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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

BOOGIE NIGHTS - JOGOS DE PRAZER (1997)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Boogie Nights
Realização: Paul Thomas Anderson
Principais Actores: Mark Wahlberg, Burt Reynolds, John C. Reilly, Julianne Moore, Heather Graham, Don Cheadle, Luis Guzmán, Philip Seymour Hoffman, William H. Macy, Alfred Molina, Philip Baker Hall, Robert Ridgely

Crítica:

SEXO, DROGAS E ROCK'N ROLL

I'm gonna be a great big bright, shining star.

You don't know what I can do! You don't know what I can do, what I'm gonna do, or what I'm gonna be! I'm good! I have good things and you don't know about! I'm gonna be something! I am! And don't fucking tell me I'm not!

É desta forma, impulsiva e revoltada, que o jovem Eddie Adams (Mark Wahlberg) se dirige à mãe, no culminar de uma discussão intensa e descontrolada. Eddie deixou os estudos, curte com uma miúda de má fama e trabalha num clube nocturno, do qual regressa cada vez mais tarde, dia após dia. No clube brilham letreiros luminosos, a música alta faz-se soar numa explosão de cores e de ritmos. Desfila um exuberante figurino, uma moda completamente excêntrica. Enfim, resquícios dos (também eles) loucos Anos 70. Mais concretamente 1977. Eddie é um mero lava-pratos-fã-de-karaté, mas por cinco dólares apenas mostra a sua giant cock a quem se dispuser a pagar. Um dia, cruza-se no seu caminho o famosíssimo Jack Horner (Burt Reynolds), realizador de filmes pornográficos, e a sua vida muda para sempre.

I got a feeling that behind those jeans is something wonderful just waiting to get out.

Abandonando a casa dos pais e destemido a vencer na vida, Eddie torna-se Dirk Diggler, um garanhão possante à frente das câmeras, capaz de distrair qualquer técnico da equipa de produção com a sua performance e com o seu... enorme talento.

O elenco, todo ele com excelentes interpretações, é absolutamente monumental: Julianne Moore é Amber Waves, uma mãe marcada pela perda da custódia do filho, e que, no meio daquela indústria, espalha o seu amor maternal pelos mais jovens. Philip Seymour Hoffman é Scotty J., um assistente homossexual frustradíssimo, que desde cedo se rende aos encantos do atraente Dick Diggler. Heather Graham é a rollergirl, a eterna patinadora, uma estudante fracassada que também se torna uma estrela porno. Don Cheadle é Buck Swope, também actor de acção mas cujo sonho é abrir uma loja para a comercialização de Hi-Fi. William H. Macy é Little Bill, um marido igualmente frustrado, que passa os dias a cruzar-se com a mulher a fornicar pelos quartos, pelos ruas... em todo o lado, com qualquer um. John C. Reilly rapidamente se torna o melhor amigo de Dick, é também actor e com ele formará uma dupla de sucesso, mas os seus hobbies passam inevitavelmente pelo ilusionismo. Robert Ridgely é o Coronel James, o produtor dos milhões, mas não passa de um pedófilo pervertido. Philip Baker Hall é Floyd Gondolli, um investidor ambicioso, ansioso por lucrar com as videotapes - as mais recentes novidades tecnológicas do meio cinematográfico. Mas Jack Horner, o realizador, é mais conservador:

You come into my house, my party, to tell me about the future? That the future is tape, videotape, and not film? That it's amateurs and not professionals? I'm a filmmaker, which is why I will never make a movie on tape.

Todas as personagens são distintas, mas todas elas têm muito em comum. É por isso que a passagem de ano de 79 para 80 marca muito mais do que a passagem de ano ou do que a viragem de década. Marca a reviravolta na acção de todas essas vidas. Little Bill cansa-se do despudor da mulher e mata-a. Em seguida, dispara sobre si mesmo e põe fim à vida. E aquela que era, até agora, uma imparável ascenção para o estrelato sem limites, torna-se numa assustadora e vertiginosa viagem de decadência e de perdição. Dick Digler, à semelhança de todos os seus colegas de profissão, torna-se um viciado em drogas, a impotência sexual manifesta-se, a arrogância sobe-lhe à cabeça e é despedido. Por mais que, no exterior daquela elite, as pessoas consumam pornografia, o preconceito e a hipocrisia denigre a actividade. Quando Dick sai à rua, é brutalmente espancado. A Buck Swope, é-lhe negado um empréstimo, pelo mesmo motivo. Com a agravante do consumo de drogas, o tribunal jamais permitirá que o filho de Amber cresça perto da mãe. E a patinadora, por fim, é amplamente humilhada pelos fantasmas do passado, que jamais lhe dignificarão o corpo ou a alma.

Boogie Nights começa a brilhar de imediato, quando Paul Thomas Anderson rompe com a tão-pouco estimulante música dos créditos iniciais e marca o contraste com um tema completamente enérgico, ao melhor estilo dos 70's. A discoteca, a dança, os travellings... inicia-se uma arte de filmar sobejamente audaz, magistral, incrivelmente sublime. P. T. Anderson aborda o argumento como um Altman, concebe a encenação como um Tarantino, filma inspirada, metódica ou freneticamente que nem um Scorsese de Tudo Bons Rapazes ou de Touro Enraivecido (a cena final do espelho é uma clara homenagem). Ainda assim e apesar de tão notórias e prestigiadas influências, P. T. Anderson emana autenticidade, rasgos de uma genialidade muito própria e única. Afinal, ninguém filma as personagens como ele, com tamanha noção de colectivo, com tamanho respeito por cada uma das individualidades que, no todo e no final, formam um painel tão multifacetado e tão rico. Em Boogie Nights (como mais tarde em Magnolia) todas as personagens partilham momentos de protagonismo, todos têm uma existência e personalidade própria. São tremendamente bem modeladas, inclusivé as mais secundárias. Podem ser tanto heróis como desgraçados. Há um não-sei-quê de trágico e de profundamente humano nos seus trajectos, que é progressivamente potenciado e elevado a um poderoso clímax, como se de uma ópera se tratasse, como se de um épico se tratasse, tanto pela câmera, como pela extasiante combinação de canções, como pela montagem (Dylan Tichenor, incrivelmente excepcional). Na escrita, na direcção de actores ou na realização... isto é Paul Thomas Anderson: complexo, sagaz e provocador.

Boogie Nights? Clássico absoluto, pelo incomensurável talento de um dos melhores e mais estimulantes cineastas da actualidade.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

HORIZONTE LONGÍNQUO (1992)

PONTUAÇÃO: BOM

Título Original: Far and Away
Realização: Ron Howard
Principais Actores: Tom Cruise, Nicole Kidman, Thomas Gibson, Robert Prosky, Barbara Babcock, Brendan Gleeson

Breves considerações:

Arrojada produção de Brian Grazer, num dos mais belos filmes de Ron Howard. Romance, drama e comédia confluem num produto consistente, tipicamente hollywoodiano, com algumas cenas bem filmadas e interpretações bem conseguidas. Entretenimento de qualidade.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

VELVET GOLDMINE (1998)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Velvet Goldmine
Realização: Todd Haynes
Principais Actores: Christian Bale, Jonathan Rhys-Meyers, Ewan McGregor, Toni Collette, Eddie Izzard, Emily Woof, Michael Feast, Janet McTeer

Crítica:

UMA ESTRELA CADENTE

Elegance walking arm in arm with... a lie.

