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sábado, 20 de janeiro de 2018

A FANTÁSTICA AVENTURA DO BARÃO (1988)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: The Adventures of Baron Munchausen
Realização: Terry Gilliam
Principais Actores: John Neville, Sarah Polley, Eric Idle, Jack Purvis, Charles McKeown, Winston Dennis, Jonathan Pryce, Uma Thurman, Oliver Reed, Robin Williams, Valentina Cortese, Bill Paterson, Alison Steadman, Peter Jeffrey, Jonathan Pryce

Crítica:

O CIRCO DO ABSURDO

 I always feel rejuvenated by a touch of adventure.

Tente imaginar a série de aventuras mais absurda e tresloucada, a fantasia mais fecunda e imaginativa e a comédia mais disparatada de que há ou poderá haver memória: tudo numa só obra. Sim, esse filme existe, é de 1988 e chama-se A Fantástica Aventura do Barão. Já existiam versões anteriores, mas esta é inteiramente original na abordagem... e não só. É como embarcar num autêntico quadro surrealista em movimento, pleno de personagens quixotescas, rico em plurais paisagens, decórs e artefactos, colorido nas mais delirantes propostas visuais. Seja agarrado a uma bala de canhão voadora ou rasgando os céus num navio de roupa-interior insuflada, seja mergulhando nas escaldantes profundezas do inferno ou nas mais inesperadas e exóticas maravilhas, eis uma autêntica e mágica viagem ao mundo em duas horas, ou pouco mais, e que vira o mundo ao contrário, se preciso for. Absolutamente descomprometida. Hilariante em todos os seus excessos. É, provavelmente, o melhor filme de Terry Gilliam e uma das melhores fantasias a que tive o prazer de assistir.

Não sei como filmes sólidos como rochedos e audazes como heróis podem algum dia cair no esquecimento. Talvez pelo desastre anunciado (que se veio a comprovar por entre guerras de produtores e temerárias convicções artísticas, gestão danosa e custos avultados que não raras as vezes passaram a perna ao génio criativo) e que se manteve qual fantasma após a estreia do filme. Essa aura negativa traduziu-se na falta de confiança dos investidores no seu produto e, por sua vez, num lançamento miserável, catastrófico e desonroso. O filme tornou-se pouco falado e reconhecido, apesar de cada dólar (mesmo os tantos milhões que superaram o orçamento inicial) se verem na tela, a todo o instante.

Apesar do pesadelo das filmagens e de todos os problemas de produção, A Fantástica Aventura do Barão chega-nos como um monumento de liberdade, coragem e de poder inventivo. Bizarro, grotesco e excêntrico, qual protagonista: o memorável Barão Munchausen (brilhante John Neville), sempre acompanhado da sua extraordinária trupe (o Berthold de Erci Idle, o homem mais veloz do mundo, o Albrecht de Winston Dennis, o homem mais forte do mundo, o Adolphus de Charles McKeown, o homem com a visão mais apurada do mundo e o Gustavus de Jack Purvis, o anão com o sopro mais potente do mundo), à qual se junta o incontornável motor de toda a trama: a pequena e ajuizada Sally Salt de Sarah Polley, sempre tão curiosa e destemida, despoletando com um simples sorriso ou com uma mera dúvida a imaginação e a loucura do velho aristocrata, que todos julgam não passar de um pomposo lunático ou de um reles mentiroso. Acontece que... as suas histórias são demasiado fabulosas e inverosímeis para merecerem o respeito das pessoas. Nunca poderão ter acontecido... A verdade é que a cidade está cercada pelos turcos. A guerra traz a fome, a miséria e a destruição ao dia-a-dia das pessoas. Essa é a verdade. Não é tempo de histórias... A fala do lógico e racional Sr. Jackson (Jonathan Pryce) é, por isso e às tantas, por demais simbólica e representativa:

There are rules in life! We cannot fly to the moon. We cannot defy death.
We must face facts, not folly. You don't live in the real world.

A fantasia é sempre ingrata quando a verdade é tão cruel e sangrenta. Mas por isso mesmo o escape que a fantasia proporciona não se iguala a nenhum outro! Ir à lua do sempre rei Robin Williams, onde giram cabeças, ou descer ao purgatório do telúrico Oliver Reed, correr ao harém do sultão, repleto de nudez, tesouros e eunucos e num salto dançar e flutuar com a Vénus de Botticelli, saída da concha, ao som da mais sonante valsa... Isso é que é viver, viver o sonho! É esse o poder da imaginação, das histórias, do cinema! Para Sally, descortinar o mistério e constatar os factos é fundamental e o percurso entre o real e o imaginário - como será para a Alexandria de Um Sonho Encantado - revelar-se-á uma enriquecedora e inesquecível experiência, que a fará certamente manter viva a criança que há dentro dela, por mais anos que passem. A Fantástica Aventura do Barão não é, seguramente, um filme para crianças - às vezes pela complexidade do texto e das cenas, outras pela ironia ou sátira das piadas, às vezes pela violência gráfica ou pelas irreverentes alusões sexuais ou até pelas muitas referências mitológicas ou políticas - mas é seguramente um filme para todos os espectadores que mantêm viva, dentro deles, a criança que um dia foram. Só assim se deslumbrarão com os cenários mais artificiosos (a direcção artística é dos hoje lendários Dante Ferretti e Francesca Lo Schiavo), se encantarão pelas situações menos verosímeis e se entregarão, de coração, ao ridículo, refastelando-se nele, deliciando-se nele. A Fantástica Aventura do Barão é como um festim, que nos despe e nos banqueteia. A cada volta e reviravolta, uma pândega, uma farra e um circo, faustoso e extravagante. Puro gáudio, puro génio artístico. Gilliam é senhor da câmera, visionário, sempre eclético, fluído e inspirado, à frente de uma equipa de excelência. A beleza da fotografia (Giuseppe Rotunno) equipara-se-lhe, transcendente, e a música de Michael Kamen espelha-a, claramente, ao mais alto nível.

A Fantástica Aventura do Barão é-me, pois, um filme perfeitamente incansável, até nas suas apaixonantes imperfeições. O elogio parece cair no exagero, temo, mas cada visualização vem não só confirmá-lo como reforçá-lo indelevelmente. Por mais vezes que o veja, divirto-me sempre a potes, com os mesmos júbilo e excitação com que assistia aos desenhos animados em criança. É tão alucinado, tão contagiante. Julgo que terá o condão de colocar qualquer pessoa bem-disposta, transformado-lhe o dia. É como que um cruzamento entre as mais delirantes viagens de Gulliver, ao Centro da Terra, ao Mundo em 80 dias e as 20 mil léguas de nonsense dos Monty Python. E, verdade seja dita, quanto mais idiota melhor. Um triunfo sem limites. Apetece bradar, com fôlego romântico: isto é que é uma história de verdade!  E já como vendia o trailer, nas imediações da estreia e cheio de graça, trata-se efectivamente de a true story - we've got the film to prove it.

quarta-feira, 22 de março de 2017

AMADEUS (1984)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Amadeus
Realização: Milos Forman
Principais Actores: F. Murray Abraham, Tom Hulce, Elizabeth Berridge, Simon Callow, Roy Dotrice, Christine Ebersold, Jeffrey Jones, Lisabeth Bartlett, Kenny Baker, Charles Kay, Barbara Bryne

Versão do Realizador

Crítica:


A VOZ DE DEUS

I am a vulgar man! But I assure you, my music is not.

