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domingo, 22 de agosto de 2010

DIÁRIOS DE CHE GUEVARA (2004)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Diarios de Motocicleta
Realização: Walter Salles

Principais Actores: Gael García Bernal, Rodrigo De La Serna, Mía Maestro, Mercedes Morán, Jorge Chiarella

Crítica:

A ESTRADA LATINA

Road-movie de
genuína e inspiradora natureza, de muito boa escrita e de desempenhos magníficos (tanto Gael García Bernal como Rodrigo De La Serna estão perfeitos nos seus papéis), Diários de Che Guevara é um biopic sereno e cheio de vida que convoca, com tão raras quanto inquietantes simplicidade e humildade, a nostalgia dos tempos idos de uma América Latina em permanente mutação (¿Cómo es posible que sienta nostalgia por un mundo que no conocí?).

Com uma belíssima fotografia de Eric Gautier e uma envolvente banda sonora de Gustavo Santaolalla,
a obra é dotada, ainda, de um cuidado trabalho de montagem e de opções estéticas louváveis, como, por exemplo, o recurso ao preto e branco para aprofundar o retrato antropológico e apelar à reflexão político-sociológica: ¿Cómo es posible que una civilización capaz de construir esto, sea arrasada para construir esto? À medida que o filme avança, todavia, os tons verdes das paisagens dão lugar a cores cada vez mais desoladoras: a viagem com a Norton 500, modelo 1939, ou La Poderosa, como é carinhosamente chamada, acaba por revelar-se uma aventura de crescimento pessoal e interior, um verdadeiro caminho espiritual de auto-conhecimento e de formação de crenças e convicções, fundamentadas na realidade e na experiência, que viriam a determinar a acção de um Che revolucionário.

Diários de Che Guevara é, pois, um grande filme. Irradia ideologia e... fascínio.

terça-feira, 25 de maio de 2010

AS PRAIAS DE AGNÈS (2008)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Les plages d'Agnès
Realização: Agnès Varda
Principais Actores: Agnès Varda

Comentário: Que filme brilhante. Autobiografia, documentário, diálogo aberto inter-artes. Uma pérola de criatividade e de grande confluência estética.

Um jogo de espelhos, com reflexos do passado. Uma viagem de memórias e uma narração absolutamente autêntica, com um extraordinário trabalho de montagem (Baptiste Filloux e Jean-Baptiste Morin).

Enfim, um projecto pessoal, especial e único. É ver para crer. Uma experiência absolutamente ímpar no panorama artístico cinematográfico.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O LADO SELVAGEM (2007)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Into the Wild
Realização: Sean Penn

Principais Actores: Emile Hirsch, Marcia Gay Harden, William Hurt, Jena Malone, Brian H. Dierker, Catherine Keener, Vince Vaughn, Kristen Stewart, Hal Holbrook, Jim Gallien, James O'Neill, Malinda McCollum, Paul Knauls, Zach Galifianakis


Crítica:

O HOMEM E A NATUREZA

No longer to be poisoned by civilization he flees, and walks alone upon the land to become lost in the wild.
Alexander Supertramp
Maio, 1992

Nenhum documento revela a nossa identidade. Cortem-se, pois, os cartões. O dinheiro alimenta, acima de tudo, o estatuto, a aparência, o lado superficial das coisas. Queimem-se as notas. Careers are a 20th century invention e a sociedade é uma relação de convenções. Anti-naturais, cada vez mais. Sociedade, sociedade, sociedade: pais, hipócritas, políticos, cretinos, arrogantes... Onde está a liberdade autêntica, a verdade da nossa existência? É por partir em busca dessa verdade que Christopher McCandless abandona toda uma vida em sociedade. No phone, no pool, no pets, no cigarettes. Assume-se um extremista. An aesthetic voyager whose home is the road.

Empreender uma aventura como a de Christopher McCandless, com tão elevado grau de consciência e de convicção, demonstra excepcional cultura e profundo idealismo. The climactic battle to kill the false being within and victoriously conclude the spiritual pilgrimage. Mas possuir um saber não é possuir, necessariamente, sabedoria. Sabedoria e ser extremista são opostos absolutos. E a viagem solitária rumo à vivência primitiva, nos confins do mundo e da natureza, ensinar-lhe-á isso muito bem...

Happiness only real when shared.
Christopher Johnson McCandless
Agosto, 1992

A beleza de O Lado Selvagem transcende as paisagens que a fotografia de Eric Gautier tão sublimemente capta. Ela envolve-se nas palavras, nos sons, nos silêncios... e, de novo, na extraordinária banda sonora, nas canções de Eddie Vedder... Ela comove-nos no brio das interpretações, plenas de sinceridade: Emile Hirsch está soberbo e inteiro. Marcia Gay Harden, William Hurt e Hal Holbrook estão igualmente magníficos. Ela deslumbra-nos num genuíno e fascinante pedaço de arte, com pura inspiração arquitectado e pela confluência estética abonado (note-se a cadência perfeita entre slow motion, ângulos meticulosos e ousados, alternância entre focar e desfocar, split screen ou múltiplas divisões do ecrã, filmagem de videocamera, frames longos e paragem de movimento). Adaptando o livro de Jon Krakauer, O Lado Selvagem revela-se também exímio no storytelling (dois níveis narrativos, que se alternam entre si: um primeiro dá-nos a conhecer as aventuras de Chris entre 1990 e 1992. Encontra-se estruturado em 5 capítulos, de acordo com as etapas de crescimento pessoal (My Own Birth, Adolescence, Manhood, Family e Getting Of Wisdom), é narrado por Carine McCandless e é continuamente interrompido com analepses. Um segundo nível, correspondente à fase que antecede a tragédia final e que conta o passar das semanas no Autocarro Mágico, é como que narrado pelo próprio peregrino; nele, são-nos lidas as últimas passagens do diário).

