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domingo, 24 de novembro de 2013

A VIDA DE PI (2012)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Life of Pi
Realização: Ang Lee
Principais Actores: Suraj Sharma, Irrfan Khan, Ayush Tandon, Gautam Belur, Adil Hussain, Tabu, Ayan Khan, Mohd Abbas Khaleeli, Vibish Sivakumar, Rafe Spall, Gérard Depardieu, James Saito, Jun Naito, Andrea Di Stefano, Shravanthi Sainath, Elie Alouf

Crítica:

A ARCA DE PI

In the end, the whole of life becomes an act of letting go, 
but what always hurts the most is not taking a moment to say goodbye.

A Vida de Pi é, em si mesmo, um milagre, um acto de fé. Mesmo numa era em que os efeitos digitais se superam todos os dias, atingindo tantas vezes o impossível, a dúvida perdurava à tona, sem ceder... seria viável a adaptação do consagrado romance de Yann Martel à grande tela mágica? E depois de vislumbrar o filme... e de voltar a assisti-lo, ganhando maior consciência daquilo a que realmente assisti - do  tremendo trabalho, esforço e mérito por detrás de cada cena e de cada frame -, as dúvidas dissipam-se, tornando a conclusão tão clara e transparente como o reflexo dourado dos céus sobre a paz e a imensidão do oceano. A arrojada experiência visual e artística (tantos há que se deixam cegar, a priori, pela experiência ou pelo preconceito) confunde-se com a profunda viagem emocional, num filme absolutamente mágico e inspirador.

Doubt is useful, it keeps faith a living thing. 
After all, you cannot know the strength of your faith until it is tested. 

Parábola sobre o fim da inocência, sobre a religião e o seu significado na existência humana, a fluída narrativa demora-se no prazer de contar uma pequena grande história: a história do jovem Pi, que desde cedo descobre, questiona e abraça o hinduísmo, o cristianismo, o islamismo... como se ao conhecer cada face de Deus se completasse o mistério da vida. Thank you Vishnu, for introducing me to Christ, profere a dado momento. O pai, amante da ciência, para quem a religião é obscuridade, chega a gracejar-lhe: You only need to convert to three more religions, Piscine, and you'll spend your life on holiday. E acrescenta: If you believe in everything, you will end up not believing in anything at all.

Quando se vê forçado a abandonar, na companhia dos pais e do irmão, a exuberante Índia que sempre conheceu, o zoo da família onde cresceu ou a sua primeira paixão da adolescência pela procura de uma vida melhor, percebe que a sua vida nunca mais será a mesma. Ao atravessar a Fossa das Marianas, lugar mais profundo da Terra, uma tempestade tremenda assola o navio onde seguiam e a tragédia precipita-se para o naufrágio, irreversivelmente. Espera-o uma odisseia de sobrevivência: assustadoramente traumática, fustigante, extenuante. Um verdadeiro teste à sua coragem, à sua fé, à sua força.

Sabemos da história pela voz do Pi adulto (Irrfan Khan), que desde o início no-la relata em tom de mistério, testando também a nossa capacidade para acreditar no seu testemunho. Em pleno flashback, a tragédia dá progressivamente lugar à fábula, à fascinante contracena de
Suraj Sharma com uma zebra de perna partida, uma hiena faminta, uma oragotango maternal e claro... um tigre feroz, perigoso e por demais selvagem e persistente. Animals have souls... I have seen it in their eyes. Permitam-me o parênteses: fenomenal revelação, a do agora ator; trata-se de uma daquelas escolhas de casting que não só marcaram como transformaram o destino de um talentoso mas mero rapaz dos confins da Índia numa estrela eternamente global. Mérito do próprio e de toda uma equipa que o encontrou e preparou intensamente para os desígnios que o papel exigia; Ang Lee chegou a considerar-se, inclusivé, o seu guru. Suraj Sharma transfigura-se, física e emocionalmente, a um daqueles raros papéis de uma vida. A sua entrega é total e determinante para o sucesso deste arriscado projeto. 

Das provações do deserto - que é o mar aberto - ao delirante e desejado oásis da Ilha da Abundância, repleta de suricatas, da fome, frio e solidão à difícil e exigente relação com o tigre de Bengala, de nome Richard Parker - sobre todas, a mais prodigiosa criação da equipa de efeitos digitais, tão real na textura, na robustez, na captação de movimentos... até que ponto distinguimos o tigre autêntico deste artificial? -, da caça ao cardume de peixes alados à encantatória e colorida bioluminiscência das águas e seus microorganismos, ao gigante e imponente cetáceo que, explodindo das profundezas e brilhando ao luar, vem transcender o espetáculo de puro esplendor... A Vida da Pi é um feito derradeiramente belo e maravilhoso. São 227 dias de sobrevivência e de absoluta dádiva. 

As demais virtudes técnicas, que procuram a perfeição da imagem, conferindo-lhe um determinado estilo, ecoam no assombro e na excelência da fotografia de Claudio Miranda. E a banda sonora (Mychael Danna), outra das maravilhas da obra, é como que o guia espiritual, que nos conduz pela demanda e nos faz suscitar os mais variados sentimentos. E se A Vida da Pi é obra de delicada sensibilidade ou de fortes sentimentos, ou não fosse Ang Lee o cineasta por detrás desta fantástica visão. O 3D é a ferramenta utilizada, precisamente, para intensificar ainda mais a carga emocional, muito para além dos estímulos sensoriais dos quais, sabemos, é capaz. Ang Lee é eficaz no recurso; creio, não obstante, que o filme resulta extraordinariamente bem no 2D, pelo que o 3D, não sendo fundamental, também não é acessório.

Assumindo o triunfo do filme e que, na sua maior parte, pouco mais é do que um ator, uma embarcação e um tanque de água que a pós-produção transforma mais tarde em oceano, define um horizonte e um céu glorioso e adiciona as personagens virtuais... isto faz-nos pensar muito, nomeadamente sobre a própria definição de cinema e a sua essência artística. O que importa transmitir. E, claro, na sua relação simbólica, o rumo que aquela embarcação, representando o cinema, toma...

O desfecho é chocante para todos quantos ousaram acreditar. Quantos, mesmo conhecendo a segunda versão - que, sejamos sinceros, deve mais ao realismo - não preferem acreditar na fantasia poética?  So which story do you prefer? É uma forma - mais fácil - de superar a dor. So it goes with God.  
 
Não deixa de ser curioso que certos filmes nos ofusquem pela estranheza, na primeira vez que os vemos e que, mal lhes seja dada uma outra oportunidade, nos conquistem tão seguramente. Aconteceu-me mais uma vez com A Vida de Pi, não só pela expectativa, também pelo 3D que teima em parte em distrair-me, em distanciar-me do âmago das coisas e até em causar-me algum desconforto. Ao revê-lo, finalmente concentrado e inteiramente absorvido... A Vida de Pi consegue rasgar-nos o coração, mas ao mesmo tempo reconfortar-nos o espírito. É pleno de alma, mesmo no artifício. E isso... faz toda a diferença. Que pérola de filme.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O MASCARILHA (2013)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Lone Ranger
Realização: Gore Verbinski
Principais Actores: Johnny Depp, Armie Hammer, William Fichtner, Tom Wilkinson, Helena Bonham Carter, Ruth Wilson, James Badge Dale, Barry Pepper, Saginaw Grant, W. Earl Brown, Harry Treadaway

Crítica:

O VELHO OESTE SELVAGEM

- If these men represent the Law, I'd rather be an Outlaw.
- That is why you wear the mask.

O Mascarilha invoca e glorifica, em toda a sua grandeza e esplendor, o velho e mítico Oeste Selvagem que o cinema americano, durante décadas, honrou e imortalizou. Povoa todo esse imaginário coletivo - de índios, cherifes e cowboys, soldados e mineiros, de cavalgadas pela vingança ou pela justiça, de bons, feios e vilões, de pequenas cidades perdidas entre o sol e a poeira, de saloons e casas de meninas, de furiosos comboios e intermináveis linhas férreas que desbravam cegamente as terras virgens - imaginário que lembramos desde crianças, o mesmo que os nossos pais ou avós partilharam tão entusiasticamente no passado.