Jamais me lembraria de imaginar Mozart - Wolfgang Amadeus Mozart, o génio da música - a envergar uma desconcertante peruca cor-de-rosa, a rir-se que nem uma hiena e a peidar-se que nem uma criança, despudoradamente. Mais difícil seria imaginar-me, seguramente, a adorar uma efabulação biográfica que ousasse retratá-lo dessa forma, sem que a considerasse profundamente ridícula ou demérita. Pois bem, Amadeus executa-a insolitamente, para meu espanto. Para meu espanto e para espanto de meio mundo, a partir de peça original de Peter Shaffer (que também assegurou o argumento e a adaptação). E como adoro o devaneio! A proposta narrativa é de tal modo alucinada, carismática e triunfal que, hoje em dia, fica difícil pensar em Mozart sem ser transportado, imediatamente, para o imaginário criado pelo filme. I am a vulgar man! - admite o músico, a dada cena - But I assure you, my music is not. E, efectivamente, sempre que ouvimos as suas inspiradas e prodigiosas composições, ascendemos ao olimpo dos deuses. E rapidamente perdoamos o seu carácter mais frívolo ou obsceno. Chegamos, inclusive, a apaixonarmo-nos por este delirante Mozart.

O filme, assinado por Milos Forman - que anos antes realizara o inspirador Voando Sobre Um Ninho de Cucos - abre e fecha na ala de um hospício. Mas não tardará a tornar-se faustoso e por demais requintado, frequentando a corte e os seus palácios, os teatros nacionais e festivos bailes de máscaras. A maior parte dos exteriores - e dos interiores - é filmada em Praga, na aura ainda setecentista das suas ruas e dos seus edifícios. Na verdade, muito poucos foram os cenários construídos propositadamente para o filme (precisamente: o apartamento de Mozart e a escadaria adjacente, o teatro do vaudeville, a sala do asilo e não mais do que isso). O certo é que, em todos eles, a direcção artística (Patrizia von Brandenstein e Karel Cerný) mostra-se de um arrojo e de uma exuberância absolutamente invulgares, tão elevados. Desfilam, a todo o instante, grandiosos figurinos (Theodor Pistek), sempre aprimorados por múltiplos folhos e rendas, pelas perucas da moda (todas, claro, à excepção da de Mozart) e por muito pó-de-arroz. Iluminado a luz natural (Miroslav Ondrícek), a viagem no tempo concretiza-se com assaz verosimilhança, fora uma ou outra liberdade fora-de-tempo (como a já referida irreverência e excentricidade do compositor na arte de se apresentar em público), mas que ganha sentido na medida em que aqui se procura retratar que os génios vivem sempre à frente do seu tempo, destacados ou alienados dos demais.

No caso dos génios, aliás, é comum a arte fluir-lhes do espírito, com aparente facilidade, como se fossem possuídos por Deus, como se o talento tudo explicasse, ao contrário dos restantes artistas, que se esforçam por sobressair da mediania. Esta é, no fim de contas, a história de Amadeus: não tanto focada no génio, mas sobretudo na sombra de Salieri (espantoso desempenho de F. Murray Abraham, no papel de uma vida) e na forma como este lida com a frustração de não conseguir, nem por uma vez, ser um criador ao nível de Mozart. A Salieri - o paladino dos medíocres ou, como o próprio diz, their champion (...) their patron saint -, custa-lhe a crer como pode Deus servir os Homems de tão desigual modo. Ainda para mais quando é um homem certinho, politicamente correcto e profundamente religioso e quando Mozart (inesquecível Tom Hulce) não passa de um bon vivant, espalhafatoso e infantil, mulherengo, entregue aos prazeres da carne, aos vícios do álcool e do rapé e que adora divertir-se, sem olhar a gastos - aliás, a sua situação financeira, mesmo depois de casado, pai de filhos e senhor de uma casa, com a fama alcançada na corte e entre os seus pares, é tão desregrada que sucumbe facilmente aos excessos. A dor maior de Salieri é, precisamente, ter consciência da sua limitada qualidade e do simplismo das suas composições, sentindo-se esmagado pelas pautas do rival. Consumido de tal forma pela inveja, não admira que tão atormentada alma acabe no manicómio, até aos seus derradeiros dias. A sua confissão ao padre - e ao espectador - é, provavelmente, o último resquício da sua vitalidade e da sua saúde mental: o assumir, finalmente e em bom tom, para o mundo e para si próprio, a sua paixão pela obra de Mozart: This was a music I'd never heard. Filled with such longing, such unfulfillable longing, it had me trembling. It seemed to me that I was hearing the voice of God.

Cenas memoráveis são mais do que muitas: desde Mozart ainda menino-prodígio a fazer sucesso na corte a Salieri envelhecido (excepcional, o trabalho de caracterização de Dick Smith), amarrado a recordações. Da encenação d'As Bodas de Fígaro a Don Giovanni, d'A Flauta Mágica e da estridente e arrepiante cena da Rainha da Noite à devastadora composição do fúnebre requiem e a cena em que Mozart, já enfermo, febril e debilitado, dita de cabeça a sua música a Salieri... Momentos genuinamente artísticos, alicerçados numa dramaturgia sóbria e que tão bem equilibra a comédia e a tragédia.

A juntar-se a todas estas qualidades, já referidas, a música do génio, omnipresente, que se torna uma verdadeira personagem e cuja alma tudo assombra e transcende. Que forma auspiciosa de levar ao grande público a beleza, a pureza e a magnificência da melhor música clássica. Com o passar dos anos, Amadeus não envelhece numa cena que seja. Se há filmes intemporais, Amadeus é sem dúvida um deles. Da mais disparatada gargalhada à mais lírica ópera que podemos conceber, Amadeus tornou-se, pois, por mérito próprio e cheio de graça, um clássico instantâneo e essencial.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

OS INTOCÁVEIS (1987)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★  
Título Original: The Untouchables
Realização: Brian De Palma
Principais Atores: Kevin Costner, Sean Connery, Charles Martin Smith, Andy Garcia, Robert De Niro, Richard Bradford, Jack Kehoe, Brad Sullivan, Billy Drago, Patricia Clarkson

Crítica:

They pull a knife, you pull a gun.

O INIMIGO PÚBLICO

 He sends one of yours to the hospital, 
you send one of his to the morgue. That's the Chicago way!

Os Intocáveis afigura-se, pelo mérito da reconstituição histórica, como uma verosímil e fascinante viagem no tempo à corrupta Chicago dos anos 30 do século XX, quando - em plena Lei Seca - era despudoradamente manipulada e corrompida pelos mafiosos interesses de Al Capone; esse sim, aparentemente, o verdadeiro intocável, que fez fortuna por intermédio do tráfico ilegal de bebidas alcóolicas. 