Velvet Goldmine é, em poucas palavras, como que uma espirituosa e melancólica ode à liberdade. Uma explosão de música electrizante, inebriante e que irradia fascínio. Uma construção ficcional de impressionante, irreverente e desconcertante transfiguração artística, com a única e inconfundível assinatura de Todd Haynes. É sobre a nostalgia dos anos 70, quando por oposição a um flower power de paz e amor emergiu em Inglaterra um movimento assumidamente andrógino, exibicionista e provocatório, de um corte e costura espampanante e extravagante, cheio - dos pés à cabeça - de cor e brilho. Foram os tempos do Glam Rock, aqui homenageados e idolatrados, revisitados e recriados, nesta verdadeira e delirante orgia de estética cinematográfica.

The world is changed because you are made of ivory and gold.
The curves of your lips rewrite history.

De geração em geração é passado o transcendental amuleto, com o intuito primeiro de inspirar e revolucionar a identidade sexual dos Homens. I want to be a pop idol. (...) There is suffering at the birth of a child just as there is suffering at the birth of a star. Ser uma estrela não é senão a forma de acelerar a libertação a uma grande escala. Veja-se como a incumbência de Oscar Wilde impulsionou o futuro para a Verdade, como dele se espelha o reflexo num Jack Fairy. Veja-se como Brian Slade (magnífico Jonathan Rhys-Meyers) admirou o despudor queer do dandy, assim como o seduziu a presença sensacional de Curt Wild. Veja-se, por fim, como Arthur Stuart descobriu a homossexualidade pela aura e magnetismo do seu ídolo... como hoje, interiorizada a liberdade natural das coisas, se extingue a vergonha e se silencia o preconceito, na afirmação conscienciosa de quem realmente somos. A música, como tudo o resto, é um meio para a libertação e o excesso marca presença assídua nas primeiras linhas de qualquer revolução: é uma ficção, uma mentira, um artifício...

Man is least himself when he talks in his own person...
Give him a mask and he'll tell you the truth.

Numa mescla de experimentalismo, maturidade e criatividade sem limites, Velvet Goldmine atinge a expressão máxima dos traços autorais de Todd Haynes. A realização conflui o drama com um biopic travestido, baseado em acontecimentos verídicos cuja génese é ficcionalmente recriada: film à clef. O título do filme, aliás, é o título de uma canção de David Bowie. Obra camaleónica, assume, por vezes, um formato de videoclip. Outras tantas, assemelha-se a um documentário, cuja diegese evolui que nem um puzzle, consoante as revelações dos entrevistados (é notória e deliberada a influência de O Mundo a Seus Pés). O argumento, também desnvolvido pelo realizador, estrutura-se numa confusão onírica que, aos poucos, se descodifica e se resolve. A lenda vive e a história de Velvet Goldmine centra-se na lenda. No final, pouco sabemos sobre o que realmente aconteceu a Brian Slade após a mediática encenação do seu homicídio. Quer dizer, temos conhecimento da alegada conclusão de Arthur, mas o filme em si não decreta fim à ambiguidade e ao mistério.

Mergulhado em canções enérgicas e envolventes, com um elenco portentoso (talentos igualmente notáveis de Ewan McGregor, Toni Collete e Christian Bale) e um trabalho de montagem prodigioso (James Lyons), assim como uma fotografia belíssima (Maryse Alberti) e um guarda-roupa à altura dos mais audazes devaneios estéticos (Sandy Powell), Velvet Goldmine impõe-se como uma obra singular, irrepreensível e obrigatória.

What is true about music is true about life:
that beauty reveals everything because it expresses nothing.


segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A LISTA DE SCHINDLER (1993)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: The Schindler's List
Realização: Steven Spielberg

Principais Actores: Liam Neeson, Ben Kingsley, Ralph Fiennes, Caroline Goodall, Jonathan Sagall, Embeth Davidtz, Malgoscha Gebel, Shmulik Levy, Mark Ivanir, Béatrice Macola, Andrzej Seweryn, Friedrich von Thun

Crítica:
O INFERNO NA TERRA


Whoever saves one life, saves the world entire.

Em 1933, a subida ao poder de Adolf Hitler instalaria - na Alemanha e nos seus sonhos de império - uma verdadeira ditadura de terror. O egoísmo e o racismo, o ódio e a intolerância, amplamente potenciados por uma arbitrariedade fanática e doentia, extreminariam - sem dó nem piedade - gerações inteiras de vidas humanas, tantas delas inocentes e alheias ao conflito. O Holocausto Nazi protagonizou, tão-somente, um dos mais negros, monstruosos e vergonhosos capítulos da História, identificando, discriminando, separando, concentrando e por fim dizimando polacos, eslavos e soviéticos, deficientes, homossexuais e dissidentes políticos e, entre tantos outros, milhões de judeus.


Today is history. Today will be remembered. Years from now the young will ask with wonder about this day. Today is history and you are part of it. Six hundred years ago when elsewhere they were footing the blame for the Black Death, Casimir the Great - so called - told the Jews they could come to Krakow. They came. They trundled their belongings into the city. They settled. They took hold. They prospered in business, science, education, the arts. With nothing they came and with nothing they flourished. For six centuries there has been a Jewish Krakow. By this evening those six centuries will be a rumor. They never happened. Today is history.
Amon Goeth

A Lista de Schindler é uma homenagem primeira a todas essas vítimas. É um daqueles raros casos em que a arte se aproxima, com manifesta autenticidade, da captação da realidade, condenando o passado e perpetuando a memória e a esperança rumo ao futuro. Note-se a coda: as notas de Williams e a cor de Kaminski fazem a ponte entre os dois tempos, sobre a qual caminhará a salvação, grata e honrada pela sobrevivência dos pais e avós. Depois, é claro, é uma homenagem ao herói e empresário alemão, o homem que salvou 1200 trabalhadores judeus dos horrores das câmaras de gás, dos campos de trabalho e dos fuzilamentos imediatos.

Amon Goeth: You want these people?
Oskar Schindler: These people. My people. I want my people.
Amon Goeth: Who are you? Moses?

Contudo, é sobretudo uma obra de arte e uma representação da realidade, não um pedaço de História ou um
documentário, por mais que as técnicas de filmagem imprimam realismo, nos intervalos do mais imaculado e refulgente preto e branco; e isso jamais deverá ser esquecido. A Lista de Schindler é uma obra de arte.

