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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

TRAINSPOTTING (1996)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Trainspotting
Realização: Danny Boyle
Principais Actores: Ewan McGregor, Ewan Bremner, Jonny Lee Miller, Kevin McKidd, Robert Carlyle, Kelly McDonald, Peter Mullan, James Cosmo, Irvine Welsh, Dale Winton

Crítica:

A VIDA NÃO É UM SONHO

People think it's all about misery and desperation and death and all that shit which is not to be ignored, but what they forget is the pleasure of it. Otherwise we wouldn't do it. After all, we're not fucking stupid. At least, we're not that fucking stupid.

Pedaços de narração corrosiva, plena de sarcarsmo e ironia, não faltam neste alucinante - ou alucinado - Trainspotting. O argumento é de John Hodge, a partir do romance de Irvine Welsh. Num registo irreverente e relativamente cool, funde-se humor, sátira, choque, nojo e uma dose ilimitada de palavrões. Danny Boyle - num estilo que se lhe tornaria característico - combina as mais variadas e distintas técnicas de filmagem, estimulando e potenciando uma verdadeira experiência sensorial para o espectador, com uma energia inesgotável e a um ritmo psicadélico e electrizante. Indissociável a tão vertiginoso impacto é a banda sonora: a sonoridade electrónica insiste, persiste e é como que omnipresente do início ao fim do filme.

Do eco de Laranja Mecânica ao advento de Clube de Combate ou de A Vida Não É Um Sonho, a obra revelou-se não só marcante como manifestamente influente no cinema do fim de século. O sentimento de solidão e de alheamento da juventude perante uma sociedade mascarada, o niilismo, a necessidade de escape e de evasão da realidade, o refúgio nas drogas, na vivência sem limites nem responsabilidades... é sobre tudo isto, este surpreendente Trainspotting. Ewan McGregor ascende ao estrelato, por meio de uma interpretação genuína e cheia de vida, à frente de um elenco de caricaturas diversificadas e bem conseguidas.

Excepcional, o acuro visual da fotografia de Brian Tufano, das cores à iluminação, em perfeita sintonia com toda a arte da mise en scène e com a demais direcção artística. Mas a riqueza visual da obra nasce também das ideias surrealistas, por sua vez provenientes dos efeitos secundários do uso e abuso dos químicos. O mergulho na sanita será, muito provavelmente, a cena mais memorável de todo filme; pelo menos, é a minha preferida.

Sem jamais atingir uma mestria suprema, Trainspotting transborda emoções fortes e um sentido estético inegavelmente ousado e ecleticamente eficaz. Tem apenas uma contra-indicação: pode tornar-se viciante. A primeira vez que assistir ao filme, não será certamente a última.

Choose Life. Choose a job. Choose a career. Choose a family. Choose a fucking big television, choose washing machines, cars, compact disc players and electrical tin openers. Choose good health, low cholesterol, and dental insurance. Choose fixed interest mortgage repayments. Choose a starter home. Choose your friends. Choose leisurewear and matching luggage. Choose a three-piece suit on hire purchase in a range of fucking fabrics. Choose DIY and wondering who the fuck you are on Sunday morning. Choose sitting on that couch watching mind-numbing, spirit-crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth. Choose rotting away at the end of it all, pissing your last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked up brats you spawned to replace yourselves. Choose your future. Choose life... But why would I want to do a thing like that? I chose not to choose life. I chose somethin' else. And the reasons? There are no reasons. Who needs reasons when you've got heroin?

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

OS TENENBAUMS - UMA COMÉDIA GENIAL (2001)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Royal Tenenbaums
Realização
: Wes Anderson

Principais Actores: Gene Hackman, Anjelica Huston, Gwyneth Paltrow, Ben Stiller, Owen Wilson, Luke Wilson, Bill Murray, Danny Glover, Seymour Cassel, Kumar Palana, Alec Baldwin, Grant Rosenmeyer, Jonah Meyerson

Crítica: [Brevemente]

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

EDUARDO MÃOS DE TESOURA (1990)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Edward Scissorhands
Realização: Tim Burton
Principais Actores: Johnny Depp, Winona Ryder, Dianne Wiest, Anthony Michael Hall, Vincent Price

Crítica: Eduardo Mãos de Tesoura é das fantasias mais ternurentas e infantis que Tim Burton concretizou em live-action, onde brilham e contrastam as cores berrantes dos cenários, o corte e costura do guarda-roupa ou a sofisticação da caracterização e penteados. Conta com uma comevedora interpretação de Johnny Depp, que na maioria das cenas nos arrebata apenas com o olhar. O cómico de situação (aliado à sátira social: o que as mulheres fazem na ausência dos maridos concede ao filme algumas das suas cenas mais hilariantes) e o cómico de personagem (cada uma mais caricata do que a outra, aqui estereotipadas e caricaturizadas ao sabor da fábula) fazem-se balançar com a tragédia de Eduardo (desde a sua incompleta criação à inadaptação insuperável, ao amor impossível e à eterna solidão). Por tudo isto e tanto mais, Eduardo Mãos de Tesoura tem o dom de nos aquecer o coração.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

PLAYTIME - VIDA MODERNA (1967)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Play Time
Realização: Jacques Tati

Principais Actores: Jacques Tati, Barbara Dennek, Rita Maiden, France Rumilly, France Delahalle, Valérie Camille, Erika Dentzler, Nicole Ray, Yvette Ducreux, Nathalie Jem, Jacqueline Lecomte

Crítica:

ILUSÕES DE HUMANIDADE

Somos os primeiros a estudar o silêncio!

O tempo muda. Os prédios rasgam agora os céus, das nuvens aterram turistas de todo o mundo e uma rua de Paris é igual a qualquer outra. Playtime traz o advento do capitalismo, da globalização e do anonimato civilizacional para o espaço público. Ao mesmo tempo que é uma comédia - embora a sua caricatura não seja tão exagerada assim - é uma denúncia alarmante à tão excessiva quanto ridícula organização do ser humano no dia-a-dia moderno, loucamente fascinado pelas invenções electrónicas e pelo progresso tecnológico e de antemão condenado à incomunicabilidade e à solidão. Às vezes, apetece dizer que Playtime é ficção científica e não será por acaso. Afinal, o design, a arquitectura vanguardista e as por demais linhas rectas parecem querer desenhar o futuro.