Brian De Palma concretiza um glorioso e revigorante filme de gangsters e de luta contra o crime. A sua arte de filmar é notável e as cenas memoráveis multiplicam-se, assim como as personagens apaixonantes. O novato agente federal Eliot Ness (Kevin Costner), depois de humilhado pela imprensa após uma investida mal sucedida, reune pessoal de confiança para tentar caçar, de uma vez por todas, o mayor da cidade: um contabilista esperto e cómico q.b. (Charles Martin Smith), um velho e pragmático chui que há uma vida se conforma com as rondas de rua, Malone (memorável Sean Connery) e um polícia reservado, que dispara bem rápido embora descendente de italianos (Andy Garcia). Ficarão conhecidos como os intocáveis, por jamais cederam a chantagens e a subornos e por lutarem contra o sistema persistentemente. A ousada demanda terá, para muitos deles e como seria de esperar, um preço demasiado elevado, mas levará Capone a tribunal, finalmente. Capone é Robert De Niro, em mais uma daquelas suas extraordinárias performances. O argumento (por David Mamet, extremamente bem construído e doseado) permite-o brilhar, não bastasse o seu talento. Tem cenas e diálogos inesquecíveis: a abertura, enquanto é barbeado, o violento e compulsivo exercício do taco de beisebol, ou os excessos da palavra sempre que se exalta. Na verdade, De Niro tem grandes momentos sempre que aparece.

I want you to get this fuck where he breathes! I want you to find this nancy-boy Eliot Ness, I want him DEAD! I want his family DEAD! I want his house burned to the GROUND! I wanna go there in the middle of the night and I wanna PISS ON HIS ASHES!
Capone

Os cenários são essenciais para a recriação da atmosfera de outros tempos, engenhosamente enquadrados e fotografados (Stephen H. Burum). Muitos deles real locations, como a frente e o hall do hotel que hospedou o infame criminoso, os exteriores na cidade ou a escadaria da estação de comboios na qual assistimos - numa assumida homenagem à cena da escadaria de Odessa d'O Couraçado Potemkin, de Eisenstein - a uma das melhores cenas de todos os tempos: pela montagem (Gerald B. Greenberg, Bill Pankow), pelo slow motion, pela tragédia passível de se abismar, a qualquer instante, sobre aquele inocente bebé do carrinho (símbolo da pureza, no qual Ness revê o próprio filho) ou pela banda sonora, que colabora desde início com excecional encenação. A sonoridade de uma caixa de música, de corda, potencia a tensão necessária para o tiroteio incrível que se segue e que fecha a cena. As determinantes e sonantes composições musicais têm a assinatura de Ennio Morricone (que também musicou esse colossal filme de gangsters que é Era Uma Vez Na América, de Leone). Um dos temas deste magistral Os Intocáveis acaba por principiar aquele que será, no ano seguinte, o tema imortal de Cinema Paradiso. Perceberemos a semelhança, se estivermos minimamente com atenção. Outra das mais empolgantes cenas tem que ver com aquela câmera deambulante pelos corredores do apartamento de Malone, antes do seu sangrento assassinato. Simplesmente, brilhante. Grande momento de cinema. Ou a emboscada na ponte, no momento em que saímos do meio urbano e respiramos no campo, como num western, com direito a cavalgada e tudo. Nota final para o guarda-roupa (a cargo de Marilyn Vance, sendo que muitos dos modelos e figurinos foram desenhados por Giorgio Armani).

Os Intocáveis é ação pulsante, do início ao fim, que funciona como encantamento. Um portentoso clássico. Um triunfo de filme.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O TÚMULO DOS PIRILAMPOS (1988)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★  
Título Original: Hotaru no haka
Realização: Isao Takahata

Filme de Animação

Crítica:

O REFLEXO DA GUERRA

 Porque é que os pirilampos morrem tão cedo?

As consequências da guerra são profundamente trágicas e desoladoras - afirmá-lo chega a ser constrangedor para alguém que - como eu - só sabe da guerra o que viu no cinema, do que dela ouviu falar aqui e ali. Quem nunca a sentiu na pele e na alma é, certamente, alguém mais feliz, que deverá dar valor ao tempo e às circunstâncias privilegiadas em que vive. Pergunto-me, em consciência, quantos filmes terão o poder de nos desarmar e de nos confrontar com a dura e cruel realidade da guerra com a eficácia e a carga dramática deste comovente O Túmulo dos Pirilampos, de Isao Takahata. Não deixa de ser curioso que seja uma animação, quase servida de um neo-realismo improvável, a consegui-lo tão veementemente. 

Talvez por ser uma animação, precisamente, O Túmulo dos Pirilampos apele mais à inocência e à criança que houve em nós e nos convoque a memória e a nostalgia dos anos passados. Lembramos - até por mérito da banda sonora de Michio Mamiya, sempre tão sonante e envolvente - os tempos passados com a nossa irmã ou com o nosso irmão, mais novo ou mais velho. Recordamos aquele sentimento de proteção ou de responsabilidade para com ela ou ele, as horas em que brincámos juntos, que corremos livremente pela praia, um atrás do outro. Por isso, identificamo-nos plenamente com os protagonistas: Seita (um pré-adolescente obrigado a crescer pela força dos acontecimentos) e Setsuko (a pequena desprotegida).

Os bombardeamentos aéreos dos americanos, durante a Segunda Guerra Mundial, enchem o céu de chamas e impõem, em terra, um cenário de miséria e destruição. O pai de ambos está ausente na Marinha (não chegando a responder-lhes às cartas nem por uma vez) e a mãe é brutalmente ferida durante um ataque. Quando acaba por falecer, não resistindo aos ferimentos, os dois irmãos, quais órfãos, são recolhidos por uma tia que os despreza, que lhes vende os bens da mãe e que lhes fica com uma considerável parte do arroz, negando-lhes mais tarde a refeição (uma vez que não trabalham e que, sendo assim, não colaboram para o pagamento das despesas). O egoísmo e a maldade da tia são de tal modo hediondos que chegará a contar à pequena Setsuko - como viremos a descobrir mais tarde - que a mãe morreu, apesar de ter garantido a Seita que a pouparia, para já, ao desgosto. Certo dia, para proteção de ambos e para felicidade da tia, Seita decide-se a partir com a irmã, sem destino determinado, sem sítio para pernoitarem. Acabam por arranjar um abrigo e, a história que se segue, é uma história de dificílima sobrevivência. Do esforço do irmão para divertir a pequenina (já que a seriedade dos acontecimentos lhe retirou o direito de brincar, ao menos que não o retire à irmã), de comprar e de mais tarde roubar escassos alimentos para alimentá-la (a fome e a desidratação acabarão por adoecê-la). A irmã é sempre a prioridade, a coisa mais importante da sua vida e do seu coração. Tudo aquilo que Seita faz por ela, fá-lo porque a ama mais do que a todas as coisas e porque sente que é essa a sua obrigação, de zelar por ela, para que os pais, estejam onde estiveram, fiquem orgulhosos e radiantes com o seu desempenho. De um dia para o outro, Seita torna-se um pai e o desafio é extremo e demasiado para um miúdo da sua idade. Bem que tem esperança durante todo o filme, mas é vencido pela desgraça. Inocentes crianças, que não mereciam tal infortúnio. A situação agrava-se, só se têm a eles e ninguém os ajudará, até porque em tempo de guerra todos precisam de ajuda. A perda e o sofrimento dos inocentes é infame. O desfecho, depreendemos pela abertura, será o mais trágico - muito mais do que fazer o enterro a pirilampos não mais luminosos.