O Mascarilha não inventa - não foi tudo inventado? -, tão-pouco reinventa, antes reinterpreta. A ambiciosa e arrojada produção recolhe as melhores influências e oferece um refrescante e prazeroso espetáculo sem precedentes: de ação desenfreada e de cortar a respiração, que se transcende em emoções e diversão - aqui podemos encontrar a melhor cena de perseguição de comboios de todos os tempos -, de arrebatadores grandes planos onde a paisagem a perder de vista se confunde com o horizonte longínquo, do imperioso silêncio de desertos e rochedos, sobre todos o silêncio do imponente e incontornável Monument Valley, tão contrastante que é com a grandiosa e triunfante banda sonora de Hans Zimmer. 

Em O Mascarilha dá-se, pois, o tão aguardado reencontro do western ressuscitado com as grandes massas; pena que o desempenho do filme nas bilheteiras invalide, em parte e incompreensivelmente, este meu argumento. O índio Tonto, de rosto pintado e corvo morto na cabeça - excêntrica e hilariante criação de Johnny Depp - tem mesmo razão: por estes dias, nature is definitely... out of balance.

Para as filmagens, construiram-se, de raiz, quilómetros de caminhos de ferro e três modelos de comboios, que se pretendia que fossem como personagens. Os atores percorreram mesmo o cimo de carruagens em movimento, por uma questão de realismo. É claro que há muitas maravilhas do digital ao longo do filme, mas tantas há que são reais e verdadeiras e que, por serem feitos raros nos dias de hoje, passam por artificiais. A produção da Disney e de Jerry Bruckheimer (que prime, como sabemos, o seu selo nalguns dos maiores blockbusters de Hollywood) combina habilmente - e certamente por mérito da visão e intervenção artística de Gore Verbinski - a sofisticação digital em pouco mais do que o indispensável, tanto quanto permita o budget (também esse épico, neste caso), com a melhor utilização possível dos recursos fisicos e clássicos de filmagem. O certo é que, indepentemente de todos os processos, depois da luz e do enquadramento, o requinte de cada cena, frame by frame, é imprescindível. A fotografia de Bojan Bazelli é, por isso, um feito de exímia beleza.

A narrativa é sempre muito fluída, ficcionando entre os meandros da História e alguns anacronismos intencionais que não devem senão à comédia. Os argumentistas Justin Haythe e a dupla Ted Elliott e Terry Rossio (estes últimos também da equipa Piratas das Caraíbas) concebem um filme dinâmico e pleno de ritmo, não-linear porém deveras consistente e bem construído, alicerçado no cómico de situação, no cómico de personagem e na improvável amizade entre um nativo comanche, de valores e ideias bem vincados mas perfeitamente idiota na sua ação e um recém-advogado de valores e ideias igualmente vincados (se bem que outros, radicalmente distintos) e pouco ajeitado com os tiros. O primeiro conta os minutos para vingar a pior troca que alguma vez fez na vida, que lhe ardeu a inocência e que decidiu o destino de muitos dos seus. O segundo, sabe da vida a lei suprema e teórica e tão-pouco sobre a ganância voraz, que pela fraqueza dos homens segue praticamente imune aos ideais da justiça. Num tempo em que os rangers já foram, John Reid (carismático e circunscrito herói, assumido com charme e refino por Armie Hammer), ousa lutar pela estrela ao peito. Salvo da morte pelo cavalo mais lunático de que há memória, parte na companhia do índio pelo oeste, de enorme chapéu branco ao alto, usando a icónica máscara preta, defrontando os adversários que a coragem ou a sorte decidem. Ao longo da odisseia, a esperta Red de perna de marfim (Helena Bonham Carter), o temível Butch Cavendish (William Fichtner), a bela Rebecca (Ruth Wilson), amada adiada, e o ávido e enganoso capitalista Latham Cole (Tom Wilkinson), senhor dos comboios:

From the time of Alexander the Great, no man could travel faster than a horse that carried him. Not anymore. Imagine; time and space, under the mastery of man, power makes emperors and kings... look like fools. Whoever controls this, controls the future. 

Alter-ego de Jack Sparrow, Tonto assume o protagonismo em todos os seus trejeitos e maneirismos, mas também porque é dele o ponto de vista. Lembremos o noble sauvage em exposição na feira de S. Francisco, anos 30, que conta à criança e ao espetador o porquê do cavaleiro usar uma máscara, a necessidade de também um herói poder assaltar um banco. A revisita começa aí e termina já nos créditos finais, de regresso a casa, às derradeiras origens. Deliciosa e memorável personagem, a desse camaleão maior que é Johnny Depp.

Grande filme, grande entretenimento, grande western. O tempo fará justiça a este O Mascarilha.

domingo, 17 de novembro de 2013

O ÚLTIMO AIRBENDER (2010)

PONTUAÇÃO: BOM
★★
Título Original: The Last Airbender
Realização: M. Night Shyamalan
Principais Actores: Noah Ringer, Dev Patel, Jackson Rathbone, Nicola Peltz, Shaun Toub, Aasif Mandvi, Cliff Curtis, Seychelle Gabriel, Katharine Houghton, Francis Guinan, Summer Bishil, Randall Duk Kim, John Noble

Crítica:

AVATAR:
O MESTRE DOS QUATRO ELEMENTOS

I knew you were real. I always knew you'd return.

Com O Último Airbender, M. Night Shyamalan não só continua como intensifica o seu odiado percurso em Hollywood. Não só porque se afasta, aqui numa clara clivagem, da senda dos seus argumentos inquietantes, labirínticos ou plenos de suspense... que marcam o seu prisma autoral. Afinal, seria sempre uma tarefa tamanha, compreendemos, recriar em real motion um universo tão característico e querido da animé como o de Avatar. Porém, na minha opinião, que mais uma vez contraria grande parte da crítica, Shyamalan supera-se com paixão e talento. O Último Airbender não cai no ridículo, o mundo das quatro nações edifica-se solidamente sobre a verosimilhança, mérito maior da direção artística e dos tremendos efeitos digitais. A excelência dessas categorias técnicas e da aliança com a fotografia de Andrew Lesnie (o mesmo d'O Senhor dos Anéis) confere inegáveis credibilidade e autenticidade à fantasia. A magia acontece no ecrã. O espetáculo visual impõe-se, por isso, maravilhoso e esmagador.

Pena que o filme não tenha maior duração (já para não falar de sequelas), para aprofundar as personagens e a história, maturar as cenas e os momentos narrativos. O filme peca essencialmente por isso. A edição faz um autêntico milagre com o tempo que lhe foi concedido, livrando-o do desastre, contando da melhor forma possível - relativamente simples até, servindo perfeitamente o público infantil - esta complexa história de mitos e culturas, guerra e espiritualidade, destino e humanidade. A escolha do elenco revela-se acertada: destaques para Noah Ringer como Aang (o por cem anos desaparecido Avatar, mestre dos quatro elementos), Dev Patel (filho rejeitado e príncipe do Fogo, dúbio na sua ação) ou Shaun Toub (o tio Iroh, conselheiro e protetor). Duas das personagens mais bem conseguidas - até pela sua natureza secundária e artificial - são, a meu ver, as criaturas Appa e Momo. Há inspirados movimentos de câmera, que acompanham a energia da ação ou os momentos mais intimistas, que nos emocionam. Para esse efeito contribui também uma das mais sonantes e grandiosas bandas sonoras de James Newton Howard, aqui e ali com toques de John Williams.

Enfim, O Último Airbender é um daqueles filmes que ganharia tanto com uma versão alongada. Cerca de 30 minutos do filme foram eliminados porque o estúdio pretendia convertê-lo em 3D tão rapidamente quanto possível. Alguns desses minutos de cenas cortadas, já revelados no DVD, não acrescentariam muito ao filme, é certo. Quanto ao material inédito, não posso comentar, resta ter esperança. O todo revelado é tão apaixonante que queríamos mais; os admiradores estão é condenados a rever o filme as vezes que quiserem, ao invés de esperarem pela continuação.