O centro da acção é a cidade; um manto cinzento cobre-a de cima a baixo e não há espaços verdes. A construção é em série, multiplicam-se os modelos standard e há uma obsessão incurável pela transparência. A perda da privacidade é gritante. O trânsito é interminável, mas organizado e há parquímetros por todo o lado. Quando Hulot se passeia pelo aeroporto ou pelo centro de escritórios, o cómico de situação brota a todo o instante. A sua inadaptação é evidente e no entanto tende a acentuar a inutilidade e a complicação de tanta tecnologia. Note-se o senhor que às tantas partilha com ele a sala de espera: toda a espera é uma encenação pensada, metódica e inexplicável. Caminharemos nós para aquele teatro desnecessário e insignificante? Fará de nós, o modelo social, seres igualmente artificiais e sem emoções, quais electrodomésticos? Note-se o senhor da limpeza, que vagueia agora pelos corredores sem nada para fazer... É tudo demasiado clean, resplandecente e perfeito. Ao mesmo tempo, tudo tão despersonalizado e sem identidade. Todos usam os mesmos sapatos, o mesmo tipo de roupa, todos vão ao mesmo local. Há uma cena notável em que uma parede nos impõe um split screen: em cada um dos lados, um apartamento e um televisor. Ambos os moradores passaram o serão com os seus familiares e amigos, mas sem diálogos significativos, tal é o fascínio pela invenção. Às tantas, parecem olhar um para o outro, mas entre os dois há silêncio e impossibilidade. Com a inauguração do clube nocturno, o Royal Garden, eis que a verdade se sobrepõe à aparência e aquele que seria o escândalo iminente acaba por descobrir a humanidade: a noite, entre o álcool e a diversão autêntica, dá lugar ao improviso, à quebra de todas as regras e previsões. O provincianismo emerge e a vida também.

Quando amanhece, a rotina repete-se. O trânsito, às voltas pela rotunda, parece simular um carrossel. A banda musical colabora. O Homem diverte-se assim. Se não se divertisse, porque perpetuaria ao futuro esta estranha forma de vida? O ensaio de Tati, assustadoramente actual, eleva-se pois como uma prodigiosa projecção do seu tempo, sociologicamente, filosoficamente, cinematograficamente. É um pedaço de arte magnífico, criteriosamente encenado e fotografado. Excelente.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

DESTRUIR DEPOIS DE LER (2008)


PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Burn After Reading
Realização: Ethan Coen e Joel Coen
Principais Actores: George Clooney, Frances McDormand, John Malkovich, Tilda Swinton, Brad Pitt, Richard Jenkins, Elizabeth Marvel, David Rasche, J.K. Simmons, Olek Krupa, Michael Countryman

Breves Considerações: Mosaico de idiotas, de equívocos e de conspirações absurdas. Coen. Traições em série por solitários paranóicos, maníacos pelo corpo e pela espionagem. O elenco é fabuloso: Clooney, Malkovich, Pitt, McDormand, Swinton, Jenkins. Grandes personagens, alucinadas ou improváveis, nas situações mais sórdidas ou hilariantes. Os méritos da paródia são sobretudo esses: o argumento e as representações, baseados por uma realização tremendamente eficaz. Grande comédia.

sábado, 2 de abril de 2011

O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE (2001)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Le Fabuleux Destin D'Amélie Poulain
Realização: Jean-Pierre Jeunet
Principais Actores: Audrey Tautou, Mathieu Kassovitz, Rufus, Lorella Cravotta, Serge Merlin, Jamel Debbouze, Clotilde Mollet, Claire Maurier, Isabelle Nanty, Dominique Pinon, Artus de Penguern, Yolande Moreau

Crítica:

A VIDA É UM MILAGRE

Les temps sont durs pour les rêveurs.

O Fabuloso Destino de Amélie é um daqueles raros, preciosos e apaixonantes filmes capazes de mudar uma vida. Uma comédia genuína, excêntrica e original, sobre os simples prazeres do dia-a-dia. Por intermédio da contagiante e encantatória composição de Yann Tiersen, deixa-se docemente invadir... pela melancolia, pela nostalgia da infância e pela solidão trágica do ser humano. É cinema em estado puro, de irrepreensível sofisticação técnica, visual e narrativa. Um universo mágico, repleto de cores e de fantasia, dotado de memoráveis performances, onde o pequeno fait divers encontra uma dimensão hilariante e universal. Onde a bondade e a humildade, no fim de contas, renovam a esperança no ser humano. Genial, a obra-prima de Jean-Pierre Jeunet, com uma adorável e carismática Audrey Tautou no papel principal.

A pequena e graciosa Amélie (Flora Guiet) acompanha-nos nos créditos iniciais: colando a boca e o nariz aos vidros, fazendo brincos com cerejas, pintando de bonecos, o queixo e as mãos. Os prazeres da infância, nas muralhas em dominó, que ao mais simples toque ou sopro se destroem, a música que nasce dos dedos, à volta sobre a boca dos copos de cristal, o barulho do chupar das palhinhas, o assobio com as folhas de árvore, o descolar das peles de cola dos dedos, o soprar das serpentinas, o rodar das moedas sobre a mesa, o comer das amoras, uma a uma enfiadas nos dedos. Ainda nos lembramos nós do que foi sermos crianças? Desde logo e por identificação, Amélie invoca em nós, espectadores, a memória e a recordação.

Desde o prólogo, que antecede os créditos, e até ao final da obra, a narração - pilar tão fundamental neste filme. Omnisciente, a voz de André Dussollier introduz - de uma forma tão peculiar e com um detalhe e precisão notáveis - as mais variadas e caricatas personagens. Amélie é sobretudo um filme de personagens e é através da sua pluralidade que a mensagem do filme sai enriquecida. Para apresentar a sua protagonista, no presente diegético, o narrador recua e principia no momento da concepção:


Le 3 Septembre 1973 à 18 heures, 28 minutes et 32 seconds, une mouche bleue de la famille des Calliphoridés pouvant produire 14670 battements d'ailes la minute se posait rue Saint-Vincent, à Montmartre. A la même seconde, à la terrasse d'un restaurant, le vent s'engouffrait sous une nappe, faisant danser les verres sans que personne ne s'en aperçoive. Au même instant, au 5e étage du 28, avenue Trudaine dans le 9e, Eugène Koler, après l'enterrement de son ami, Émile Maginot, en effaçait le nom de son carnet d'adresse. Toujours à la même seconde, pourvu d'un chromosome X de M. Raphaël Poulain atteignait l'ovule de Mme Poulain, née Amandine Fouet. 9 mois plus tard naissait Amélie Poulain.

Depois, descreve os ambientes e as personagens (reais ou imaginárias) que figuraram no passado de Amélie. Começa, pois, por falar dos pais da menina. Permitam-me, a propósito, a irresistível e bem humurada paráfrase: Raphaël Poulain (Rufus), o pai de Amélie, não gosta: de urinar com alguém ao lado, de um olhar de desdém sobre as suas sandálias, sair de água e sentir o fato-de-banho colado. Raphaël Poulain gosta: de arrancar bocados inteiros do papel de parede, de alinhar e polir os seus sapatos, de esvaziar, limpar e tornar a arrumar a sua caixa de ferramentas. Amandine Fouet (Lorella Cravotta), mãe de Amélie, não gosta: que os dedos fiquem enrugados pela água quente do banho, que alguém de que não goste lhe toque ao de leve na mão, de acordar com as marcas dos lençóis no rosto. Amandine Fouet gosta: dos fatos de patinagem artística que vê na televisão, de pôr o soalho a brilhar com o suor dos seus chinelos, de esvaziar, limpar e tornar a arrumar a sua mala.