If we admit that human life can be ruled by reason,
then all possibility of life is destroyed.

Por tudo isto, O Lado Selvagem poderia ser um bom filme. Mas não o é: supera-se, irrepreensivelmente. Poderia, pois, ser um filme muito bom. O facto é que é tão verdadeiro que não consegue ser nada mais nada menos do que... um filme excelente. Nem enquanto criação artística o filme trai a sua natureza: cada vez que, surpreendentemente, o Chris de Emlie Hirsch olha directamente para a câmera... é ultrapassada qualquer regra narrativa imprescindível para a verossimilhança e o filme dá-nos verdade, assumindo-se como obra de arte, mimesis.

I'm going to paraphrase Thoreau here... rather than love, than money, than faith, than fame, than fairness... give me truth.

sábado, 24 de abril de 2010

24 HOUR PARTY PEOPLE (2002)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: 24 Hour Party People
Realização: Michael Winterbottom


Principais Actores: Steve Coogan, Paddy Considine, Keith Allen, Rob Brydon, Enzo Cilenti, Ron Cook, Lennie James, Andy Serkis, Kevin Baker

Crítica:

SEX, DRUGS & ROCK 'N' ROLL

And tonight something equally epoch-making is taking place. See? They're applauding the DJ. Not the music, not the musician, not the creator, but the medium. This is it. The birth of rave culture. The beatification of the beat. The dance age. This is the moment when even the white man starts dancing. Welcome to Manchester.

Quando Dédalo concebeu as asas de cera, bem que avisou o filho para que não se aproximasse demasiado do sol ou as asas derreteriam e a queda seria fatal. A cena de abertura de 24 Hour Party People joga, afinal, com esse mito: Is it a bird? Is it a plane? No... Tony Wilson traça a metáfora com o falhado vôo de asa-delta, rematando: You're going to see a lot more of that sort of thing in the picture. I don't want to say too much, don't want to spoil it. I'll just say one word: 'Icarus'. If you get it, great. If you don't, that's fine too. But you should probably read more. Os créditos avançam e assim começa uma vibrante e alucinada viagem à cena de Manchester, entre os finais dos anos 70 e os inícios dos anos 90, quando bandas como Sex Pistols, Joy Division, New Order ou Happy Mondays fizeram furor e ascenderam da garagem ao estrelado e à idolatria de milhares de fãs. Contudo, tal como as asas de Ícaro, a música é um universo bastante susceptível e volátil. Tão depressa se está no auge como no abismo. A filosofia do mendigo denota assaz sabedoria:

It's my belief that history is a wheel. 'Inconsistency is my very essence' - says the wheel - 'Rise up on my spokes if you like, but don't complain when you are cast back down into the depths. Good times pass away, but then so do the bad. Mutability is our tragedy, but it is also our hope. The worst of times, like the best, are always passing away'.

Tony Wilson (fantástico Steve Coogan) assume o protagonismo e a narração. E é enquanto narrador que se revela mais interessante, pois interrompe a acção para falar directamente ao espectador, para antecipar informação (He will go on tosleep with my wife (...) Later on he will try to kill me) ou para simplesmente mentir e efabular sobre os factos históricos que o filme se esmera por reconstituir: I agree with John Ford: when you have to choose between the truth and the legend, print the legend.

O argumento (Frank Cottrell Boyce) confere ao filme uma energia e vitalidade fundamental para fazer com que o espectador reviva as emoções do rock, sentidas à flor da pele naquela musical explosão de ruptura e provocação, sexo e drogas. O filme é baseado na aparente espontaneidade e liberdade de regras, tal e qual a música que nascia sob tão jovial pulsão. A música é, também ela, um agente essencial para a energia e vitalidade da obra. Afinal, 24 Hour Party People é um filme sobre música mas um filme que é, também ele próprio, música. E aos grupos acima anunciados juntam-se temas dos The Clash, dos The Buzzcocks e um remix do tema que dá nome ao filme, por Jon Carter, numa delirante banda sonora.