Em termos de virtuosismo da animação, Isao Takahata não chega à qualidade artística e poética do mestre Hayao Myiazaki, é certo. Veja-se que, no mesmo ano, Myiazaki deslumbrava o mundo com o seu maravilhoso e infantil O Meu Vizinho Totoro. Contudo, aquilo que Takahata atinge neste assombroso filme foi coisa que nenhum filme de Myiazaki jamais tentou alcançar, porque são artistas diferentes e a visão deste O Túmulo dos Pirilampos é  singular. Aqui, a animação não é mais a mágica, fantástica e enternecedora animação para crianças, lírica muitas vezes, como é característica dos estúdios Ghibli. É, com uma clarividência notável e assustadora, uma representação da guerra (e das suas consequências) muito mais real e humana do que a de muitas obras cinematográficas até então filmadas em live action. Há sangue, morte e dor em O Túmulo dos Pirilampos, pela experiência e olhar de duas crianças... é, verdadeiramente, a representação plena do fim da inocência. E é tão lúgubre, naturalmente, sem qualquer possibilidade de um final feliz.

Compreende-se, pois, porque O Túmulo dos Pirilampos marcou a história da animação e o coração de muitos espetadores. A sua narrativa, a partir do romance de Akiyuki Nosaka, é a força e a verdade do filme, tanto mais do que os seus méritos visuais. A quem é que, às tantas, o simples acto de chamar pelo irmão, repetidamente - Seita! Seita! Seita! -, não parte o coração? Filme tremendo.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

ÁFRICA MINHA (1985)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Out of Africa
Realização: Sydney Pollack

Principais Actores: Meryl Streep, Robert Redford, Klaus Maria Brandauer, Michael Kitchen, Malick Bowens, Joseph Thiaka, Stephen Kinyanjui, Michael Gough, Suzanna Hamilton, Rachel Kempson, Graham Crowden

Crítica

UMA CANÇÃO DE ÁFRICA

I had a farm in Africa.


África Minha é um magnífico e apaixonante romance, épico no fôlego e na escala  da paisagem, deslumbrantemente captada pela câmera de David Watkin. Pela luz - ou antes, pelas mais variadas luzes do Quénia, que tanto variam consoante o instante do dia, quase que sentimos as diferenças da temperatura, o cheiro da terra, as texturas do verde e do castanho-avermelhado, o poder reinante e pulsante de toda aquela natureza selvagem, em estado puro. Recordar África Minha será sempre imaginar a majestade do amanhecer ou do entardecer, um comboio que rasga as imensas planícies verdejantes, a savana repleta de búfalos, de girafas, elefantes ou perigosos leões, pontuada por altas acácias e bandos de aves que rasgam os céus. Sydney Pollack, dotado de hábil mestria, invoca e perpetua a África do nosso imaginário coletivo, enquanto escutamos a sonante, nostálgica e inesquecível banda sonora de John Barry, plena de sentimento, que tanto glorifica o horizonte como anuncia a tragédia no paraíso.  

If I know a song of Africa, of the giraffe and the African new moon lying on her back, of the plows in the fields and the sweaty faces of the coffee pickers, does Africa know a song of me? Will the air over the plain quiver with a color that I have had on, or the children invent a game in which my name is, or the full moon throw a shadow over the gravel of the drive that was like me, or will the eagles of the Ngong Hills look out for me? 

Talvez por isso uma personagem - verídica - tão persistente e contundente como a dinamarquesa Karen Blixen se encontre a si própria na aventura distante, excitante embora solitária, em que se torna África. Afinal, revela-se uma mulher dotada de inigualável força telúrica, consciente dos seus valores, finalmente liberta dos constrangimentos sociais que a ameaçavam e que quase lhe toldavam espírito e a essência do seu ser. Se há tema maior em todo o filme é o da propriedade ou o da ilusão da propriedade. Karen - só uma atriz como Meryl Streep poderia dar vida a uma personagem tão rica e complexa como esta - casa-se por conveniência e por vontade própria com o irmão do amado não correspondido, seu amigo, com vista a obter o título de baronesa e assim poder partir à aventura, para dar sentido à vida. Ai dos nativos que lhe toquem nos bens, que lhe são tão queridos, que logo os enxotará tão espontaneamente como enxotará, mais tarde, os temidos leões; o que deliciará o desprendido Denys (Robert Redford), tão livre de espírito como de todas as coisas, pelo qual se apaixonará.

O conflito não provém, pois, do adultério da mulher que vive uma paixão proibida. O argumento resolve a questão com uma clareza notável: cruza-se o marido com Denys e transmite-lhe: You could have asked. Denys responde-lhe: I did. She said yes. Não, o marido nunca representou muito mais do que um amigo e do que um pretexto consentido por ambos. Está sempre ausente, desligado do negócio das plantações de café, entre caçadas e mulheres, as mesmas que lhe passam a mortal sífilis que acaba por transmitir a Karen, justificando assim o regresso da protagonista à Dinamarca, para a cura, sensivelmente a meio da trama. O conflito maior não nasce sequer do machismo e ao conservadorismo dos colonialistas, tão insensível e atroz para com os nativos, com os quais se esbate Karen, mal chega ao país e a Nairobi (cidade que a direção artística de Stephen Grimes recriou com a dedicação e o engenho dos técnicos locais, que nada deviam à engenharia). O conflito nasce mesmo dessa relação apaixonada porém contrastante entre a Karen, contadora de histórias, e o misterioso e fascinante Denys. Denys é tudo aquilo que Karen sempre quis ser - absolutamente livre - no entanto é incapaz de se adaptar a alguém como ela, mesmo amando-a, em nome de um ideal, de uma forma de vida inconstante mas tão prazerosa, solitária mas de todos e do mundo.

 I'm with you because I choose to be with you. I don't want to live someone else's idea of how to live. Don't ask me to do that. I don't want to find out one day that I'm at the end of someone else's life. 

É nisto que Karen e Denys não se entendem, se incompatibilizam, preferindo afastar-se um do outro. Karen sonha casar-se; não obstante I won't be closer to you and I won't love you  because of a piece of paper, diz-lhe ele. Ela sonha tê-lo por perto, mais por perto, que ele passe mais tempo com ela, mas só de pensar na ideia de se sentir preso - ou de sentir que pertence a algum lado ou a alguém - Denys já desespera pelo escape. Pena que quando se reencontram e finalmente reconhecem que não têm alternativa senão mudar-se a si próprios a bem da relação dos dois, que o destino seja tão severo e cruel. Nunca mais voarão, juntos, de encontro ao nevado Kilimanjaru, superando todas as fronteiras.