Amélie teve uma infância solitária. A sua personalidade presente não é senão o reflexo dessa vivência especial e concreta: o pai, médico militar, nunca lhe expressou afecto. A intimidade excepcional de uma das habituais consultas entre pai e filha até fez com que o seu juvenil coração disparasse. Tanto, que Raphaël se convenceu de que a filha sofria de anomalia cardíaca. Por isso, nunca foi à escola, nunca se relacionou com crianças da sua idade. A nervosa da mãe, nada afectuosa também, acabou por ser a sua professora. Até Cachalot, o alaranjado peixe lá de casa, se tornou neurasténico e suicida com tamanho mau ambiente. O escape de Amélie era a fantasia, a Kodak instantânea que a mãe lhe oferecera e os conflitos com os vizinhos que, tão convictamente, levava a cabo. Quando um turista se atira das alturas da Notre Dame e cai bizarramente sobre Amandine Fouet, Amélie fica órfã de mãe. Até crescer e sair de casa, viverá com a irremediável apatia do pai e com o confortável silêncio do seu ursinho de peluche.


Amélie Poulain gosta: de se virar para trás no cinema e ver a cara dos outros espectadores, de notar os pormenores, na tela, nos quais mais ninguém repara, dos antigos filmes americanos onde os condutores dos automóveis nem olham para a estrada enquanto guiam, de afundar a mão nas sacas de sementes, de partir o leite queimado com a ponta da colher, de coleccionar pedrinhas para fazer ricochetes na água.

C'est l'angoisse du temps qui passe qui nous fait tant parler du temps qu'il fait.

La vie n'est qu'une interminable répétition d'une représentation qui n'aura jamais lieu.
Hipolito

Paris, bairro de Montmartre, 1997. Amélie não é uma jovem especial. Não será vítima da tragédia nem do sucesso. Divide a sua simples e humilde existência entre os afazeres de casa, o trabalho no Café des Deux Moulin e os sonhos mais mirabolantes, na parafernália da cidade ou na quietude do seu quarto. Em seu redor, os mais vulgares exemplares da espécie humana: Suzanne, a patroa e proprietária do estabelecimento, é coxa mas jamais entornou um copo. A eficiente Gina gosta de estalar os dedos e de testar a bondade dos outros através de provérbios. Georgette tem a mania das doenças, Joseph gosta de reventar bolhas de plástico e Hipólito é um poeta fatalista e falhado. Philomene é assistente de bordo e gosta de ouvir o bater da taça do gato sobre o chão. Será a cúmplice de Amélie nos passeios internacionais do gnomo de Raphaël Poulain pelos quatro cantos do mundo. É esta riqueza e pormenor na descrição das mais variadas personagens que é deveras apaixonante. Ao nível da comédia e sempre acompanhadas por flashbacks (tantos deles a preto e branco), revelam uma eficácia tremenda. No rol de habitués do bairro, faltam ainda o mal-disposto e resmungão Sr. Collignon, proprietário da mercearia da esquina (também ele, mais tarde, alvo do Zorro justiceiro de Amélie) e o coitado do cretin Lucien, sempre alvo das rimas fanfarronas do patrão. Felizmente, e por contraste, é um eterno bem-disposto e, ainda que não directamente, é capaz de gozá-lo à altura: Collignon, crêpe-chignon! Collignon, face de fion! Collignon, tête à gnon!

O dia 30 de Agosto de 1997 traz pela televisão - sempre a televisão - a chocante notícia da morte da Lady Di. A vida mais ou menos inconsequente de Amélie mudaria, então, para sempre. O ímpeto da notícia faz com que Amélie deixe cair a tampa do perfume, que descobrirá num esconderijo do rodapé uma misteriosa caixa de lembranças de infância. Às 4 da manhã do dia 31, tem uma ideia luminosa: esteja onde estiver, encontrará o dono da caixa e devolver-lhe-á o seu tesouro. Se isso o comover, está decidido: intrometer-se-á na vida dos outros.

Na demanda em busca de Dominique Bretodeau, o legítimo dono da caixa, como descobrirá mais tarde, conhecerá a chorosa Madeleine Wallace (magistral Yolande Moreau), cujo cão petrificou à espera do dono desaparecido há décadas, os pais do merceeiro Collignon e o eterno falsificador de Renoir, Raymond Dufayel (Serge Merlin), l'homme de verre, com o qual partilhará as mais deliciosas cassetes de vídeo.

C'est drôle la vie. Quand on est gosse, le temps n'en finit pas de se trainer, et puis du jour au lendemain on a comme ça 50 ans. Et l'enfance tout ce qui l'en reste ça tient dans une petite boite. Une petite boite rouillée.
Dominique Bretodeau

Bretodeau emociona-se bastante ao reencontrar a sua caixa. É precisamente da mesma natureza, o sentimento que nos invade ao reconhecermos ou compararmos a nossa infância naquelas imagens. Dado o sucesso da sua missão, Amélie avança então no sentido de se intrometer na vida das pessoas à sua volta, proporcionando-lhe felicidade. A sua missão não é, repare-se, salvar o mundo, nem sequer o seu bairro. É tão-somente a de trazer um sorriso a quem se cruzar com ela; fosse essa a missão de todos nós, ainda que num só dia por ano. O cego: Amélie encontra um cego a escutar a solidão nos versos de Piaf, na estação do metropolitano. Cena memorável, a que se segue: Amélie dá-lhe o braço e atravessa com ele a rua, descrevendo-lhe tudo aquilo que vê, tal é a euforia que sente em poder ajudar os outros. Uma luz divina desce sobre aquele homem, quando ela o deixa, como que metaforizando a nobreza do gesto. No café, servirá de cupido entre Joseph e Georgette. O estabelecimento até estremecerá, tão comicamente, ao ritmo do sexo que se pratica contra a porta do W.C..

Uma felicidade imensa compensa o altruísmo de Amélie. Ela sente-a por dentro. Contudo, ao chegar a casa, vê espelhado no televisor o reflexo da sua solidão. Adagio for Strings potencia a atmosfera desoladora. É uma boa samaritana, uma Madre Teresa de Calcutá. É uma jovem bonita e adorável, mas está só. Porque não arrisca Amélie a sua própria felicidade?

Raymond Dufayel: [sobre a misteriosa rapariga do copo de água, no Le Déjeuner des Canotiers] Autrement dit, elle préfère s'imaginer une relation avec quelqu'un d'absent, plutôt que de créer des liens avec ceux qui sont présents.
Amélie: Non, p'têtre même qu'au contraire elle se met en quatre pour arranger les cafouillages de la vie des autres.
Raymond Dufayel: Mais elle, et les cafouillages de la sienne, de vie, qui va s'en occuper?
Amélie: Bin en attendant, mieux vaut se consacrer aux autres qu'à un nain de jardin!


Ao passar pelo photomaton do metro, um dia, Amélie vislumbra, pela primeira vez, Nino Quincampoix (Mathieu Kassovitz). É o destino, avança o narrador. Já em pequenos comunicavam sem se conhecerem, cada um na sua janela e com o seu espelho brilhante. Nino divide a sua existência entre a feira de diversões, na Casa Fantasma, e o trabalho numa sex shop. Não é um galã rico e bonitão, é um jovem comum que gosta de coleccionar as fotografias rasgadas dos photomatons num álbum já impressionante. É precisamente nos photomatons, pelo metro ou na Gare d'Lest, que Amélie o reencontrará, num outro dia em que Nino perderá o seu precioso álbum em busca do enigmático L'inconnu des photomatons. Será Amélie quem ficará com ele e que, assim, terá a oportunidade ou a desculpa perfeita para se aproximar de Nino, escapando à timidez e ultrapassando os seus medos e inseguranças. É a oportunidade para ser feliz, como merece.