Para os fãs deste estilo de música, a virtuosa obra de Michael Winterbottom será um puro deleite, certamente. Para os fãs de cinema, fica um irreverente achado de irreverente confluência estética, que se constrói na fusão da comédia com o drama e do biopic com o documentário, num brainstroming musical ímpar. Excepcionalmente montado e dirigido, com momentos de surpreendente criatividade (a cena dos pombos, a título de exemplo), 24 Hour Party People impõe-se como um alien da pop culture, mas ostenta as qualidades necessárias para alimentar um merecido fenómeno de culto.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

HOMEM NA LUA (1999)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Man on the Moon
Realização: Milos Forman

Principais Actores: Jim Carrey, Danny DeVito, Courtney Love, Paul Giamatti

Crítica:

THE TRUEMAN SHOW

O argumento de Homem na Lua, escrito por Scott Alexander e Larry Karaszewski, e magistralmente levado à tela por Milos Forman e pelo talento explosivo de Jim Carrey, é, porventura, um dos mais arriscados que poderia imaginar e que esperava encontrar. Pensando para mim e comigo mesmo, indago-me se algum produtor aceitaria financiar um projecto tão frágil como este, caso não estivesse a ele aliado um nome tão prestigiado e consagrado como o de Forman. E não me refiro a sucesso comercial, porque se há coisa que Homem na Lua não foi, foi um sucesso retumbante. Refiro-me, evidentemente, à concretização plena de um filme brilhante, com uma dimensão trágica e dramática tão profunda e com Jim Carrey como actor principal. Fica a questão. Eu tenho as minhas dúvidas.

O que Milos Forman faz com o espectador é uma brincadeira muito ao género do próprio Andy Kaufman, o excêntrico e lunático comediante que em plenos anos 70 indignou a América com a sua forma muito peculiar de fazer piadas. Note-se a abertura da obra: Forman coloca-nos Kaufman à frente, a preto e branco e sobre um fundo negro, a manipular o seu próprio filme: a dizer que o filme já acabou (mesmo antes de ter começado) e a pôr os créditos finais a passar, ainda o lugar do espectador não aqueceu!

Hallo. I am Andy. Welcoom to my movie.
I hoped the story of my life would be nice...but it turned out terrible! It is all LIES! Tings are mixed up... real people I knew play different people. WHAT A MESS!
So I broke into Universal and cut out the junk. Now it's much shorter. In fact, this is the end of the movie. So tanks for comink!
Bye-bye!

Quando o episódio acaba, o ecrã fica totalmente a negro. Forman faz-nos esperar longos segundos. E só depois Kaufman reaparece, sorrateiramente e como que não quer a coisa, provocando os espectadores:

Okay! Just my friends are left. I wanted to get rid of those other people... they would have laughed in the wrong places.
I was only kidding about the movie... it's actually PRETTY GOOD! It shows everything... from me as a little boy until my death - Oops!! I wasn't supposed to talk about that! Oh. Eh, uh, we better just begin.

E eis que a diegese principal começa. Decididamente, Forman já marcou a sua posição: Homem na Lua não será um filme para todos, para o comum dos espectadores. De qualquer das formas, já os avisou. Se estão curiosos, pois que fiquem e desfrutem da história. O que se passa é que Andy Kaufman viveu a sua vida em constante representação. A sua verdadeira história não é senão uma ficção de si mesma. Por isso, tudo significa nada. E nada significa tudo. É uma história no fio da navalha de quem, ele próprio, viveu no fio da navalha. A sua vida foi um constante risco. E Andy servia-se do próprio risco para viver. Sonhava ser o maior artista de todos os tempos. E preparou o seu mito como cada uma das suas encenações. Note-se a cena do seu funeral... Ou a actuação de Tony Clifton, um ano após a sua morte... Para ele, a vida não era para ser levada a sério. Para ele, a vida era a maior comédia de todas.

Penso que não poderei ser mais justo ao dizer que Jim Carrey agarrou o papel com toda a sua força e talento, de corpo e alma. O papel de Andy Kaufman permitiu-lhe dar a conhecer um poderosíssimo concentrado de versatilidade e genialidade, do riso à lágrima. Provavelmente, o melhor papel da sua carreira. Absolutamente extraordinário, de pura e contínua transfiguração, inesquecivelmente ímpar. Danny DeVito (que conheceu o verdadeiro (?) Kaufman e assegurou a produção do filme) e Paul Giamatti são os destaques mais proeminentes do elenco secundário.

Com competentes montagem e direcção artística e filmado com a classe habitual do realizador de clássicos como Voando Sobre Um Ninho de Cucos ou Amadeus, Homem na Lua é um filme inteiramente excepcional. É um daqueles raros filmes que, na nossa memória e após o termos visto vezes sem conta, reclamará sempre uma nova visualização, que nunca decepcionará.

domingo, 31 de janeiro de 2010

CONTROL (2007)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Control
Realização
: Anton Corbijn

Principais Actores: Sam Riley, Samantha Morton, Joe Anderson, James Anthony Pearson, Harry Treadaway, Alexandra Maria Lara, Craig Parkinson

Crítica:

Is it everything worthless in the end?