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Não me refiro à versão 3D porque não a vi nem a preciso ver; neste caso, como noutros, não passou de estratégia comercial, como sabemos. O filme nem sequer foi concebido para ser em 3D.

sábado, 17 de agosto de 2013

INTRIGA INTERNACIONAL (1959)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: North by Northwest
Realização: Alfred Hitchcock
Principais Actores: Cary Grant, Eva Marie Saint, James Mason, Jessie Royce Landis, Leo G. Carroll, Josephine Hutchinson, Philip Ober, Martin Landau, Adam Williams, Edward Platt, Robert Ellenstein, Les Tremayne, Philip Coolidge

Crítica:

A CONSPIRAÇÃO


No, Mother, I have not been drinking.

Certamente, um dos expoentes máximos do thriller de espionagem e do thriller romântico, Intriga Internacional ainda hoje encontra eco em dezenas de reproduções maioritariamente inferiores. A montagem do filme (George Tomasini) e o compasso que esta impõe ao longo das suas pouco mais de duas horas de duração é qualquer coisa de verdadeiramente notável e obsessivo, tanto para a marcação do ritmo cerebral e implacável que baseia a narrativa como para a edificação - essencial - do suspense.

Na verdade, a condução controlada, intrincada e meticulosamente pensada que o argumento (Ernest Lehman) e o mestre Hitchcock fazem do mistério aprisiona completamente o espectador, desde o primeiro instante.  Qual personagem principal, Roger O. Thornhill (um charmoso, trabalhador e bem-humurado homem da publicidade, completamente alheio a estratégias de guerra e a segredos de estado), nada sabemos sobre o precipício em que caimos, perdidos em confusões, mal-entendidos e situações completamente absurdas. E qual protagonista, perfeitamente interpretado por Cary Grant, cedo percebemos que nada parece o que é... nem é o que parece. Aquilo que começa por ser um episódio caricato e ridículo, de aparente e fácil resolução - Roger enfrenta-o, diga-se, com todo o sacarmo - torna-se numa fuga absolutamente perigosa e arriscada pela sobrevivência e pela verdade... às tantas, revelada na forma da mais pura e empolgante aventura, capaz de nos garantir todo o entretenimento. No meio da tanta agitação, ainda há tempo e espaço para a atracção, pela loira e irresistível femme fatale que é Eve Kendall (Eva Marie Saint) e que culminará algures entre as faces rochosas e monumentais do Monte Rushmore e os tão impessoais lençóis do comboio de regresso a casa. Sempre acompanhados pelas extraordinárias e vibrantes composições musicais de Bernard Herrmann, claro.

As cenas memoráveis e antológicas são mais do que muitas. Que dizer, a título de exemplo, daquela pela qual o filme é imediatamente lembrado, deslumbrante da fotografia à encenação: a incessante e por isso mesmo inquietante perseguição da avioneta sobre o cruzamento e sobre os campos de cereais. É sublime; um tanto mais do que o filme que, por si só e com todo mérito, já é um grande filme.
 

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (2010)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
Título Original: Alice in Wonderland
Realização: Tim Burton
Principais Actores: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Crispin Glover, Anne Hathaway Vozes (versão original): Stephen Fry, Michael Sheen, Alan Rickman, Christopher Lee, Michael Gough, Timothy Spall

Crítica:

UM OUTRO LADO DO ESPELHO

The only way to achieve the impossible,
is to believe it's possible.

Visualmente deslumbrante, mas desmesuradamente artificial (ou melhor, digital), confusão de maravilhas coloridas com bizarrias excêntricas e tenebrosas e combinação-limite de animação com live action, Alice no País das Maravilhas explode com a chancela mágica da Disney, mas também com a assinatura única e inequívoca de Tim Burton.

Estão lá os seus actores fetiche, Johnny Depp e Helena Bonham Carter, a degladiarem-se entre a imensidão do seu talento e a vertiginosa e mal-(di)gerida narrativa, que se atropela de episódio em episódio à velocidade estonteante e extenuante da acção. Mia Wasikowska, julgo, cumpre eficazmente o seu papel. O maior encanto, creio todavia, irradia do guarda-roupa de Colleen Atwood, barroco e requintado, da inacreditável caracterização dos actores e da criatividade sem limites da produção artística. A banda sonora de Danny Elfman faz jus ao recriado universo de Lewis Carroll, tão exótico e divertido quanto perigoso e imprevisível (muito mais perigoso e imprevisível sob a visão de Burton, claro).

Sabe-nos bem, revisitar aqueles lugares que nos povoam a imaginação desde crianças (quais sonhos ou pesadelos de Alice), reencontrar aquelas personagens estranhas que se mantêm plenas de mistério. Mas a fatia deliciosa do bolo acaba aí. Tanta ousadia tem, por fim, um sabor um tanto ou quanto amargo, de tão insólita que se revela a experiência. Mais do que maravilhado, é provável que o espectador se sinta aliviado, no final, por ter sobrevivido a tanta correria e golpe de espada e ter regressado à realidade com a cabeça intacta.


PARNASSUS: O HOMEM QUE QUERIA ENGANAR O DIABO (2009)

PONTUAÇÃO: BOM
★★★★
Título Original: The Imaginarium of Doctor Parnassus
Realização: Terry Gilliam
Principais Actores: Heath Ledger, Johnny Depp, Colin Farrell, Jude Law, Christopher Plummer, Lily Cole, Andrew Garfield, Peter Stormare, Tom Waits

Crítica:

O FABULOSO MUNDO PARA LÁ DO ESPELHO

Can you put a price on your dreams?

Esta maravilhosa fantasia surrealista de Terry Gilliam supera habilmente os excessos de um barroco Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton. Não é porque seja menos infantil (esse não é um argumento válido, pois a qualidade dos filmes para crianças não corresponde à altura dos seus espectadores), nem é tão-somente por incluir menos cenas num universo artificialmente criado por computador (esse também nunca seria um argumento válido, afinal tudo é artifício e um julgamento depreciativo a respeito seria sempre uma questão de gosto). Ainda que não tenha um storytelling perfeito - longe disso, há passagens menos bem resolvidas e capazes de suscitar alguma confusão desnecessária no espectador - penso que é por aí, pelo storytelling, pela construção narrativa e pelo doseamento das emoções, que este Parnassus se sobrepõe. Quase a findar a comparação, que não é de todo o objectivo, creio que jamais os delírios criativos para lá do espelho abafam a essência narrativa, como no filme de Burton a determinada altura. É certo que há um ir e voltar constante e em Alice há uma viagem única, mas a dimensão onírica em Parnassus maravilha-nos, nunca nos cansa com um exibicionismo perpétuo. Obrigatoriamente inverosímil, aceitamos e deleitamo-nos com esse mundo de sonhos. O diálogo da influência estabelece-se, claramente, para com a tela de Dalí. Nessa relação irresistível, somente em Um Sonho Encantado terei encontrado, porventura, um arrojo e uma excelência maior. Sem esquecer, é claro, esse clássico mítico de Gilliam que é A Fantástica Aventura do Barão.

O que suporta e sustém - com notável solidez - este rico e triunfante (às vezes bizarro, mas sempre engraçado) universo visual é a qualidade das interpretações, notem-se os nomes do elenco: Christopher Plummer (sempre brilhante), Heath Ledger (no seu último papel, falecido a meio das filmagens), Johnny Depp, Colin Farrell e Jude Law (que substituiriam Ledger, completando o alter-ego do seu Tony em paragens fantásticas) e os promissores Lily Cole e Andrew Garfield. Depois, a esmerada direcção artística de Anastasia Masaro e Caroline Smith (note-se cada cenário, cada detalhe) e o faustoso guarda-roupa de Monique Prudhomme. O trabalho de todos estes departamentos conjugado aprimora a pintura de todo e cada frame, inspiradamente enquadrado por Nicola Pecorini. A fotografia é essencial para o deslumbramento.

