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domingo, 12 de setembro de 2010

AGUENTA-TE, CANALHA (1971)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Giù la Testa
Realização: Sergio Leone
Principais Actores: James Coburn, Rod Steiger, Maria Monti, Rik Battaglia, Franco Graziosi, Romolo Valli, Domingo Antoine, Antoine Saint-John, Vivienne Chandler, David Warbeck, Giulio Battiferri

Crítica:

ERA UMA VEZ A REVOLUÇÃO

A revolution is not a social dinner, a literary event, a drawing on an embroidery; it cannot be done with elegance and courtesy.
The revolution is an act of violence.

Mao Tse-tung

México, 1913. Antes da dinamite, uma intensa e espumante chuva de mijo; a abrir o filme, indesperadamente, provocando o caos numa comunidade de formigas, aparentemente pacata. Chom, chom!... Chom, chom!... Sacode-se o instrumento, sacodem-se os pés sujos e descalços, empoeirados pela aridez da paisagem, fecha-se a braguilha. Rosto barbudo e anafado, tez suada e cozida pelo sol, um chapéu a condizer com o fato grosseiro e miserável. Chom, chom, chom!... Está apresentado o protagonista do filme.

Ressoa um estrondo de arma, Juan Miranda vislumbra ao longe uma veloz e apetecível carruagem, que se aproxima. Quando a caravana passa por ele, chicoteada sobre oito cavalos, Juan faz-lhe sinal. A princípio, parece ignorá-lo, oferecendo-lhe o desprezo condizente com o seu aspecto - desprezível. Todavia, pára mais à frente e o vagabundo corre para ela: Señor! Señor! Señor! Pede boleia para San Felipe, com a melhor das desculpas: my mother is dead! Um dos condutores da carruagem diz-lhe que vá a pé, enquanto aperta as correias dos animais. Mas enfim, nada que uma notinha não resolva, $$$$$, não é verdade? Chom, chom!... Chom, chom!... Antes de entrar, é revistado, não vá tratar-se de um desses bandidos ou assassinos que fazem esperas no deserto. No entanto, encontram-lhe apenas uma... meia-sandes, que fazem questão de atirar para o chão e a qual Juan se recusa a desperdiçar, recuperando-a rapidamente.

Já no interior do veículo, segue a viagem, depara-se com gente da alta sociedade, toda muito elegante e requintada, que o olha de alto a baixo, dando depois continuidade à sua conversa chata e racista. O silêncio é tanto de cortar à faca... como de rir às gargalhadas. A situação até que é séria, mas com uma personagem tão simples e desajeitada como Juan, sempre a coçar-se por todos os lados, e com uma encenação plena de ironia como a de Sergio Leone, é completamente impossível. Aguenta-te, Canalha é simplesmente notável enquanto comédia.

A seguir, que montagem extraordinária, assinada por Nino Baragli: faces, bocas, olhos, faces, bocas, olhos... bocas, olhos, bocas, olhos, bocas, olhos; uma brilhante sequência de extremos e obssessivos zooms e close-ups, invocando a boa memória de A Greve (1925), de Eisenstein, enquanto os ricaços degustam uma saborosa e variada refeição e Juan quase boceja. Mas a monotonia não dura para sempre.

Mais à frente, a carruagem cruza-se com um bando de pistoleiros ladrões e o tiroteio começa. Quem são, quem são, esses espalhafatosos foras-da-lei? O Papa, Chulo e os outros chulitos! Que é como que diz, o suposto pai de Juan e os seus seis filhos, todos eles de mães diferentes! Chom, chom, chom!... Está apresentada a família do hilariante Juan Miranda, pela qual nos apaixonamos, desde logo, e que rapidamente fuzila ou desnuda os viajantes, atirando-os por fim aos porcos e assumindo a posse de todos os seus bens.

Logo depois, é-nos apresentada a personagem de James Coburn, o enigmático John H. Mallory. Irlandês, de poucas palavras mas de farto bigode e fumador de charutos, é um profundo amante da revolução e um adepto absoluto da dinamite. I used to believe in many things, all of it! Now, I believe only in dynamite. O forasteiro viaja tranquilo e seguro da si na sua motocicleta, quando as balas de Juan o abordam. Ardiloso, o estrangeiro não tarda em surpreender tudo e todos com as suas artes mágicas, possantemente explosivas. É por esses instantes que a Juan lhe ocorre: que bando implacável formariam, se John se juntasse à família! John e Juan, os dois, a assaltarem bancos até à América. Nem que lhe torne a furar os pneus uma e outra vez, terá que conseguir tamanho elemento para a sua estirpe de bandoleiros! Perante tão lucrativa ideia, Leone chega mesmo a colocar um letreiro imaginário sobre a cabeça do irlandês, dizendo: Banco Internacional de Mesa Verde! $$$$$! Chom, chom!... Chom, chom!...