Em Control, o biopic de estrelas de rock encontra a dimensão humana e poética, talvez um pouco como em Last Days - Últimos Dias, de Gus van Sant, mas aqui com a sublimação do fotograma e com uma abordagem melodramática. Sem controlo da existência, da sua própria existência, o jovem Ian Curtis vê a luta entre o coração e a consciência, cada vez mais intensa e sufocante, levá-lo longe demais. E o inspirado filme de Anton Corbijn, ele próprio fotógrafo dos Joy Division (e que assina aqui a sua primeira longa metragem), dá-nos conta desse assustador marasmo - mais do que dramático, profundamente desencantado e melancólico. Love will tear us apart, já dizia a canção... e tinha razão.

Perdido entre a mulher, a amante e o desmoronar da sua vida pessoal, Ian encontra em si, afinal, o eco das palavras de Eliot, lidas por Marlon Brando em Apocalypse Now. Sam Riley interpreta o papel do mítico vocalista dos Joy Division, de tão conturbada passagem entre nós, com assaz competência e verossimilhança. A nível do elenco há ainda por destacar, inevitavelmente, Samantha Morton e Alexandra Maria Lara. Revelam-se, ambas, excelentes escolhas de casting. Tecnicamente, o trabalho de mise-en-scène é notável e contribui decisivamente para o prodígio e assombro da fotografia de Martin Ruhe. Afinal, não há frame que não capte todo o esplendor e beleza de tão magnífica e artística recriação a preto e branco. A realização, não sendo nunca extraordinária, jamais compromete a qualidade ambicionada e claramente alcançada pela obra. Aliás, não tem defeito que se lhe aponte.

Control constitui, por si só, um brilhante exemplo de como fugir à convencionalidade de um biopic... e fazer arte em movimento. E é esse o mérito maior de Anton Corbijn, independentemente de agradar ou não aos fãs da banda. Is it everything worthless in the end? Os próprios fãs, um pouco por todo o mundo e melhor do que ninguém, saberão por certo a resposta.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O ÚLTIMO IMPERADOR (1987)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: The Last Emperor
Realização: Bernardo Bertolucci


Principais Actores: John Lone, Joan Chen, Peter O`Toole, Ying Ruocheng, Victor Wong, Dennis Dun, Ryuichi Sakamoto
 
Crítica:

O CREPÚSCULO DE UMA ERA

Profundamente belo, sedutor e tocante, O Último Imperador é um feito raro: ao mesmo tempo que invoca e honra, com absoluto detalhe, uma herança cultural milenar e tão singular, assume-se visceral na representação superior da elegância artística, numa monumental, genuína e inesquecível obra-prima.

De entre as suas configurações épicas, deveras impressionantes, emerge todo um cunho intimista que só o genial talento de um cineasta como Bertolucci poderia retratar, com tamanha perfeição... e com tão virtuosa erudição. As implicações e contradições de uma China em profunda evolução espelham-se na personalidade de um só homem: Pu Yi, o derradeiro herdeiro do Trono do Dragão. Apenas as grandes muralhas da Cidade Proibida, a par com as mentiras dos eunucos que o rodeiam, marcam a fronteira entre um passado de tradição e um presente de revolução.

Às tantas, o jovem manchu diz:

This isn't a school; it's a prison. A real prison.

Ou mesmo...


Forbidden City had become a theatre without an audience.

E toda essa fracção cultural acaba por pesar, tão verdadeira quanto iconicamente, na sua figura: o imperador, por imposição, torna-se um homem comum, por condenação. A aceitação de tamanho facto revelar-se-á o processo de uma vida inteira.

The Emperor has been a prisoner in his own palace since the day that he was crowned, and has remained a prisoner since he abdicated. But now he's growing up, he may wonder why he's the only person in China who may not walk out of his own front door. I think the Emperor is the loneliest boy on Earth.

Magnificamente fotografado por Vittorio Storaro e assombrosamente orquestrado por Ryuichi Sakmoto, David Byrne e Cong Su, a obra mostra-se tecnicamente irrepreensível na direcção artística e no irretocável guarda-roupa. A arte da mise-en-scène é, saliente-se, poderosamente simbólica. Dotado, ainda, de um argumento extraordinariamente bem escrito (com uma carga sócio-política muito forte) e de sólidas prestações (John Lone, Peter O'Toole), eis, deslumbrante, um daqueles triunfos magistrais da História do Cinema que a seu tempo se consagrará, incontornavelmente, como um dos melhores filmes de sempre.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O AVIADOR (2004)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★ 
Título Original: The Aviator
Realização: Martin Scorsese
Principais Actores: Leonardo DiCaprio, Cate Blanchett, Kate Beckinsale, John C. Reilly, Alec Baldwin, Alan Alda, Ian Holm, Danny Huston, Jude Law, Gwen Stefani, Adam Scott, Matt Ross, Kelli Garner, Frances Conroy, Willem Dafoe, Edward Herrmann, Vincent Laresca, Kevin O'Rourke, Stanley DeSantis

Crítica:

  O MAGNATA DOS CÉUS 

 Sometimes, I truly fear that I am losing my mind.
And if I did it... it would be like flying blind.