La chance, c'est comme le Tour de France: on l'attend longtemps et ça passe vite!


Voilà, ma petite Amélie, vous n'avez pas des os en verre. Vous pouvez vous cogner à la vie. Si vous laissez passer cette chance, alors avec le temps, c'est votre cœur qui va devenir aussi sec et cassant que mon squelette. Alors, allez y, nom d'un chien!
Raymond Dufayel

Um jogo de escondidas vai começar; como Amélie é perita nestas brincadeiras. O romantismo ganha aqui uma pureza infantil. O encontro desejado entre os dois acontecerá inesperadamente e com uma beleza e ternura indescritíveis. Abre-se a porta e nem uma palavra. Apenas o olhar apaixonado... Amélie envolve-se, subtilmente, naquela delicada sequência de beijinhos... no canto do lábio, no pescoço, no sobrolho... depois, é Nino quem repete os beijos subtis. Não há palavras para descrever um clímax desta sensibilidade... Não há muitos filmes românticos assim, estou certo.

Amélie a soudain le sentiment étrange d'être en harmonie totale avec elle-même. Tout est parfait en cet instant: la douceur de la lumière, ce petit parfum dans l'air, la rumeur tranquille de la ville. Elle inspire profondément et la vie lui parait alors si simple et si limpide, qu'un élan d'amour, comme un désir d'aider l'humanité entière, la submerge tout à coup.

Zooms, chariots, os mais variados split screens, fast motion, e toda uma variedade de técnicas numa câmera em movimento constante. A exímia montagem de Hervé Schneid junta-se à criatividade sem limites de Jeunet, na marcação de um ritmo imparável e imprevisível. A mise-en-scène, tratada ao pormenor, alia-se magistralmente ao jogo de cores e de luzes da belíssima fotografia de Bruno Delbonnel. Excepcional, toda a concepção artística dos cenários e da decoração (Aline Bonetto, Volker Shäfer, Marie-Laure Valla). Não admira, pois, que assistir a O Fabuloso Destino de Amélie se torne uma experiência tão arrebatadora. Amélie é um sublime pedaço de arte e um milagre de filme! C'est tout.

quarta-feira, 9 de março de 2011

MARY POPPINS (1964)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Mary Poppins
Realização: Robert Stevenson

Principais Actores: Julie Andrews, Dick Van Dyke, David Tomlinson, Glynis Johns, Hermione Baddeley, Karen Dotrice, Matthew Garber, Elsa Lanchester, Ed Wynn, Reta Shaw, Jane Darwell
Crítica:

AS MARAVILHAS
DE MARY POPPINS


Never judge things by their appearance...
...even carpetbags.

Um pedaço de cinema extremamente criativo, colorido e divertido, capaz de seduzir e encantar completamente o verdadeiro amante de musicais ou qualquer cinéfilo mais passional. Mary Poppins é delicioso como uma fatia de bolo, afinal. Contudo, é ousado e arrojado o suficiente, esteticamente falando, para conquistar o sentido crítico de qualquer espectador mais exigente.

Na verdade, a fantasia permite a um filme como Mary Poppins toda uma liberdade criativa sem limites. A mágica combinação entre a real motion e a animação atinge e concretiza quase na perfeição essa visão outrora impossível. No fim de contas, entrar para dentro de um quadro e passear pelo parque desenhado, como que entrando num encantado mundo dos clássicos animados da Disney seria, outrora, qualquer coisa de inimaginável.

Assim que a ama Mary Poppins (Julie Andrews - bela, radiosa e brilhante) desce das nuvens de Londres e entra pela mansão dos Banks adentro, o dia-a-dia dos travessos Jane e Michael vira um corrupio de surpresas. Até que o canhão do vizinho almirante ressoe novamente, anunciando novos ventos, as mais mirabolantes peripécias não terão fim. Desde cantar com o cordeiro, com o cavalo, com a vaca, com o porco e com os patinhos da quinta a passar pela Árvore do Chás, onde pinguins-garçons fazem sapateado... Desde entrar num carrossel e saltar montado nos corcéis pelo prado fora, até integrar uma corrida no hipódromo... O que os artistas por de trás do filme conseguiram foi uma interacção harmoniosa e quase perfeita entre estas duas formas de fazer cinema. O efeito é maravilhoso, é supercalifragilisticexpialidocious! Depois, a contagiante risota sob o tecto do tio Albert, as extraordinárias coreografias sobre os telhados, entre os limpa-chaminés... O filme está recheado de cenas marcantes e inesquecíveis, assim como de canções lindíssimas, que o tempo eternizou: The Life I Lead, The Perfect Nanny, A Spoonful of Sugar ou a já referida Supercalifragilisticexpialidocious, entre tantas outras. O guarda-roupa e a caracterização são igualmente dignos de nota. Por sua vez, a direcção artística (Carroll Clark, William H. Tuntke, Hal Gausman, Emile Kuri) é de um arrojo irretocável, assim como a fabulosa fotografia de Edward Colman, que aliada aos efeitos especiais faz desta obra um autêntico prodígio visual.

Hino maior à prática da bondade e da diversão, eis pois um clássico absoluto e intemporal. Magistralmente bem feito e adorável sob todos os pontos de vista. Será certamente especial para as crianças, mas completamente irresistível para os adultos. Tenho dito.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O DESPERTAR DA MENTE (2004)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Eternal Sunshine of the Spotless Mind
Realização: Michel Gondry

Principais Actores: Jim Carrey, Kate Winslet, Gerry Robert Byrne, Elijah Wood, Thomas Jay Ryan, Mark Ruffalo, Jane Adams, David Cross, Kirsten Dunst, Tom Wilkinson

Crítica:

Oh my darling, oh my darling,
Oh my darling, Clementine...

A FORÇA DO AMOR

Thou art lost and gone forever,
Dreadful sorry, Clementine.

Ele e ela são um autêntico par de inadaptados. Sentem-se atraídos, apesar das suas personalidades disfuncionais e aparentemente incompatíveis. Ele é um sentimentalista tímido e introvertido. Ela é, segundo a própria, a vindictive little bitch, uma temperamental e inconstante personagem, que quer viver tudo ao máximo. Ele é Joel Barish. Ela é Clementine Kruczynski.
Ele é Jim Carrey, ela é Kate Winslet: as performances são incríveis, inteiras, completamente inesquecíveis. Conheceram-se ambos num friorento e invernoso dia de praia, quebrando as suas solidões e apaixonando-se. Mas Clementine tem um feitio difícil, que varia consoante a sua excêntrica cor de cabelo. Rapidamente se cansa do carácter algo tranquilo e reservado de Joel e, secretamente, decide apagá-lo da memória, numa inovadora clínica da cidade, denominada - tão apropriadamente - Lacuna. Quando Joel se confronta com o facto, a dor e a revolta são tamanhas que se dirige à mesma clínica, decidido a eliminá-la também dos seus arquivos pessoais. Quis o destino, no entanto, que se voltassem a encontrar um dia. Montauk, ouve Joel no inconsciente. E reencontram-se. As afinidades são imediatas e envolvem-se novamente, como se fosse a primeira vez, sem nada saberem dos seus passados.