Quem foi Oskar Schindler? O retrato, que Steven Spielberg tão inspiradamente concretiza, traça-lhe um perfil enigmático. O protagonista é apresentado entre o luxo e pompa de um jantar: flui
o tango, as bailarinas, os cantores e a sucessão de flashes, note-se o refinado brio da direcção artística (Allan Starski, Ewa Braun) ou a aprimorada mise en scène, não só notável como irrepreensível. Com uma elegância ímpar, um braço estende a nota ao garçon. O Oskar Schindler de Liam Neeson é em tudo brilhante. Cravado ao peito, pode ostentar um distintivo do Partido Nazi, mas a sua atitude transcenderá a sua própria aparência: o seu sorriso misterioso e o seu olhar sedutor encobrem um homem tremendamente lúcido do seu poder, da sua influência e da sua humanidade.

The unconditional surrender of Germany has just been announced. At midnight tonight, the war is over. Tomorrow you'll begin the process of looking for survivors of your families. In most cases... you won't find them. After six long years of murder, victims are being mourned throughout the world. We've survived. Many of you have come up to me and thanked me. Thank yourselves. Thank your fearless Stern, and others among you who worried about you and faced death at every moment. I am a member of the Nazi Party. I'm a munitions manufacturer. I'm a profiteer of slave labor. I am... a criminal. At midnight, you'll be free and I'll be hunted. I shall remain with you until five minutes after midnight, after which time - and I hope you'll forgive me - I have to flee.
(...)
I know you have received orders from our commandant, which he has received from his superiors, to dispose of the population of this camp. Now would be the time to do it. Here they are; they're all here. This is your opportunity. Or, you could leave, and return to your families as men instead of murderers.
(...)
In memory of the countless victims among your people, I ask us to observe three minutes of silence.
Oskar Schindler

Com a ajuda do arguto e perspicaz contabilista Itzhak Stern (Ben Kingsley, num admirável underacting), Schindler começará a recrutar para a sua fábrica de tachos e panelas toda uma lista de trabalhadores, que lhe ficará eternamente agradecida. My father was fond of saying you need three things in life - a good doctor, a forgiving priest, and a clever accountant. Só o hilariante e tão bem montado casting das secretárias ficará a cargo do próprio Herr Direktor.


Itzhak Stern: By law I have to tell you, sir, I'm a Jew.
Oskar Schindler: Well, I'm a German, so there we are.


Itzhak Stern: Let me understand. They put up all the money. I do all the work. What, if you don't mind my asking, would you do?
Oskar Schindler: I'd make sure it's known the company's in business. I'd see that it had a certain panache. That's what I'm good at. Not the work, not the work... the presentation.

Oskar Schindler: In every business I tried, I can see now, it wasn't me that failed. Something was missing. Even if I'd known what it was, there's nothing I could have done about it because you can't create this thing. And it makes all the difference in the world between success and failure.
Emilie Schindler: Luck?
Oskar Schindler: War.

Ainda que não o pudesse assumir, para não ser exposto, a sua arrogante ganância tinha uma natureza profundamente ambígua e irónica. E é esse o enigma que vamos descodificando ao longo do filme. Porque razão aceitaria Schindler, por exemplo, um deficiente de um braço só, seleccionado por Stern, como trabalhador da sua indústria? Não daria tal admissão demasiado nas vistas? Schindler defenderá sempre os seus trabalhadores, mesmo frente às maiores autoridades, desculpando-se com o argumento de que são uma fundamental e imprescindível fonte de rendimento.

This list... is an absolute good. The list is life.
All around its margins lies the gulf.
Itzhak Stern

A montagem de Michael Kahn, mítico na sua relação com Spielberg, faz a alternância entre Herr Direktor Schindler e Herr Kommandant das SS Amon Goeth (Ralph Finnes, numa assombrosa interpretação), durante o acto de barbear, e contrapõe duas personalidades muito sui generis. Dois modelos completamente diferentes de alemão. Ambos são figuras poderosas e ambos se diferenciam tão radicalmente nas suas atitudes e comportamentos, naquilo que tão bem ou tão mal fazem com o poder que detêm. O primeiro salva vidas. O segundo extermina-as.

Oskar Schindler: Power is when we have every justification to kill, and we don't.
Amon Goeth: You think that's power?
Oskar Schindler: That's what the Emperor said. A man steals something, he's brought in before the Emperor, he throws himself down on the ground. He begs for his life, he knows he's going to die. And the Emperor... pardons him. This worthless man, he lets him go.
Amon Goeth: I think you are drunk.
Oskar Schindler: That's power, Amon. That is power.

Um corte abrupto da acção contrapõe a vida extremamente prazerosa dos militantes alemães com a marcha viril de dezenas de soldados sobre as ruas da humilhação. Constantemente deportados, só com o Blauschein tinham a possibilidade de, por tempo indeterminado, trabalharem. Só pelo Blauschein se distinguiam os trabalhadores essenciais dos (considerados) inúteis. Os restantes estavam todos condenados:


Not essential? I think you misunderstand the meaning of the word. I teach history and literature, since when it's not essential?
Chaim Nowak


Aquando da extradição para o ghetto, desfilam os figurinos (excelente trabalho de Anna Sheppard). Uma criança alemã injuria, cruel: Goodbye jews! Goodbye jews! Deste modo, é-nos dado o verdadeiro e terrível contexto da história. Sempre que escapamos à diegese principal, somos chamados a conhecer a experiência traumática dos secundários e figurantes, a fome, as doenças, os sapatos, os óculos, as pratas e as fotografias, os relógios e os dentes... que se amontuam por entre suspiros apavorados e abafados.

Daqui em diante, A Lista de Schindler torna-se progressivamente mais revoltante e repugnante para qualquer espectador com coração. A tragédia e o drama precipitam-se para o terror e os nossos olhos assistem, incrédulos, no mais valioso e inconsciente conforto. Pactuando com as atrocidades, a banda sonora realça o carácter lúdico e simultaneamente mórbido daquela brincadeira de vísceras e sangue; não admira, pois, que o filme se torne, não só forte como indigesto. E a extraordinária carga simbólica daquela menina de vermelho, que às tantas floresce do cinzento e percorre as ruas sem alento, é simplesmente genial. De uma sublimidade inquestionável. Pela manipulação do sistema cromático se atingiu um dos momentos maiores da História do Cinema. Creio que em poucas ocasiões se foi capaz de dizer tanto com tão pouco.

Com a destruição do ghetto, a obra atinge níveis de violência arrepiantes. Não há clemência. E daí ao fumo negro dos campos, onde rastejam esqueléticos cadáveres arquejantes... O filme é frio, é negro, é real. E tamanha consciência de realidade parte-nos o coração e envergonha-nos. Mesmo que não sejamos responsáveis. O final, ao som da tocante partitura de John Williams, faz-nos ter orgulho nas centelhas de humanidade que, tão fragilmente, se acendem e apagam no Inferno. Só uma réstea bem acalorada pode fazer a diferença, se alimentar a chama de um mundo melhor. A redenção existe, mas não é para todos.

There will be generations because of what you did.
Itzhak Stern

Uma curiosidade: Schindler's Ark, o título do romance original de Thomas Keneally, no qual se baseou o magnífico argumento de Steven Zaillian, estabelecia um paralelismo directo com a imagem bíblica da Arca da Aliança, que assegurou o futuro para as mais variadas espécies terrestres, aquando do grande dilúvio.