 ... the most beautiful, wonderful, fantastic, gorgeous, magnificent bank in the whole world! When you stand before the bank and you see it has the gates of gold, like it was the gates of heaven. And when you go inside, everything, everything is gold! Gold spittoons, gold handles, and money, money, money is everywhere. And you know, I know 'cause I saw this when I was eight years old. I went there with my father. He tried to rob the bank, but they caught him. (...) Listen, Firecracker. Now you listen to me. Listen, why don't you come with me, eh? And we will work together and we will become rich!
Juan Miranda

John, contudo, não está minimamente interessado na parceria. Está no México com outros intuitos. Sempre que pode, por isso, esquiva-se e evapora-se. Nem desconfia o mexicano que está perante um terrorista fortemente procurado, pelo qual o governo inglês oferece a aliciante quantia de 300 libras! $$$$$! Quem é, afinal, John Mallory? Noutros tempos, fora um activista revolucionário no seu país. Os constantes flashbacks ao longo de toda a obra dão conta de um passado feliz, ao qual nunca mais voltou nem nunca mais poderá voltar. As revoluções, afinal, têm consequências irreversíveis.

John Mallory: Oh, we fought a revolution in Ireland.
Juan Miranda: A revolution? Seems to me the revolutions are all over the world. You know, they're like the crabs! We had a revolution here. When it started, all the brave people went in it, and what it did to them was terrible. Pancho Villa, the best bandit chief in the world, you know that? This man had two balls like the bull. He went in the revolution as a great bandit. When he came out, he came out as what? Nothing. A general, huh? That, to me, is the bullshit!

Sempre que se separam, o destino volta a reuni-los. A acção é pausada, ao melhor estilo de Leone, mas os encontros são explosivos. Duck, you sucker! Com o tempo, John envolve Juan na grande conspiração revolucionária do México - tierra y libertad! - tornando-o num herói aclamado pelo povo!

Where there's revolution there's confusion and when there's confusion a man who knows what he wants stands a good chance of getting it.
John Mallory

Desde a libertação dos presos ao assalto ao comboio, a missão torna-se cada vez mais arriscada e perigosa e a comédia dá lugar ao drama, à reflexão sobre a violência, sobre a revolução e sobre as suas consequências. A pólvora é uma invenção mortal e até o maior dos bandidos tem coração, quando a tragédia bate à sua porta, dizimando os seus entes mais queridos. A contemplação dos mortos e o desolamento esbatido no rosto de Juan é assombroso. Quantos não são os sacrifícios pessoais que não se seguirão em nome da causa. A banda sonora de Ennio Morricone (numa nova cooperação com Leone e uma vez mais fascinante, irreverente e singular) torna-se mais lírica e finalmente soa, com sotaque certeiro: - não o chom... chom... chom!, mas o - sean... sean... sean!

A câmera de Leone é implacável, magistral. Como as suas obras beneficiam dessa arte verdadeiramente destemida, audaciosa e, em última instância, sublime de saber filmar. As interpretações dos actores são tão carismáticas como as de O Bom, O Mau e O Vilão ou de Aconteceu no Oeste, tanto James Coburn como Rod Steiger agarram os seus papéis com especial dedicação, contribuindo eficazmente para o triunfo e sucesso da obra.

Depois, o entretenimento puro volta à carga, pondo fim à melancolia. E como? Com a queda de um cocó, na tola do mexicano. Chom, chom!... Chom, chom!... A dupla John e Juan avança para a concretização do plano final e a irrepreensível técnica do cineasta manifesta-se a cada compasso. O choque frontal dos comboios é impressionante. Quando os créditos assumem o ecrã, apetece-nos gritar: Raios! O filme é mesmo bom! Mas só cantarolamos, repetidamente: Chom, chom, chom!...

