade, os diálogos - excepcionalmente bem construídos e desenvolvidos - exigem alguma predisposição e, no pior dos casos, alguma paciência. Tarantino adora acção mas adora igualmente atrasá-la, demorando-se nos textos, quebrando o ritmo e criando longos interregnos de conversa fiada e sem muita substância: fala-se de hamburgueres, de massagens nos pés, de piercings, de porcos e de anedotas sobre ketchup, do relógio do pai ou de eloquentes passagens da Bíblia...

The path of the righteous man is beset on all sides by the inequities of the selfish and the tyranny of evil men. Blessed is he who, in the name of charity and good will, shepherds the weak through the valley of the darkness. For he is truly his brother's keeper and the finder of lost children. And I will strike down upon thee with great vengeance and furious anger those who attempt to poison and destroy my brothers. And you will know I am the Lord when I lay my vengeance upon you.

São morosos exercícios de estilo e de retórica, plenos de non-sense ou de humor negro e quase sempre inconsequentes, a não ser para a construção da marca que Tarantino conseguiu impôr com a sua obra. Conclusão? Ou se gosta ou não se gosta.

A exigência linguística da obra começa, aliás, muito antes dos créditos iniciais: principia-se com as duas entradas à definição de pulp. Da primeira acepção atentemo-nos a shapeless mass of matter. Da segunda, a being characteristically printed on rough, unfinished paper. Estes dois excertos dão-nos conta das intenções do autor no que se refere àquilo que será o seu objecto artístico. Por um lado, um material sem forma (que não se inscreve, por isso, em nenhum género específico) e, por outro, algo propositadamente concebido num aspecto mal-acabado. Que é como quem diz, assumidamente, deliberadamente: vamos lá fazer algo único e de qualidade irrepreensível, mas sob aspecto duvidoso, a ver o que dizem os puristas sobre esta irreverente proposta artística.

Os créditos que se seguem, nomeadamente, apresentam-nos um genérico de filmes de segunda, onde se sobrepõem títulos e onde alternam, com ruidosas interferências, temas musicais pouco eruditos. Depois, seguem-se conversas banais, sem intelectualidade, entre personagens violentas ou consumidas pela droga. Tanto Pumpkin (Tim Roth) como Honey Bunny (Amanda Plummer) planeiam, no seu amadorismo, um assalto ao restaurante. Jules Winnfield (Samuel L. Jackson) e Vicent Vega (John Travolta), de penteados ridículos e risíveis e quais Men in Black, são gangsters profissionais. Butch Collidge (Bruce Willis) é pugilista, felizmente careca e com um visual mais básico. Mia Wallace (Uma Thurman) é uma adicta do pó, à beira da overdose. Entre a miscelânea musical e a sequência de episódios, temporalmente desarrumados e em mosaico organizados, há ainda lugar para soluções meta-diegéticas que dissipam, de uma vez por todas, qualquer noção de mimesis: Don't be a *square*.

A cena do bar, entre Vincent e Mia (inspirada em Bando à Parte, de Jean-Luc Godard), é absolutamente memorável. A dança, que virou um ícone máximo do cinema, e aquelas inspiradas passagens que a antecedem...

Mia: Don't you hate that?
Vincent: What?
Mia: Uncomfortable silences. Why do we feel it's necessary to yak about bullshit in order to be comfortable?
Vincent: I don't know. That's a good question.
Mia: That's when you know you've found somebody special. When you can just shut the fuck up for a minute and comfortably enjoy the silence.

O universo que Pulp Fiction revisita todo aquele cenário, mais do que batido, em que o cinema norte-americano decorre, uma e outra vez: o universo de violência gratuita, que marcou e influenciou toda uma geração. A violência de Pulp Fiction é, por sua vez, magnificamente estilizada e depreende uma reflexão sobre todo esse cinema, sobre toda essa violência gratuita que alimenta as massas de espectadores. Note-se que as únicas personagens violentas do filme que escapam à morte são aquelas que se redimem e se reformam. Todas as outras são dizimadas ou abatidas a tiro.

Enfim... originalidade em estado puro na arte de recontar, reciclar, recriar. Grande exercício dramatúrgico, grande montagem, grandes performances, grande filme.

domingo, 18 de agosto de 2013

O HOMEM DE LONDRES (2007)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★
Título Original: A Londoni Férfi
Realização: Béla Tarr, Ágnes Hranitzky
Principais Actores: Miroslav Krobot, Tilda Swinton, Ági Szirtes, János Derzsi, Erika Bók, Gyula Pauer, István Lénárt, Kati Lázár

Crítica:

SINISTRA EXISTÊNCIA

Há quem diga que deambulam fantasmas, pelo cinema de Béla Tarr, e que os mesmos tornam, filme após filme, num diálogo perpétuo. Partilho dessa metáfora.

Num enquadramento contínuo, flui a melancolia, o desencanto e a solidão. O transe e o ambiente quase que surreal esculpem-se pela eterna repetição da música e dos sons, que definem os intervalos do silêncio. Os demorados planos-sequência, encenados ao pormenor, impõem uma gramática intensa e austera (ao mesmo tempo, tão mais próxima do real) que esquecêramos ser possível. A contemplação, a subtileza dos contrastes, a luz e as sombras, a minuciosa disposição dos elementos cénicos. Através deste formalismo rigoroso, a mais livre exploração do tempo e do espaço pela perspectiva única. O movimento da câmera, absolutamente manipulador, é temperado pela mais refinada sensibilidade estética, pelo deslumbramento, pela subtileza. É o poder da imagem, soberano. Por meio dela, a beleza no vazio existencial, que pela rotina ou mistério assola as almas perdidas. Há uma história, que a timidez dos diálogos ajuda a descobrir. Na expressão dos actores, sempre seguidos de perto, reside a culpa silenciosa e a condição do Homem, nitidamente reflectida.

É um cinema interior, o de Béla Tarr, génio do filme. Estou certo de que O Homem de Londres testará, no espectador, tanto os limites da concentração como a necessidade de evasão nesta dimensão alternativa, tão profundamente mística, espiritual e artística. É desta matéria que se fazem as grandes, grandes obras.

CLOSE-UP (1990)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Nema-ye Nazdik
Realização: Abbas Kiarostami
Principais Actores: Mohsen Makhmalbaf, Abolfazl Ahankhah, Mehrdad Ahankhah, Monoochehr Ahankhah, Mahrokh Ahankhah, Nayer Mohseni Zonoozi, Ahmad Reza Moayed Mohseni, Hossain Farazmand, Hooshang Shamaei, Mohammad Ali Barrati, Davood Goodarzi, Haj Ali Reza Ahmadi, Hassan Komaili, Davood Mohabbat, Abbas Kiarostami, Hossain Sabzian

Crítica:

A MENTIRA:
O CAMINHO DA VERDADE


A malícia é um véu que esconde a arte.