À medida que Karen nos lê as suas memórias e nos relata fervorosamente o seu passado, África Minha assume um indelével tom poético e emocional, de despedida. Partilhamos com ela, a partir das suas palavras, uma mágoa inexplicável, pelas coisas que ficaram por dizer ou fazer, porque não foi possível. Antes dos créditos finais, somos informados que a baronesa nunca mais voltou a África e isso entristece-nos, porque não a imaginamos mais longe da savana, do seu casarão e dos criados que ajudou a escolarizar. A dor de ter pedido Denys ecoou por toda a sua vida.

It's an odd feeling, farewell. There is such envy in it. Men go off to be tested, for courage. And if we're tested at all, it's for patience, for doing without, for how well we can endure loneliness. 


A influência literária da adaptação espelha-se claramente e de forma totalmente intrínseca na criação de Pollack e restante equipa; sobretudo no ritmo demorado, que priveligia o detalhe e o correr dos acontecimentos. Certamente que para os amantes do filme se trata de uma mais-valia, nunca um defeito, que respeita e autentifica a aventura original de Karen Blixen.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

NOVA IORQUE FORA DE HORAS (1985)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: After Hours
Realização: Martin Scorsese
Principais Actores: Griffin Dunne, Rosanna Arquette, Verna Bloom, Tommy Chong, Linda Fiorentino, Teri Garr, John Heard, Cheech Marin, Catherine O'Hara, Dick Miller, Will Patton, Robert Plunket, Bronson Pinchot, Rocco Sisto, Larry Block, Victor Argo, Murray Moston

Crítica:

UMA NOITE DE PESADELO

I want to live.

O Grito
de Munch volta a Scorsese e, com ele, a memória de Taxi Driver. Volta a cidade e a noite e a cidade na noite. Volta o purgatório, a alma perdida, condenada pela rotina do dia-a-dia, dramatizada e denunciada logo nos primeiros minutos pela ária de Bach.

Terminado mais um dia de trabalho, o desejado escape começa... o protagonista deixar-se-á viver livremente, ao sabor das circunstâncias... aos poucos, crescerão o suspense, a tensão e o mistério. O bizarria dos acontecimentos, cada vez mais insólita e desconcertante, far-nos-á desconfiar da veracidade da experiência. Como que num labirinto interminável de ruas soturnas ou semi-iluminadas, aprisionantes e asfixiantes, ora desertas ora repletas de perseguidores, montar-se-á o pesadelo. Um furo na lógica, dissimulado, marca a passagem do drama - sem jamais abandonar a sátira - à derradeira comédia; e como é brilhante, Scorsese, na comédia. Mestre da câmera, aliado à determinante fotografia de Michael Ballhaus e à elevada eficácia narrativa da montagem de Thelma Schoonmaker, flui um dos mais imprevisíveis e inesquecíveis argumentos com que nos podemos cruzar.

After Hours é absolutamente magnetizante.


_______________________________________
Nota especial para o poster, acima apresentado, ajustadíssimo e representativo quanto baste da essência do filme.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

GANDHI (1982)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★
Título Original: Gandhi
Realização: Richard Attenborough
Principais Actores: Ben Kingsley, Candice Bergen, Edward Fox, John Gielgud, Trevor Howard, John Mills, Martin Sheen, Ian Charleson, Athol Fugard, Günther Maria Halmer, Saeed Jaffrey, Geraldine James, Alyque Padamsee, Amrish Puri

Crítica:

SATYAGRAHA:
O CAMINHO DA VERDADE

We must remove untouchability from our hearts and from our lives.

Gandhi
celebra, sobre todas as coisas, a humanidade. A partir da biografia de uma das mais inspiradoras e marcantes personalidades do século XX - diria mesmo de todos os tempos - a de Mahatma (do sânscrito A Grande Alma) Gandhi, concretiza-se a visão épica e a arrebatadora de um cineasta na homenagem maior ao pacifista. Raras são as vezes em que se dá - tão triunfalmente - o casamento entre arte e biopic ou entre arte e História. A escala (por vezes, romântica), combinada com o profundo humanismo, lembra-nos os absolutos de David Lean. Mas a preocupação com o retrato - às vezes cruelmente realista - jamais abandona os intuitos da produção.

Com vinte e poucos anos, recém-formado em direito mas idealista por convicção, Gandhi atravessa a África do Sul e sente na pele a discriminação racial. A humilhante expulsão de um comboio por ser indiano e circular em primeira classe é o ponto de partida do argumento para o despertar da sua consciência social... Cristãos, hindus ou muçulmanos, todos são iguais perante Deus, acredita. A sua luta pela igualdade começa aí, frontalmente, activamente, custe-lhe isso o que custar. A sua irreverência e impertinência começa a inquietar as autoridades, que desde cedo o castigam. Da sua atitude revolucionária, todavia, não advém a mera rebeldia, antes a coragem para fazer o que está certo. O seu nome invade a imprensa. Líder da palavra, pela palavra, pela paz e pela não-violência, a sua luta mostra-se um caminho longo e árduo, mas de plena consciência. Ben Kingsley desempenha o papel de uma vida, dando corpo e alma à personagem. O poder da sua performance reside num olhar, no humilde tom de um discurso ou na sua desarmante expressão corporal. Por mais espectacular que o filme seja, é na simplicidade da interpretação de Kingsley que o filme atinge a sua verdadeira grandeza e, qual Gandhi, conquista a universalidade e a intemporalidade.

Where there's injustice, I always believed in fighting. The question is, do you fight to change things or to punish? For myself, I've found we're all such sinners, we should leave punishment to God. And if we really want to change things, there are better things than derailing trains or slashing someone with a sword.

Regressado à Índia, na altura sobre domínio do Império Britânico, Gandhi abraça desígnios maiores. A missão: a luta de milhões de indianos pela independência. A sua arma, manter-se-á sempre a mesma: a fé e a palavra.

They may torture my body, break my bones, even kill me, then they will have my dead body. Not my obedience!
(...)
Because 100,000 Englishmen simply cannot control 350 million Indians, if those Indians refuse to cooperate.

O filme enche-se de grandes paisagens, de grandes cenários, de grandes multidões. A fotografia capta a pluralidade cultural, as particularidades e as diferenças, as simetrias e assimetrias de uma identidade. No extraordinário trabalho de fotografia, uma paleta de tons quentes, que pactuam com a densidade e intensidade dramática. A cena do massacre de Amristar é assustadoramente impressionante (para além de extremamente bem filmada). A exótica banda sonora de Ravi Shankar emana um indefinível esplendor místico. O vasto elenco, magistralmente dirigido por Attenborough (também ele actor) compõe um quadro de excelência. Depois há Kingsley e a aura eterna de Gandhi: do retiro espiritual à meditação, das palestras aos protestos e às marchas pelo país, das sucessivas prisões às greves de fome... custa a acreditar que tenha existido um homem assim, que tenha vivido a sua própria mensagem e filosofia, que tenha alcançado os feitos que alcançou da forma como os alcançou. Generations to come will scarce believe that such a one as this ever in flesh and blood walked upon this earth, disse Albert Einstein. Gandhi é um exemplo máximo, um ícone incontornável, com o qual temos todos muito a aprender. É, em toda a sua essência, absolutamente fascinante. Consegue a liberdade e a independência, por fim, mobilizando toda uma nação.