Grande, grande filme. Absolutamente memorável.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

STALKER (1979)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Сталкер / Stalker
Realização: Andrei Tarkovsky
Principais Actores: Aleksandr Kaidanovsky, Alisa Frejndlikh, Anatoli Solonitsyn, Nikolai Grinko, Natasha Abramova, Faime Jurno, Ye. Kostin, R. Rendi

Crítica:

O PURGATÓRIO DA EXISTÊNCIA

O milagre está fora do empírico.
Escritor

I

O que é e o que representa - enquanto objecto artístico - uma assustadora obra-prima como Stalker? Um mero devaneio poético e filosófico, ainda que inteiramente profundo e genial? Uma tremenda e inquietante distopia sobre a incomensurabilidade do ser? Uma intrigante alegoria política, crítica aos responsáveis pelo caos da realidade alucinada, o desenvolvimento industrial e o capitalismo selvagem? Um pesadelo, uma expiação de fantasmas de guerra, um advento apocalíptico? Uma incessante e hipnótica metáfora freudiana, para além das fronteiras do consciente, subconsciente e inconsciente? Um visionário e tenebroso labirinto de contemplação, reflexão e interrogação, ainda que às tantas assombrado pelo niilismo, acerca da natureza e da existência humana, acerca dos desejos, dos medos e da eterna busca de uma verdade absoluta e inatingível? Um ensaio sobre a fé, sobre a presença ou a ausência de Deus? A concretização da unidade aristotélica - uma só acção, um só espaço, um só tempo? Um tratado sobre a beleza intemporal das coisas?

II

Num lugar e num tempo indeterminados, a especulável queda de um meteorito condenou a existência humana à contaminação. As tropas e autoridades delimitaram e cercaram logo a região, denominando-a A Zona e interditando-a a qualquer indivíduo. Estima-se que A Zona detenha propriedades estranhas, misteriosas e sobrenaturais. Fala-se que n'Ela existe um Quarto onde todos os desejos se concretizam... e as enigmáticas possibilidades dessa lenda rapidamente fascinaram os sofridos da cidade mais próxima, que entre destroços e ruínas habitam.

A obra inicia-se, passados os créditos, num sépia de bronze, não só requintado como imaculado. A mise-en-scène é minuciosa, a iluminação acautelada ao pormenor e a fotografia (Aleksandr Knyazhinsky, Georgi Rerberg, Leonid Kalashnikov) brilha em todo o seu máximo esplendor. Iniciam-se os takes longos, lentos, envolventes. Para além da porta, o lar de uma família. Três: Stalker (Aleksandr Kajdanovsky), a sua mulher (Alisa Frejndlikh) e a sua filha. O drama: a mulher vive, constantemente, a solidão com uma filha deficiente e apática do mundo. A atmosfera é de desespero e corrói-lhe a alma. Stalker é um guia, a sua missão é secreta e consiste em desbravar o impossível para além da fronteira proibida. Os stalkers são os únicos conhecedores do caminho, capazes de sobreviver dentro d'A Zona.



III

Um dia, Stalker parte novamente, deixando a família para trás. O bar da cidade é o ponto de encontro com os seus clientes. Esperam-no, desta vez, um escritor famoso (Anatoli Solonitsyn) e um céptico cientista e professor (Nikolai Grinko). O caminho é difícil, árduo e arriscado. A existência é-lhes assombrada pelo desejo, pelo medo e pela dúvida:

É tudo mentira. Estou-me nas tintas para a inspiração. Como posso saber o nome daquilo que quero? Como posso saber que, no fundo, não quero o que quero? São coisas fugidias: basta dar-lhes um nome e perdem o sentido. Este derrama-se como uma alforreca ao sol. A minha consciência quer a vitória do vegetarianismo por todo o mundo, mas o meu subconsciente morre por um bife suculento.
Escritor

Toda a Sua tecnologia, altos-fornos, rodas... e outras idiotices são para trabalhar menos e manducar mais. Tudo isso são muletas, próteses. No entanto, a Humanidade existe para criar obras de arte! O fim destas não é interesseiro, ao contrário de todas as outras acções. Que ilusões! Imagens de verdade absoluta!
Escritor

Voltarei d'O Quarto já como génio... para a nossa cidade, esquecida de Deus. Ora, o Homem escreve porque sofre, porque duvida de si. Tem que provar a Ele próprio e a quem o rodeia que tem algum valor. E se souber, de antemão, que sou um génio? Para que raio hei-de escrever? Qual o sentido?
Escritor

Ao entrarem no território d'A Zona, o filme ganha cor. A música electrónica e a indecifrável orquestração de sons conflui-se com o ambiente enevoado, com os subtis ruídos e, imagine-se, com o silêncio. A aparente confusão acústica resulta na perfeição, como se pronunciasse a aura do incógnito. O que é A Zona? - interrogam-se os três, cada vez mais, em viscerais interpretações.