Godard disse, uma vez, que o cinema começa em Griffith e termina em Kiarostami. Ainda que não concorde inteiramente com a afirmação, não posso negar que a compreenda. Afinal, aquilo que uma obra-prima como Close-up faz é confrontar o conceito de mimesis e testar os limites do cinema como nunca dantes acontecera. João Palhares, dissertando sobre o realismo no autor, diz: he works as both a filmmaker and a theorist
*. E é por meio dessa dupla condição, às tantas perfeitamente indissociável, que o cineasta concebe este que é, provavelmente, o maior ensaio sobre a arte (do cinema) jamais filmado e, simultanteamente, cinema em estado puro.

O facto: Kiarostami sabe, pela imprensa, da história de
Hossain Sabzian: acusado de fraude por se ter feito passar pelo famoso realizador Mohsen Makhmalbaf e em seu nome ter ludibriado a família Ahankhah, convencendo-os a financiarem o seu próximo filme, é detido.

A arte: Kiarostami interessa-se pela história e obtém a autorização para visitar o impostor na prisão. Liga a câmera e... acção.


Na sua génese híbrida, Close-up funde ficção com realidade, drama com documentário, ou vice-versa. Se a classificação não for redutora, será algo como um docudrama.
A grande questão do filme prende-se exactamente com esta sua identidade ou natureza, que enquanto objecto persistentemente mascara, revela ou confunde pela sua intrincada e provocadora (des)construção. Kiarostami, senhor do jogo e manipulador da cronologia, mistura cenas reais (filmadas em tempo real) com cenas reconstruídas (às quais jamais poderia regressar na realidade). O falso realismo da reconstrução passaria facilmente por realismo, não fossem as pistas reclamar o artifício, a cada instante, propositadamente; seja um microfone no enquadramento ou uma lata de aerosol a rolar rua abaixo, durante incontáveis segundos. A dúvida instala-se no espectador, que não entende que forma assume afinal Close-up enquanto objecto cinematográfico. Como se isto não bastasse, o autor intercala entrevistas feitas às várias personagens reais, como que lançando a sua própria investigação em busca da verdade, ouvindo cada depoimento, cada perspectiva, complexificando definitivamente o processo interpretativo. Impõe-se o puzzle (o corte da montagem é por vezes abrupto), que se resolverá peça por peça, na mente do espectador, seja a nível diegético seja a nível metadiegético. Perdidos na (des)construção, os espectadores desconhecem a verdade, da mesma forma que aquelas personagens a desconhecem. Mise-en-abyme.

Quando o próprio Kiarostami surge no ecrã e entrevista o acusado, a nossa interpretação sofre um abalo. Mas que filme é este? O realizador, à frente da câmera, torna-se personagem e, por isso, parte integrante da acção? Mas que filme é este? À pergunta se haveria alguma coisa que poderia fazer por ele, Hossain não hesita: pede a Kiarostami que faça um filme sobre o seu sofrimento. Mas que criminoso é este? Parece ser sincero, ter bom coração. As suas humildade e modéstia, ainda que suspeitas, apelam à nossa compaixão. Ambiguidade. Será inocente? Tratar-se-á de um actor? Pensa-se a natureza da representação. Dilema: actor ou pessoa real?

Kiarostami: Porquê fingir ser um realizador em vez de se tornar actor?
Hossain: Representar o papel de realizador é uma performance em si própria. Para mim, isso é representar.
Kiarostami: Que papel gostaria de representar?
Hossain: O meu!
Kiarostami: Está a representar o seu próprio papel?

Não obtemos resposta.

O julgamento em tribunal, qual história, qual julgamento do espectador, faz-se à medida dos fragmentos. A imagem enche-se de grão; marca da filmagem e da transição do 35mm para o 16mm ampliado. Também para esta audiência Kiarostami obtém autorização para filmar e para - imagine-se! - a interromper, dirigindo, a qualquer momento, pertinentes questões ao réu; estou certo de que os insólitos facilitismos do sistema judicial iraniano merecerão, certa e naturalmente, toda a nossa reflexão. A sentença é adiada, intensificando o suspense. A dúvida persiste e resiste.

Da aproximação do zoom à intimidade do close-up, o rosto, o olhar, a verdade.


Kiarostami: Está a representar para a câmera, agora?
Hossain: Estou a falar do meu sofrimento, isto não é representação. Falo com o coração. Para mim, a arte é a extensão do que se sente cá dentro. Tolstoi disse: a arte é uma experiência sentimental que o artista partilha com os outros. Penso que a minha experiência de adversidade e sofrimento pode dar-me a base de que preciso para ser um bom actor. Assim, representarei bem e expressarei a minha realidade interior.

A grande encenação que Hossain levou a cabo, iludindo a família que finalmente o flagrou, foi genuína representação. Ele acreditava tanto na sua mentira como nós. Eis o papel do actor, o de acreditar nas suas próprias mentiras. Neste caso, como é evidente, a representação transcendeu-se a si mesma e tornou-se realidade, verdade. Ele mentiu, mas ao mesmo tempo nunca faltou à verdade. Cinéfilo inveterado, amante maior da arte, encontrou na ilusão o escape perfeito à dura realidade, ao desemprego, à probreza e à fome e a oportunidade de ser finalmente alguém, admirado e respeitado. As desigualdades sociais têm destas coisas, como se a arte não fosse para todos. Outrou-se e encontrou-se, concluimos, por amor à arte e por força das circunstâncias. Será isto compreensível? Ou melhor, perdoável?

Que crime foi este? Será culpado ou merecerá a culpa ser dividida com o mal-estar social? Que pena aplicar? Houve crime, no fim de contas? Caem por terra as acusações perante tão desarmantes confissões, plenas de sinceridade.
É por isto que Close-up é uma flecha directa ao intelecto e ao coração dos espectadores. Uma lição de humanidade tremenda, profunda como poucas. Aos espectadores pertence a última sentença... mas não (nos) terá sido conquistada a absolvição de Hossain? As últimas cenas juntam os dois Makhmalbaf, o falso e o verdadeiro, e falam por si. Há beleza, para lá da verdade. E há também falhas de microfones, porque a imperfeição pretendida assim o aconselha.

Com Close-up, o homem torna-se actor e vê o seu sofrimento eternizado em filme. Kiarostami concede-lhe o pedido e o sonho mais querido.
O simples faits divers torna-se o espectáculo mediático de um país, atingindo por fim a dimensão universal. A obra concretiza também a metáfora do papel do cinema na sociedade, assim como o papel do cinema em si mesmo, capaz da auto-consciência e da auto-análise, onde a exploração do artifício, ao contrário da tentativa da invisibilidade, conduz à verdade maior. Close-up é, pois, um acontecimento único e essencial na História dos filmes. É precisa coragem para fazer um filme assim.