Conclusões: A Lista de Schindler é muito mais do que três horas de longa duração, como muitos criticam. É uma obra-prima incontestável, de uma enorme maturidade e de uma perfeição arrebatadora. Magistral, na arte de filmar. Uma grande reflexão sobre a humanidade e sobre o Holocausto Nazi. Um monumento. A Lista de Schindler é, enfim, Spielberg no seu melhor. Spielberg, o génio.

sábado, 18 de setembro de 2010

POR UM FIO (1999)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Bringing Out the Dead
Realização: Martin Scorsese
Principais Actores: Nicolas Cage, Patricia Arquette, John Goodman, Ving Rhames, Tom Sizemore

Crítica:

NOVA IORQUE FORA DE HORAS

I'd always had nightmares,
but now the ghosts didn't wait for me to sleep.

Em Por um Fio - presentes estão as reminiscências de Taxi Driver - o atormentado é Frank Pierce (Nicolas Cage, num grande papel), um paramédico do serviço de urgência de Nova Iorque, que deambula pela cidade, à noite, pronto a prestar socorro a qualquer momento.

Saving someone's life is like falling in love. The best drug in the world. For days, sometimes weeks afterwards, you walk the streets, making infinite whatever you see. Once, for a few weeks, I couldn't feel the earth - everything I touched became lighter. Horns played in my shoes. Flowers fell from my pockets. You wonder if you've become immortal, as if you've saved your own life as well. God has passed through you. Why deny it, that for a moment there - why deny that for a moment there, God was you?

As chamadas sucedem-se e a sua âmbulância cruza um autêntico inferno de condenados: miseráveis, drogados, prostitutas... Às tantas, a grande questão para ele é precisamente: para quê salvá-los, se ninguém os cura e se eternamente continuarão a ser o lixo da cidade? Há compaixão para com esses perdidos, mas, ao mesmo tempo, todos eles enchem as alas hospitalares, noite após noite, todos eles estão mortos e não há esperança de salvação. Não seria mais útil para a sociedade salvar apenas aqueles interessados na vida?

A contradição da profissão que desempenha começa a angustiar Frank, seriamente. A falta de dormir e de se distanciar desta atmosfera louca e sinistra impõe-se. Tenta despedir-se e afastar-se, mas simultaneamente sente misericórdia para com as personagens noctívagas, repetentes e reincidentes. O cansaço torna-se tão intenso que Frank sucumbe ao ritmo frenético das urgências, iluminado pelas luzes e pelas cores da cidade (fotografia de Robert Richardson), e começa a alucinar, assombrado pelas vidas que perdeu, e pelas vozes daquelas que lhe imploram por partir.

O filme é negro, satírico, e o humor que lhe verte da veia é cáustico, corrosivo (argumento de Paul Schrader, a partir do romance de Joe Connelly). O filme, de resto, encontra-se bem montado e bem realizado, virtuoso nos movimentos de câmera e na captação de todo o ambiente daquelas ruas. O restante elenco tem prestações convincentes; destaco Patricia Arquette, John Goodman e Tom Sizemore. O filme é bom, mas é claramente um filme menor de Martin Scorsese, tendo em conta os tantos títulos magistrais e/ou geniais que a sua carreira nos trouxe. Porém, é um feito que - sem dúvida - muitos outros realizadores gostariam de igualar.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

KUNDUN (1997)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Kundun
Realização: Martin Scorsese
Principais Actores: Tenzin Thuthob Tsarong, Gyurme Tethong, Tulku Jamyang Kunga Tenzin, Tenzin Yeshi Paichang, Tsewang Migyur Khangsar, Tencho Gyalpo, Sonam Phuntsok, Gyatso Lukhang, Tenzin Trinley, Jigme Tsarong, Robert Lin

Crítica:

A RODA DO TEMPO
E O GRANDE SILÊNCIO

I am a reflection, like the moon, on water.
When you see me, and I try to be a good man, see yourself.


Sob o espectro da eternidade, ao longo do qual a natureza renasce e reincarna, ciclicamente, os budistas acreditam no nirvana, um estado sublime de pureza e de libertação, no qual as almas superam a existência, os sentidos e o material e atingem a paz absoluta no imaterial. Só a meditação e a introspecção, no grande silêncio e na serenidade deles próprios, lhes permitirá essa iluminação. Kundun não é senão um épico visionário e magistral, dotado de uma sensibilidade extraordinária, que nos conduz pela transcendência dessa espiritualidade.

O estilizado argumento de Melissa Mathison conta-nos a história de Tenzin Giatso, a criança que, com apenas dois anos e meio, foi encontrada e escolhida para liderar os deveres religiosos e políticos do seu país, o Tibete, e que desde então se apresentou ao mundo como o sucedâneo de uma adorada e inspiradora linhagem: a linhagem do Dalai Lama.

I will liberate those not liberated. I will release those not released. I will relieve those unrelieved. And set living beings in nirvana.
Dalai Lama

Tenzin Giatso cresce entre os monges, no Palácio de Potala, desde os tempos em que foi encontrado em criança e nos quais não teve oportunidade, efectivamente, para ser criança (I am only a boy); ressoam as reminiscências de O Último Imperador, de Bertolucci. Tenzin torna-se um estudioso e um pensador erudito, fascinado por sapatos, cinema e por todas as invenções do ocidente às quais tem acesso, e um representante máximo da não-violência. Dalai Lama doesn't believe in war. Quando a ameaça comunista da China de Mao Tse-Tung reclama o Tibete como parte integrante do seu território e impõe a guerra, a missão de zelar pela espititualidade e pela paz de um mundo em sangue revela-se tremendamente dificultada. O império chinês intensifica a opressão, o conflito invade as suas fronteiras, alastrando-se na sua moral e consciência.

Religion is poison. It undermines the race and it retards the progress of the people. Tibet has been poisoned by religion.
Mao Tse-Tung

Tibet has never been part of China. We are different races. We are different cultures. We need change, we know that. But we could do it alone. We were just about to do it alone. (...) If we agree that we are part of China, nothing else will matter. Not trade, not defense. We will be lost.
Dalai Lama

Como lutar com um inimigo quando a nossa religião tem como arma apenas e só o silêncio e a meditação? A menos que deles resulte a acção essencial, o entendimento entre os diferentes povos não será possível. Às tantas, só o exílio lhe é possível, em Dharamsala, na Índia. A profundidade da história, essa, sentimo-a a cada instante.

Kundun atinge níveis de uma perfeição técnica aos quais raríssimas obras se poderão igualar. A fotografia de Roger Deakins, por exemplo, é de uma beleza não só impressionante e desarmante como de cortar a respiração, verdadeiramente. É como poesia pintada a ouro. Por vezes, ecoa Kurosawa na composição do plano. A banda sonora de Philip Glass é absolutamente magnífica e lança-nos um feitiço inesquecível. Como uma melopeia, plena de harmonia e en
volvência, une-se com o genial trabalho de montagem de Thelma Schoonmaker na criação de uma cadência hipnótica, que nos inebria durante toda a experiência e que faz com que a estrutura episódica do argumento flua com virtuosa densidade poética. Poesia, poesia, poesia. O guarda-roupa e todos os cenários (Dante Ferretti) são de um detalhe, exuberância e requinte notáveis - daí o filme reclamar uma autenticidade poucas vezes conseguida - e a câmera de Scorsese, por fim, num movimento contínuo e inspirado, atinge momentos de uma subtileza, maturidade e simbolismo assinaláveis. Note-se, a respeito do simbolismo, toda a carga semântica que a construção e destruição daquela colorida mandala, já no final, potencia.