A Zona é um complexo sistema de armadilhas, se querem... Todas são mortais. Não sei o que se passa aqui quando não está ninguém. Mas quando aparecem pessoas, tudo começa a mexer. As antigas armadilhas desaparecem, surgem novas. Os lugares seguros tornam-se intransitáveis. E o caminho ora é fácil, ora infinitamente emaranhado. É A Zona! Por vezes, parece até caprichosa. Mas é, em cada momento, como a fizermos com o nosso próprio espírito. Algumas pessoas tiveram de regressar a meio. Outras, morreram mesmo à entrada d'O Quarto. Tudo o que se passa aqui, dependerá apenas de nós, não d'A Zona! (...) Parece-me que deixa entrar quem já não tem esperança. Os infelizes, não os bons ou os maus. Mas até o mais infeliz dos infelizes morrerá, se não souber comportar-se.
Stalker

O que é A Zona? À semelhança da vida, quanto mais sabemos, menos compreendemos. Intensificam-se as perguntas e o seu teor. A Zona é o Grande Mistério, é o Nada, a metáfora da Vida. Ao atravessar a Vida, o Homem ou sobrevive ou se despedaça:

Quando uma pessoa nasce, é fraca e flexível; quando morre, é forte e dura. Quando uma árvore cresce, é tenra e flexível; quando se torna seca e dura, morre. A dureza e a força são atributos da morte. A flexibilidade e a fraqueza são a frescura do ser. Por isso, que endurece nunca vencerá.
Escritor

No final, tudo tem sentido. O seu sentido e a sua causa.
Stalker


IV

Mas dará a Vida a certeza suficiente para garantir tais verdades inalteráveis? Terá tudo sentido, efectivamente? O caos suscita o existencialismo. O existencialismo faz pensar o Nada. E, às tantas, o escritor e o professor seguem o curso natural da descrença. A incessante procura de respostas, que nunca chegam ou saciam, fá-los perder a esperança. Tornam-se, afinal, discípulos do Nada. Existirá A Zona, de facto? Será Ela tudo aquilo que se presume? Existirá, realmente, o Quarto dos desejos? O filme é uma viagem. Para o escritor e para o professor, uma viagem de desistência, de resignação à genialidade e ao Nobel. Para Stalker, uma angustiante viagem de confirmação: os Homens perdem, com a idade, o vigor, a fé e sucumbem a uma existência conformista e sem sentido.

O mundo perfeito é só e apenas uma ideologia. Jamais poderá ser um desejo, um desejo possível, concretizável. Sonha-se com uma coisa, recebe-se outra.

Grosso modo, não existem factos, muito menos aqui. Tudo isto é uma invenção idiota de não-sei-quem. (...) Você, claro, quer saber quem foi o inventor. Mas para quê? De que lhe valerão os conhecimentos? A quem doerá a inconsciência? A mim? Não tenho consciência, só os nervos...
Um canalha maldiz-me, uma ferida... Outro canalha elogia-me, outra ferida. Ofereço a alma e o coração, devoram-me a alma e o coração. Tiro uma vileza da minha alma, devoram a vileza. São todos muito sabichões! Todos com a fome de sensações. Todos se agitam à minha volta: jornalistas, redactores, críticos, mulheres sem conta... Todos exigem: mais, mais! Que raio de escritor sou eu, se odeio escrever? Se, para mim, é um martírio, um suplício, uma vergonha, como se estivesse a espremer furúnculos?
Dantes, pensava que os meus livros faziam alguém melhor. Mas ninguém precisa de mim! Quando esticar o pernil, passados dois dias, começam logo a devorar outro. Esperava refazê-los, mas refeito acabei por ser eu! À imagem e semelhança deles!
Dantes, o futuro era apenas a continuação do presente. Transformações vislumbravam-se muito longe, no horizonte. Agora, porém, o futuro e o presente fundiram-se. Estarão eles prontos para isto? Não querem saber de nada! Apenas devoram!
Escritor

Às tantas, escritor e cientista querem destruir a esperança. Não acreditam nela, por isso querem destruí-la. O escritor quer abdicar da viagem, deixou de querer ajudar pessoas com a sua escrita, e o cientista quer recorrer à bomba (por ele inventada e denominada de almómetro, o aparelho para medir as almas) para destruir O Quarto. O Quarto representa Deus. E questionar a veracidade d'O Quarto, é questionar a veracidade de Deus. Sem Deus, não há criador, nem cosmos. Perante a atitude derradeira dos Homens, que postura acabará por adoptar o tão dedicado guia? Afinal, Stalker guia os deprimidos para A Zona por que acredita na felicidade, na liberdade e na dignidade do local. Valerá a pena entregar-se aos outros, dar-se aos outros, ainda que totalmente só? Stalker não é senão a imagem de Cristo. É na personagem do stalker que reencontro a posição do próprio Tarkovsky, que um dia disse: O meu objectivo é fazer filmes que ajudem as pessoas a viver, mesmo que esses filmes causem, por vezes, infelicidade.