Quando dou com um homem que retrata todos os meus sofrimentos nos seus filmes,
isso faz-me querer vê-los uma e outra vez.



sábado, 17 de agosto de 2013

INTRIGA INTERNACIONAL (1959)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: North by Northwest
Realização: Alfred Hitchcock
Principais Actores: Cary Grant, Eva Marie Saint, James Mason, Jessie Royce Landis, Leo G. Carroll, Josephine Hutchinson, Philip Ober, Martin Landau, Adam Williams, Edward Platt, Robert Ellenstein, Les Tremayne, Philip Coolidge

Crítica:

A CONSPIRAÇÃO


No, Mother, I have not been drinking.

Certamente, um dos expoentes máximos do thriller de espionagem e do thriller romântico, Intriga Internacional ainda hoje encontra eco em dezenas de reproduções maioritariamente inferiores. A montagem do filme (George Tomasini) e o compasso que esta impõe ao longo das suas pouco mais de duas horas de duração é qualquer coisa de verdadeiramente notável e obsessivo, tanto para a marcação do ritmo cerebral e implacável que baseia a narrativa como para a edificação - essencial - do suspense.

Na verdade, a condução controlada, intrincada e meticulosamente pensada que o argumento (Ernest Lehman) e o mestre Hitchcock fazem do mistério aprisiona completamente o espectador, desde o primeiro instante.  Qual personagem principal, Roger O. Thornhill (um charmoso, trabalhador e bem-humurado homem da publicidade, completamente alheio a estratégias de guerra e a segredos de estado), nada sabemos sobre o precipício em que caimos, perdidos em confusões, mal-entendidos e situações completamente absurdas. E qual protagonista, perfeitamente interpretado por Cary Grant, cedo percebemos que nada parece o que é... nem é o que parece. Aquilo que começa por ser um episódio caricato e ridículo, de aparente e fácil resolução - Roger enfrenta-o, diga-se, com todo o sacarmo - torna-se numa fuga absolutamente perigosa e arriscada pela sobrevivência e pela verdade... às tantas, revelada na forma da mais pura e empolgante aventura, capaz de nos garantir todo o entretenimento. No meio da tanta agitação, ainda há tempo e espaço para a atracção, pela loira e irresistível femme fatale que é Eve Kendall (Eva Marie Saint) e que culminará algures entre as faces rochosas e monumentais do Monte Rushmore e os tão impessoais lençóis do comboio de regresso a casa. Sempre acompanhados pelas extraordinárias e vibrantes composições musicais de Bernard Herrmann, claro.

As cenas memoráveis e antológicas são mais do que muitas. Que dizer, a título de exemplo, daquela pela qual o filme é imediatamente lembrado, deslumbrante da fotografia à encenação: a incessante e por isso mesmo inquietante perseguição da avioneta sobre o cruzamento e sobre os campos de cereais. É sublime; um tanto mais do que o filme que, por si só e com todo mérito, já é um grande filme.
 

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

DRIVE - RISCO DUPLO (2011)

PONTUAÇÃO: BOM
★★★★
Título Original: Drive
Realização: Nicolas Winding Refn
Principais Actores: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Bryan Cranston, Albert Brooks, Oscar Isaac, Christina Hendricks, Ron Perlman

Crítica:

O ESCORPIÃO SOLITÁRIO


I drive.

Em Drive, sob a assinatura formal - esmerada e entusiasmante - de Refn, Ryan Gosling interpreta uma personagem solitária, enigmática e, até certo ponto, impenetrável. Sensivelmente a meio do filme, apaixona-se pela doce, bela e vulnerável vizinha Irene (Carey Mulligan) e até a esse ponto já desenvolvemos para com ele uma inexplicável empatia sem que, no entanto, o conheçamos minimamente, saibamos o que esperar dele ou especulemos sobre as suas razões de viver. É um ser incuravelmente introspectivo (o porquê nunca chegaremos a descobrir), pouco fala e a sua expressão ou olhar pouco revelam. Sabemos que ele é Driver e ponto final. A sua existência resume-se a conduzir, seja como duplo na indústria cinematográfica ou como mecânico durante o dia ou como motorista do crime, quando a noite cai. Contudo, devemos suspeitar de uma pessoa assim; pelo menos é o que nos vem comprovar a segunda parte do filme.

If I drive for you, you get your money. You tell me where we start, where we're going, where we're going afterwards.
 I give you five minutes when we get there. Anything happens in that five minutes and I'm yours. No matter what. Anything a minute on either side of that and you're on your own. 
I don't sit in while you're running it down. I don't carry a gun. I drive.

Regressado da prisão mas não do perigoso e imprevisível mundo do crime, Standard (Oscar Isaac), o marido de Irene, coloca a vida da mulher e do filho à mercê da máfia. A esta altura, já Driver está por demais envolvido ambos e, sentindo-se na obrigação de os salvar, custe o que custar, revelará uma face de si mesmo não só violenta como brutalmente chocante, que até então desconhecíamos. Driver faz sempre o que tem a fazer sem perguntar nada a ninguém, como se o seu instinto ditasse o que está certo e errado - e é isso que é mais assustador. Nunca chega a haver uma conversa com Irene sobre o que ele vai ou não fazer ou deve ou não fazer para os proteger, a ela e ao filho. A sua figura perde-se ou ganha-se entre o herói de acção (pelo qual esperávamos desde o começo, pela invocação do género) e o homem comum (sobre o qual se precipita, fatalmente, a tragédia). Refn reforça este volte-face no estilo, de sempre apurada elegância: a contenção dá lugar a explosões de sangue, o pulsar do coração acelera e os níveis de adrenalina também. As perseguições tornam-se para lá de empolgantes, numa Los Angeles mágica e deslumbrantemente fotografada e iluminada por Newton Thomas Sigel; pulmão do filme. Michael Mann vem-nos logo à ideia, a propósito. A cidade e a noite. A montagem de Matthew Newman mede, a duas velocidades, o tempo e a pulsação entre as cenas mais paradas e demoradas e as mais alucinantes.