A forma como o genial Charlie Kaufman constrói e organiza o argumento é decisiva para o impacto que toda a história tem em nós, espectadores. O Despertar da Mente começa pelo fim. Joel acorda e dirige-se a Montauk. Encontra uma estranha:
Clementine Kruczynski, de nome. Quase ao minuto dezassete, a acção é interrompida e iniciam-se, para nossa surpresa, os créditos, com caracteres que se desfazem, quais memórias, ao som de Everybody's Got To Learn Sometimes. Que início magnífico. Quando a acção é retomada, voltamos atrás no tempo. Ser-nos-á contada a história que antecedeu a irreversível decisão de Joel e todo o processo de apagamento, tanto no exterior (insolitamente festivo) como no fantasioso interior da sua mente.

Memória a memória, a câmera trémula e delicada de Michel Gondry brilha em toda a sua virtuosidade. Confundem-se os espaços, as linhas temporais, a lógica. Distorce-se o som, dessincroniza-se, aliás, a relação entre o som e a imagem, acentua-se o jogo de perspectivas, e a filmagem cede, tantas vezes, à desfocagem do segundo plano, habilitada por um
meticuloso trabalho de iluminação (Ellen Kuras). Desintegra-se o real, caem carros, desaparecem elementos cenográficos por meio de subtis ou engenhosos efeitos especiais. O delírio criativo é total e verdadeiramente extraordinário, assim como a montagem de Valdís Óskarsdóttir, assim como a banda sonora de Jon Brion, colaborador habitual de P. T. Anderson (Embriagado de Amor, Magnolia) e assim como todas as canções que a completam.

Muitas são as cenas de uma concepção deslumbrante e imaculada, verdadeiramente memoráveis: Joel e Clementine no gelo, a contemplar constelações no frio, o banho no lava-loiça, uma cama na praia nevada, o nostálgico retorno à infância - nostálgico, aliás, como todo o filme. Não deixa de ser curioso, quiçá irónico, que uma comédia toda ela sobre o apagamento de memórias emane tamanho sentimento de nostalgia.

O Despertar da Mente alia perfeita e magistralmente a comédia e o drama. O final do processo de apagamento é, quanto a mim, profundamente trágico. Dá-se de trás para a frente, desde as memórias mais recentes às mais antigas... Porém, a certa altura, Joel apercebe-se do erro tremendo que é eliminar Clementine da sua memória. Joel ama-a. É por isso que empreende uma luta interior incomensurável para tentar inverter o processo: Joel e Clementine dão as mãos e tentam escapar por entre as recordações, eclipsando o sistema por várias vezes. Todavia, o processo é implacável e irreversível. Estão na casa da praia onde se conheceram e, perante o último adeus, a cruel despedida. O mar avança. Desfaz-se a casa em ruínas, poeticamente:


Clementine: Come back and make up a good-bye, at least. Let's pretend we had one... Bye Joel.
Joel: I love you...
Clementine: Meet me... in Montauk...

Há como que uma certa lucidez na profundidade do inconsciente, como se o amor e os sentimentos autênticos falassem mais alto. Será o método, afinal, falível? Ao longo do filme apercebemo-nos de que sim. Afinal, Mary (Kirsten Dunst) está apaixonada pelo Dr. Howard Mierzwiak (Tom Wilkinson) e já se havia submetido antes à criteriosa eliminação das lembranças.

Quando o puzzle se compõe na nossa cabeça, apercebemo-nos da tremenda e inevitável força do amor: Joel e Clementine voltaram a envolver-se. Estava escrito? Quem sabe.

De uma inteligência e sensibilidade extremas, O Despertar da Mente é, certamente, uma das melhores e mais originais comédias românticas de sempre, que jamais quererei apagar da memória. Um filme único!


Joel: What a loss to spend that much time with someone,
only to fixind out that she's a stranger.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

MINNIE AND MOSKOWITZ - TEMPO DE AMAR (1971)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Minne and Moskowitz
Realização: John Cassavetes
Principais Actores: Gena Rowlands, Seymour Cassel, Val Avery, Timothy Carey, Katherine Cassavetes, Elizabeth Deering, Elsie Ames, Lady Rowlands, Holly Near, Judith Roberts, Jack Danskin, Eleanor Zee, Santos Morales, Kathleen O'Malley, Jimmy Joyce, Chuck Wells, Sean Joyce, David Rowlands

Crítica:

O AMOR ACONTECE

They're just crazy.

Tentem imaginar o casal mais improvável. Já está? Conseguiram? Pois bem... Minnie Moore e Seymour Moskowitz formam-no, sem tirar nem pôr, nesta brilhante e melodramática comédia de John Cassavetes. Ela é loira, bem arranjada e sabe estar, trabalha num museu, mas mais parece uma estrela de Hollywood, com os seus óculos-de-sol da moda. Gena Rowlands é soberba, à frente do papel principal. Já ele é loiro, mas loiro até ao meio das costas, tem um bigode descomunal e é bruto que nem um boi. Tem como profissão arrumar carros e figurará, certamente, entre os hippies mais intempestivos do cinema americano. Seymour Cassel concebe uma personagem tão convincente quanto hilariante. Ela é amante de um homem casado, ele lá vai tendo as suas relações fortuitas... os anos passam, as suas relações não vingam e e vêem-se como que irremediavelmente frustrados, cada um à sua maneira.

Num dos melhores diálogos do filme - e o argumento de Cassavetes é, todo ele, um grande exercício de escrita -, Minnie e Florence (uma amiga mais velha, interpretada por Elsie Ames) dissertam sobre o amor e a solidão. Tudo isto depois da sessão de Casablanca e acompanhadas de um bom vinho:

Minnie: Florence, are you still romantic?
Florence: I sure am!
Minnie: I mean, I never know when someone reaches your age whether they still have a real need to be loved.
Florence: I sure do!
Minnie: Do you still... do it?
Florence: Yes!
Minnie: Yeah? I... I'm sorry, it's a terrible question, but I really did want to know. Does it diminish, Florence? Does it go away?
Florence: Sometimes... and I get very frustrated... and (drinks some more) I don't know whether it's the sex thing or whether it is being alone that makes me so frustrated! After a while I just don't know.
Minnie: You know with me, it just seems like I get more so... I get more aroused, more willing to give of myself. You know the world is just full of silly asses that just want you body... I mean not just your body... your soul, your heart your mind, everything, they can't live until they get it. And then they get it... and they don't really want it.