Sabido é o meu ponto de vista sobre o cinema: o artístico. Poucos filmes me seduzem tão pouco, por isso, quanto os biográficos: geralmente, quase nada acrescentam à recriação informativa que um documentário facilmente executaria - digo isto sem querer menosprezar o género não-ficcional, que raramente tem pretensões artísticas -, representando um desafio mais ou menos exigente para os actores (na sua imitação das personagens históricas) e pouco mais. Não obstante, quando a incursão cinematográfica se revela um apaixonado e apaixonante exercício de cinefilia e o biopic uma imperiosa obra de arte, creio que a aposta é legitimada, absolutamente meritória, necessária e bem-vinda. O Aviador é um exemplo maior de como fazer de um biopic um objecto derradeiramente artístico e, por isso, totalmente fascinante. Não admira: o homem por detrás da câmera, Martin Scorsese, é um artista, um visionário e um mestre da sua arte - e isso faz toda a diferença.

Na verdade, uma personalidade tão rica, multi-facetada e magnetizante quanto a de Howard Hughes - nas mãos certas -, só poderia resultar numa abordagem tão estimulante e interessante. Como diria a Katherine Hepburn de Cate Blanchett: there's too much Howard Hughes in Howard Hughes; senão vejamos: órfão e herdeiro multi-milionário, ambicioso produtor e realizador de cinema, aviador e pioneiro da aviação, inventor exigente e engenheiro sem diploma, empresário capitalista e revolucionário das viagens aéreas comerciais e transcontinentais, um excêntrico playboy. Um homem à frente do seu tempo, disposto a apostar a sua palavra e a sua fortuna na concretização dos seus grandes sonhos, contra todas as probabilidades, contra todos os detractores, desafiando - sempre - o impossível. Citando o trailer: for some the sky is the limit, for him it was just the beginning. Mas se do pai herdou os milhões, da mãe herdou a misofobia, que se viria a agravar num distúrbio incapacitante e numa doença capaz de o afastar e isolar, de uma vez por todas, da razão, da realidade e do mundo. Apesar de rodeado por milhares de trabalhadores, não foi senão um solitário nervoso, maníaco, obsessivo-compulsivo e ligeiramente surdo, repleto de particularidades. Como tão bem preconiza Hepburn, a dada cena de casa de banho: we're not like everyone else. Too many acute angles. Too many eccentricities. We have to be very careful not to let people in or they'll make us into freaks. 

A MÃE,  OS GERMES E O PASSADO

No prólogo, as luzes acendem-se, gradualmente. Howard ainda criança, desnudo na banheira, é cuidadosamente lavado pela mãe. O momento, em que os medos e as inseguranças - não os germes - são transmitidos, ressoará em todo o filme. Serão inúmeras as cenas de casa de banho, onde Howard encontrará a intimidade, o seu reflexo e a doentia preocupação com a higiene. Na dita cena com Hepburn, a actriz lava-lhe o sangue e trata-lhe das feridas, após o despenhamento do H-1 Racer num campo de beterrabas. Mais adiante, à medida que as compulsões se vão intensificando, assistimos a dois momentos insólitos, nas luxuosas e verdes casas de banho do Pantages e do mítico Cocoanut Grove: na primeira, Hughes, petrificado pela fobia, recusa uma toalha a um aleijado, enquanto ensaboa os dedos, minuciosamente. Na segunda, esfrega as mãos com tal veemência que até ferida faz e sangra, salpicando a camisa. Quando vai a sair, já de mãos impecáveis, defronta-se com a maçaneta em que todos tocam - um obstáculo sério e inultrapassável, a não ser que aguarde por alguém que lhe abra a porta, entretanto, e o alivie da agonia. O filme fecha, depois, de forma circular e, mais uma vez, numa casa de banho: as luzes apagam-se, gradualmente. Ao espelho, Hughes consigo próprio e com os fantasmas do passado.

O Aviador é, por isto e sobre todas as coisas, um voo assombroso aos meandros mais obscuros da mente de Hughes, assolada pelo desnorte e pelo pavor. Como lhe diz a Ava Gardner de Kate Beckinsale, às tantas: nothing's clean, Howard. But we do our best, right? Não admira, portanto, que no clímax da doença e do filme, em que o homem se tranca na sala de projecção por tempo indeterminado, completamente nu e entregue ao mais puro e assustador desmazelo - deixando crescer o cabelo, a barba e as unhas e coleccionando urina numa fileira de garrafas de leite -, assista a pequenas filmagens do deserto, dizendo: that's just beautiful. Oh, yeah. I like the desert. It's hot there in the desert, but it's clean. It's clean.

As suas fragilidades justificarão, seguramente, a sua constante busca de afecto nas mulheres, com as quais pode partilhar a tão preciosa intimidade. Note-se, por exemplo, o caso de Hepburn: o desejo e o sentimento no cortejo permite que Hughes lhe empreste para as mãos o manche, ainda que por precaução revestido a celofane, depois lhe ofereça a beber leite da mesma garrafa de onde já bebeu e de onde tornará a beber e por fim a toque, a beije e com ela sexualmente se envolva. Hughes procura numa mulher, de certa forma, a imagem da mãe, uma pessoa limpa e higienizada e com a qual possa baixar a guarda da sua paranóia, para seu salutar descanso. Uma pessoa em quem possa confiar as suas particularidades e que possa, preferencialmente, controlar de perto... o que acabará por sufocar e condenar, inevitavelmente, qualquer uma das suas relações.