Entre o real e o imaginário, fica uma fábula excêntrica e a espaços alucinada, mas absolutamente fascinante, bem-humurada e endiabrada. Pura aventura, consciente do espectáculo que nos pode proporcionar. Lamentável apenas que a história, prolífera em ideias, não tenha sido melhor polida e aproveitada (o tratamento da personagem de Ledger parece-me às tantas desnorteado, mal-desenvolvido no que conduz à revelação da sua verdadeira identidade - pudera; ainda assim Terry Gilliam desenvencilhou-se muito bem do infortúnio). Enfim, you can't stop a story being told. Finalmente, o filme é dedicado a Ledger, que atravessou o espelho e nunca mais voltou.

Não se tornará um clássico, muito provavelmente, mas está longe de ser um caso perdido.

domingo, 1 de janeiro de 2012

AVATAR (2009)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
★★★
Título Original: Avatar
Realização: James Cameron

Principais Actores: Sam Worthington, Zoe Saldana, Sigourney Weaver, Stephen Lang, Joel Moore, Giovanni Ribisi, Michelle Rodriguez

Crítica:

O UNIVERSO MÁGICO DE PANDORA:
ENTRE A FERTILIDADE E A ESTERILIDADE

Everything is backwards now,
like out there is the true world, and in here is the dream.

O fenómeno global Avatar é compreensível à luz da inovação e dos avanços tecnológicos que desde cedo estiveram anunciados a este regresso do visionário James Cameron, doze anos após o arrebatador Titanic. Compreensível, na medida em que as massas deliram por experiências espectaculares e alucinantes, que as transportem imediatamente para realidades alternativas, tantas vezes fantasiosas, como é o caso.

Neste sentido, importa tratar a relevância do 3D. De qualquer modo, importaria sempre que a tratássemos, uma vez que Avatar é sinónimo de 3D: é, desde a sua raiz, uma tentativa de deslumbramento contínuo. De certa forma, esse objectivo é atingido e o filme revela-se pioneiro. O efeito do 3D, por mais atordoante que seja (e, pelo que entendi, esta consequência secundária varia bastante, consoante a predisposição, hábito ou preconceito do espectador), mostra-se não só surpreendente como impressionante, na forma como se co-relaciona com os nossos sentidos e com a nossa percepção. Parece-me, contudo e francamente, que o deslumbramento se alheou da importância nuclear da narrativa, o que é lamentável. Assim sendo, aquilo que poderia funcionar como um elemento complementar para a qualidade da obra, resume-se a um acessório cujos resultados são sensorialmente estimulantes e aparatosos mas sem maior papel narrativo.

Depois, claramente, importa tratar o filme a dois níveis, absolutamente dissociáveis: a real filmmaking e a motion capture. Sublinho absolutamente dissociáveis uma vez que não julgo perfeitamente conseguida a combinação das duas formas de fazer cinema; sim, mais do que duas técnicas, são duas formas distintas de fazer cinema, com linguagens e implicações completamente diferentes.

Avatar
inicia a sua estrutura episódica, unificada por uma narração mais ou menos eficaz, com a real filmmaking. O digital interfere na fotografia, mas é um mero complemento. E, neste campo, Cameron jamais se revela especialmente inspirado no enquadramento e no movimento da câmera. Até penetrarmos na vegetação abundante de Pandora - onde a motion capture e os efeitos digitais assumem a totalidade da moldura - aquilo a que assistimos é banalíssimo: cenários, fotografia e mise-en-scène iguais aos de outros tantos blockbusters norte-americanos, onde personagens sem dimensão vagueiam pelo set enquanto a voz off se faz ouvir. Cá para mim, uma obra extraordinária e sublime faz-se do primeiro ao último shot, do primeiro ao último frame. Pois bem, a postura de Cameron em tudo aquilo que se confunde ou não com o marketing ligado ao produto, é a de quem se preparava para apresentar não só o filme mais caro de sempre como uma obra-prima única, onde cada dólar gasto valeu a pena. Basta ficarmo-nos pelos primeiros minutos de Avatar para constatarmos que não estamos perante uma obra-prima e os indícios de que se trata de uma obra desequilibrada não tardarão a fazer notar-se.

Onde Cameron brilha - incontestavelmente - é na projecção imaginada de todo aquele universo exótico e alienígena. A direcção artística é não só prodigiosa como verdadeiramente sumptuosa e minuciosa na criação de Pandora e dos Na'vi. A exuberância e a diversidade da vegetação e da fauna originam visões mágicas, plantas multiformes e animais incríveis! A paisagem é de cortar a respiração... as montanhas suspensas são de uma beleza inebriante... e, quando a noite cai, o esplendor da bioluminescência e a extrema sensibilidade de todo aquele meio ambiente concretizam uma fabulosa e colorida dimensão onírica; identificam-se, facilmente, as formas e as influências do universo submarino que Cameron tão bem conhece. Estupendos, os efeitos digitais. Que fertilidade abundou, durante todo este processo criativo. A acção das batalhas é pujante e Cameron revela total mestria na matéria.

Agora, sejamos frontais: quando postas lado a lado, ou em diálogo - falo da real filmmaking e do pacto entre a motion capture e a criação digital - sobressai um desfasamento evidente e que não parece natural, por mais mérito que o detalhe da recriação digital mereça. Quando colocadas lado a lado, em ponto de igualdade, o universo de Pandora apresenta-se-nos artificial. O universo de Pandora, por mais que tente ser foto-realístico, está condenado à fronteira entre o real e a animação. E cá para mim, pende claramente para a animação. Afinal, quando o digital impera sobre o real, só podemos pisar o campo da animação. Avatar tem, pois, uma natureza híbrida e recusa-se a assumi-la: às tantas, estamos a assistir a um filme de animação e Avatar recusa essa categorização, a meu ver óbvia e legítima. Quer fazer-nos crer que tudo aquilo é real - percebo e compreendo esse desejo - mas Pandora não é real nem parece tão real quanto se pretendia. Isso condena qualquer hipótese de verossimilhança, essencial para que um filme de fantasia funcione. Deste modo, Avatar representa um grande avanço técnico, mas não basta para se afirmar como um clássico do género.

Se há esterilidade em Avatar - e há muita, lamentavelmente - essa faz-se notar mais nitidamente nas performances dos actores e no argumento. Quanto aos actores - sempre que os temos - não há uma única personagem que seja digna de nota. Custa a crer, mas nem uma é modelada ou tem profundidade. Se não temos, desde logo, boas personagens, como poderia a história vingar? E chegamos ao argumento. De Danças com Lobos a Pocahontas, as referências ou paráfrases são mais do que conhecidas. Em boa verdade, a história de Avatar não é nada que já não tenhamos visto. Da história pedia-se muito mais, do argumento pedia-se muito mais também: entendo que a narrativa não respira, não há silêncios nem pausas, os episódios sucedem-se sem tempo para amadurecer as linhas de sentido e com tamanha previsibilidade. A forma como a história é contada dá ênfase ao deslumbramento visual e às sequências de acção, estendendo a duração do filme e não privilegiando propriamente a história. Não há, diga-se de passagem, um único diálogo memorável. Já piadas brejeiras, há inúmeras. Para além do mais, o planeta e a cultura Na'vi têm tanto potencial e tanto por onde explorar e, no entanto, fica-nos apenas uma amostra luminosa e pirotécnica inconfundível, sem grande substância... A única substância é a pertinente mensagem ecológica. Mas até que ponto é que o ritmo e as prioridades do filme não a abafam? Às tantas, mais parece que a mensagem ecológica lá está para limpar a natureza comercial da obra. A banda sonora de James Horner tem os seus momentos altos, mas quantas vezes não nos vêm à memória os temas de Titanic ou de Tróia. De As Quatro Penas Brancas há inclusivé reciclagem. Enfim... cessem as lamentações.