E dizem-se intelectuais, escritores, cientistas! (...) Não acreditam em nada! Têm atrofiado o órgão da crença. Não precisam dele! (...) Têm os olhos vazios! Só pensam em não pagar mais, em vender-se por mais dinheiro! Querem que todo o trabalho de espírito lhes seja pago. Sabem que não nasceram em vão, que são predestinados! Que só vivem uma vez! Claro que não acreditam seja no que for! (...) Ninguém acredita, não só esses dois. Ninguém! Quem hei-de eu seguir? Jesus! O pior é que ninguém precisa deste Quarto. Todos os meus esforços são inúteis! (...) Não levarei mais ninguém.
Stalker

Sendo Cristo, um stalker é um eterno condenado à morte e um eterno impulsionador do mundo. Um verdadeiro artista, como Tarkovsky, é um stalker e a sua arte é a sua religião. E, às vezes, um artista poderá questionar a sua utilidade e a utilidade da sua obra, mas o seu testamento inspirará o futuro, continuamente... contribuindo decisivamente para a real evolução do Homem. Não o caminho de ferro, não a locomotiva, o telefone ou a electricidade... Não a evolução tecnológica que, tão progressivamente, a paisagem transforma e consome. A evolução espiritual, essa sim, é a pedra filosofal da existência.

V

Stalker constitui, por tudo isto, uma equação fundamental na fórmula e no milagre. É um filme essencial. Uma das maiores concretizações artísticas de todos tempos. Perante a câmera de Tarkovsky, todas as coisas - mesmo as mais insignificantes - se tornam belas... A pureza dos sons e das imagens alia-se, mágica e magistralmente, na transcendência das palavras, nas abstractas dunas de símbolos, sombras e interpretações múltiplas... numa experiência metafísica verdadeiramente incomensurável. Stalker é tudo isto. Tudo isto e tanto mais. É um enigma maior, filmado com extrema sensibilidade. As suas fertilidade, densidade e ambiguidade apoderam-se, nos ecos e nos silêncios, dos nossos sentidos e... da nossa memória.

Nota especial para a cena final, tão magnífica, obscura e espectral como a totalidade...


quarta-feira, 9 de junho de 2010

O PADRINHO (1972)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Godfather
Realização: Francis Ford Coppola
Principais Actores: Marlon Brando, Al Pacino, James Caan, Robert Duvall, Diane Keaton, Talia Shire, Al Lettieri, Sterling Hayden, John Cazale, Richard S. Castellano

Crítica:

CRÓNICAS DE CRIME E FAMÍLIA

A man who doesn't spend time with his family
can never be a real man.

O Padrinho é muito mais do que uma história sobre gangsters e máfia, a partir da obra literária de Mario Puzo. Francis Ford Coppola, magistral na arte de filmar e dotado de um inspirado virtuosismo clássico, serve-se da organização e das intrigas da sociedade do crime para conceber uma verdadeira epopeia sobre a família e sobre a evolução dos valores familiares ao longo do século XX. Aliás, O Padrinho será, porventura, a primeira grande crónica cinematográfica do século XX sobre a família do próprio século XX. É uma espécie de auto-análise; um exercício que o tempo veio a comprovar como extraordinário.

Marlon Brando, num dos grandes papéis da sua carreira, veio eternizar as figuras do patriarca e do padrinho: hoje quase inexistentes nas sociedades ocidentais; sobretudo quando tendo em conta a expressividade e relevância que tinham outrora. A ruína da figura patriarcal (também a do casamento enquanto instituição) anunciou a decadência e o fim da família como rede organizada, com espírito de entre-ajuda, união e coesão... Com a queda dos últimos alicerces e tradições familiares, o ser humano cai no individualismo e no alheamento identitário, carente de raízes. Este facto sinedoquiza, de forma metadiegética - tanto no primeiro como nos seguintes capítulos da saga - a própria evolução da família Corleone.

A banda sonora tornou-se um autêntico ícone da saga, assim como a rosa ao peito e aquele ambiente de respeito e consideração do escritório. O Padrinho enche-se, da abertura ao desfecho, de cenas memoráveis: a chocante cena da cabeça do cavalo ou a morte de Don no jardim, depois de brincar com o futuro da família, são absolutamente magníficas. Grande, grande filme.

terça-feira, 8 de junho de 2010

A VIDA DE BRIAN (1979)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
Título Original: Life of Brian
Realização: Terry Jones
Principais Actores: Graham Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones, Michael Palin, Terence Bayler, Carol Cleveland, Kenneth Colley, Neil Innes, Charles McKeown

Crítica:

BRIAN ITE DOMUM

A Vida de Brian não é senão uma mistura inteligente e absurda, algures entre a ridicularização e a sátira à moral cristã e às incongruências do fenómeno bíblico, longe de quaisquer pretensões artísticas maiores.