É neste Kundun, um dos filmes menos citados do mestre Martin Scorsese, curiosamente, que encontro a plenitude da excelência e o reflexo da genialidade. Creio que será porventura numa obra como esta que Scorsese concretiza a expiação da violência que tão frequentemente assombra os seus filmes. Pessoalmente, considero Kundun um dos seus melhores filmes. Puro deleite cinematográfico, do melhor cinema que pode existir.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

BRAVEHEART - O DESAFIO DO GUERREIRO (1995)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Braveheart
Realização: Mel Gibson

Principais Actores: Mel Gibson, Brendan Gleeson, David O'Hara, James Robinson, Brian Cox, Patrick McGhoohan, Peter Hanly, Sophie Marceau

Crítica:

CORAGEM E LIBERDADE

Every man dies. Not every man really lives.

William Wallace

A lenda vive. Do romance à tragédia, da revolta às frentes de batalha e do sangrento confronto da guerra ao absoluto e derradeiro martírio, Braveheart - O Desafio do Guerreiro ganha proporções épicas impressionantes, arrebatando-nos com a sua natureza empolgante e verdadeiramente emocionante. Mel Gibson concebe uma obra magistral, filmada com alma e coração e com, inequivocamente, profundo sentido artístico.

Ao som da gaita de foles avançamos, pela paisagem íngreme e pela atmosfera indecisa, de encontro ao coração da Escócia. De volta aos finais do século XIII, deparamo-nos com um povo dividido em clãs, de costumes agrícolas e pastoris, oprimido pelas políticas feudais e ameaçado pelas leis de sua majestade. Não há liberdade nem qualquer possibilidade para a afirmação de uma identidade genuína. O direito de prima nocte, partilhado pelos nobres, não só ofende como humilha gravemente os sentimentos e as tradições das gentes nativas, forçando-as a um pacto de sangue e decretando-lhes o fim da sua génese original.

Regressado da Europa, onde recebeu uma educação erudita e fluente em línguas, William Wallace reencontra as suas origens - I belong here - e todo um passado de memórias, no qual, nomeadamente, viveu - e ainda em criança (James Robinson, inspirado e numa interpretação admirável) - a dolorosa e marcante perda do pai. Reencontra a menina feita mulher que lhe iluminou a esperança do regresso e cede ao amor e ao encantamento, casando no caloroso segredo da floresta. Mas a perversão sexual dos soldados não conhecia limites morais e quis o infortúnio que se esfaqueasse a morte, sem dó ou piedade, no sangue imaculado da desposada beleza. Esta cena de reviravolta é, aliás, de uma encenação incrível: quer no slow motion, quer na montagem, quer no tratamento escrupuloso da banda sonora e do crescimento excitante e visceral do suspense. Cru, cruel, sangrento. Que nem as perturbantes imagens de mutilações, enforcamentos ou aterradores pesadelos. Emergia, assim, uma violência de cariz estético, de fascínio da audiência, assim como a verdadeira paixão excitou as atenções e delírios de multidões, durante séculos.

A vingança pessoal de William Wallace suscitou a revolta da aldeia e, consequentemente, a reivindicação colectiva de todo um povo adormecido. Impunha-se o fim da tirania e a luta pela independência. Reuniram-se os clãs, motivados pela esperança e liderados pela coragem inabalável de um herói, sábio e perspicaz, dotado de uma retórica poderosíssima:

I am William Wallace! And I see a whole army of my countrymen, here in defiance of tyranny. You've come to fight as free men... and free men you are. What will you do with that freedom? Will you fight? (...) Fight and you may die. Run, and you'll live... at least a while. And dying in your beds, many years from now, would you be willin' to trade all the days, from this day to that, for one chance, just one chance, to come back here and tell our enemies that they may take our lives, but they'll never take... OUR FREEDOM!

Mel Gibson obteve neste seu Braveheart a melhor performance da sua carreira. Um papel de entrega total, absolutamente memorável. Todavia, este é um daqueles casos em que o notável talento dos secundários fez toda a diferença: Brendan Gleeson (o amigo de infância, 2º melhor atirador de pedras), James Cosmo (o incansável pai do 2º melhor atirador de pedras), David O'Hara (o louco e hilariante irlandês), Angus Mcfadyen (o por fim leal Robert the Bruce), Patrick McGoohan (o prepotente Rei Eduardo I, o "Pernas Longas"), Brian Cox (o tio preceptor: First learn to use... this [a mente]. Then I'll teach you to use... this [a espada].) ou Sophie Marceau (a princesa de França oriunda, admiradora do amor cortês, casada com um herdeiro do trono que se interessava tão pouco por política como por mulheres).

John Toll capta com assaz perícia e sensibilidade estética os horizontes naturais daquela deslumbrante, embora nublada e chuvosa, pérola a norte de Inglaterra. Fá-lo, inclusive, no fulgor da refrega, onde o excepcional trabalho de montagem de Steven Rosenblum se transforma perante o ritmo metódico da encenação e a genial composição musical de James Horner. Mel Gibson inscreve na História do Cinema, desse modo, cenas assaz magníficas e monumentais: notem-se, por exemplo, os contrastes a nível do som nas caminhadas das tropas para o embate, a clareza das estratégias bélicas, o tão trocista quanto provocador levantar dos kilts, as caminhadas sobre as imponentes montanhas, os encontros secretos do armado cavaleiro com a mensageira do rei... ou o sofrido final, sem qualquer misericórdia ou compaixão. O argumento de Randall Wallace, efabulando sobre factos históricos e eternizando para sempre a lenda, revela-se, pois, um exercício dramatúrgico de muito boa escrita e de exímia construção. Contempla o romance, a acção, a tragédia, o humor, a crescente expectativa, e ergue-se, de arma em punho e de liberdade ao peito, naquele que é o renascer revigorado - e triunfal - do género épico.

Braveheart - O Desafio do Guerreiro não é, pois, senão um clássico absoluto e inesquecível.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

DANÇAS COM LOBOS (1990)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Dances with Wolves
Realização: Kevin Costner
Principais Actores: Kevin Costner, Mary McDonnell, Graham Greene, Rodney A. Grant, Floyd `Red Crow` Westerman, Tantoo Cardinal, Robert Pastorelli, Charles Rocket, Maury Chaykin, Jimmy Herman, Nathan Lee Chasing His Horse, Michael Spears

Versão Alargada

Crítica:

O CORAÇÃO DA AMÉRICA


Rezam as crónicas que a Guerra Civil Americana (1861-1865) ceifou a vida a mais de 950 mil pessoas, de entre as quais 618 mil eram soldados. As causas? Motivos políticos, ganância por poder, terras, riqueza... 618 mil morreram nas frentes de batalha, nas trincheiras, por quilómetros e quilómetros de terra, manchando a paisagem de sangue. 618 mil pereceram em nome de uma bandeira.