Continuo a pensar que Avatar é o esboço daquela que poderia ter sido uma obra extraordinária. Perdeu-se na ambição. Há quem diga que Avatar é um excelente produto de entretenimento. Entre algum aborrecimento constrangedor, poder-se-á dizer que assegura um entretenimento fora do comum. No fim de contas, entre a fertilidade e a esterilidade... penso que a esterilidade levou a melhor. Conquistou-me a sua fantástica proposta conceptual. Mas de James Cameron esperava mais.

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A crítica resulta, inclusivé, da visualização das versões alargadas do filme.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

HARRY POTTER E O CÁLICE DE FOGO (2005)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Harry Potter and the Goblet of Fire
Realização: Mike Newell
Principais Actores: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Ralph Fiennes, Maggie Smith, Alan Rickman, Robbie Coltrane, Stanislav Ianevski, Timothy Spall, Miranda Richardson, Michael Gambon, Brendan Gleeson, Robert Pattinson

Crítica:

CARNE, SANGUE E OSSO:
O REGRESSO DO SENHOR DAS TREVAS

I can touch you... now!

O Cálice de Fogo é o ponto de viragem na saga Harry Potter. A atmosfera é mais negra e tenebrosa do que nunca, o tempo é pesado e chuvoso e o céu ilumina-se constantemente de relâmpagos e trovões. Harry, Ron e Hermione já não são crianças, floresce a adolescência em todos os seus sentidos, nomeadamente no despertar das hormonas. O Baile de Inverno potencia, a propósito, o cenário perfeito para a comédia romântica. Mas é nos pesadelos premonitórios, nas aventuras fatais e no inevitável regresso do Senhor das Trevas que o filme aprofunda o seu coração narrativo.

Na verdade, este quarto capítulo - tão intensamente trágico, glorioso e crucial - tinha história para dois filmes. A distribuição das sequências por duas partes permitiria uma melhor digestão dos episódios, sem pressas. Assim sendo, temos um concentrado - harmonioso, embora apertado na sua considerável duração de 157 minutos - de filme de aventuras, comédia adolescente e terror fantástico. Mike Newell, na realização, não tem espaço para grandes liberdades criativas; creio que se rende ao argumento e às ambições do estúdio num trabalho equilibrado e impecável, do ponto de vista técnico. Dentro do vasto núcleo de actores, os destaques vão para Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint, para Michael Gambon (que finalmente tem linhas mais do que suficientes para mostrar o seu valor), Brendan Gleeson e Miranda Richardson, mas sobretudo para essa terrível e magnetizante criação que é o Voldemort de Ralph Fiennes, Aquele cujo nome não deve ser pronunciado.

Nos departamentos técnicos, John Williams abandona a composição musical da saga e entra para o seu lugar Patrick Doyle, com uma nova sonoridade. Alguns dos seus temas (impetuosos, esquizofrénicos, poderosamente sonantes) lembram-me o melhor de Howard Shore à frente da trilogia O Senhor dos Anéis; o que por si só é elogioso quanto baste. A fabulosa fotografia é de Roger Pratt, que também creditou o departamento n'A Câmara dos Segredos. A direcção artística (Stuart Craig, Stephenie McMillan), o guarda-roupa (Jany Temime), a caracterização (Nick Dudman, Amanda Knight) ou a edição de som esmeram-se ao nível da excelência, elevando claramente os valores de produção.

Na série, o filme concretiza um espectáculo pirotécnico sem precedentes, onde a audácia e a megalomania dos efeitos especiais encontram facilmente o seu auge. Estádios monumentais, tecnologicamente avançados, cavalos alados e navios que emergem das profundezas magicamente, dragões voadores que espalham a sua fúria e chamas pelos telhados de Hogwarts, sereias e as mais estranhas e malignas criaturas subaquáticas e, para além da bruma do labirinto, raios do Bem e do Mal que materializam o antagonismo das forças. Felizmente, o filme equilibra bem estas prodigiosas maravilhas digitais e a pura adrenalina da acção, tão queridas do entretenimento de massas, com o factor emotivo e com toda a riqueza do universo potteriano, jamais descurado. A história, aliás, densifica-se e complexifica-se. O leque de personagens continua a crescer, assim como as ligações entre elas, o passado tende a interferir cada vez mais no presente e no futuro da acção e há muitos pormenores a ter em mente para a compreensão total de certas passagens; sem contar, claro, com a condução do suspense, intrínseco a cada capítulo, que lhe marca a técnica e o estilo, e cujo mistério é revelado ou resolvido somente no final.

Um desafio difícil, porém superado com êxito. A ponte necessária para os últimos e derradeiros filmes da fantasia.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN (2004)


PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Harry Potter and the Prisioner of Azkaban
Realização: Alfonso Cuarón
Principais Actores: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Gary Oldman, David Thewlis, Robbie Coltrane, Michael Gambon, Alan Rickman, Maggie Smith, Tom Felton, Emma Thompson, Timothy Spall, Julie Christie, Julie Walters


Crítica:

A LUZ E AS TREVAS

Mysterious thing, time.

Entre ratos, lobos e assustadores dementors, eis que a saga Harry Potter respira ar fresco pelas mãos do talentosíssimo Alfonso Cuarón. Fazendo jus às qualidades intrínsecas à própria narrativa de J. K. Rowling, a fantasia densifica-se, emerge ainda mais nos seus segredos, pisa o terror e transforma-se em algo inegavelmente mais negro.

Envolvente e apaixonante, todo o storytelling desenvolvido por Steve Kloves. Descolando-se de quaisquer condicionamentos maiores, inerentes à adaptação, o argumento flui finalmente a um ritmo próprio, saboreando a essência de cada episódio e edificando um desejável efeito de coesão e de surpresa até ao clímax. A forma como o filme trata o tempo, nomeadamente, é de uma habilidade notável, superando-se no twist.

Cuarón explora magistralmente a atmosfera da história, gélida e sinistra, mas também o espaço: primeiramente, a Londres nocturna e os seus fantasmas - a viagem no autocarro louco, pelas ruas da cidade, é completamente alucinada e electrizante, contrastando com o universo mágico e paralelo, interdito aos muggles, aqui dotado de uma beleza visual quase lírica e poética. Depois e especialmente, Hogwarts e arredores, por meio dos quais traz a história para o exterior, para fora dos corredores meio-iluminados da fortificação. Deslumbrante e romântica, a propósito, a sequência do vôo no hipogrifo, onde a fotografia (Michael Seresin) e a composição musical (do lendário John Williams) se combinam perfeitamente. A câmera do cineasta lança um novo olhar sobre a trama e sobre as suas personagens - um olhar mais maduro e pessoal, provalvelmente mais autoral, estilisticamente mais refinado e sobretudo mais sensível às subtilezas dramatúrgicas e à progressiva perda da inocência, que é um tema central em Harry Potter. Por outro lado, o facto dos alunos terem abandonado as fardas, por exemplo, aproxima imediatamente a narrativa da contemporaneidade, preparando terreno para os capítulos sucessores. Os efeitos digitais aliam-se a todo o design de produção na concretização de um mundo ainda mais pormenorizado, sofisticado e, também por isso, mais credível.

No elenco... Gary Oldman, David Thewlis, Robbie Coltrane, Michael Gambon, Alan Rickman, Maggie Smith, Emma Thompson, Timothy Spall... um elenco de luxo com prestações ao mesmo nível, cristalizando uma essência sólida. O trio de protagonistas - Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint -, revela, por fim, trabalho e talento adicionais, para além do carisma infantil que lhe conhecíamos.

Este terceiro filme é, talvez por tudo isto, um dos mais maravilhosos da saga, cinematograficamente mais gratificantes e memoráveis. Absolutamente brilhante.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

HARRY POTTER E A CÂMARA DOS SEGREDOS (2002)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Harry Potter and the Chamber of Secrets
Realização: Chris Columbus
Principais Actores: Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Richard Harris, Kenneth Branagh, Maggie Smith, Robbie Coltrane, Alan Rickman, Tom Felton, Jason Isaacs, Christian Coulson

Crítica:


MISTÉRIOS ANCESTRAIS

Enemies of the Heir, Beware.