Vince Walker: You're an ambitious man, Mr. Gandhi.
Gandhi: I hope not.

A obra tem uma longa duração, mas nenhum minuto é em vão. Desde o deslumbrante plano de abertura ao mais trágico desfecho, são pouco mais de três horas de um filme verdadeiramente emocionante e derradeiramente inesquecível.

domingo, 18 de agosto de 2013

A VIDA É UM ROMANCE (1983)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: La Vie Est Un Roman
Realização: Alain Resnais
Principais Actores: Vittorio Gassman, Ruggero Raimondi, Geraldine Chaplin, Fanny Ardant, Pierre Arditi, Sabine Azéma, Robert Manuel, Martine Kelly, Samson Fainsilber, Véronique Silver, André Dussollier, Guillaume Boisseau, Sabine Thomas, Bernard-Pierre Donnadieu, Rodolphe Schacher

Crítica:

O TEMPLO DA FELICIDADE

Ça, ce n'est pas de l'architecture, c'est de la pâtisserie.

Se há coisa que o cinema de Resnais é e representa é a liberdade. A Vida É Um Romance é, por isso, mais um devaneio criativo, em estado bruto, no seu percurso.

Uma ode à imaginação sem limites, que cruza os mais variados géneros e registos numa narrativa multifacetada e dificilmente acessível: um só espaço (o onírico castelo na floresta de Ardennes, o templo) e três tempos diegéticos: a viagem ao passado (em 1914 e depois na década de 20, quando o edifício é palco para a mais utópica e hedionda experiência de humanidade, o recomeço, o renascimento), o presente (década de 80, quando o castelo, feito colégio, é local para debater e filosofar a educação da sociedade) e ainda um tempo indeterminado mas aparentemente medieval - seguramente fantástico - onde o cenário é pontuado por ilustrações e sonhado por crianças. Reina, em cada um deles, a estranheza e a incompreensão no ensaio da vida. Da mistura dos três jamais poderia resultar, pois, um filme que não fosse alucinado quanto baste, mas aberto às mais variadas interpretações, tanto estéticas como temáticas. Sabine Azéma, Geraldine Chaplin e Vittorio Gassman destacam-se, pelas suas interpretações, deste excêntrico e desconcertante festival artístico.

Poderá a vida ser perfeita? O título lança a discussão e o filme em si alimenta o quebra-cabeças. É preciso ser adulto para querer compreender o filme, mas é essencial vê-lo com olhos de criança para poder entendê-lo ou, quando menos, para poder aceitá-lo. É por isso que assistir a A Vida É Um Romance, assim como a outros de Resnais, pode resultar numa experiência tão frustrante quanto fascinante. Se a felicidade é uma fantasia, então só as crianças entram no castelo; só elas detêm a chave da inocência. A fortaleza dos adultos está, irreversivelmente, arruinada. A utopia está no templo, que só é possível em maquetes. O regresso ao castelo é apenas possível pela imaginação. Neste sentido, a felicidade só é alcançável se vivermos a vida como se fosse um romance, como se fosse um pedaço de arte. De outro modo, a felicidade não existe e a vida não tem significado.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

AS ASAS DO DESEJO (1987)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★
Título Original: Der Himmel über Berlin
Realização: Wim Wenders
Principais Actores: Bruno Ganz, Peter Falk, Solveig Dommartin, Otto Sander, Curt Bois, Hans Martin Stier, Elmar Wilms, Sigurd Rachman, Beatrice Manowski, Lajos Kovács,

Crítica:

A CIDADE DOS ANJOS


Als das Kind Kind war,
wußte es nicht, daß es Kind war...

As Asas do Desejo, obra-prima de Wim Wenders, imortaliza o encontro entre o humano e o divino, entre a dimensão terrena, efémera e material, e a eternidade jamais palpável. Entre o físico e o metafísico, entre a vida e a morte, o espectro romântico e esotérico de uma narrativa profundamente melancólica, depressiva, reflexiva e metafórica; Peter Handke, juntamente com o realizador, concebeu um argumento assaz poético e eloquente, fantasioso, mas absolutamente lúcido, mergulhado em existencialismo. De uma beleza transcendente, a fotografia de Henri Alekan pinta rasgos de genialidade, desde o preto e branco imaculado ao mais apurado sentido estético da cor e da composição dos planos. A religiosidade da banda sonora de Jürgen Knieper convoca, a cada compasso, uma experiência mística, derradeiramente perturbante e desoladora. No seu todo, As Asas do Desejo constitui uma autêntica celebração da arte, do cinema e da vida - a vida como privilégio.

Sobre os céus da Berlim ferida pela guerra, sobre os prédios e os monumentos, vagueiam anjos, intocáveis e invisíveis aos mortais, quais almas perdidas - somente algumas crianças os reconhecem e identificam, tomadas pela inocência. Desvanecem-se as asas, inicialmente, para que identifiquemos na transparência a simultaneidade deste mundo paralelo. Têm forma humana e vestem gabardinas, mas raramente comunicam entre si. Deambulam num silêncio lúgubre. Ouvem as angústias e os pensamentos mais secretos das pessoas e invejam a sua condição (conhecemos as personagens, essencialmente, através dos seus pensamentos). São seres condenados à solidão e ao infinito do tempo. Não sentem calor nem frio nem dor, não sentem o peso pois são mais leves do que uma pena, é-lhes impossível o toque. São voyeurs em eterna contemplação da humanidade.

Als das Kind Kind war,
war es die Zeit der folgenden Fragen:
Warum bin ich ich und warum nicht du?
Warum bin ich hier und warum nicht dort?
Wann begann die Zeit und wo endet der Raum?
Ist das Leben unter der Sonne nicht bloß ein Traum?
Ist was ich sehe und höre und rieche
nicht bloß der Schein einer Welt vor der Welt?
Gibt es tatsächlich das Böse und Leute,
die wirklich die Bösen sind?
Wie kann es sein, daß ich, der ich bin,
bevor ich wurde, nicht war,
und daß einmal ich, der ich bin,
nicht mehr der ich bin, sein werde?

Sob a influência dos poemas de Rilke, o argumento recupera os anjos Damiel e Cassiel. Certa vez, contudo, Damiel (Bruno Ganz, num papel memorável) apaixona-se por uma trapezista circense e o seu destino altera-se para sempre. O storytelling desenvolve-se envolvente, intrigante, num lirismo sensível e hipnotizante. A cadência da montagem (ou da ausência dela, por vezes) contribui decisivamente para o ritmo irregular, tendencialmente lento e moroso, assim como alguns diálogos. A elegância da filmagem impera. Wenders domina as mais variadas técnicas: planos-sequência, travellings e os mais virtuosos movimentos de câmera; nós, espectadores, somos como que embalados neste ritual encantatório. Qual Muro de Berlim, que na cor dos seus graffitis separa duas dimensões de um só mundo, também As Asas do Desejo é sobre uma barreira entre a realidade que conhecemos e o além etéreo. O Muro, para lá das conotações políticas, simboliza o obstáculo a transpor. Não é por acaso, pois, que a metamorfose de Damiel (e do próprio filme) se dá em frente ao Muro. A mudança acontece, Damiel ganha a vida e o filme ganha, definitivamente, cor. Dos céus traz uma armadura, como na mitologia, para o princípio da existência mundana.