Os nativos do Novo Mundo tinham uma cultura de respeito pela natureza e pela família, de generosidade e amizade entre si. Rendiam-se aos simples prazeres da vida: rir, fumar, dançar, conversar. Não se prendiam à matéria, sentiam-se no espírito.

They were a people so eager to laugh, so devoted to family, so dedicated to each other. The only word that comes to mind is harmony.
John Dunbar

Não cobiçavam, rendiam-se à troca. Deparavam-se com a morte todos os dias, pela caça; naturalmente subsistindo. Quando travavam uma batalha, entre tribos distintas, faziam-no em nome da protecção dos seus, em nome das reservas alimentares que lhes decidiriam a sobrevivência quando a neve caísse.

It was hard to know how to feel. I had never been in a battle like this one. This had not been a fight for territory or riches or to make men free. This battle had no ego. It had been fought to preserve the food stores that would see us through winter, to protect the lives of women and children and loved ones only a few feet away. I felt a pride I had never felt before.
John Dunbar

The white men who wore this came around the time of my grandfather's grandfather. Eventually we drove them out. Then the Mexicans came. But they do not come here any more. In my own time, the Texans. They have been like all the others. They take without asking. But I think you are right. I think they will keep coming. When I think of that, I look at this helmet. I don't know if we are ready for these people. Our country is all that we have, and we will fight to keep it.
Ten Bears

Conseguiremos imaginar o quão trágico foi para os povos índios a chegada da Guerra Civil às suas fronteiras? Dificilmente. Danças com Lobos, concepção magistral de Kevin Costner, pinta um retrato possível como resposta. Sem maniqueísmos. A fotografia de Dean Semler é deslumbrante e encantatória, perfeita a cada enquadramento. A banda sonora de John Barry é absolutamente memorável. Assim como o elenco. E o argumento traduz-se num exercício de muito boa escrita, ritmado ao compasso da natureza indígena: é uma viagem de descoberta, de auto-descoberta. De um homem e de um país. Quando o tenente John Dunbar é feito cativo pelos guardas do forte e decide falar a língua dos Sioux... esse momento marca o assumir de uma nova identidade e o reconhecer da verdadeira justiça...

You are the only white man I have ever known. I have thought about you a lot. More than you think. And I understand your concern. But I think you are wrong. The white man the soldiers are looking for no longer exists. Now there is only a Sioux named Dances With Wolves.
Ten Bears

I had never really known who John Dunbar was. Perhaps because the name itself had no meaning. But as I heard my Sioux name being called over and over, I knew for the first time who I really was.
John Dunbar

É na aldeia que o Homem-Branco se apercebe da essência das coisas, da Verdade. É lá que descobre a felicidade e um caminho. É idílica, esta visão, onde o diálogo é possível e se rompem as fronteiras do preconceito. Mas como seria bom regressar às nossas origens...

Danças com Lobos não é, pois, senão um clássico absoluto e essencial.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A CAMINHO DE IDAHO (1991)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: My Own Private Idaho
Realização: Gus Van Sant
Principais Actores: River Phoenix, Keanu Reeves, William Richert, James Russo, Flea, Grace Zabriskie, Udo Kier, Rodney Harvey, Chiara Caselli, Michael Parker, Jessie Thomas, Sally Curtice

Crítica:

I'm a connoisseur of roads.
I've been tasting roads my whole life.

A ESTRADA
This road will never end.
It probably goes all around the world.

A Caminho de Idaho, visionária pérola de Gus Van Sant, situa-se algures entre a Perfeição e a Imperfeição. Tal como a vida de todos nós. Formalmente, é de difícil classificação: é um road movie (o seu tema é a estrada) com claras influências do western (a paisagem, a fogueira, as pistolas), é uma constante encenação de Shakespeare pelas ruas de Portland, embebida em melancolia, e, ao mesmo tempo, uma excepcional experiência avant-garde. A obra explora também a ambivalência sexual, mas o tratamento do amor universal é, porventura, um dos maiores feitos. Mike ama Scott e o que temos é um amor não correspondido entre duas pessoas, independentemente dos seus sexos. A dada altura, tanto Mike como Scott seguem o seu caminho, tomando as suas escolhas... e é interessante perceber como Gus Van Sant jamais se mostra tendencioso ou moralista; o sua arte fala por si só e de que maneira.

Viver passa por um inevitável ritual de auto-descoberta, por meio do qual encontramos o nosso lugar no mundo. À partida, esse caminho é mais fácil quando conhecemos e compreendemos o nosso passado, as nossas origens: esse factor dá-nos a estabilidade emocional essencial para a formação das nossas personalidade e identidade. Porém, os jovens de Gus Van Sant provêm de famílias disfuncionais, por algum motivo destruídas, e vêem-se sozinhos na estrada - sem saber ao certo de onde vêm e para onde vão. Estão desorientados, perdidos, alienados e... indefinidos. Mike, por exemplo, tenta reencontrar o amor da mãe (e reencontrar, desse modo, as suas origens) e encontrar o amor por alguém no seu dia-a-dia; quiçá por Scott, o seu melhor amigo:

Mike: We're good friends, and that's good to be, you know, good friends. That's a good thing. (...) That's okay. We're going to be friends.
Scott: I only have sex with a guy for money.
Mike: Yeah, I know, I mean...
Scott: And two guys can't love each other.
Mike: Yeah. Well, I-I don't know, I mean, I mean for me, I could love someone even if I, you know, wasn't paid for it. I love you, and... you don't pay me. (...) I really wanna kiss you, man. [pausa] Well goodnight man. [pausa] I love you, though. [pausa] You know that. I do love you.

As performances são absolutamente excepcionais. Os ritmos da narcolepsia de Mike marcam, tantas vezes, a própria cadência do filme... River Phoenix entrega-se de corpo e alma ao papel da sua (infelizmente curta) vida e mostra-se totalmente entrosado na personagem. Emana fascínio e inspiração... Brilhante! William Richert tem um desempenho formidável e Keanu Reeves, cujo talento raramente aprecio, revela-se assaz competente.

Tecnicamente, estamos perante um filme arrojado e irrepreensível. Os time-lapses marcam imediatamente o tom e o ambiente poético, assim como as muitas outras passagens líricas, sempre magnificamente fotografadas por John Campbell e Eric A. Edwards e extraordinariamente montadas por Curtiss Clayton. O orgasmo de Mike, por exemplo, é de nos deixar abismados e sem palavras; tal é a beleza, o simbolismo e a carga emocional daquele único e tão curto take. Então e a forma como Gus filma o sexo? Montagem rápida, planos estáticos mas em tempo real e com grande poder sugestivo. A confluência estética da obra não se fica por aqui: notem-se os diferentes tipos de filmagem, por exemplo, nas memórias de Mike. Ou a cena das capas de revista na loja de pornografia. Ou as entrevistas tipo-documentário a prostitutos reais, incorporadas no filme como se da diegese ficcional fizessem parte. A banda sonora é igualmente eclética e confunde-se perfeitamente com a natureza criativa da obra. Enfim, um todo completamente fascinante.