Entre serpentes, aranhas e carros voadores, eis que Harry Potter e a Câmara dos Segredos se impõe como um capítulo ainda mais espectacular. O regresso de Chris Columbus a Hogwarts faz-se, sem sombra de dúvida, com outra imaginação e desenvoltura: o realizador está mais ousado, servindo-se exemplarmente dos elevados valores de produção que tem ao seu dispôr. Por outro lado, encontramos maiores economia e coesão ao longo de toda a adaptação narrativa (J. K. Rowling e Steve Kloves), o que permite, por si só, um filme organicamente mais fluído, consistente e aprofundado e mais livre para a exploração da linguagem cinematográfica. Estes foram, claramente - a realização e o argumento -, os dois pontos fracos que apontei no primeiro filme da saga e que aqui vejo irrepreensivelmente superados.

O elenco, em alto nível, serve-nos um leque de personagens memoráveis. O suspense envolve e aprisiona o espectador, progressivamente, e as maravilhosas sequências de acção tornam a aventura absolutamente excitante e assustadora. Note-se, a propósito, a sofisticação dos sempre presentes efeitos especiais (Jim Mitchell, Nick Davis, John Richardson e Bill George). Dobby, o elfo doméstico, afirma-se, aqui, como um dos feitos mais desafiantes levados a cabo pela equipa. O requinte do design de produção, dos cenários, da decoração e dos figurinos e o esplendor que emana a cada fotograma, como que numa tentativa de contínuo deslumbramento visual, decidem a excelência da obra. Roger Pratt, à frente da iluminação e da fotografia, tem para esse efeito um papel determinante. Os estimados valores técnicos estendem-se finalmente tanto à banda sonora como à minuciosa combinação dos sons.

Fantástica adaptação. Entretenimento incrivelmente divertido e emocionante, moralmente pertinente, a ver e rever.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL (2001)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Harry Potter and the Sorcerer's Stone
Realização: Chris Columbus
Principais Actores: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Tom Felton, Richard Harris, Maggie Smith, Robbie Coltrane, Alan Rickman, Ian Hart, John Cleese, John Hurt

Crítica:

O RAPAZ QUE SOBREVIVEU

It's true then, what they're saying on the train.
Harry Potter has come to Hogwarts.

Expansão do imaginário, fusão e recriação fantástica de mitos e mitologias ou aventura meramente escapista: o fenómeno Harry Potter justifica-se à luz de um sem fim de atributos e méritos próprios. Creio que um factor determinante para o sucesso da saga foi o de, livro após livro, filme após filme, a história acompanhar o crescimento da criança que se fez homem e que perdeu a inocência, ao mesmo tempo que acompanhava toda uma geração (mundo fora), que fazia exactamente o mesmo percurso. Harry Potter fez a ponte entre o real e o imaginário, entre o quotidiano londrino dos finais do século XX/século XXI, quase que radicalmente despido de crenças e superstições sobrenaturais, e uma idade como que parada no tempo, algures entre o antigamente e o tempo onde a magia é possível. E é mesmo isso que Harry Potter representa: o regresso da magia. Com Harry Potter e A Pedra Filosofal, a magia torna ao grande ecrã e a fantasia resulta - coisa rara em cinema - triunfalmente, com doses certas de coerência, verosimilhança e imaginação.

Após mais um entediante e sofrido Verão em casa dos tios muggles, eis que chega a sua data de aniversário e o início da maior aventura da sua vida: Harry descobrirá as suas origens, a sua própria identidade e um mundo completamente inacreditável, onde a luz e as trevas andarão sempre lado a lado. Após um violento confronto, aquele cujo nome não deve ser pronunciado deixou-lhe uma cicatriz na testa, passou-lhe infindáveis poderes e o mistério da sua orfandade. Seria inimaginável pensar este encantatório, perigoso e derradeiramente arrebatador mundo de Harry Potter sem as infinitas potencialidades dos efeitos digitais. Da edificação dos cenários à composição da atmosfera, da concepção das mais variadas e maravilhosas criaturas e bruxarias à captação do verdadeiro espírito do livro, os efeitos digitais (cada vez mais sofisticados) elevam significativamente a experiência. Fale-se da monumental direcção artística de Stuart Craig, tão ambiciosamente empenhada em dar vida ao mundo de J. K. Rowling, da plataforma 9 3/4 às ruas da Diagon Alley e às imponentes galerias e escadarias de Hogwarts. Fale-se da fotografia de John Seale, ainda que por vezes excessivamente escura. Fale-se da icónica e emblemática banda sonora de John Williams - o seu Hedwig's Theme tornou-se instantaneamente um clássico e sinónimo de sétima arte. Fale-se desse elenco de carismáticas e prometedoras crianças-actores: Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson - como Harry Potter, Ron e Hermione, respectivamente - que mais tarde se viriam a revelar escolhas mais do que acertadas. Fale-se desse fundamental leque de actores seniores - grandes actores, em extraordinários desempenhos: Richard Harris como Albus Dumbledore (que me desculpe Michael Gambon, mas para mim Richard Harris será sempre um melhor Dumbledore), Alan Rickman como Severus Snape (uma das mais enigmáticas, ricas e fascinantes personagens da saga), Maggie Smith como Minerva McGonagall ou Robbie Coltrane como Rubeus Hagrid.

É certo que Chris Columbus, na realização, nunca é tão extraordinário como o próprio universo que Harry Potter nos dá a descobrir, mas é igualmente certo que assegura a aventura e o entretenimento familiar, num tom marcadamente infantil, com uma eficácia mais ou menos assegurada. Encontro na excessiva colagem à narrativa do livro, contudo, o ponto mais negativo do filme. A adaptação, quem sabe se excessivamente supervisionada pela autora da obra, tenta condensar demasiada informação em pouco tempo, prejudicando uma desejável fluidez do ritmo e o amadurecimento dos episódios; tarefa árdua, admitamos, na apresentação ao mundo de tão complexa história, tão recheada de detalhes. Apesar disso, eis um tomo absolutamente fascinante e plausível. Quem resistiria, afinal, a apanhar o comboio para Hogwarts?

domingo, 5 de dezembro de 2010

APOCALYPTO (2006)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Apocalypto
Realização
: Mel Gibson

Principais Actores: Rudy Youngblood, Dalia Hernandez, Jonathan Brewer, Morris Birdyellowhead, Raoul Trujillo, Rodolfo Palacios

Crítica: 


O ECLIPSE MORTAL


Apocalypto é um ritual de morte e sacrifício num mundo condenado à extinção. É trágico, brutal e sangrento. Aquele movimento de chariot inicial leva-nos into the wild e a selva e a natureza absorvem-nos por completo. Depois, é Mel Gibson que nos leva, dotado de mestria. E desta vez somos transportados - por inteiro - ao íntimo cultural e místico da sociedade Maia, perdida no tempo, perpetuada na memória e agora recriada sob um conceito visual arrojadíssimo: se os cenários se revelam, por um lado, grandiosos e cheios de detalhe, o guarda-roupa, por outro, é de uma concepção de todo incrível e arrebata-nos, falando por si só, diferenciando os diferentes extractos sociais. O trabalho de caracterização é, também, de uma qualidade e perfeição que nos transcende, reclamando autenticidade por todos os poros. Apesar da liberdade artística que não faz dele, propriamente, um documentário de rigor histórico, o filme demonstra um realismo atroz. Juntamente com a extraordinária fotografia de Dean Semler, Mel Gibson capta praticamente todo o espírito do argumento a partir da paisagem (seja ela natural ou artística) e isso é um feito admirável: é quase cinema em estado primitivo. Quantas não são as vezes, afinal, em que se precinde do diálogo para apenas ver e ouvir aqueles ambientes? É nessa qualidade que reside o principal fascínio de Apocalypto, esta obra sublime, de uma beleza impressionante.