Na cidade, a vida moderna, a publicidade e o product placement a cada esquina (abundam as marcas de tabaco e de automóveis), mas especialmente a beleza na arte: no circo, no concerto de Nick Cave, no cinema. Por meio da mise en abyme - o cinema dentro do cinema - a contextualização e a representação de um passado histórico, o fantasma do holocausto. Peter Falk, o actor, magnetiza-nos a atenção na interacção aparentemente alucinada com o vazio. Revela-se, por fim, também ele, um anjo caído.

E logo depois do Fortsetzung folgt, a dedicatória da obra a todos os anjos antigos, mas sobretudo a Yasujiro, François e Andrej. Não são eles senão Ozu, Truffaut e Tarkovsky, respectivamente. Segundo James Kendrick, we can see [nesta assombrosa obra de Wenders] traces of Ozu’s quiet elegance and humanism, Truffaut’s romanticism, and Tarkovsky’s obsession with the interrelations of time and space and history (Cf. aqui). Revejo-me inteiramente na sua afirmação.

Por tudo isto e tanto, tanto mais, As Asas do Desejo é uma obra que parece vislumbrar, a cada instante, a perfeição. Um sublime e incontornável pedaço de cinema, tão ousado na estética como prodigioso em memória.

Als das Kind Kind war,
wußte es nicht, daß es Kind war
alles war ihm beseelt,
und alle Seelen waren eins.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO (1988)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Last Temptation of Christ
Realização: Martin Scorsese
Principais Actores: Willem Dafoe, Harvey Keitel, Paul Greco, Steve Shill, Verna Bloom, Barbara Hershey, Roberts Blossom, Barry Miller, Gary Basaraba, Irvin Kershner, Victor Argo, Michael Been, Paul Herman, John Lurie, Leo Burmester

Crítica:

O CRISTO PROIBIDO

I am the saint of blasphemy.

Depois de dezenas de representações de Cristo no cinema, todas mais ou menos consensuais (se não tivermos em conta, sobretudo, a versão superstar), eis que nos deparamos com aquela que será, porventura, uma das mais chocantes, ousadas e irreverentes. A partir do romance Nikos Kazantzakis, livremente baseado nas segradas escrituras, A Última Tentação de Cristo propõe-nos um retrato polémico e controverso, onde Jesus, mais do que o messias divinizado que os textos eternizaram, nos surge finalmente como um homem - um homem agoniado pelos seus conflitos interiores, duvidando da sua fé e da sua missão, sentindo o medo, o ódio e a culpa e desejando o pecado da carne como qualquer outro homem. Um homem dotado de livre arbítrio que, em última instância, se eternizou por vontade própria.


Father, will you listen to me? Are you still there? Will you listen to a selfish, unfaithful son? I fought you when you called, I resisted! I thought of no more. I didn't want to be your son! Can you forgive me?

A representação, pouco ortodoxa, atentará facilmente contra os mais devotos, mas é somente mais uma representação (que responde, claro está, a uma necessidade contemporânea de humanizar e desmistificar a figura histórica de Cristo). A questão é pertinente: se lembrarmos a alucinação de Cristo às portas da morte (que por si só justifica o título da obra), recordar-nos-emos daquela emblemática cena em que Jesus reencontra o cego-alvo-de-milagre a espalhar a palavra e a retratar o Filho de Deus, sendo que o próprio Filho de Deus não se revê nas suas palavras. Até que ponto não terão romanceado, os evangelhos, a vida e a palavra de Cristo, atendendo aos mais variados propósitos?



I'm a liar. A hypocrite. I'm afraid of everything. I never tell the truth. I don't have the courage. When I see a woman, I blush and look away. But inside I have lust. For God, I smother the lust, and that satisfies my pride. But my pride destroys Magdalene. I never steal or fight, or kill... not because I don't want to but because I'm afraid. I want to rebel against everything, everybody... against God!... but I'm afraid. If you look inside me you see fear, that's all. Fear is my mother, my father, my God.

O argumento Paul Schrader suscita um questionamento contínuo e uma reflexão profunda sobre a natureza das crenças instaladas, particularmente sobre as religiões cristãs. O twist final eleva, num cúmulo criativo, toda esta mensagem do filme. Enfim, grande exercício dramatúrgico, magistralmente filmado por Scorsese. Willem Dafoe compõe um Cristo memorável, em toda a complexidade que o papel exigia.
Peter Gabriel experimenta-nos as emoções, pela inspiração da música. A produção artística, dos cenários ao guarda-roupa, confere autenticidade à viagem no tempo e a fotografia de Michael Ballhaus perpetua a aridez do deserto na solidão da alma.


Mais um exemplo da versatilidade e da qualidade do cinema de Scorsese.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

A MOSCA (1986)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
Título Original: The Fly
Realização: David Cronenberg
Principais Actores: Jeff Goldblum, Geena Davis, John Getz, Joy Boushel, Leslie Carlson, George Chuvalo, Michael Copeman, David Cronenberg, Carol Lazare, Shawn Hewitt
Crítica: A Bela e o Monstro, as consequências éticas das mais tresloucadas ou criativas experiências científicas, a degeneração moral e a identidade humana, o entretenimento e o terror - não tanto o psicológico, mais o físico, pelo nojo. Eleva-se na mediania pela equilibrada e sustentada construção do drama humano, claramente superior aos devaneios fantasiosos da caracterização e da premissa.

sexta-feira, 18 de março de 2011

KIKI, A APRENDIZ DE FEITICEIRA (1989)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Majo no takkyûbin
Realização: Hayao Miyazaki


Filme de Animação

Crítica: Uma jovem e insegura bruxinha, sempre acompanhada da sua vassoura voadora e do seu gato preto, cujo talento é ajudar os outros. No mais apurado e colorido requinte visual, Miyazaki conta-nos mais uma das suas adoráveis fábulas sobre bondade e inocência, plenas de esperança na humanidade. Do campo vs. cidade ao eterno fascínio do homem pelo vôo, a descoberta da amizade e a afirmação da essência individual. Lindo filme.

domingo, 13 de março de 2011

NAUSICAÄ DO VALE DO VENTO (1984)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Kaze no tani no Naushika
Realização: Hayao Miyazaki


Filme de Animação

Ainda que sem o prodígio técnico das mais recentes obras do cineasta, um épico belíssimo e muito bem construído, com personagens sólidas e com um argumento poderosíssimo, da maior consciência ecológica.
[Crítica em espera]

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

CARAVAGGIO (1986)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Caravaggio
Realização: Derek Jarman

Principais Actores: Nigel Terry, Noam Almaz, Dawn Archibald, Sean Bean, Jack Birkett, Sadie Corre, Una Brandon-Jones, Imogen Claire, Robbie Coltrane, Garry Cooper, Lol Coxhill, Nigel Davenport, Vernon Dobtcheff, Terry Downes

Crítica:


A PAIXÃO PELA ARTE

The process of painting is my knife!