O CÉU, O DINHEIRO E A TENDÊNCIA DO FUTURO

Mas O Aviador é também uma viagem pelo lado luminoso da personagem. É no céu que Howard Hughes encontra a felicidade genuína. É o sonho - e a sede do amanhã - que sempre o evadem, libertam e revitalizam, tanto da solidão como da enfermidade. E claro, é o dinheiro (a perder de vista) que lhe permite concretizar os seus mais elevados devaneios. Ao mesmo tempo que sonha os céus, mostra-se provido de uma misteriosa força telúrica que o faz superar-se na adversidade e quebrar recordes. É assim quando se torna o homem mais rápido do mundo no brilhante e metálico H-1, de rebites embotados. Quando espera meses por cúmulo-nimbos, para filmar as sequências aéreas d'Os Anjos do Inferno (1930), até então o filme mais caro da História do Cinema. A sua megalomania leva a atrasos e adiamentos vários, a pilhas intermináveis de bobines, a milhões empatados... e quando o filme finalmente fica pronto, eclode o cinema sonoro e Hughes decide refazê-lo, agora com som. Saído do limbo para as luzes da ribalta, a obra torna-se um sucesso de bilheteira e é igualmente aclamada pela crítica. A sua ousadia cinematográfica levá-lo-á ainda a discutir seios e decotes com a censura da época, a propósito da estreia d'A Terra dos Homens Perdidos (1943). Dá a volta ao mundo em três dias, compra a TWA e desafia a hegemonia da Pan Am. Com o seu Constallation voa acima das nuvens, contornando o mau tempo, poupando combustível e permitindo viagens com maior segurança. Da administração dos Estados Unidos e durante a Segunda Guerra Mundial recebe cerca de 56 milhões de dólares para a construção de centenas de XF-11, aviões de espionagem, e para a construção do lendário Hércules, a plane, a boat, a flying city, o maior avião de todos os tempos, capaz de levar as tropas americanas em grande número e de uma só vez, a aterrar na Europa. Contudo, o seu perfeccionismo demora a conclusão da encomenda e a guerra acaba sem que os aviões sejam entregues, o que desencadeia a investigação do FBI e as demoradas audiências no Senado, com que culmina o terceiro acto do filme. Custa a crer que esta seja a vida de um só homem.

Qual Ícaro que, ao aproximar-se demasiado do sol, lhe ardiam as asas, também Howard Hughes não consegue atingir as alturas e o sucesso sem atrair a queda e o desastre. O seu punho de ferro e a sua resiliência, contudo, farão frente a tudo e todos e revelar-se-ão determinantes para o triunfo. A cada queda, cada vez mais mortal, a ressurreição, sempre procurando descolar voo e tornar às alturas, em nome da sua paixão:

I care very much about aviation. It has been the great joy of my life. That's why I put my own money into these planes. And I've lost millions (...) and I'll go on losing millions. It's just... what I do.

Daí o título do filme e as fases da sua vida se apresentarem sempre ligadas a um determinado modelo da aviação, daí Os Anjos do Inferno e outros dos seus filmes conciliarem a sua paixão do cinema com a dos aviões. Daí voar para além da duração recomendada, desencadeando aparatosos e perigosíssimos acidentes. Por capricho, mas também por irresponsável deleite infantil. O acidente no XF-11, sobre todos os outros, queima-lhe a pele, dilacera-lhe o corpo e abala-lhe a alma, irreversivelmente.

Ainda ao espelho e perante os fantasmas do passado - nomeadamente perante a criança que foi -, Hughes recorda a vez em que sonhou o futuro:

When I grow up, I'm gonna make the biggest movies, fly the fastest planes ever built and be the richest man in the world.

Eis, pois, O Aviador como a batalha pessoal e interior, intensa e avassaladora, do indivíduo com estes dois tempos - o passado e o futuro - e a forma como eles tão decisivamente se manifestam e se defrontam, impulsionando o motor do seu presente. Atendendo ao seu próprio presságio, é claro concluir como se sonhou e cumpriu. The way of the future, como o próprio repete compulsivamente nos instantes finais, assegura-lhe um lugar incontornável na História da aviação e uma vida, apesar de instável, plena de vitórias.

