★★★★★
Título Original: Giù la TestaRealização: Sergio Leone
Principais Actores: James Coburn, Rod Steiger, Maria Monti, Rik Battaglia, Franco Graziosi, Romolo Valli, Domingo Antoine, Antoine Saint-John, Vivienne Chandler, David Warbeck, Giulio Battiferri
Crítica:
ERA UMA VEZ A REVOLUÇÃO
A revolution is not a social dinner, a literary event, a drawing on an embroidery; it cannot be done with elegance and courtesy.
The revolution is an act of violence.
Mao Tse-tung
The revolution is an act of violence.
Mao Tse-tung
México, 1913. Antes da dinamite, uma intensa e espumante chuva de mijo; a abrir o filme, indesperadamente, provocando o caos numa comunidade de formigas, aparentemente pacata. Chom, chom!... Chom, chom!... Sacode-se o instrumento, sacodem-se os pés sujos e descalços, empoeirados pela aridez da paisagem, fecha-se a braguilha. Rosto barbudo e anafado, tez suada e cozida pelo sol, um chapéu a condizer com o fato grosseiro e miserável. Chom, chom, chom!... Está apresentado o protagonista do filme.
Ressoa um estrondo de arma, Juan Miranda vislumbra ao longe uma veloz e apetecível carruagem, que se aproxima. Quando a caravana passa por ele, chicoteada sobre oito cavalos, Juan faz-lhe sinal. A princípio, parece ignorá-lo, oferecendo-lhe o desprezo condizente com o seu aspecto - desprezível. Todavia, pára mais à frente e o vagabundo corre para ela: Señor! Señor! Señor! Pede boleia para San Felipe, com a melhor das desculpas: my mother is dead! Um dos condutores da carruagem diz-lhe que vá a pé, enquanto aperta as correias dos animais. Mas enfim, nada que uma notinha não resolva, $$$$$, não é verdade? Chom, chom!... Chom, chom!... Antes de entrar, é revistado, não vá tratar-se de um desses bandidos ou assassinos que fazem esperas no deserto. No entanto, encontram-lhe apenas uma... meia-sandes, que fazem questão de atirar para o chão e a qual Juan se recusa a desperdiçar, recuperando-a rapidamente.
Já no interior do veículo, segue a viagem, depara-se com gente da alta sociedade, toda muito elegante e requintada, que o olha de alto a baixo, dando depois continuidade à sua conversa chata e racista. O silêncio é tanto de cortar à faca... como de rir às gargalhadas. A situação até que é séria, mas com uma personagem tão simples e desajeitada como Juan, sempre a coçar-se por todos os lados, e com uma encenação plena de ironia como a de Sergio Leone, é completamente impossível. Aguenta-te, Canalha é simplesmente notável enquanto comédia.
A seguir, que montagem extraordinária, assinada por Nino Baragli: faces, bocas, olhos, faces, bocas, olhos... bocas, olhos, bocas, olhos, bocas, olhos; uma brilhante sequência de extremos e obssessivos zooms e close-ups, invocando a boa memória de A Greve (1925), de Eisenstein, enquanto os ricaços degustam uma saborosa e variada refeição e Juan quase boceja. Mas a monotonia não dura para sempre.
Mais à frente, a carruagem cruza-se com um bando de pistoleiros ladrões e o tiroteio começa. Quem são, quem são, esses espalhafatosos foras-da-lei? O Papa, Chulo e os outros chulitos! Que é como que diz, o suposto pai de Juan e os seus seis filhos, todos eles de mães diferentes! Chom, chom, chom!... Está apresentada a família do hilariante Juan Miranda, pela qual nos apaixonamos, desde logo, e que rapidamente fuzila ou desnuda os viajantes, atirando-os por fim aos porcos e assumindo a posse de todos os seus bens.
Ressoa um estrondo de arma, Juan Miranda vislumbra ao longe uma veloz e apetecível carruagem, que se aproxima. Quando a caravana passa por ele, chicoteada sobre oito cavalos, Juan faz-lhe sinal. A princípio, parece ignorá-lo, oferecendo-lhe o desprezo condizente com o seu aspecto - desprezível. Todavia, pára mais à frente e o vagabundo corre para ela: Señor! Señor! Señor! Pede boleia para San Felipe, com a melhor das desculpas: my mother is dead! Um dos condutores da carruagem diz-lhe que vá a pé, enquanto aperta as correias dos animais. Mas enfim, nada que uma notinha não resolva, $$$$$, não é verdade? Chom, chom!... Chom, chom!... Antes de entrar, é revistado, não vá tratar-se de um desses bandidos ou assassinos que fazem esperas no deserto. No entanto, encontram-lhe apenas uma... meia-sandes, que fazem questão de atirar para o chão e a qual Juan se recusa a desperdiçar, recuperando-a rapidamente.