É absolutamente vertiginosa, pois, a inesperada corrida para que Refn nos lança, sem redes de segurança ou de protecção. As canções e os excelentes momentos musicais que se proporcionam aquecem-nos o sangue, inicialmente, para depois um certo realismo visceral no-lo gelar, nos golpes mais selvagens. Que frieza percorre as veias da narrativa, como se o calor de um beijo ou um gesto de ternura estivessem premeditadamente condenados. Se há vazio em Drive, será provavelmente na falta de dimensionalidade das personagens, às tantas peões do estilo obsessivo do cineasta: não há espaço, afinal, para o conflito moral, apenas avançamos de acção em acção sem grande tempo para reflexões. É mais como um murro no estômago, não tanto um murro no cérebro. Mas lá que nos electriza nos meandros despudorados e tão bem filmados do seu neo-noir, lá disso não tenhamos dúvidas.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

TRAINSPOTTING (1996)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Trainspotting
Realização: Danny Boyle
Principais Actores: Ewan McGregor, Ewan Bremner, Jonny Lee Miller, Kevin McKidd, Robert Carlyle, Kelly McDonald, Peter Mullan, James Cosmo, Irvine Welsh, Dale Winton

Crítica:

A VIDA NÃO É UM SONHO

People think it's all about misery and desperation and death and all that shit which is not to be ignored, but what they forget is the pleasure of it. Otherwise we wouldn't do it. After all, we're not fucking stupid. At least, we're not that fucking stupid.

Pedaços de narração corrosiva, plena de sarcarsmo e ironia, não faltam neste alucinante - ou alucinado - Trainspotting. O argumento é de John Hodge, a partir do romance de Irvine Welsh. Num registo irreverente e relativamente cool, funde-se humor, sátira, choque, nojo e uma dose ilimitada de palavrões. Danny Boyle - num estilo que se lhe tornaria característico - combina as mais variadas e distintas técnicas de filmagem, estimulando e potenciando uma verdadeira experiência sensorial para o espectador, com uma energia inesgotável e a um ritmo psicadélico e electrizante. Indissociável a tão vertiginoso impacto é a banda sonora: a sonoridade electrónica insiste, persiste e é como que omnipresente do início ao fim do filme.

Do eco de Laranja Mecânica ao advento de Clube de Combate ou de A Vida Não É Um Sonho, a obra revelou-se não só marcante como manifestamente influente no cinema do fim de século. O sentimento de solidão e de alheamento da juventude perante uma sociedade mascarada, o niilismo, a necessidade de escape e de evasão da realidade, o refúgio nas drogas, na vivência sem limites nem responsabilidades... é sobre tudo isto, este surpreendente Trainspotting. Ewan McGregor ascende ao estrelato, por meio de uma interpretação genuína e cheia de vida, à frente de um elenco de caricaturas diversificadas e bem conseguidas.

Excepcional, o acuro visual da fotografia de Brian Tufano, das cores à iluminação, em perfeita sintonia com toda a arte da mise en scène e com a demais direcção artística. Mas a riqueza visual da obra nasce também das ideias surrealistas, por sua vez provenientes dos efeitos secundários do uso e abuso dos químicos. O mergulho na sanita será, muito provavelmente, a cena mais memorável de todo filme; pelo menos, é a minha preferida.

Sem jamais atingir uma mestria suprema, Trainspotting transborda emoções fortes e um sentido estético inegavelmente ousado e ecleticamente eficaz. Tem apenas uma contra-indicação: pode tornar-se viciante. A primeira vez que assistir ao filme, não será certamente a última.

Choose Life. Choose a job. Choose a career. Choose a family. Choose a fucking big television, choose washing machines, cars, compact disc players and electrical tin openers. Choose good health, low cholesterol, and dental insurance. Choose fixed interest mortgage repayments. Choose a starter home. Choose your friends. Choose leisurewear and matching luggage. Choose a three-piece suit on hire purchase in a range of fucking fabrics. Choose DIY and wondering who the fuck you are on Sunday morning. Choose sitting on that couch watching mind-numbing, spirit-crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth. Choose rotting away at the end of it all, pissing your last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked up brats you spawned to replace yourselves. Choose your future. Choose life... But why would I want to do a thing like that? I chose not to choose life. I chose somethin' else. And the reasons? There are no reasons. Who needs reasons when you've got heroin?

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O CABO DO MEDO (1991)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★
Título Original: Cape Fear
Realização: Martin Scorsese
Principais Actores: Robert De Niro, Nick Nolte, Jessica Lange, Juliette Lewis, Joe Don Baker, Robert Mitchum, Gregory Peck, Martin Balsam, Illeana Douglas, Fred Dalton Thompson

Crítica:

O PESADELO INFERNAL

Every man... every man has to go
through hell to reach paradise.

O Cabo do Medo é como que Scorsese a brincar a Hitchcock. A sua câmera marca uma presença soberana na condução narrativa - cada um dos seus movimentos tem um papel activo e determinante na construção do suspense, que se intensifica num crescendo sufocante e irreversível à medida que caminhamos para o desfecho brutal. E que exímio exercício de construção e de suspense! Tensão, medo, claustrofobia, todas estas sensações nas doses exactas, nos momentos certos. Qual montagem, sempre ágil, precisa e acutilante, a técnica magnetiza eficazmente as atenções do espectador, manipulando o ritmo. Elmer Bernestein recupera a banda sonora de Bernard Herrmann e potencia uma experiência deveras arrepiante.

Ainda que seja um filme formalmente atípico na carreira do cineasta, encontramos neste remake o mesmo olhar frio e cerebral de sempre, sobre a violência e sobre o mundo do crime; temas recorrentes na filmografia de Scorsese, como sabemos. E encontramos, pois claro, o também recorrente Robert De Niro, numa performance extraordinária, verdadeiramente assombrosa. Provavelmente, uma das suas melhores interpretações de sempre. De Niro é Max Cady, um imprevisível, doentio e repugnante fantasma do passado, um psicopata de sorriso irónico e ameaçador, que procura a vingança junto do seu antigo advogado Sam Bowden (Nick Nolte) e da sua respectiva família (Jessica Lange, Juliette Lewis). Recém-libertado da prisão, passa a perseguir os seus alvos sem cessar, apertando-lhes cada vez mais o cerco. Sam espera, desespera e lança-se em estratagemas menos ortodoxos na tentativa de se livrar do louco, ainda que em vão. Max é extremamente engenhoso, meticuloso e inteligente e ultrapassará todos os limites numa caça sem tréguas.

I ain't no white trash piece of shit. I'm better than you all! I can out-learn you. I can out-read you. I can out-think you. And I can out-philosophize you. And I'm gonna outlast you. You think a couple whacks to my guts is gonna get me down? It's gonna take a hell of a lot more than that, Counselor, to prove you're better than me!
Max Cady

Perante a assustadora vivência, a utilidade do código: seguir o dever e a ética profissional ou a lei moral? O conflito assola a reflexão e a fraqueza da justiça dos Homens é posta em evidência.

Maybe 2000 years ago, we'd have stoned him to death.
I can't operate outside the law. The law is my business.
Sam Bowden

Daí o confronto final ter uma simbologia especial. Perante a ameaça da violência e na luta pela sobrevivência, todas as leis caem por terra. A justiça primitiva é a única possível e a semente do crime pende igualmente para ambos os lados da balança. Todos os homens podem ser culpados e agentes de violência, tenham razões para isso. Desse prisma, as diferenças entre Max e Sam tendem, às tantas, a dissipar-se. As circunstâncias da vida encarregar-se-ão finalmente de os encaminhar para a redenção ou não.