Critica fortemente os seguidores dos messias que, desde os primeiros tempos, desesperavam por um salvador, capaz de purificar o mundo e de completar as profecias. No entanto, tem tanto de controverso, ofensivo e provocador como de absolutamente estúpido. Ou seja, puro Monty Python: inteligente, mas estúpido.

A Vida de Brian
terá, por isso, os seus fãs. Aqueles que seguiram, durante anos, o entusiasmo, o talento e a originalidade do grupo de comediantes britânicos e aqueles que apreciam este género de comédia. É mais um marco na História da Comédia (e na História da Comédia enquanto género cinematográfico) do que na História do Cinema, propriamente. A mim, não me conquistou especialmente.

sábado, 27 de março de 2010

O ÚLTIMO TANGO EM PARIS (1972)

PONTUAÇÃO: [a atribuir]
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Título Original: Ultimo tango a Parigi
Realização
: Bernardo Bertolucci
Principais Actores: Marlon Brando, Maria Schneider, Maria Michi, Jean-Pierre Léaud

Crítica: [Em Espera]





sexta-feira, 12 de março de 2010

STAR WARS IV - UMA NOVA ESPERANÇA (1977)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Star Wars / Star Wars: Episode IV - A New Hope
Realização: George Lucas

Principais Actores: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Peter Cushing, Alec Guinness, Anthony Daniels, Kenny Baker, Peter Mayhew, David Prowse, Phil Brown, Shelagh Fraser, James Earl Jones
Crítica:

May the Force be with you.

O universo Star Wars é um mergulho vertiginoso no fantástico, uma viagem excitante e alucinante pela magia do entretenimento. Nunca até então uma dimensão imaginada atingira tais proporções na História do Cinema. E, de facto, a originalidade da abordagem, a criatividade e o detalhe que ilumina a narrativa fez sonhar uma geração inteira. O sucesso da franquia far-se-ia à imagem megalómana do projecto, tal era o fascínio que emanava da obra de George Lucas.

Primeiro que tudo, penso que o que eterniza o filme é a sua história. O argumento pode tocar a acção e a aventura a uma escala monumental, mas por trás disso há uma imensidão espacial riquíssima: entre os milhões e milhões de estrelas e galáxias há inúmeros planetas habitados, naves espaciais, veículos motores, espécies de seres vivos, modelos de andróides... e todos interagem entre si como se aquela civilização ficcionada existisse realmente. Há pormenor, há uma realidade histórica congruente, uma sociedade alicercada num regime político específico. E, como sabemos, toda essa trabalhada arquitectura não só baseia como constitui um factor determinante para a credibilidade e autenticidade de uma fantasia. Note-se, a propósito, a diversidade cultural assumida pelo design dos cenários (John Barry, Leslie Dilley, Norman Reynolds e Roger Christian) ou dos figurinos (John Mollo). Os efeitos especiais foram não só estrondosamente revolucionários como absolutamente pioneiros, tanto nas explosões de pirotecnia como na animação de miniaturas, como na afirmação categórica dos gráficos por computador, protagonizada por uma equipa vastíssima (John Stears, John Dykstra, Richard Edlund, Grant McCune e Robert Blalack). Para lá do exotismo visual e da incomensurabilidade épica das paisagens e das batalhas que se desenhariam no ecrã como por magia, temos a assombrosa banda sonora de John Williams, que marca desde logo o tom operático e arrebata as emoções de qualquer espectador ao longo desta incrível e inesquecível viagem. O aplaudido trabalho de montagem - pessoalmente, não gosto assim tanto dos efeitos de transição entre episódios - enfatiza o carácter lúdico desta aventura sem limites.

George Lucas arriscou e saiu triufante, sendo que a sua visionária criação se prolongaria ainda por mais cinco títulos. O certo é que, ainda hoje, Star Wars inspira cineastas e cinéfilos um pouco por todo o mundo.

sábado, 5 de dezembro de 2009

OS ARISTOGATOS (1970)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: The AristoCats
Realização:
Wolfgang Reitherman

Filme de Animação

Crítica: Ainda que Os Aristogatos, versão felina de 101 Dálmatas, não detenha a aura de mestre ou de génio de outros Clássicos Disney e que seja por demais poupado em efeitos sonoros, é certo que consegue proporcionar momentos de inegável boa-disposição, com evidente competência artística. As técnicas de desenho e de pintura, sob um estilo tosco mas que por vezes se revela pormenorizado no background, dão vida à comédia musical que marcou gerações. Um clássico excêntrico, divertido e cheio de charme.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

CHINATOWN (1974)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Chinatown
Realização: Roman Polanski

Principais Actores: Jack Nicholson, Faye Dunaway, John Huston, Perry Lopez, Roman Polanski

Crítica:
A CONSIPIRAÇÃO 

Forget it, Jake. It's Chinatown.