Já no interior do veículo, segue a viagem, depara-se com gente da alta sociedade, toda muito elegante e requintada, que o olha de alto a baixo, dando depois continuidade à sua conversa chata e racista. O silêncio é tanto de cortar à faca... como de rir às gargalhadas. A situação até que é séria, mas com uma personagem tão simples e desajeitada como Juan, sempre a coçar-se por todos os lados, e com uma encenação plena de ironia como a de Sergio Leone, é completamente impossível. Aguenta-te, Canalha é simplesmente notável enquanto comédia.
A seguir, que montagem extraordinária, assinada por Nino Baragli: faces, bocas, olhos, faces, bocas, olhos... bocas, olhos, bocas, olhos, bocas, olhos; uma brilhante sequência de extremos e obssessivos zooms e close-ups, invocando a boa memória de A Greve (1925), de Eisenstein, enquanto os ricaços degustam uma saborosa e variada refeição e Juan quase boceja. Mas a monotonia não dura para sempre.
Mais à frente, a carruagem cruza-se com um bando de pistoleiros ladrões e o tiroteio começa. Quem são, quem são, esses espalhafatosos foras-da-lei? O Papa, Chulo e os outros chulitos! Que é como que diz, o suposto pai de Juan e os seus seis filhos, todos eles de mães diferentes! Chom, chom, chom!... Está apresentada a família do hilariante Juan Miranda, pela qual nos apaixonamos, desde logo, e que rapidamente fuzila ou desnuda os viajantes, atirando-os por fim aos porcos e assumindo a posse de todos os seus bens.
Logo depois, é-nos apresentada a personagem de James Coburn, o enigmático John H. Mallory. Irlandês, de poucas palavras mas de farto bigode e fumador de charutos, é um profundo amante da revolução e um adepto absoluto da dinamite. I used to believe in many things, all of it! Now, I believe only in dynamite. O forasteiro viaja tranquilo e seguro da si na sua motocicleta, quando as balas de Juan o abordam. Ardiloso, o estrangeiro não tarda em surpreender tudo e todos com as suas artes mágicas, possantemente explosivas. É por esses instantes que a Juan lhe ocorre: que bando implacável formariam, se John se juntasse à família! John e Juan, os dois, a assaltarem bancos até à América. Nem que lhe torne a furar os pneus uma e outra vez, terá que conseguir tamanho elemento para a sua estirpe de bandoleiros! Perante tão lucrativa ideia, Leone chega mesmo a colocar um letreiro imaginário sobre a cabeça do irlandês, dizendo: Banco Internacional de Mesa Verde! $$$$$! Chom, chom!... Chom, chom!...
... the most beautiful, wonderful, fantastic, gorgeous, magnificent bank in the whole world! When you stand before the bank and you see it has the gates of gold, like it was the gates of heaven. And when you go inside, everything, everything is gold! Gold spittoons, gold handles, and money, money, money is everywhere. And you know, I know 'cause I saw this when I was eight years old. I went there with my father. He tried to rob the bank, but they caught him. (...) Listen, Firecracker. Now you listen to me. Listen, why don't you come with me, eh? And we will work together and we will become rich!
Juan Miranda
John, contudo, não está minimamente interessado na parceria. Está no México com outros intuitos. Sempre que pode, por isso, esquiva-se e evapora-se. Nem desconfia o mexicano que está perante um terrorista fortemente procurado, pelo qual o governo inglês oferece a aliciante quantia de 300 libras! $$$$$! Quem é, afinal, John Mallory? Noutros tempos, fora um activista revolucionário no seu país. Os constantes flashbacks ao longo de toda a obra dão conta de um passado feliz, ao qual nunca mais voltou nem nunca mais poderá voltar. As revoluções, afinal, têm consequências irreversíveis.
John Mallory: Oh, we fought a revolution in Ireland.