Sem dúvida: um dos melhores filmes dos anos 90 e um dos melhores filmes de Gus Van Sant. Uma sublime e obrigatória obra de arte.

Have a nice day.

domingo, 29 de agosto de 2010

SETE PECADOS MORTAIS (1995)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Se7en
Realização: David Fincher

Principais Actores: Brad Pitt, Morgan Freeman, Gwyneth Paltrow, John C. McGinley, Richard Roundtree, Kevin Spacey

Crítica:

GULA.
LUXÚRIA. GANÂNCIA.
PREGUIÇA. VAIDADE. INVEJA. IRA.

Long is the way, and hard,
that out of
hell leads up to light.

Sete Pecados Mortais
é, todo ele, um filme sobre a cidade, a cidade como inferno, e sobre a apatia que dela emana e que afecta, de forma corrosiva e silenciosa, as sociedades modernas ocidentais. E depois, é claro, sobre uma das consequências dessa apatia levada ao extremo: a psicopatia de
um John Doe, que se sente inspirado por Deus e que faz dos crimes calculados a sua obra-prima, como se por meio deles purificasse a humanidade e inspirasse o mundo.

Não é por acaso, note-se, que a maior banda sonora do filme é a banda sonora das cidades: um ruído ensurdecedor que invade cada cena, criando uma atmosfera tensa, agonizante e inevitavelmente poluída. A fotografia vive de um trabalho de iluminação portentoso, que se vê realçado pelo ambiente nocturno, negro e sombrio do meio urbano. As próprias personagens não se sentem bem na cidade, perdem-se na sua violência e infelicidade, caos e indefinição e procuram um escape, uma fuga possível. O detective William Somerset (Morgan Freeman, numa interpretação impecável), anseia por retirar-se do activo, procurando uma paz fora da cidade. Diz ele:
I just don't think I can continue to live in a place that embraces and nurtures apathy as if it was virtue. (...) it's easier to lose yourself in drugs than it is to cope with life. It's easier to steal what you want than it is to earn it. It's easier to beat a child than it is to raise it. Hell, love costs: it takes effort and work.

Quando entra num táxi, aliás, e lhe é perguntado para onde vai, rapidamente responde: far away from here. E quando Tracy Mills (Gwyneth Paltrow),
também ela desgostosa com a mudança para a cidade, lhe pergunta how long have you lived here?, naquele amontoado de prédios e de almas perdidas, a resposta é imediata: too long. Quando à noite se deita, para finalmente descansar, põe o metrónomo no seu tic-tac, como se fosse possível marcar o ritmo da confusão. Como se fosse possível converter o tumulto infindável numa apaziguante ária de Bach. A desordem está, todavia, instalada.

John Doe marca, afinal, o novo crime: metódico e estudado, paciente e implacável. Os seus crimes são sermões e a sua resolução policial ganha contornos de quebra-cabeças.

We see a deadly sin on every street corner, in every home, and we tolerate it. We tolerate it because it's common, it's trivial. We tolerate it morning, noon, and night. Well, not anymore. I'm setting the example.
John Doe

E o crime baterá à porta de David Mills (Brad Pitt), inesperado, cruel e devastador, como poderá bater às portas de qualquer um de nós. E é esse factor que é tão assustador. Porque nos é, cada vez mais, tão próximo.

O argumento é subtil e detém passagens verdadeiramente memoráveis. Os desempenhos revelam genuína solidez, em especial o de Kevin Spacey como John Doe, que é perturbador e perfeitamente conseguido. Magnificamente realizado por David Fincher, o filme é um exercício de grande equilíbrio, subtileza e contenção. O final, então, é soberbo. Profundo. Magistral.

Sete Pecados Mortais é, pois, um marco incontornável do cinema policial, onde o suspense... ascende a um estado puramente sublime.

Ernest Hemingway once wrote: the world is a fine place and worth fighting for. I agree with the second part.
William Somerset

terça-feira, 6 de julho de 2010

DARK CITY - CIDADE MISTERIOSA (1998)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Dark City
Realização: Alex Proyas
Principais Actores: Rufus Sewell, Kiefer Sutherland, Jennifer Connelly, Richard O`Brien, Ian Richardson, Bruce Spence

Crítica:

O ENIGMA MORTAL

First there was darkness,
then came The Strangers.

Complexa, obscura, profundamente misteriosa e visionária. A sombra do génio recaiu sobre Dark City - Cidade Misteriosa, a concretização máxima de Alex Proyas, potenciando uma intriga absolutamente excitante e plena de suspense e uma experiência esteticamente requintada e avassaladora.

A obra fantasia um mundo falso e manipulado, encerrado numa cidade sem memórias. Os Estranhos, poderosos seres de outra galáxia, enfrentam a extinção e decidem assumir o controlo absoluto do nosso planeta, estudando a existência humana e a sua assombrosa e progressiva evolução. Por isso, à meia-noite em ponto, a cidade pára, os seres humanos caem em sono profundo e os Estranhos, de pálidas faces e fantasmagóricas silhuetas, sintonizam, a partir do submundo urbano, as formas dos prédios e o estado mental dos Homens: experiência após experiência, sem posicionamento crítico ou ético, por pura e imparável curiosidade... qual ciência-deus-ex-machina. À semelhança da sua miserável existência, condenam as cobaias à memória partilhada e por meio do estudo dessas memórias tentam compreender aquilo que faz delas seres únicos.

Inconscientemente, por isso, os seres humanos vivem uma ilusão. Cada vez que acordam podem ser um novo eu. I've been trying to remember things, CLEARLY remember things, from my past, but the more I try to think back, the more it all starts to unravel. None of it seems real. It's like I've just been dreaming this life, and when I finally wake up, I'll be somebody else. Somebody totally different! O controlo é tal que as possibilidades de livre arbítrio e de amar são praticamente nulas, a não ser por meros e fugazes instantes que jamais serão recordados. Todavia, o mistério da vida é imenso, assim como a inteligência dos Homens.

John Murdoch (Rufus Sewell) é um dos raros humanos que, misteriosamente, se revela resistente ao sono, dotado de poderes equiparáveis aos dos aliens e capaz de desafiar as maquiavélicas estratégias dos Estranhos. Desde logo, por isso, começa a ser perseguido. Um outro antes dele, apercebera-se da monstruosa conspiração e da prisão a que estava irremediavelmente condenado e refugiara-se, desde então, sob a máscara da esquizofrenia. John, por sua vez, está destemido a inverter a situação. As incoerências daquela realidade simulada rapidamente lhe suscitam as mais pertinentes questões:

Daylight. When was the last time you remember seeing it? And I'm not talking about some distant, half-forgotten childhood memory, I mean like yesterday. Last week. Can you come up with a single memory? You can't, can you? You know something, I don't think the sun even... exists... in this place. 'Cause I've been up for hours, and hours, and hours, and the night never ends here.