Grande filme. A obra é a cores - bem fotografada, diga-se de passagem - e nela não consta qualquer resquício de narração. Mas é noir, absolutamente. Genuinamente.

Em toda a sua inspiração e subtileza, entre enigma e tragédia, a
realização de Roman Polanski revela grande contenção e mostra-se derradeiramente fria. A banda sonora de Jerry Goldsmith acompanha, com assaz precisão, esse compasso, até que toda a teia de conspirações e corrupção se desfaz, sob negras nuvens, tão simbolica e ironicamente, em Chinatown.Para lá da sua trama complexa e das suas constantes reviravoltas, um argumento muito bem construído (Robert Towne). Para lá da sua atmosfera densa, misteriosa e carregada de suspense, as interpretações memoráveis de Jack Nicholson e de Faye Dunaway. O passado, por vezes, pode ser mais assustador do que a mais arriscada das investigações.

Simplesmente magnífico.

 

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

TAXI DRIVER (1976)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Taxi Driver
Realização: Martin Scorsese
Principais Actores: Robert De Niro, Cybill Shepherd, Peter Boyle, Jodie Foster, Harvey Keitel, Leonard Harris, Albert Brooks

Crítica:

O GRITO

Nova Iorque, anos 70. Saída da guerra, a América confronta-se com a derrota. O sonho acabou. As gerações mais jovens sentem-se órfãs de um passado vencido, humilhado e retirado. Travis Bickle sinedoquiza, pois, toda uma geração de almas perdidas, distanciada da família e das raízes e alienada numa sociedade ferida. Imerso em insónias continuadas, Bickle deambula no taxi por entre o submundo citadino. Nas ruas, apercebe-se do lixo, dos cheiros e do purgatório. O luar dá lugar à iluminação frenética que se espalha pelos prédios, a brisa dá lugar aos fumos que, numa atmosfera asfixiante, encobrem o homem incompreendido, ansioso pelo grito. Travis Bickle é, como tantos outros, mais um exposto filho sem identidade, uma potencial bomba-relógio sujeita à explosão de revolta e violência a qualquer momento. We are the people não poderia, por isso, constituir maior ironia.

Visualmente perturbador, escrito sob a negra sombra de Dostoiévski e enigmaticamente protagonizado por Robert De Niro, Taxi Driver é arte sublime, dotado de uma aura superior. É Martin Scorsese na sua melhor forma, levando o noir a novos horizontes. Cenas como a do monólogo ao espelho ou a do desfecho de disparos e sangue mostram uma abertura à improvisação e uma capacidade de encenação fora de série. A simbiose resulta magistral e as cenas... eternizam-se a si próprias. Magnificamente montado, fotografado e ainda musicalmente orquestrado (pelo lendário Bernard Hermann), a realização inspirada conflui assumidas influências de Hitchcock a Godard.

Haverá salvação para o Homem condenado? O final desvanece em mistério. E no mistério reside todo o fascínio. Grande filme.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

ANNIE HALL (1977)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Annie Hall
Realização: Woody Allen
Principais Actores: Woody Allen, Diane Keaton, Tony Roberts, Carol Kane, Paul Simon, Christopher Walken, Sigourney Weaver, Jeff Goldblum

Crítica:

MASTURBANDO O AMOR

Hey, don't knock masturbation! It's sex with someone I love.

Dotado de um argumento assaz estimulante que explora, com profundo sentido satírico, as relações amorosas, Annie Hall consegue ser muito mais do que um pedaço de boa escrita. É um grande exercício de representação: sobretudo do pensado e do imaginado, que geralmente não são explícitos, mas implícitos ou simplesmente narrados ou assumidos pela excelência das performances. Woody Allen fá-lo entremeando personagens do tempo diegético principal com cenas analépticas, recorrendo ao split screen (chegando mesmo a pôr as duas divisões do ecrã em diálogo), legendando diálogos através da pura e simples adulteração daquilo que é dito, dando voz ao subconsciente das personagens ou chegando mesmo a interromper a acção por meio de sórdidos e hilariantes momentos extradiegéticos. A comicidade e a grande confluência estética de Annie Hall chega mesmo sob a forma de uma sequência animada entre Alvy Singer e a rainha madrasta da Branca de Neve. Grande desempenho de Diane Keaton e de Woody Allen, ainda que a assumir a personagem que criou para si próprio: a de um marginalizado corroído pelo intelectualismo, sexualmente recalcado e socialmente deprimente e desinteressante, a não ser para psiquiatras ou admiradores da psiquiatria.