No final da cena, Minnie culpa os filmes:

You know in movie's its never like that. You know I think movies are a conspiracy?! (...) They set you up from the time you are a little kid! (...) They set you up to believe in... ideals and strength and good guys and romance and... and of course... love. Love, Florence (...) So, you believe it, right? (...) There's no Charles Boyer in my life (...) I never even met a Charles Boyer. I never met Clark Gable. I never met Humphrey Bogart. I’ve never met any of them. You know who I mean. I mean, they don’t exist, Florence. That’s the truth. But movies, they set you up...

Também Moskowitz vai ao cinema e também ele é fã de Bogart. No filme, eles nunca se apercebem desse gosto em comum, mas o espectador sabe dessa coincidência. Talvez por isso torça pelos dois, ainda que contrariando o bom senso das coisas. Mas que razão poderia, afinal, contrariar o bom senso, senão a razão do coração? Minnie and Moskowitz acaba por fazer o elogio do amor - o amor contraria qualquer lógica.

Um dia, cruzam-se. Tanto ele como ela são uns românticos inveterados. Só que ela vive o romance como nos filmes, transportando-o para a vida do dia-a-dia. Ele sonha com a sua musa, mas esquece-se de olhar ao espelho e de perceber que não condiz com o perfil de galã. Quando se esforça para sê-lo, sai-lhe qualquer coisa como: I think about you so much, I forget to go to the bathroom! É claro que com tamanhos versos não conquista a sua princesa e não há romantismo que resista. De imprevisível a sórdido, não se esgotam os adjectivos para caracterizar o seu início de relação. Quando as mães de ambos - as comadres - se conhecem num primeiro jantar, precisamente a quatro dias do primeiro encontro e no final do filme, a mãe de Moskowitz não podia ser mais directa, para espanto ou choque de todos:

An Albert Einstein he's not (...) Pretty he's not. Look at that face. A future he doesn't have; he parks cars for a living.

A cidade é o pano de fundo - as luzes, o trânsito, os restaurantes, etc. - mas invade o espaço íntimo, nomeadamente pelo som. Cassavetes filma magistralmente, centrando a acção e a câmera, na maior parte das vezes, não no protagonista da cena ou do diálogo, que profere as linhas, mas na face do outro. Os movimentos são simples, tantas vezes subtis, mas sempre fundamentais para a estética de Cassavetes: mostrar o visível pelo invisível.

Enfim, Minnie and Moskowitz não é senão um modelo de comédia humana por excelência - não vive de piadas, a piada está na autenticidade com que os actores soltam as emoções. Grande filme.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

VEJO TUDO NU (1969)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Vedo Nudo
Realização: Dino Risi
Principais Actores: Nino Manfredi, Sylva Koscina, Véronique Vendell, Umberto D'Orsi, Daniela Giordano, Nerina Montagnani, Bruno Boschetti, Marcello Prando, Guido Spadea, Enrico Maria Salerno, Luca Sportelli, Jimmy il Fenomeno

Crítica: [Brevemente]

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

ALL THAT JAZZ - O ESPECTÁCULO VAI COMEÇAR (1979)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: All That Jazz
Realização
: Bob Fosse

Principais Actores: Roy Scheider, Jessica Lange, Leland Palmer, Ann Reinking, Cliff Gorman, Ben Vereen, Erzsebet Foldi, Michael Tolan, Max Wright, William LeMassena, Irene Kane, Deborah Geffner, Kathryn Doby, Anthony Holland, Robert Hitt, David Margulies, Sue Paul, Keith Gordon, Frankie Man, Alan Heim, John Lithgow

Crítica:

O ÚLTIMO ENSAIO
It's show time, folks!

Antes da morte, o adeus. O adeus sob a forma de vida. All That Jazz - O Espectáculo Vai Começar não é senão o 8 1/2 de Bob Fosse. Entre a comédia e a tragédia, flui a audácia e a extravagância, a complexidade na leitura e a concretização de uma narrativa nada convencional. As sequências musicais intensificam-se, entre o cinema e o teatro, entre o palco e o hospital, entre o sonho e a realidade e a auto-consciência ficcional da obra. A extraordinária montagem de Alan Heim coreografa e determina as próprias cadências do filme, conferindo-lhe um ritmo contagiante. As repetições, nomeadamente, marcam as transições entre os actos, ao som do Concerto em Sol Maior de Vivaldi. E Lange, como lightspot da beleza feminina, está para Fosse como Cardinale para Fellini. Joe Gideon, por sua vez, surge-nos como o Guido do show business americano.

Gideon (Roy Scheider, numa performance brilhante) é um homem de vícios e de paixões fortes: as mulheres, as anfetaminas, os cigarros e o trabalho. A música e a dança - o suor, os corpos e o movimento -, o delírio da entrega. Os excessos de uma vivência levada ao limite. Genial na profissão, obcecado por sexo e tão instável no percurso pessoal, Joe Gideon, o perfeito alter-ego do próprio Bob Fosse, que aqui assina a realização e as coreografias, e que com o argumento, claro está, desenvolve uma inspirada e ousada semi-autobiografia. Take Off With Us (Air-otica, que erotismo!) e Bye Bye, Life apresentam-se como as sequências mais retumbantes e memoráveis do filme, assim como as alucinações durante a cirurgia do protagonista: After You've Gone, There'll Be Some Changes Made, Who's Sorry Now e Some of these Days. A esmerada direcção artística (Philip Rosenberg, Gary J. Brink e Edward Stewart), aliada à criteriosa iluminação, formulam um requinte visual que ressoa eficazmente no trabalho fotográfico de Giuseppe Rotunno.

No final, não o circo como no clássico italiano de 1963... mas o mais estrondoso espectáculo de que há memória. A despedida, o adeus para sempre...

Eis, pois, efeverscente e refrescante, um inimitável pedaço de cinema. Espectacularmente bem filmado.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

SACANAS SEM LEI (2009)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Inglourious Basterds
Realização
: Quentin Tarantino

Principais Actores: Brad Pitt, Christoph Waltz, Eli Roth, Michael Fassbender, Diane Kruger, Daniel Brühl, Til Schweiger, Mélanie Laurent

Crítica:

A OBRA-PRIMA

I think this might just be my masterpiece.

Tentem imaginar uma mente genial e excêntrica que, no auge da sua arte de reinvenção, arrisca uma mistura explosiva. Pois bem, é assim que nasce Sacanas Sem Lei. E a criativa origem não poderia ter outro nome se não Quentin Tarantino... o seu cinema tem um cunho singular, tão irreverente quanto autêntico. E aqui, mais do que, num plano absolutamente ficcional, ousar reescrever a História (dando um final porventura merecido a uma das mais hediondas criaturas que habitou esta Europa), o seu cinema atinge a maturidade e concretiza a ambição da obra de arte completa, sendo que há uma perfeita coesão de estilos, registos e géneros que nunca se torna ridícula, apesar do non-sense.

A narrativa é estruturada em cinco capítulos. A efabulação é desde logo invocada pelo Once upon a time. Once upon a time in Nazi-occupied France onde judeus se escondem, quais ratazanas, aterrorizados pelo extermínio. A cena inicial é das melhores cenas de abertura de todos os tempos. Em termos artísticos é, simplesmente, qualquer coisa de... transcendente. E de absoluto detalhe. A paisagem impõe-se e lembra-nos a ambiência do western: no alto de uma colina campestre, mais um dia de esperança. Uma casa, várias árvores. O gado vagueia pelo verde pasto. Um agricultor corta a lenha a machado, uma mulher estende a roupa ao vento. Poderíamos estar no oeste americano. Porém, detrás dos brancos lençóis não se descobrem cavaleiros empoeirados, justiceiros ou malfeitores. Vislumbra-se um carro e duas motas. Soldados alemães. Nazis. Mortinhos pela desratização.