Max Cady: I'm Virgil and I'm guidin' you through the gates of Hell. We are now in the Ninth Circle, the Circle of Traitors. Traitors to country! Traitors to fellow man! Traitors to GOD! You, sir, are charged with betrayin' the principles of all three! Quote for me the American Bar Association's Rules of Professional Conduct, Canon Seven.
Sam Bowden: "A lawyer should represent his client... "
Max Cady: "Should ZEALOUSLY represent his client within the bounds of the law." I find you guilty, counselor! Guilty of betrayin' your fellow man! Guilty of betrayin' your country and abrogatin' your oath! Guilty of judgin' me and sellin' me out! With the power vested in me by the kingdom of God, I sentence you to the Ninth Circle of Hell! Now you will learn about loss! Loss of freedom! Loss of humanity! Now you and I will truly be the same...

Enfim, magistral. Psicologicamente estonteante.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

BRISA DE MUDANÇA (2006)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Wind That Shakes the Barley
Realização: Ken Loach
Principais Actores: Cillian Murphy, Padraic Delaney, Liam Cunningham, Gerard Kearney, William Ruane

Crítica:


INDEPENDÊNCIA INGLÓRIA



I tried not to get into this war, and did,
now I try to get out, and can't.

Quão vergonhosa pode uma guerra civil ser. Quão revoltante pode a natureza humana ser. Matamo-nos a nós próprios, sem piedade, apesar da dor. Aquela relação de irmãos - entre Damien (Cillian Murphy) e Teddy (Padraic Delaney) - sinedoquiza, passe o necessário neologismo, toda a história da Irlanda que Loach tão tensa e intensamente abraça representar. Até que ponto a defesa de um ideal nos separa, traindo o coração e o nosso próprio sangue.

Strange creatures we are, even to ourselves...

Brisa de Mudança
grita o socialismo e a liberdade patriótica, entre a natureza
verdejante (sublimemente fotografada por Barry Ackroyd) e o intimismo familiar. O argumento (Paul Laverty), associado de raiz ao retrato histórico e à leitura política, encontra a sua força na autenticidade da tragédia, longe do melodrama ou da romantização. Há aqui um realismo austero, que intensifica os sacrifícios dos homens, e para o qual contribui decisivamente a direcção artística e o guarda-roupa. O jovem elenco está ao nível das exigências dramáticas, sobretudo a dupla acima referida, que protagoniza a trama.


Horror, medo, esperança. Brisa de Mudança é um filme de todos estes sentimentos, sobre a génese da rebelião. Grande filme.

terça-feira, 5 de julho de 2011

O CREPÚSCULO DOS DEUSES (1950)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Sunset Boulevard
Realização: Billy Wilder
Principais Actores: William Holden, Gloria Swanson, Erich von Stroheim, Nancy Olson, Cecil B. DeMille, Franklyn Farnum, Jack Webb, Lloyd Gough, Fred Clark, Larry J. Blake, Buster Keaton

Crítica:


A GRANDE ILUSÃO

No-one ever leaves a star.
That's what makes one a star...

Chega a ser cruel, o reflexo e o retrato de Hollywood, magistralmente concretizado por Billy Wilder e equipa neste O Crepúsculo dos Deuses. Eis a sátira à teia de oportunistas que deambula pela Sunset Boulevard, sedentos de celebridade. Na avenida da cidade dos sonhos, a mansão assombrada por Norman Desmond - o grande astro do cinema mudo, estrela agora cadente e decadente face à ascenção do cinema sonoro, perdida entre a excentricidade e a extravagância do seu carácter e da sua carteira. A prodigiosa tour de force de Gloria Swanson confronta-nos com a tragédia, a efemeridade do sucesso e da fama, com o pavor do envelhecimento e do esquecimento, com a sombra por detrás dos holofotes que outrora abrilhantaram e fizeram dela uma aclamada artista. There's nothing tragic about being fifty. Not unless you're trying to be twenty-five. Norma sonha com o regresso - It's a return, a return to the millions of people who have never forgiven me for deserting the screen. - um regresso impossível, potenciado pela ilusão. Afinal, todos lhe mentem - revelar ou ocultar a verdade, ambas as soluções acarretam consequências terríveis.

I am big. It's the pictures that got small.

Norma sonha com o regresso mas há muito que deixou de ser solicitada. Recebe milhares de cartas de fãs, mas são todas escritas pelo mordomo Max; facto que ela desconhece, coitada. Os telefonemas que recebe da Paramount são para lhe alugar o carro, não porque Cecil B. DeMille a queira de volta ou tenha adorado o seu argumento falhado. É por isso que nos enche de compaixão, a cena em que a diva torna aos antigos estúdios e se reencontra com o cineasta dos grandes épicos. Primeiramente, só os velhos técnicos e funcionários se recordam dela - a indústria do presente dispensou-a. Icónica e simbólica, por isso mesmo também, a cena dos Bonecos de Cera, em que os deuses do mudo jogam às cartas no seu empoeirado Olimpo. Buster Keaton, Anna Q. Nilsson e H.B. Warner, os renegados do silêncio. Mais do que aparições, eles representam-se a si próprios, potenciando uma metalinguística incomensurável. O mesmo a dizer de Cecil B. DeMille, que dirigiu Gloria no passado; Gloria que, tal como Norma, foi uma actriz do outrora, cuja personagem no filme de Wilder lhe sentenciou o regresso áureo. Esta dupla leitura entre relações diegéticas e metadiegéticas far-se-á sempre em O Crepúsculo dos Deuses, resultando daí a maior parte do seu fascínio. A propósito, o mordomo Max desempenhará uma personagem-chave em toda a trama. Afinal, também ele se representa, de alguma forma, a si próprio. Max von Mayerling assume-se como o primeiro realizador de Norma e o primeiro dos seus maridos, super-protegendo-a desde sempre e edificando à sua volta um palácio de sonhos e fantasias. Max von Mayerling não é senão o aclamado (e de outros tempos) realizador Erich von Stroheim - a cena a que Norma e Gillis assistem na sala de projecção não é nada mais nada menos do que uma das cenas de A Rainha Kelly, realizado por Erich e estrelado por Gloria Swanson em 1932.


She was the greatest of them all.