No seu leito de morte, um genial artista espera o último suspiro. Como companhia, sempre prestável, o jovem e formoso Jerusaleme. Entre os devaneios da febre, as recordações de uma vida plena de prazeres, excessos e paixões. Depois, com uma eloquência melódica e poética, marcadamente irreverente e homoerótica, brota a narração do próprio - Michelangelo Merisi da Caravaggio - que acompanhará os mais variados flashbacks, por meio dos quais serão recriados alguns dos mais conhecidos e mitificados episódios da sua vida pessoal e artística.

A proposta biográfica de Derek Jarman é brilhante e desconcertantemente livre, ousada e criativa, nomeadamente pelo mérito legítimo das anacronias (uma máquina de escrever, um carro, uma calculadora, lâmpadas eléctricas coloridas, etc.) que vêm quebrar o efeito de mimesis e a verossimilhança do retrato histórico (de uma autenticidade em parte potenciada pela direcção artística de Christopher Hobbs e Michael Buchanan e pelo primoroso guarda-roupa de Sandy Powell), anunciando a experiência moderna da arte pela arte.

O fascinante exercício de estilo passa igualmente pela encenação de algumas das mais famosas obras do pintor, com actores de carne e osso. Jarman e o seu director de fotografia, Gabriel Beristain, transportam o tenebrismo ou o chiaroscuro directamente para a tela cinematográfica, recriando criteriosamente as luzes, as cores e a atmosfera dos feitos barrocos. Cativante e deslumbrante, o tremendo lirismo visual alcançado. Os modelos, quais estátuas perfeitamente esculpidas, ostentam as suas poses com elegância e sensualidade, concretizando impressionantes quadros vivos, semelhantes àqueles que terão inspirado o renascentista. A homenagem maior de Jarman ao seu herói, creio, reside nesta encenação dos quadros vivos. Se repararmos bem, até as telas que Nigel Terry (Caravaggio em adulto) pincela não têm, de todo, o traço de Caravaggio. Tudo é criatividade em estado puro, pelas mãos de Jarman e da sua equipa. Não poucas são as vezes em que a montagem de George Akers, por exemplo, determina e influencia os ritmos narrativos. É um trabalho deveras excepcional. A câmera, por sua vez, numa fluidez sempre precisa e apaixonada, eleva o conceito proposto ao máximo requinte.

Da infância e juventude à idade adulta, os saltos temporais dão conta da efeverscência do carácter do pintor e do talento que, desde tenra idade, se manifestou. Tendo eclesiásticos como patronos, finalmente, Caravaggio abandonou os temas da herança clássica (Pequeno Baco Doente, 1593-94) ou da natureza morta (Rapaz Levando Cesta de Frutas, 1593-94) e dedicou-se ao aspecto mundano da cena bíblica e sagrada; neste campo, inúmeros quadros foram interpretados, destaco três: A Madalena Arrependida, 1596-97, O Martírio de São Mateus, 1599-1600 e A Morte da Virgem, 1606. É durante a concepção destas três magistrais pinturas que a narrativa avança no ménage à trois, com a introdução do apolíneo Ranuccio (Sean Bean) e da prostituta Lena (Tilda Swinton). Caravaggio, é sabido, cedeu repetidamente aos seus apetites carnais, libidinosos e bissexuais com muitos destes seus modelos, gente devassa e de baixa estirpe social, que serviram de musas às figuras sagradas que, desde então, foram escandalosamente cultuadas pela Igreja. Ranuccio e Lena foram seus amantes, pagos a ouro. Entre eles, o desejo, o interesse e o ciúme que levou às mais trágicas consequências. Grandes papéis, os desempenhados pelo trio de actores.

Tão complexo quanto enigmático, Caravaggio revela-se, pois - mais do que um biopic original e arrojado - um prodigioso pedaço de arte.

sábado, 22 de janeiro de 2011

O MEU VIZINHO TOTORO (1988)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Tonari no Totoro
Realização: Hayao Miyazaki

Filme de Animação


Crítica:

A MAGIA DE SER CRIANÇA


Se há obra sobre a infância e durante a qual me vejo a regressar nostalgicamente ao passado, essa obra é O Meu Vizinho Totoro, realizada por Hayao Miyazaki. Creio, francamente, que o aclamado mestre da animação japonesa concebeu, ao longo da sua carreira, obras tecnicamente superiores a esta; veja-se, por exemplo, O Castelo no Céu, Princesa Mononoke ou A Viagem de Chihiro; cada título mais belo do que o outro. No entanto, acredito que a virtude maior de Totoro é o seu âmago narrativo, deveras especial, pelo qual se distingue dos demais. Aqui não há vilões, não há maldade, não há intriga ou trama propriamente dita ou uma história com princípio, meio e fim, no sentido convencional da expressão. A aquarela, de um esplendor visual arrebatador e absolutamente fascinante, floresce, a um ritmo tão calmo, a partir das situações do dia-a-dia, da espontaneidade das circunstâncias, até que ganha riqueza e complexidade semântica e interpretativa com a fertilidade do imaginário infantil.

A história de
O Meu Vizinho Totoro inicia-se com a mudança da família Kusakabe para o campo, entre prados verdejantes, águas cristalinas e uma floresta misteriosa, por causa da recente hospitalização da mãe na proximidade. As irmãs Mei (a mais nova) e Satsuki (a mais velha) viajam com o pai, muito animadas, até que chegam a uma casa aparentemente assombrada e a sua criativa imaginação desperta. Fantasmas, acreditam. A exploração da casa e dos arredores torna-se facilmente uma aventura, onde a magia despontará até das bolinhas pretas da fuligem: espíritos da floresta, místicos rituais, um gato-autocarro, e um trio de animais tão fofinhos quanto monstruosos, que facilmente poderia comparar a bonecas russas, caso estas mudassem de forma. Entre eles, o gigante e caricato Totoro. Só as crianças podem ver estas incríveis maravilhas - as crianças são, afinal, seres privilegiados. A possível morte da mãe e necessidade de assumir responsabilidades (inerentes ao crescimento) são os únicos factores que põem à prova a alegria e a união da família; a família que, ela própria, nos é apresentada como um elemento fundamental na vida e no equilíbrio dos homens. Notável, aquela simples cena em que pai e filhas tomam banho nus com a maior naturalidade do mundo. Quem se lembraria de inventar uma cena destas para um filme tão marcadamente infantil? Lá está, que pureza. E que delicadeza, aquela que Miyazaki aplica no manejar das emoções entre as personagens. Que sensibilidade.

O deslumbramento do espectador faz-se frame a frame e cada frame é, com o devido primor e requinte, pintado à mão. A banda sonora de Joe Hisaishi é qualquer coisa de extraordinário: há melodias divertidas, outras emocionantes e envolventes, umas emanam saudade... todas emanam vitalidade. Magistrais composições.

No seu todo, O Meu Vizinho Totoro não é senão o regresso à pureza original, onde há bondade e segurança ao virar das esquina, e à verdadeira idade da inocência, onde abunda a felicidade plena. Um milagre de filme. Fabuloso.

CINEROAD ©2020 de Roberto Simões