This guy goes to a psychiatrist and says, "Doc, uh, my brother's crazy; he thinks he's a chicken." And, uh, the doctor says, "Well, why don't you turn him in?" The guy says, "I would, but I need the eggs." Well, I guess that's pretty much now how I feel about relationships; y'know, they're totally irrational, and crazy, and absurd, and... but, uh, I guess we keep goin' through it because, uh, most of us... need the eggs.

Brilhante.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

LARANJA MECÂNICA (1971)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: A Clockwork Orange
Realização: Stanley Kubrick
Principais Actores: Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates, Warren Clarke, Adrienne Corri, Carl Duering, Paul Farrell, Clive Francis, Michael Glover, Michael Tarn, James Marcus, Aubrey Morris, Godfrey Quigley

Crítica:

GERAÇÃO TERROR

Uma obra sublime. É, em crescendo, tudo isto e tanto mais: prevertida, libidinosa, provocadora, controversa, insólita, religiosa, politica e socialmente satírica, hilariante. É a arte de filmar em todo o seu esplendor, com o selo autoral e inequívoco de Kubrick.

Por um lado, Laranja Mecânica é uma ambiciosa tese sobre a adolescência: a afirmação da independência, a crise e a violação de valores, o confronto geracional, o grupo de amigos e o líder autoritário (que não pensa, diz-se directamente inspirado por Deus) e a liberdade sexual decorrente do tabu e do recalcamento sexual. Por outro lado, Laranja Mecânica reflecte toda uma sociedade e não só um grupo etário: reflecte a pertinente questão da autoridade moral. Por poucas palavras: os jovens marginais são chamados à razão e são sujeitados à lavagem cerebral (ou à terapia de choque) pela autoridade moral, aquela mesma que é responsável por guerras e que, perigosamente, impõe os seus valores como verdades absolutas. Ou seja, que não pensa, mas que se diz directamente inspirada por Deus. Mais não digo, a respeito. Só digo que, por este modo, Kubrick aborda a questão genialmente.

Os cenários e a decoração, assim como o guarda-roupa, situam a acção num futuro perdido no tempo, com rara excelência e profundo sentido estético. Depois, a par da imagem, temos Beethoven, o tema Singin' in The Rain, ou tantos outros: usados magistralmente e como nunca, suscitando inspiração ou repulsa, à medida que o argumento mergulha nos mais fantasmagóricos meandros da moral humana. Excelentes interpretações (em especial do protagonista Malcolm McDowell), detentor de um brilhante trabalho de montagem e repleto ainda de cenas memoráveis, Laranja Mecânica resultou num clássico absoluto e num marco singular e irreverente na História do Cinema.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O PADRINHO - PARTE II (1974)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Godfather - Part II
Realização: Francis Ford Coppola
Principais Actores: Al Pacino, Robert DeNiro, Robert Duvall, Diane Keaton, Talia Shire, Lee Strasberg, John Cazale, G.D. Spradlin, Michael V. Gazzo, Richard Bright, Gastone Moschin, Tom Rosqui, Bruno Kirby

Crítica:

CRÓNICAS DE CRIME E FAMÍLIA
 A DOIS TEMPOS

Sublime. Mais do que uma obra-prima sobre o crime, é uma obra-prima sobre a família, um drama intenso e em parte alegórico, de uma dimensão operática, que nos diz tanto sobre nós mesmos e sobre a forma de como nos relacionamos com os nossos. Esta segunda parte da saga é... verdadeiramente esplendorosa.

A realização é de uma mestria excepcional: recordo cenas como a do assassinato de Don Fanucci... mas que encenação! Há tantas cenas eternas... O jogo de espelhos entre os dois tempos narrativos resulta paralelamente perfeito. A inesquecível banda sonora de Nino Rota transporta-nos, completamente rendidos ao argumento (agora com outro fôlego, tão mais inspirado), para muito além dos créditos finais. O cuidado na recriação é digno da maior distinção: notem-se os cenários e a decoração. A fotografia e a montagem estão magníficas. E Robert De Niro está ao mais alto nível, à frente de um elenco formidável.

O Padrinho - Parte II é, por tudo isto e tanto mais, não só o melhor capítulo da trilogia como um marco incontornável da história do cinema.

CINEROAD ©2020 de Roberto Simões