O Dr. Daniel Schreber (Kiefer Sutherland) é humano e trabalha para os desconhecidos. A sua missão é ajudá-los a compreender o grande mistério da vida, por meio dos mais hediondos actos. Porém, jamais deixará de considerar esse comportamento reprovável. Por isso, empreenderá um missão pessoal, secreta e mortal: trair esses malditos cadáveres vigilantes, procurando o tal humano e encorajando-o a lutar pela libertação de toda a espécie humana.

A importância de guardar as memórias reclama, desde logo, um papel fundamental para a definição da identidade individual e do sentido da existência. Imagine a life Alien to yours. In which you memories were not your own, but those shared by every other of you kind. Imagine the torment of such an existence....no experiences to call your own.
Contudo e por fim, o método científico revela-se limitado: I call them the Strangers - diz o Dr. Shreber. - They abducted us and brought us here. This city, everyone in it... is their experiment. They mix and match our memories as they see fit, trying to divine what makes us unique. One day, a man might be an inspector. The next, someone entirely different. When they want to study a murderer, for instance, they simply imprint one of their citizens with a new personality. Arrange a family for him, friends, an entire history... even a lost wallet. Then they observe the results. Will a man, given the history of a killer, continue in that vein? Or are we, in fact, more than the sum of our memories?

You know how I was supposed to feel - profere John. - That person isn't me... never was. You wanted to know what it was about us that made us human. Well, you're not going to find it... - aponta para a cabeça - ...in here. You were looking in the wrong place.

Das reminiscências de Fritz Lang ao imaginário futurista de Blade Runner - Perigo Iminente, Dark City refunde as mais variadas influências. O design de toda a produção (George Liddle, Patrick Tatopoulos, Richard Hobbs e Michelle McGahey) é verdadeiramente extraordinário, contribuindo de forma determinante, a par do excelente trabalho de iluminação e fotografia (Dariusz Wolski, brilhante no deep focus), para a atmosfera enigmática que se adensa sobre o filme, do início ao fim. Também a montagem de Dov Hoenig, rápida e acutilante, se mostra decisiva para o ritmo empolgante e para as cadências hipnotizantes da obra. Os efeitos especiais são notáveis e destaque-se igualmente a banda sonora. A nível do elenco, há que salientar William Hurt, Kiefer Sutherland, Richard O`Brien e Bruce Spence. Alex Proyas dirige toda esta orquestra artística com uma sobriedade invejável. Inspiradíssimo.

Apreciação final? Um filme absolutamente memorável, fascinante e magnetizante.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

IMPERDOÁVEL (1992)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Unforgiven
Realização: Clint Eastwood
Principais Actores: Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman, Richard Harris, Jaimz Woolvett, Saul Rubinek, Frances Fisher, Anna Thomson

Crítica:

O MITO
E A ORIGEM DO MITO

All right, I'm coming out. Any man I see out there, I'm gonna shoot him. Any sumbitch takes a shot at me, I'm not only gonna kill him, but I'm gonna kill his wife, all his friends, and burn his damn house down.
Bill Munny

Em Imperdoável há todo um passado que assombra o presente; o que ecoa e se dimensiona, essencialmente, a dois níveis. Primeiramente, a um nível diegético. Depois, a um nível conceptual, de género.

1. A nível diegético.

A personagem de Clint Eastwood, William Munny, recalca a essência do seu ser assassino na construção de uma vida campestre e pacata, em família e sem whisky. O seu fiel companheiro dos velhos tempos, Ned Logan (Morgan Freeman), também se encontra aposentado; sabendo que consegue acertar no olho de um pássaro em pleno vôo, hesita agora em acertar no alvo. I guess I'd rather be blind and ragged than dead. Little Bill, o cherife desempenhado por Gene Hackman, há muito que renunciou às armas e se reconfortou confiantemente no poder da Lei. Na sua vila, Big Whiskey, não permite qualquer tipo de confronto ou violência e de forma pacífica assume a figura do justiceiro. Serve-se de Bob English (Richard Harris), aliás, para ditar o exemplo. The Schofield Kid, interpretado por Jaimz Woolvett, é o jovem no meio de tantos senhores do western, que, sem noção do que é matar, vive do mito e sonha tornar-se um grande pistoleiro. Será um elemento essencial para o confronto geracional que se estabelecerá e se fortalecerá. Finalmente, o mito e a origem do mito encontram-se... a personagem de Saul Rubinek, o escritor, simboliza a entidade responsável pelo mito: o western virou história em livro e repercute-se em edições - mas num registo fantasioso, com bons e maus e onde a violência não tem consequências morais. Beauchamp vive, como muitos ficcionistas, mais da própria mitologia do que da dura e crua realidade do western. O mito e os demónios do passado persistem e perseguem as personagens até ao último fôlego.

I ain't like that no more. I ain't the same (...) Just 'cause we're goin' on this killing, that don't mean I'm gonna go back to bein' the way I was. I just need the money, get a new start for them youngsters.
Bill Munny

Clint Eastwood mostra-se irrepreensível na direcção de actores; é evidente a sublimidade atingida pelas performances.


2. A nível conceptual, de género.

O argumento de David Web Peoples, de uma qualidade dramatúrgica inegável, permite que o western se confronte a si mesmo, se questione, amadureça e se transforme. A figura do escritor, aliás, configura a mise-en-abyme, através da qual o género se espelha a si mesmo e se auto-critica. É com Imperdoável, pois, que se dá a reconversão da fórmula que definia o género e se emancipam notórias diferenças:

- não há mais romance; a figura da mulher de Munny, por exemplo, é assumidamente fundamental para o filme, embora ausente: note-se a pertinência do prólogo e do epílogo e a carga emotiva que a sua imagem acarreta no dia-a-dia do cowboy. A própria figura feminina, representada pelas prostitutas, desencadeia a trama e assume protagonismo, não sendo mais um mero acessório.
Just because we let them smelly fools ride us like horses don't mean we gotta let 'em brand us like horses. Maybe we ain't nothing but whores but we, by god, we ain't horses.
Strawberry Alice

- não há sentido de espectacularidade no gunplay. A acção desenfreada, as cavalgadas e a gritaria, outrora constantes, perdem o protagonismo para dar lugar à profundidade psicológica dos cowboys; não mais maniqueístas, mas agora vítimas de uma violência imperdoável, angustiados pela consciência que lhes corrompe a alma. A violência emana, mas não mais ao acaso; agora, com conflito moral. Não há mais o matar por matar.

Eis a introspecção e consciência crítica da essência do western. Daí o estatuto especial que o filme de Eastwood tem para a reconfiguração do género: lida com o remorso, faz a catarse e honra a memória como nenhum outro.

I've killed women and children. I've killed everything that walks or crawls at one time or another. And I'm here to kill you, Little Bill, for what you done to Ned.

It's a hell of a thing, killin' a man. Take away all he's got, and all he's ever gonna have.
Bill Munny

Magnificamente fotografado (Jack N. Green) e montado (Joel Cox), Imperdoável reclama autenticidade a cada cena, imerso numa atmosfera histórica de detalhe e bom gosto. Eis, pois, e desta feita assombrado pelo futuro, um clássico absoluto. Magistralmente bem feito.

CINEROAD ©2020 de Roberto Simões