O Crepúsculo dos Deuses é também um noir envolvente, uma história de crime narrada a partir da primeira pessoa - uma narrativa póstuma, uma vez que o narrador se assume logo desde início como o morto, vítima de um mistério desvendado analepticamente. Não deixa de ser irónica, a natureza deste narrador (mais tarde recuperada exemplarmente em Beleza Americana, de Sam Mendes). O narrador e o protagonista (ainda que a prestação magnetizante seja sempre a de Gloria Swanson) é Joe Gillis, William Holden, um argumentista falhado, perseguido pelas dívidas, que encontra na rica Norma o remédio para a sua instável situação. Será o único a afrontar a actriz, levando-a ao devaneio final, à insanidade pura e ao crime. Se na cena do baile já tínhamos pena daquela mulher, o que sentir aquando daquela delirante descida pela escadaria, envolta em multidão, completamente refém da ilusão...

I promise you I'll never desert you again because after 'Salome' we'll make another picture and another picture. You see, this is my life! It always will be! Nothing else! Just us, the cameras, and those wonderful people out there in the dark!... All right, Mr. DeMille, I'm ready for my close-up.

Eis, pois, um feito notável no seio da indústria americana. Uma produção corajosa, que privilegia a história e os actores sobre todas as coisas, mas que detém igualmente o mérito de conciliar o primor nas mais variadas catergorias técnicas: exuberante, a direcção artística, em cada cenário, em cada figurino. Imaculada a fotografia, a cargo de John F. Seitz. Sublime, a banda sonora de Franz Waxman, na condução da melancolia trágica. Grande clássico de Billy Wilder.

sábado, 14 de maio de 2011

NOIVOS SANGRENTOS (1973)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Badlands
Realização: Terrence Malick
Principais Actores: Martin Sheen, Sissy Spacek, Warren Oates, Alan Vint, Ramon Bieri, Cato, Gary Littlejohn, Terrence Malick, John Carter, Dona Baldwin, Ben Bravo, Charles Fitzpatrick, Howard Ragsdale, John Womack Jr.

Crítica:

A BALADA SELVAGEM

Try to keep an open mind. Try to understand the viewpoints of others. Consider the minority opinion. But try to get along with the majority of opinion once it's accepted.

A citação supra, proferida pela personagem Kit Carruthers (Martin Sheen, prodigiosamente brilhante), poderia ser considerada exemplar e denotar uma consistente integridade psíquica, não fosse ela proferida com a mais insolente e rasgada ironia.

Entre o crime e a inocência, os sonhadores - uma nova juventude, desenraizada e completamente alienada da civilização e da ordem. Os inocentes, por um lado, terminando a sua existência infantil e irresponsável. Os delinquentes, por outro, condenando o futuro deles e dos outros à mais perfeita amoralidade. Kit e Holly (esta subtilmente interpretada por Sissy Spacek) são indivíduos para quem a vida parece vazia de significado, na qual se mostram indiferentes e apáticos. Note-se como a violência surge, assustadoramente, de uma forma repentina, inesperada e absolutamente imprevisível. Não parece haver motivos, não há acumulação de raiva ou exteriorização de desespero; as acções criminosas simplesmente têm lugar. Mata-se um cão, um pai ou um terceiro e não há causa ou remorso. Apenas frio e brutal impulso, desprovido de qualquer moralidade.

Terrence Malick apresenta-nos os seus protagonistas solitários: têm origens distintas, rapidamente se julgam apaixonados e mal se conhecem e, no entanto, continuarão irremediavelmente sós. Os dois não falam sobre os sentimentos que os unem, nem tão-pouco os demonstram - e tudo isto causa um tremendo e crescente efeito de estranheza no espectador. Há romantismo naquela relação, aquele romantismo inicial do amor e uma cabana, no qual se julga possível escrever um destino idílico na natureza, longe da civilização. Mas depressa caem por terra, as ilusões. A narrativa jamais fortalece o romantismo, ao ponto de os pudermos considerar heróis, alguma vez. São jovens perdidos: Kit tem 25 anos e ainda se espelha nos ídolos, tentando uma existência semelhante à das estrelas de Hollywood, nas quais se revê. Imita-os, as pessoas ou as personagens, ficcionando a realidade à imagem do sonho. Acha-se um James Dean: calça as botas de cowboy, veste os jeans e o casaco de ganga, aperfeiçoa o penteado a todo o instante. Os seus olhos brilham, sempre que o comparam com o actor. No entanto, saltita de emprego em emprego, não se lhe conhece família ou amigos, recolhe o lixo sem grandes objectivos. No seu passado escondem-se as verdadeiras razões que lhe desencadearam a sociopatia. Holly, por sua vez, é órfã de mãe, vive com o pai, tem lições de clarinete e é uma estudante aplicada. Quando se conhecem, Kit e Holly, ambos se rendem às ilusões e às aparências um do outro e juntos partem à aventura, de espingarda e livro em punho, quais Bonnie e Clyde, fugindo à polícia e procurando novas experiências, novas sensações e novos significados.

Fazem-se à estrada e é na viagem que, com a narração de Holly, temos acesso à sua voz interior, que não se revela, afinal, totalmente inconsciente. Há toda uma personalidade interior que não se manifesta na sua relação com Kit e com o mundo. Há uma inocência que pactua facilmente com o crime, como se o mesmo não tivesse consequências. Há, com o tempo, uma necessidade de abandonar toda aquela experiência errante e começar uma nova história, mas a vida parece ser levada ao sabor do vento, como se não vingasse uma vontade própria. Graças à narração, precisamente, o filme assume o registo contemplativo que lhe permite jamais se comprometer com julgamentos morais. Há, por isso, todo um fio de ambiguidade que é habil e subtilmente alimentado ao longo de toda a narrativa. Narrativa, essa, que - lá está - nos distancia cada vez mais daquelas personagens e que as trata com uma notável imparcialidade, inclusivé no final, deixando eventuais e possíveis julgamentos ao critério do espectador.

Badlands - Noivos Sangrentos assume-se, pois, como um road movie, um virtuosíssmo e magistral road movie, que conflui romance, crime e drama com uma graça etérea, uma vez que é filmado com um sentido estético assaz sensível a tudo o que é belo - sobretudo no que se refere à captação da paisagem, da planície, das plantas, do entardecer, das nuvens, do céu. A natureza ainda não assume, neste primeiro filme de Malick, o protagonismo essencial, como o fará nas obras-primas seguintes Dias do Paraíso, A Barreira Invisível, ou O Novo Mundo, mas ainda assim há que notar como estes elementos naturais se revelam determinantes para todo o primor e esplendor da fotografia (trabalho e inspiração de Tak Fujimoto, Stevan Larner e Brian Probyn).

Por meio da beleza irradia, visualmente e com um ligeiro tom nostálgico, toda a pureza da juventude, em pleno contraste com os sucessivos desenvolvimentos do argumento. O filme evolui fluído e sempre muito melódico: Carl Orff, Erik Satie, James Taylor, Mickey Baker e até mesmo Nat 'King' Cole. A banda sonora original é composta por George Aliceson Tipton e confere à obra uma envolvência rara e hipnotizante.