O primeiro capítulo marca o extraordinário grau de qualidade que se perpetuará por toda a obra: cenas longas, diálogos inteligentes, irónicos e mordazes, interpretações de luxo (o sádico e engenhoso Coronel Hans Landa, magistralmente interpretado por Christoph Waltz, é uma criação memorável!), uma mise-en-scène criteriosa e um trabalho de fotografia deslumbrante (Robert Richardson), assim como uma montagem em tudo brilhante, a marcar o compasso e o ritmo da obra. Tarantino serve-se tanto do texto como da sua inspirada e sublime arte de filmar para construir momentos de alta tensão e de verdadeiro terror psicológico, aqui e ali atenuados por eficazes e hilariantes comic reliefs. Recordo, por exemplo, quando no auge da sua assustadora retórica, Hans Landa retira do bolso um cachimbo de um tamanho descomunal - creio que é impossível não libertar uma gargalhada, nesse preciso instante, descomprimindo assim do intenso acumular do suspense que até ali imperava.

Brad Pitt é o tenente Aldo Raine, caricatura do americano e líder dos Sacanas. A missão da sua tropa? We're gonna be doin' one thing and one thing only... killin' Nazis. O escalpe dessas bestas alemãs é o seu objectivo primeiro. Ainda que dados ao discurso, à sátira e ao ludo linguístico - ou não fossem eles personagens tarantinescas (e Tarantino, por sua vez, um dos grandes artistas da palavra) -, os Sacanas servem a retaliação a sangue frio, numa violência brutal e explícita; mas nunca gratuita, sempre estilizada. Alguma da encenação que antecede a corporal punição sobre os nazis tem mesmo direito a Morricone, convocando os bons velhos tempos de Leone e d'O Bom, O Mau e O Vilão. Tarantino aliás, e como sempre, conflui estéticas e invoca as mais variadas referências na elaboração do pastiche. O próprio filme de 2ª Guerra Mundial, enquanto género, é aqui desconstruído, reinterpretado e reconstruído. O resultado é algo completamente novo, genuíno e único.

Poder-se-á dizer que o tema de Sacanas Sem Lei é a vingança. Num nível metadiegético, é claro que a efabulação tarantinesca representa a vingança da Arte sobre a História. Dentro da diegese, Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent, numa virtuosa performance) empreende um plano maquiavélico para acabar de uma vez com Hitler, Landa e os seus súbditos leais e assim vingar o raticídio que lhe dizimou a família e do qual escapou, por um triz. As cenas em Paris concentram um sem fim de mise en abymes de elevadíssimo potencial semântico. A começar pelo cinema que a judia terá herdado dos tios Mimieux. É no cinema que se desencadeia a vingança, estabelecendo um paralelo com os espectadores, que assistem ao filme: o ecrã em chamas é o ecrã dentro do ecrã. E a metragem Stolz der Nation é o filme (de 2ª Grande Guerra) dentro do filme (de 2ª Grande Guerra), ambos com Daniel Brühl como actor.

A imprevisibilidade da narrativa é uma das características mais notáveis do filme. Nunca sabemos bem o que pode acontecer. Ou melhor, o que vai acontecer. Porque sabemos que tudo pode acontecer. A cena do bar, em que uma conversa se arrasta por mais de vinte e tal minutos e depois, num ápice, se resolve numa chuva de tiros fatais é a prova disso. Há um momento, ainda antes disso, em que o ecrã se divide em dois e somos surpreendidos por um narrador desconhecido, que nos dá conta do quão inflamável pode ser uma película cinematográfica. Depois há metáforas incríveis e insólitas. Aquela massagem no pé só para rematar com looks like the shoe's on the other foot é qualquer coisa... Percebe-se, com tudo isto, que Sacanas Sem Lei é muito mais do que entretenimento sofisticado. É uma criação de amor, de puro amor à arte e a uma estética que dialoga consigo própria.

Um clássico instantâneo. A masterpiece, indeed.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

MOULIN ROUGE! (2001)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Moulin Rouge!
Realização: Baz Luhrmann

Principais Actores: Nicole Kidman, Ewan McGregor, John Leguizamo, Jim Broadbent, Richard Roxburgh, Garry McDonald, Jacek Koman, Matthew Whittet, Kerry Walker, Caroline O'Connor, Christine Anu, David Wenham, Kylie Minogue, Ozzy Osbourne, Deobia Oparei

Crítica:

AMOR EM VERMELHO

Come what may, I will love you until my dying day.

O burburinho da plateia. O maestro. As enormes e imponentes cortinas vermelhas, debruadas a ouro. O sinal, o primeiro som - o pano sobe.

Paris, 1900. Surge o postal ilustrado, a preto e branco ou criteriosamente tratado a cores, num esplendor absoluto (Donald McAlpine, num trabalho deslumbrante). Nele, uma cidade boémia, repleta de bêbedos e de prostitutas, de vagabundos e de libertinos, de pintores e de escritores e de... idealistas. The Children of Revolution. A bandeira: Liberdade, Beleza, Verdade e, sobre todas as coisas, o Amor. Love is a many splendored thing. Love lifts us up where we belong. All you need is love! O Amor... a avassaladora paixão que é capaz de enfrentar tudo e todos. Uma certeza - não é fácil fazer mais um filme sobre o Amor. Milhares de filmes trataram o sentimento, banalizando-o completamente. Moulin Rouge!, um filme sobre o Amor? Lamechas, acusá-lo-ão sempre, todos aqueles que não toleram a insaciável fonte dos românticos. Always this ridiculous obsession with love!, gritarão ferozmente, que nem o pai de Christian. A obra de Baz Luhrmann tem a resposta para todos eles: não importa que se conte mais uma história de Amor, ainda para mais bigger than life, como é o caso. O que importa é cantar o Amor e cantá-lo para sempre, uma e outra e outra vez. The greatest thing you'll ever learn is just to love and be loved in return. O Amor é o grande ideal, eternamente inspirador. And that's a fact.

Vamos à história. There was a boy, a very strange enchanted boy... Christian. Recém-chegado a Paris, não é senão um jovem inocente e cheio de sonhos. Sonha tornar-se um escritor conhecido e apaixonar-se, sonha viver a vida ao máximo. E o destino fá-lo encontrar o Amor, o maior Amor de todos.

Never knew I could feel like this.
Like I've never seen the sky before.
Want to vanish inside your kiss,
every day I'm loving you more and more.

Listen to my heart, can you hear it sing?
Come back to me - and forgive everything!
Seasons may change, winter to spring...
I love you... 'til the end of time.