A audaciosa visão de Scorsese presta-lhe a mais rasgada homenagem e o mais portentoso elogio. Porém, nas suas mãos, mais do que uma biografia e um drama, mais do que um filme sobre uma doença e sobre o sucesso dos sonhos e negócios de Howard Hughes, O Aviador torna-se um filme sobre o próprio cinema e uma impressionante viagem no tempo à glamorosa Hollywood dos anos 20 e 30, sendo que a acção se prolonga até meados dos anos 40 do século XX. O magnífico trabalho de fotografia de Robert Richardson vive do estupendo controlo da iluminação, da manipulação cromática e dos enquadramentos meticulosos. A respeito das cores, cada década teve direito a uma paleta distinta: na primeira são privilegiados os castanhos, laranjas e azúis (até a relva ou as ervilhas ficam azuladas), conferindo um esplendor vintage aos exteriores d'Os Anjos do Inferno, ao Cocoanut Grove, ao campo de golfe ou à praia. Na segunda década, numa imagem muito mais natural, são introduzidos os amarelos e os verdes (quando Hepburn entra com Hughes pela herdade da família adentro, o contraste é claro). O resultado advém da colaboração com os efeitos digitais, cujos filtros a 2 ou 3 cores processaram e transformaram as filmagens iniciais, tornando O Aviador uma maravilha visual. Os cenários e decoração de Dante Ferretti e Francesca Lo Schiavo, respectivamente, são extraordinários na recriação histórica; não tenhamos dúvidas, são dos melhores profissionais do ramo no seio da indústria. A cada cena, a sonoplastia revela-se excepcional e na música, entre temas clássicos e da época, os temas de Howard Shore sobressaem. Sempre que se ouvem as castanholas e as sonantes, repetitivas e incisivas notas do tema principal, sabemos que brilha na tela a mente de Howard Hughes, criativa e tão sui generis na sua relação com o mundo. Alternando entre datáveis sonoridades radiofónicas e sonoridades mais modernas, vamos avançando de episódio em episódio, ao sabor da organização do argumentista John Logan. A vívida montagem de Thelma Schoonmaker ousa a sobreposição, o split screen e até a prolepse da imagem, enquanto o som ainda nos posiciona na acção presente. São usadas imagens de arquivo, entremeadas pela narração factual, como num documentário. Alguns melhores momentos do filme são de pura mise en abyme, em que o cinema olha para si próprio: Scorsese e Hughes filmam a sequência aérea, concretizando um inspirado bailado de asas. O estilo é assumidamente old fashioned. Visitamos os bastidores da Hollywood da época, as estreias dos filmes, os produtores dos grandes estúdios, as sessões de cinema e a invocação dos clássicos de Hughes, a censura, a sala de projecção, o desfile de estrelas... o faustoso guarda-roupa de Sandy Powell é, continuamente, de um requinte assinalável. A tremenda paixão de Scorsese pela sua arte transborda em cada um dos seus filmes. O Aviador é um dos exemplos mais assumidos. Mas a declaração de amor maior estaria ainda por vir, na deslumbrante e mágica obra-prima que é A Invenção de Hugo.

Dando corpo e alma à biografia, a excelência do elenco: um genial Leonardo Dicaprio (no melhor papel da sua carreira até então e num dos melhores até agora; de uma entrega absolutamente arrepiante e fora-de-série), uma camaleónica Cate Blanchett (completamente rendida ao sotaque e aos maneirismos de Hepburn) e um conjunto de secundários de notável talento: John C. Reilly, Alec Baldwin, Alan Alda, Ian Holm, Matt Ross, Kate Beckinsale, Danny Huston e as participações curtíssimas de Jude Law e Willem Dafoe.

Senão o melhor, seguramente um dos melhores filmes de 2004 e um dos meus preferidos de Scorsese. Grande pedaço de arte.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

MILK (2008)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Milk
Realização: Gus Van Sant
Principais Actores: Sean Penn, Emile Hirsch, Josh Brolin, Diego Luna, James Franco, Alison Pill, Victor Garber, Denis O`Hare

Crítica:

A VOZ DA IGUALDADE

Um triunfo sensível, delicado e de muito bom gosto. Gus Van Sant eleva com subtileza e inconfundível mestria este biopic de pura essência a um patamar inegavelmente superior. Milk revela-se, portanto, um autêntico e sublime pedaço de arte. O argumento de Dustin Lance Black - de uma sensibilidade dramatúrgica notável - confere-lhe uma força e uma comoção crescentes. Disseca, minuciosamente, o preconceito social em relação à homossexualidade e o cinismo púdico da classe política em São Francisco, anos 70. E satiriza, acima de tudo, a crueldade da ignorância. Pelo seu estilo próprio e tão bem sucedido, Milk ficará ainda recordado como um marco singular e salutar das relações entre o género ficcional e o género documentário.

Sean Penn, genial e num desempenho absolutamente transfigurador, está um assombro. Transcende-se a si mesmo... numa entrega total. Emile Hirsh está excelente e profundamente inspirado. Grandes prestações, também, do sentido James Franco, do propositadamente irritante Diego Luna e do tão sexualmente recalcado Josh Brolin. O mesmo nível de inspiração se alarga do casting à equipa por detrás das câmeras; saliente-se: o magnífico trabalho de montagem (Elliot Graham), o guarda-roupa (Danny Glicker) e a extraordinária banda sonora de Danny Elfman.

Um clássico instantâneo, esteticamente genuino, magistralmente bem feito.

sábado, 6 de junho de 2009

SHINE - SIMPLESMENTE GENIAL (1996)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Shine
Realização: Scott Hicks
Principais Actores: Geoffrey Rush, Armin Mueller-Stahl, John Gielgud, Noah Taylor, Lynn Redgrave

Crítica:

ENTRE O GÉNIO E A LOUCURA

You must play as if there's no tomorrow.