Enfim, um filme tão controverso quanto encantador. A descobrir, sempre.


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Nota especial para a infeliz - eu diria mesmo detestável - escolha do título português.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

RELATÓRIO MINORITÁRIO (2002)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Minority Report
Realização: Steven Spielberg

Principais Actores: Tom Cruise, Samantha Morton, Colin Farrell, Max Von Sydow, Lois Smith, Steve Harris, Peter Stormare, Neal McDonough, Tim Blake Nelson, Joel Gretsch

Crítica:

A PROFECIA DO CRIME

In the land of the blind, the one-eyed man is king.

Mistura explosiva de acção, noir e ficção científica, Relatório Minoritário afirma-se como um sofisticado e por demais refinado pedaço de cinema, perturbante até às entranhas, capaz de projectar as mais pertinentes questões éticas e morais sobre a evolução do modelo social e tecnológico num futuro tão fantasioso quanto verosímil, onde a eterna luta pela sobrevivência continua a potenciar o progresso. Perfeccionista, visionário e, uma vez mais, reinventando-se a si próprio, Steven Spielberg conduz uma obra de entretenimento empolgante e inteligente, capaz de desafiar o espectador a cada compasso.

A atmosfera é sinistra e plena de suspense - a qual em muito se deve ao candor inebriante da fotografia e iluminação de Janusz Kaminski (tremendamente assombroso, o trabalho do técnico; notem-se os tons saturados e o grão, os feixes e as sombras, os enquadramentos non-stop), à esquizofrénica, distópica mas a espaços esperançosa banda sonora do mestre John Williams e à ambiciosa e prodigiosa estética conceptual e imagética, na qual assentou o incrível esplendor dos cenários de Alex McDowell. Em suma, o núcleo sólido das produções de Spielberg.

Washington, 2054. Entre arranha-céus de vanguarda e monumentos do passado, entre auto-estradas verticais e divisões transparentes - quão transparente é todo o universo idealizado, como que anunciando o fim da privacidade -, entre veículos revolucionários e murais publicitários que, por acção intermédia de scanners identificadores, se dirigem aos potenciais consumidores - há toda uma parafernália criativa que, num reflexo bem mais positivo do que o de Blade Runner, espelha a própria evolução do género. Tecnicamente irrepreensíveis, a propósito, os efeitos digitais e sonoros que, com uma aplicação não só notável como claramente eficaz, nos envolvem no complexo imaginário de presságios e sistemas perfeitos (?) de detecção de pré-crime, confluindo a dimensão sobrenatural com o delírio filosófico-científico. O futuro como certeza ou como possibilidade. A dúvida, sobre os outros e sobre nós próprios. Seremos nós capazes? Será que o faríamos? Que consequências traria a adivinhação do amanhã? Quais os perigos da total entrega a um sistema dito infalível? O entendimento e a não-aceitação da morte. O estudo do hipotético, do livre-arbítrio e do drama humano, onde o thriller policial mergulha no espectro trágico e devastador do infortúnio.

There hasn't been a murder in six years.
The system, it is perfect.

A aura angelical de Samantha Morton, oráculo essencial, precipita o ritmo electrizante da narrativa, a fuga e a perseguição sem-tréguas, de cortar a respiração e humurada à boa maneira americana: a personagem de Tom Cruise, John Anderton, chefe da unidade de Pré-Crime prestes a expandir-se a todo o território nacional, é confrontado com uma pré-acusação de homicídio. O predador torna-se, de um momento para o outro, a presa - a matriz é por demais conhecida - mas aqui é alvo de um tratamento verdadeiramente ímpar. Max von Sydow completa um trio de performances cristalinas. Colin Farrell desempenha, com uma competência assinalável, um primeiro vilão, numa intriga tão plena de personagens carismáticas como de aparências, onde nada é aquilo que parece. Às tantas, a imprevisível viagem conhece paragens profundamente intimistas, onde a dor de perder um filho e a invocação da sua memória, num holograma, perpetuam, mais do que nunca, o carácter universal da história de Scott Frank e Jon Cohen, a partir do conto de Philip K. Dick.

Sometimes, in order to see the light,
you have to risk the dark.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A ORIGEM (2010)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Inception
Realização: Christopher Nolan
Principais Actores: Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Marion Cotillard, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Dileep Rao, Cillian Murphy, Tom Berenger, Michael Caine, Pete Postlethwaite

Crítica:

O SONHO E A REALIDADE

Our dreams, they feel real while we're in them (...)
Its only when we wake up then we realize that something was actually strange.

O argumento de A Origem (da autoria de Christopher Nolan) é tremendamente engenhoso e complexifica-se na tentativa de penetrar o espectador acordado no universo onírico que, não raras as noites, invade a sua in-/sub-/consciência, numa recriação - ilógica e sem limites - do mundo real. A experiência de sonhar dentro do sonho - num efeito de myse en abyme quase perpétuo - é amplamente explorada. É esta riquíssima dimensão de potencialidades que Nolan transporta para a forma de um empolgante thriller de acção e espionagem.

Leonardo DiCaprio - à frente de um elenco excepcional, mas sem tridimensionalidade de origem - tem uma prestação memorável como Dom Cobb - especialista em extrair, pelos sonhos, os segredos mais preciosos dos seus alvos. Agora, a missão quase impossível de implantar uma ideia, descendo os níveis do inconsciente rumo ao cofre mais profundo, confrontá-lo-á com as memórias mais dolorosas e perigosas da sua existência.

What is the most resilient parasite? Bacteria? A virus? An intestinal worm? An idea. Resilient... highly contagious. Once an idea has taken hold of the brain it's almost impossible to eradicate. An idea that is fully formed - fully understood - that sticks; right in there somewhere.

Tecnicamente, o requinte e a sofisticação da fotografia (Wally Pfister), da direcção artística (Guy Hendrix Dyas, Larry Dias, Douglas A. Mowat) e dos efeitos especiais (Chris Corbould, Andrew Lockley, Pete Bebb, Paul J. Franklin) expandem uma criação visionária e espectacular. A composição musical de Hans Zimmer, assim como a exímia montagem de Lee Smith, servem eficazmente os propósitos do ritmo e da condução das emoções, no decorrer dos avanços e recuos da narrativa, do exigente e vertiginoso labirinto. A interessante premissa é elevada a um magnífico pedaço de entretenimento. Memoráveis, a cena em que a cidade se dobra sobre si própria, ou aqueloutra da espantosa luta de Arthur the point man (Joseph Gordon-Levitt) pelo corredor do hotel, em gravidade zero. Brilhante.