Porém, quis o destino que o poeta se apaixonasse por uma cortesã, no centro da vida boémia de Paris, no mítico Moulin Rouge. Never fall in love with a woman who sells herself. It always ends bad. (...) We are creatures of the underworld. We can't afford to love. Quis o destino, o mesmo que o elevou da terra ao céu, que a sua história de amor sofresse um desfecho profundamente trágico; desfecho esse, aliás, que nos é desde logo revelado, dolorosamente dactilografado na máquina de escrever:

The Moulin Rouge. A night club, a dance hall and a bordello. Ruled over by Harold Zidler. A kingdom of night time pleasures. Where the rich and powerful came to play with the young and beautiful creatures of the underworld. The most beautiful of these was the one I loved. Satine. A courtesan. She sold her love to men. They called her the "Sparkling Diamond", and she was the star... of the Moulin rouge. The woman I loved is... dead.

A tuberculose, que ainda durante o século XX ceifava vidas como o diabo, a grande responsável pela morte de Satine.

Uma das mais notáveis qualidades de Moulin Rouge! creio ser a multiplicidade de registos que o argumento assume e a facilidade com que transita de uns para os outros, com uma intensidade rasgada em todos eles. Temos momentos de uma tragédia desoladora e, noutro extremo, instantes da mais hilariante comédia. Para assegurar o riso, uma panóplia de personagens secundárias absolutamente memorável: um anão tagarela com um nome que, escrito em altura, sem dúvida rivalizaria com a Torre Eiffel: Henri Marie Raymond Toulouse-Lautrec Montfa. Um argentino de voz grossa, tarado sexual nos tempos livres e narcoléptico a tempo - quase - inteiro e ainda mais uns tantos viciados em absinto que, numa ronda de álcool e cantoria, acabarão sempre por alucinar com a mais sexy das fadinhas verdes: Kylie Minogue, numa participação especial.

Depois das hélices do moinho, o anfitrião é Harold Zidler (Jim Broadbent, numa interpretação genuinamente sublime e brilhante). Dentro da sua afamada sala de negócio, como o próprio diria: we can cancan. Yes we can cancan! O pop irrompe pela multidão, o cenário arrojado (Catherine Martin, Annie Beauchamp, Ian Gracie e Brigitte Broch) acolhe um cast de bailarinos e figurantes completamente frenético e louco. O ritmo é mais do que acelerado, é vertiginoso, é estonteante. A prodigiosa montagem de Jill Bilcock marca o compasso, com uma cadência e execução perfeitas. Desfila o guarda-roupa (Catherine Martin e Angus Strathie), riquíssimo em detalhe. Saias de mil cores, folhos, roupa interior. Lábios, pernas, apalpões. Sensualidade, provocação. Audácia e delírio. As coreografias sucedem-se, as músicas também. Rewind. Revisitamos uma época, mas flui uma excitante sonoridade contemporânea. Lady Marmelade. Quando a música pára, um rasto cintilante se anuncia das alturas. Baz Lhurmann faz de Nicole Kidman uma autêntica diva. A estrela desce solenemente do firmamento, num baloiço iluminado com encanto:

The French are glad to die for love.
They delight in fighting duels.
But I prefer a man who lives...
and gives expensive... jewels.

(...) A kiss on the hand may be, quite continental,but diamonds are a girls best friend!
A kiss may be grand but it,

won't pay the rental on your humble flat,

or help you feed your mmhm pussycat!


Men grow cold as girls grow old,

and we all loose our charms in the end...

But square-cut or pear-shaped,

these rocks don't loose their shape;
Diamonds are a girl's best friend!

As piscadelas de olho às grandes referências do cinema musical são inúmeras. De Música no Coração, Serenata à Chuva e Mary Poppins a Os Homens Preferem as Loiras, A Roda da Fortuna, Gigi, Um Americano Em Paris ou até mesmo a Cabaret. Mas as alusões, mais ou menos directas, a outros clássicos não-musicais são também frequentes: recordo, com especial apreço, Le Voyage dans la Lune e Nosferatu, O Vampiro. A torre do Duque (Richard Roxburgh) - onde acontece uma das mais cómicas e burlescas sequências musicais da obra, ao som da inesperada versão de Like a Virgin, de Madonna - tem toda ela uma atmosfera gótica e draculeana; passe o neologismo. Para além de Madonna, muitos outros artistas do século XX viram os seus maiores sucessos incluídos entre as faixas desta sensacional banda sonora, entre eles Christina Aguilera, Lil' Kim, Mia, Pink, Beck, Fatboy Slim, Valeria, Nirvana, Elton John e o admirável David Bowie. A tocante composição original, essa, é da autoria de Craig Armstrong.

Com a tão-pouco-musical personagem de Roxburgh - quem viu o filme sabe perfeitamente a que me refiro - a história de Amor entre o poeta e a sua musa torna-se proibida e o triângulo amoroso ganha forma. O malvado ricaço afiançar-se-á às escrituras do bordel e de tudo fará para disfrutar da esplendorosa Satine. She is mine:

Why should the courtesan chose the penniless sitar player over the maharajah who is offering her a lifetime of security? That's real love. Once the sitar player has satisfied his lust he will leave her with nothing. I suggest that the courtesan chose the maharajah.

Sobre o imponente Elefante do Amor, duas das mais fascinantes e mágicas sequências do filme - a paixão entre Christian e Satine floresce nas alturas, entoando surpreendentes e inspirados medleys: All You Need Is Love, One More Night, Pride (In The Name Of Love), etc., que é como quem diz... The Beatles, Phil Collins e U2... Algures no entreacto, entre a costura, The Show Must Go On, verdadeiramente arrepiante e, mais perto do final, o poderosíssimo e extasiante Tango de Roxanne, com a fantástica e rouca voz de Jacek Koman. Magnífico. Enfim, tantas cenas emblemáticas e eternas num só filme...

Às tantas, Zidler profere: Outside things may be tragic, but in here we feel its magic. E esta poder ser, perfeitamente, uma das grandes máximas do musical - assistir a um tem efectivamente a ver com magia, com fantasia, com todo um universo alternativo onde o real e o inverosímil se cruzam e confluem, segundo a natureza e o cânone próprios do género. As leis do musical são conhecidas à partida. No musical, o que importa é a emoção e o profundo sentido de espectáculo, de entretenimento. Nesse sentido, pois, aquilo que Baz Luhrmann faz com Moulin Rouge! é não só genial e visionário como inteiramente revolucionário: a magnificent, opulent, tremendous, stupendous, gargantuan, bedazzlement, a sensual ravishment, como o próprio Zidler diria. Uma operática e alucinante apoteose de sensações, uma excêntrica e exuberante produção artística, um acontecimento histórico do mais elevado requinte, spectacular, spectacular. Uma irreverente, electrizante e arrebatadora experiência cinematográfica, capaz de redefinir o género, aproximando-o do grande público e das mais novas gerações que o menosprezavam. Uma obra-prima.

Days turned into weeks, weeks turned into months. And then, one not-so-very special day, I went to my typewriter, I sat down, and I wrote our story. A story about a time, a story about a place, a story about the people. But above all things, a story about love. A love that will live forever.

O pano cai. Ouve-se o aplauso. The End.

CINEROAD ©2020 de Roberto Simões