Eu vi uma fossa no Homem, profunda como uma fome que nunca saciará. É ela que o torna triste e que o faz querer mais. Ele vai continuar a tomar mais e mais até ao dia em que o mundo dirá 'Já deixei de existir e nada mais tenho para dar.'

É assim que termina a fábula que o ancião a todos conta naquela última noite de paz na aldeia. O ancião significa conhecimento e é uma figura amplamente respeitada. Essa sabedoria popular, assim como as superstições, os presságios e os sonhos, desempenha um papel fundamental no dia-a-dia dos Maias. São conhecidos como uma civilização bastante sofisticada, mas também é certo que eram muito religiosos. A sua devoção aos deuses levou alguns povos à loucura e à auto-destruição. É essa a cegueira de muitos fundamentalismos. E é esse o motivo que desencadeia toda a trama de Apocalypto. As doenças devastam e dizimam a população, eles crêem que o solo está enfermo e que devem satisfazer os deuses, para que estes os abençoem com a cura e com a salvação. O sangue dos sacrifícios renovará a terra. Contudo, a pior doença corrói-os no espírito e disso não têm consciência. Uma obra como Apocalypto tece, pois, uma crítica mordaz às sociedades humanas, independentemente da sua época ou das suas origens: as suas convicções, impregnadas de maldade e avidez, podem conduzir aos mais hediondos e monstruosos actos. O próprio ser humano pode ser o mais perigoso dos animais, a face mais cruel da natureza.

Se até à perturbadora cena do eclipse, de encontro ao coração da cidade e da cultura Maia, a obra mostra uma intensidade, exotismo e estranheza crescentes, é certo que a partir daqui a diegese se centra no retorno a casa de Pata-Jaguar, de encontro ao coração da selva e da natureza humana. Mas nem por isso cai, pelo menos, a intensidade ou o exotismo daquele paraíso ameaçado. O filme ganha contornos empolgantes, excitantes e capaz de pôr os nervos à flôr-da-pele, à medida que as sequências de acção se sucedem e que a luta pela sobrevivência se dificulta e é levada aos limites da resistência. Mel Gibson filma esta aventura aos confins da América com alma e coração, sem nunca prescindir da sua estética sobre o lado negro e violento do Homem. Os desempenhos de Rudy Youngblood, Jonathan Brewer ou de Raoul Trujillo são notáveis. E a composição de James Horner é magnífica, fluindo naturalmente entre a afirmação e a subtileza, consoante as necessidades dramáticas.

Por fim, Apocalypto não é senão uma saga pelos valores ancestrais e intemporais da família:

Chamo-me Pedra-Céu e caço nesta floresta desde que me tornei homem. E o meu pai caçou nela comigo e já caçava nela antes de mim. O meu filho, Pata-Jaguar, caça nesta floresta comigo. E caçará com o filho dele depois de eu morrer.

A luta de Pata-Jaguar é a luta pela preservação da família, pelo respeito pelos antepassados e pelo assegurar de um futuro às gerações vindouras. E essa é - ou pelo menos deveria ser - a luta universal de cada um de nós.

Apocalypto é, pois, um filme inesquecível. Um grande pedaço de arte e um forte apelo à reflexão.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

A PRAIA (2000)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: The Beach
Realização: Danny Boyle
Principais Actores: Leonardo DiCaprio, Virginie Ledoyen, Tilda Swinton, Robert Carlyle, Guillaume Canet

Crítica:

O PARAÍSO PERDIDO

A imperfeição das sociedades humanas suscitou, ao longo da nossa existência, as mais variadas e aprofundadas reflexões e efabulações, sejam elas de ordem política, filosófica, religiosa, antropológica ou poética. Já a mitologia clássica alimentava o impossível retorno à Idade do Ouro e ao estado primordial das coisas. Constate-se, a título de exemplo, a poética de Ovídio, nas Metamorfoses, inspirada no conceito de Hesíodo. Mais tarde, as tradições islâmica e judaico-cristã profetizaram um Reino dos Céus, a eterna renovação e a plenitude da alma. Thomas More arquitectou a Utopia, cujas conotações modernas elevaram o conceito da sociedade pura e perfeita ao idealismo e à fantasia. Milton, em resposta às sagradas escrituras, anunciou o Paradise Lost. E esta introdução só para referir os nomes mais sonantes na edificação do mito e as suas mais conhecidas variantes que, ciclicamente, o revigoraram e revitalizaram.

A obra de Alex Garland, na qual John Hodge se baseia para a adaptação do argumento deste A Praia, não é de modo algum alheia a este fenómeno marcadamente literário (aceite que está a própria evolução do conceito do que é ou não literário, ao longo dos séculos). Assim sendo, A Praia não é senão mais uma variação do mito, desta vez impregnado nos meandros da pop culture.

Richard (Leonardo DiCaprio, a irradiar talento e carisma) é um jovem turista americano recém-chegado à Tailândia. Como todos os jovens, sonha com a evasão, com o mundo ideal e perfeito, com o escape ao cancro e aos vírus de uma sociedade consumista, capitalista e individualista.

My name is Richard. So what else do you need to know? Stuff about my family, or where I'm from? None of that matters. Not once you cross the ocean and cut yourself loose, looking for something more beautiful, something more exciting and yes, I admit, something more dangerous. So after eighteen hours in the back of an airplane, three dumb movies, two plastic meals, six beers and absolutely no sleep, I finally touch down; in Bangkok.

Beleza, excitação, perigo. O jovem procura, afinal, uma experiência marcante e irrepetível, totalmente nova. I just feel like everyone tries to do something different, but you always wind up doing the same damn thing.

Banguecoque funciona, pois, como sinédoque da vida moderna e Danny Boyle filma-a de forma electrificante e ultra-dinâmica, a um ritmo pulsante e vertiginoso e com uma banda sonora absolutamente contagiante. Até que, num hotel da cidade, Richard conhece Daffy, o maluco e drogado do quarto do lado, e toma conhecimento da praia: um local puro, belo, fascinante... um lugar escondido do mundo, absolutamente secreto, totalmente proibido. Quando Richard encontra o maníaco morto, no dia seguinte, depara-se com um mapa, que aponta o destino com precisão e que reclama autenticidade para a história que julgara apenas uma lenda ou uma alucinação.

Lança o convite a dois desconhecidos do mesmo corredor do hotel, um casal de namorados franceses cuja beleza da rapariga já o intrigara, e faz-se à aventura. You hope, and you dream. But you never believe that something's gonna happen for you. Not like it does in the movies. And when it actually does, you want it to feel different, more visceral, more real. E, a cada passo do paraíso, o sonho ganha contornos cada vez mais reais. A ideia da existência de um mundo perfeito é, simplesmente, magnetizante e não se medem os perigos do desconhecido. Por aí se vê também a ingenuidade e a imaturidade da juventude perante as fáceis e por demais atractivas e ilusórias propostas da vida:

Trust me, it's paradise. This is where the hungry come to feed. For mine is a generation that circles the globe and searches for something we haven't tried before. So never refuse an invitation, never resist the unfamiliar, never fail to be polite and never outstay the welcome. Just keep your mind open and suck in the experience. And if it hurts, you know what? It's probably worth it.

Quando chegam à ilha, nem querem acreditar: praia de areia branca, vegetação exuberante, água cristalina, cascata e céu estrelado, canabis para o resto da vida, restante natureza abastada e graciosa e um silêncio apaziguador e purificante. Mal sabiam os jovens que, no entanto, o paraíso e a perfeição existem, mas a um preço muito alto e por muito pouco tempo. Rapidamente serão confrontados com a impossibilidade do recomeço e com a verdade para lá da aparência: uma sociedade ameaçada por agricultores e traficantes de droga, hipócrita e fundamentalista, tão contaminada como qualquer outra à face da terra, capaz de sacrificar valores e vidas humanas em nome de um ideal e de uma visão do mundo. In the perfect beach resort, nothing is allowed to interrupt the pursuit of pleasure, not even dying. O sonho depressa se converterá no pior dos pesadelos... e no fim da inocência.