Juan Miranda: A revolution? Seems to me the revolutions are all over the world. You know, they're like the crabs! We had a revolution here. When it started, all the brave people went in it, and what it did to them was terrible. Pancho Villa, the best bandit chief in the world, you know that? This man had two balls like the bull. He went in the revolution as a great bandit. When he came out, he came out as what? Nothing. A general, huh? That, to me, is the bullshit!
Juan Miranda: A revolution? Seems to me the revolutions are all over the world. You know, they're like the crabs! We had a revolution here. When it started, all the brave people went in it, and what it did to them was terrible. Pancho Villa, the best bandit chief in the world, you know that? This man had two balls like the bull. He went in the revolution as a great bandit. When he came out, he came out as what? Nothing. A general, huh? That, to me, is the bullshit!
Sempre que se separam, o destino volta a reuni-los. A acção é pausada, ao melhor estilo de Leone, mas os encontros são explosivos. Duck, you sucker! Com o tempo, John envolve Juan na grande conspiração revolucionária do México - tierra y libertad! - tornando-o num herói aclamado pelo povo!
Desde a libertação dos presos ao assalto ao comboio, a missão torna-se cada vez mais arriscada e perigosa e a comédia dá lugar ao drama, à reflexão sobre a violência, sobre a revolução e sobre as suas consequências. A pólvora é uma invenção mortal e até o maior dos bandidos tem coração, quando a tragédia bate à sua porta, dizimando os seus entes mais queridos. A contemplação dos mortos e o desolamento esbatido no rosto de Juan é assombroso. Quantos não são os sacrifícios pessoais que não se seguirão em nome da causa. A banda sonora de Ennio Morricone (numa nova cooperação com Leone e uma vez mais fascinante, irreverente e singular) torna-se mais lírica e finalmente soa, com sotaque certeiro: - não o chom... chom... chom!, mas o - sean... sean... sean!
Where there's revolution there's confusion and when there's confusion a man who knows what he wants stands a good chance of getting it.
John Mallory
Desde a libertação dos presos ao assalto ao comboio, a missão torna-se cada vez mais arriscada e perigosa e a comédia dá lugar ao drama, à reflexão sobre a violência, sobre a revolução e sobre as suas consequências. A pólvora é uma invenção mortal e até o maior dos bandidos tem coração, quando a tragédia bate à sua porta, dizimando os seus entes mais queridos. A contemplação dos mortos e o desolamento esbatido no rosto de Juan é assombroso. Quantos não são os sacrifícios pessoais que não se seguirão em nome da causa. A banda sonora de Ennio Morricone (numa nova cooperação com Leone e uma vez mais fascinante, irreverente e singular) torna-se mais lírica e finalmente soa, com sotaque certeiro: - não o chom... chom... chom!, mas o - sean... sean... sean!
A câmera de Leone é implacável, magistral. Como as suas obras beneficiam dessa arte verdadeiramente destemida, audaciosa e, em última instância, sublime de saber filmar. As interpretações dos actores são tão carismáticas como as de O Bom, O Mau e O Vilão ou de Aconteceu no Oeste, tanto James Coburn como Rod Steiger agarram os seus papéis com especial dedicação, contribuindo eficazmente para o triunfo e sucesso da obra.
Depois, o entretenimento puro volta à carga, pondo fim à melancolia. E como? Com a queda de um cocó, na tola do mexicano. Chom, chom!... Chom, chom!... A dupla John e Juan avança para a concretização do plano final e a irrepreensível técnica do cineasta manifesta-se a cada compasso. O choque frontal dos comboios é impressionante. Quando os créditos assumem o ecrã, apetece-nos gritar: Raios! O filme é mesmo bom! Mas só cantarolamos, repetidamente: Chom, chom, chom!...
Grande, grande filme. Absolutamente memorável.
Depois, o entretenimento puro volta à carga, pondo fim à melancolia. E como? Com a queda de um cocó, na tola do mexicano. Chom, chom!... Chom, chom!... A dupla John e Juan avança para a concretização do plano final e a irrepreensível técnica do cineasta manifesta-se a cada compasso. O choque frontal dos comboios é impressionante. Quando os créditos assumem o ecrã, apetece-nos gritar: Raios! O filme é mesmo bom! Mas só cantarolamos, repetidamente: Chom, chom, chom!...
Grande, grande filme. Absolutamente memorável.
