O filme, em primeira ou última instância, assume-se como um reflexo do sonho: um estado de inspirada arquitectura e de prodigiosa imaginação, onde as coordenadas espacio-temporais são livremente distorcidas, transportando e absorvendo inteiramente o espectador para a sua plenitude trágica. Para este, afirmar ou distinguir com absoluta certeza o que é, narrativamente, sonho ou realidade constituirá eternamente o maior desafio do filme. Até a última pista aponta para a ambiguidade.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

MYSTIC RIVER (2003)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Mystic River
Realização: Clint Eastwood

Principais Actores: Sean Penn, Tim Robbins, Kevin Bacon, Laurence Fishburne, Marcia Gay Harden, Laura Linney, Kevin Chapman, Adam Nelson, Emmy Rossum, Tom Guiry, Spencer Treat Clark

Crítica:

ÁGUAS PROFUNDAS

Maybe some day you forget
what it's
like to be human and maybe then, it's ok.

Os lobos podem corromper, para sempre, a idade de inocência. Por isso mesmo, os contornos trágicos de um determinado acontecimento, na infância, podem traumatizar e assombrar toda uma existência.

Jimmy. Sean. Da... prenúncio simbólico do que se sucederia, o terceiro nome não chegou a ser concluído. Na inscrição do cimento jaz a memória de três amigos de bairro, que em crianças brincavam pelas ruas de Boston, quando foram abordados por um polícia impostor, pedófilo. Dave é enganosamente levado num carro e, durante dias, abusado numa cave escura. Brilhantes, o anel com a cruz e o crucifixo ao peito - Eastwood é claro na acusação. O mal veste pele de cordeiro. Desde que conseguiu escapar, Dave tornou-se um homem emocionalmente perturbado, sempre ausente e distante em pensamentos e perseguido pelos fantasmas do passado. Envolto, até, numa certa aura sinistra e misteriosa. Tantos anos depois, o destino dos três amigos vê-se forçosamente interligado, uma vez mais. A filha de Jimmy é brutalmente assassinada, Dave é considerado o principal suspeito do crime e Sean é o polícia que se encarregará do caso.

Sean: When was the last time you saw Dave?
Jimmy: That was twenty-five years ago, going up this street, in the back of that car.

O Mystic, que flui ao largo da cidade, é como que a metáfora das mágoas submersas e que, face às circunstâncias da tragédia, voltam à tona. Os travellings sobre o rio mostram como que uma testemunha presencial constante - o rio é o elo entre o passado e o presente, é um marco inalterável na paisagem e no meio que viu crescer aqueles miúdos. O rio sabe os seus segredos, o rio sabe mais do que nós; passe o trocadilho do título.

A inimaginável dor de perder um filho, o luto, a sede de vingança e de justiça. Aquilo que as personagens de Mystic River experienciam é uma situação limite, tanto no passado como no presente. O Jimmy de Penn protagoniza todo esse agitar de águas interior. Como lidar com o reconhecimento na morgue? Como suportar o interrogatório policial quando a cabeça e o coração parecem explodir? Como tratar do funeral? Como aceitar a morte, a morte da filha?

That's what Katie looked like when I saw her in the morgue. Like they put her in a bag and then they beat the bag with pipes. Janie died in her sleep, all due respect, but there you go. She went to sleep, she never woke up. Peaceful. (...) My daughter was murdered. They put a gun to her. As we stand here, she's on an autopsy slab getting cut open by scalpels and chest spreaders, and you're talking to me about domestic fucking responsibility? Good to see you, Theo.
Jimmy para Theo

A conversa de alpendre, entre Jimmy e Dave, é memorável. Após o choque, o momento em que Jimmy cai em si, cedendo à frieza:

Jimmy: It's really starting to piss me off, Dave! She's my own little daughter, and I can't even cry for her!
Dave: Jimmy, you're crying now.

Mystic River é um thriller policial, ritmado pelo suspense - descobrir a identidade do assassino é a grande demanda -, encontra reminiscências dos filmes de gangsters - procura-se fazer justiça pelas próprias mãos -, mas é sobretudo um drama poderosíssimo, de emoções fortes. De uma contenção e intensidade e de uma densidade e profundidade psicológica absolutamente notáveis. Como na generalidade da sua obra, Eastwood fica-se pelos meios essenciais: o argumento (sublime, o trabalho dramatúrgico de Brian Helgeland, a partir do romance de Dennis Lehane), as cenas fazem-se com poucos mas precisos enquadramentos. A fotografia (Tom Stern) ou a montagem (Joel Cox), longe de quaisquer potencialidades distractivas, contribuem para o realismo e para a mimesis, sempre com temperança, com peso e medida. Eastwood é sóbrio na direcção do seu arquétipo e um movimento de câmera menos subtil e mais ousado, quando existente, ganha logo um significado relevante. De notar que o realizador é especialmente cuidadoso com o término de algumas das suas cenas, pontuando-o geralmente com um enquadramento mais distanciado. A banda sonora, também com a assinatura do cineasta, surge apenas nos momentos cruciais.

Para além da narrativa e dos termos técnicos, talvez o elemento mais preponderante: as prodigiosas interpretações do casting. Sean Penn como Jimmy Markum, cujo rosto se transfigura perante a dor da perda. Is that my daughter in there?! Arrepiante. Tim Robbins como Dave Boyle, consumido pelos medos e inseguranças da sua personagem. They were wolves, and Dave... was the boy who escaped from wolves. Marcia Gay Harden como Celeste, a dedicada e incansável mulher de Dave, cujas desconfianças do marido precipitarão, inesperadamente, o seu desfecho cruel. He's been acting kind of nuts lately. I'm almost afraid of him. Celeste, na sua bondade e ingenuidade será, com certeza, outra das personagens que mais sofrerá, corroída pelo remorso e pela culpa. Grande papel da actriz, que ao lado de Laura Linney (como Annabeth Markum, mulher de Jimmy) compõe o principal elenco feminino da longa-metragem, um dos melhores filmes de Eastwood-realizador.

Sometimes I think, I think all three of us got in that car...
Sean

À luz dos acontecimentos, a frase de Sean (que atravessa também um conflito conjugal) acaba por fazer todo o sentido. Os danos colaterais daquele fatídico dia terão possibilitado, afinal e no presente dia, todo o engano e mal-entendido, qual tragédia grega.

Their daddy's a king. And a king knows what to do and does it. Even when it's hard. And their daddy will do whatever he has to for those he loves. And that's all that matters. Because everyone is weak, Jimmy. Everyone but us. We will never be weak. And you, you could rule this town.
Annabeth

Na realidade, contudo, nem reis nem heróis... apenas seres humanos. A vida segue o seu curso e a responsabilidade pelos erros fatais, pesa-a o tempo no derradeiro julgamento. Não há redenção, a erosão da culpa e do remorso é impossível. Daí o desencanto que o filme atinge, tão naturalmente. É uma pena pesada, por vezes, a vida.

CINEROAD ©2020 de Roberto Simões