A fotografia de Darius Khondji é belíssima, o trabalho de montagem portentoso (Masahiro Hirakubo) e a banda sonora, ainda que bastante eclética, alia-se harmoniosamente na exaltação soberana das sensações. Destaque para o tema Porcelain, de Moby, para sempre associado ao filme. O elenco revela-se à altura do desafio, nomeadamente DiCaprio, Paterson Joseph e a rígida líder da aldeia, excepcionalmente interpretada por Tilda Swinton. Há cenas icónicas e inesquecíveis, como a assustadora apresentação de Daffy, a chegada à ilha, o salto na cascata, o confronto com o tubarão, o mágico e romântico mergulho por entre o plâncton resplandecente ou uma frenética sequência de loucura na selva, com influências de videogame. Cá para mim houve um certo desiquilíbrio dramatúrgico e formal neste acto - passámos do feel-good movie para o drama e para o thriller psicológico num ápice - mas nada que prejudique crassamente o todo. A Praia pode não ser o filme perfeito, mas concretiza um irresistível compêndio de fascínio e de inspiração.

I still believe in paradise. But now at least I know it's not some place you can look for, 'cause it's not where you go. It's how you feel for a moment in your life when you're a part of something, and if you find that moment... it lasts forever...

Game over.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

KING KONG (2005)

PONTUAÇÃO: BOM
★★
Título Original: King Kong
Realização: Peter Jackson

Principais Actores: Naomi Watts, Jack Black, Adrien Brody, Thomas Kretschmann, Colin Hanks, Andy Serkis, Evan Parke, Jamie Bell, Lobo Chan, John Sumner, Craig Hall, Kyle Chandler, Bill Johnson, Mark Hadlow, Geraldine Brophy, David Denis

Crítica: 

A BELA E O MONSTRO

And lo, the beast looked upon the face of beauty, and beauty stayed his 
hand... and from that day forward, he was as one dead.

King Kong é uma obra de grande amor. Afinal, a admiração de Peter Jackson pelo original de 1933 fê-lo apaixonar-se pela Sétima Arte e inspirou-o a realizar filmes. Por isso mesmo e antes de tudo mais,
este seu novo King Kong será sempre uma homenagem. Creio que isso é notório e notável, cena após cena. Mas este remake é muito mais do que isso. É uma aventura verdadeiramente espantosa e espectacular, onde os efeitos digitais fazem história e constituem um autêntico triunfo sob a nova égide de fazer cinema. É, em primeira ou última instância, na sua artificialidade, uma emocionante e intemporal lição de humanidade.

Carl Denham (Jack Black) é um fracassado realizador de cinema que,
de forma a conseguir financiar os seus projectos, ludibria os produtores dos estúdios com o maior dos despudores. I'm real good at crapping the crappers, assume. No encalço da polícia e na posse de um mapa enigmático, faz-se ao mar e à aventura antes que seja tarde de mais. I've come into possession of a map. The sole surviving record of an uncharted island... thought to exist only in myth! Until now... Na companhia da sua equipa técnica, do argumentista Jack Driscoll (Adrien Brody), da deslumbrante e recém-contratada actriz Ann Darrow (Naomi Watts), do galã Bruce Baxter (Kyle Chandler), do capitão Englehorn (Thomas Kretschmann), de Jimmy, Hayes e Choy (Jamie Bell, Evan Parke e Lobo Chan, respectivamente) e de Lumpy, o cozinheiro (Andy Serkis) parte para as filmagens nos exteriores, sem prever, minimamente, a sucessão de perigos que viriam a enfrentar. Grande elenco, grandes escolhas de casting.

A viagem que acompanheremos é tremenda. De uma esplendorosa Nova Iorque de contrastes, em plena Grande Depressão e literalmente renascida das cinzas, à crepuscular viagem de navio pelo mistério dos oceanos, do mais conturbado desembarque na Ilha da Caveira às mais exuberantes e exóticas fauna e flora que possamos imaginar, absolutamente perdidas no tempo e onde o verde camufla desde insectos esfomeados a colossais dinossauros, desde civilizações condenadas ao mais só e fascinante dos seres: Kong, o gorila gigante, o rei do desconhecido, deus dos nativos e o último da sua espécie.

Peter Jackson filma sequências verdadeiramente geniais e prodigiosas, com uma acção de cortar a respiração. Aquele confronto entre Kong e o T-Rex é deveras impressionante. Kong pode ser a 8ª Maravilha do Mundo mas os efeitos es
peciais são mesmo as maravilhas maiores deste filme sensacional, tanto nas criações a grande escala como nos mais ínfimos pormenores (Joe Letteri, Brian Van't Hul, Christian Rivers e Richard Taylor). Mas há muitas outras cenas inesquecíveis: todo aquele suspense que antecede o primeiro vulto de Kong, nas Muralhas em Chamas, o malabarismo de Ann, a avalanche de carne réptil, o entardecer no cimo da montanha, o vale dos insectos, a captura de Kong e todo aquele acto final na cidade, do anfiteatro ao pandemónio nas ruas, da romântica pista de gelo ao desfecho trágico e aterrador no Empire State Building, rasgando os céus num poderosíssimo clímax emocional. Eis, empolgante e assaz excitante, entretenimento da melhor qualidade.King Kong é a humanização da besta, do gorila, que face aos irresistíveis encantos da jovem Ann cede ao amor - ao amor como força maior da natureza. É o amor que lhe ditará a tragédia. It wasn't the airplanes. It was Beauty killed the Beast. King Kong, que agora Fran Walsh, Philippa Boyens e o próprio realizador re-adaptam, é também uma sátira acesa à avareza do Homem, cujos interesses prevalecem sobre valores essenciais, desrespeitando e ameaçando a natureza.

O trabalho fotográfico de Andrew Lesnie, assim como a pintura digital do frame, revelam-se fundamentais e imprescindíveis para a aura de beleza que emana do filme - do princípio ao fim. Tanto a direcção artística (
Grant Major, Dan Hennah e Simon Bright) como a montagem (Jamie Selkirk) são inteiramente excepcionais e a banda sonora de James Newton Howard soa íntima e magnífica, de acordo com os propósitos dramatúrgicos; pessoalmente, no entanto, creio que o filme beneficiaria bastante com uma banda sonora mais sonante e melódica, com temas que mais facilmente entrassem no ouvido. O som e os efeitos sonoros (Mike Hopkins, Ethan Van der Ryn, Christopher Boyes, Michael Semanick, Michael Hedges e Hammond Peek) são todos eles estrondosos, à altura da sofisticação e da imponência do projecto.

Há aspectos, contudo, mais criticáveis. Não me refiro nem a eventuais excessos do digital, nem, tão-pouco, à abundante publicidade que compõe os planos filmados (desde referências à Pepsodent e à Nestlé a luminosos letreiros da Universal, da Coca-Cola e da Chevrolet). São todos, parecem-me, pontos mais ou menos discutíveis, mais ou menos aceitáveis. Agora o que me parece grave é que King Kong nos apresente pela primeira vez os olhinhos cintilantes do seu macaco raivoso ao fim de uma hora e sete minutos. Repito, uma hora e sete minutos. É suspense a mais, parece-me. A narrativa demora-se em sequências de puro exibicionismo, pouco relevantes para a diegese e depois o filme fica exageradamente longo. Aquela viagem de navio para a ilha, para além de repetitiva, é por demais maçadora. Aquela elipse que corta imediata
mente para a cidade, essa sim, foi uma grande decisão, bastante necessária para a desenvoltura narrativa. Não fosse essa lentidão narrativa e estou certo de que este King Kong, de Peter Jackson, se revelaria uma experiência completamente extraordinária - atribuir-lhe-ia, nesse caso e sem hesitar, as cinco estrelas.

Ainda assim é um belíssimo filme.


CINEROAD ©2020 de Roberto Simões