Foi extremamente prazeroso redescobrir uma obra como Shine - Simplesmente Genial, um biopic tocante, de uma subtileza admirável e deveras inspiradora. Imperam os excelentes desempenhos dos actores principais (Geoffrey Rush, Noah Taylor), mas também dos secundários (Armin Mueller-Stahl, John Gielgud ou Lynn Redgrave). Eis, num só filme, o poder da música, da mente... do pai... e as fragilidades e os mistérios da sobrevivência de um ser extremamente sensível e especial.

domingo, 11 de janeiro de 2009

A QUEDA - HITLER E O FIM DO TERCEIRO REICH (2004)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Der Untergang
Realização: Oliver Hirschbiegel
Principais Actores: Bruno Ganz, Alexandra Maria Lara, Corinna Harfouch, Ulrich Matthes, Juliane Köhler, Julia Jentsch

Crítica: Bruno Ganz tem aqui uma prestação fenomenal como Adolf Hitler. Brilhante. Dos melhores papéis jamais interpretados por um actor. O restante elenco está muito bem e a fotografia, os excelentes cenários e a qualidade inegável dos efeitos sonoros contribuem de forma decisiva para um filme cru e perfeito na recriação do ambiente de claustrofobia em torno do bunker do Führer e das tensões por entre as ruas de uma Berlim na iminência de cair. Em última análise, A Queda revela-se-nos como uma experiência verdadeiramente angustiante.

domingo, 7 de setembro de 2008

FRIDA (2002)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Frida
Realização: Julie Taymor

Principais Actores: Salma Hayek, Alfred Molina, Valeria Golino, Geoffrey Rush, Edward Norton, Ashley Judd, Mía Maestro, Antonio Banderas


Crítica:  

 FERIDA ABERTA

At the end of the day, 
we can endure much more than we think we can. 

Um filme de grande amor à arte. Esteticamente inconfundível, o genial trabalho de Julie Taymor vive das artes plásticas para construir, com sucesso, uma estética própria. A sua realização é de uma excelência absolutamente inspirada, convertendo o biopic numa autêntica e visionária obra de arte, uma experiência fresca e exótica. Salma Hayek tem aqui o papel da sua carreira e o resto do elenco está formidável. Destaques ainda para a arrebatadora fotografia de Rodrigo Prieto e para a exuberante banda sonora de Elliot Goldenthal, que, literalmente, dão vida à obra de Frida Kahlo. Sublime homenagem.

ELIZABETH - A IDADE DE OURO (2007)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
Título Original: Elizabeth - The Golden Age
Realização: Shekhar Kapur

Principais Actores: Cate Blanchett, Geoffrey Rush, Clive Owen, Abbie Cornish, Rhys Ifans, Samantha Morton, Jordi Mollà, Tom Hollander

Crítica: O filme tinha quase tudo para resultar. Mas o argumento é forçado e a realização não é brilhante. Cenas como as da batalha final surgem-nos despropositadas, pelo menos da forma como foram tratadas (a despachar e sem grandes consequências para a narrativa), ainda que belíssimas do ponto de vista visual e poético. Entendem-se, com esforço, as decisões dos argumentistas para focar o filme no íntimo da protagonista; decisões que, claramente, não resultaram. O guarda-roupa e o trabalho de fotografia são, no entanto, verdadeiramente portentosos. E Cate Blanchett está magnífica, uma vez mais. No final, e pelo menos nesta versão dos factos em cinema, o navio tomba e com ele, irremediavelmente, todos se afundam... ingleses, espanhóis... cineastas... Um lamentável desperdício.

ELIZABETH (1998)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Elizabeth
Realização: Shekar Kapur

Principais Actores: Cate Blanchett, Geoffrey Rush, Christopher Eccleston, Joseph Fiennes, Richard Attenborough, Fanny Ardant, Eric Cantona, Vincent Cassel, Kathy Burke, Edward Hardwicke, Emily Mortimer, John Gielgud

Comentário: Cate Blanchett, uma das melhores actrizes da actualidade, está um espanto. A caracterização e o guarda-roupa estão magníficos.

[Crítica em breve]

CINDERELLA MAN (2005)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Cinderella Man
Realização: Ron Howard

Principais Actores: Russell Crowe, Renée Zellweger, Connor Price, Paddy Considine, Paul Giamatti, Craig Bierko, Bruce McGill

Crítica: Tocante e emocionante. E de uma estética subtil e arrojada... falo tanto da realização de Ron Howard como da delicada e perspicaz montagem da dupla Daniel P. Hanley e Mike Hill. O filme resulta num crescendo a todos os níveis, para o qual a imprescindível banda sonora de Thomas Newman tem um papel determinante. Nas interpretações temos um Russell Crowe com uma construção de personagem notável, num underacting de se lhe tirar o chapéu. Faz a dupla perfeita com a brilhante e versátil Renée Zellweger. Paul Giamatti está igualmente formidável. Excelentes escolhas de casting. Cinderella Man é, por tudo isto, um filme que prova que não é preciso ser megalómano seja no que for para se conseguir um obra de alto nível e de muito bom gosto.

CINEROAD ©2020 de Roberto Simões