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domingo, 27 de fevereiro de 2011

ACONTECEU NO OESTE (1968)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: C'era una volta il West / Once Upon A Time in the West
Realização: Sergio Leone
Principais Actores: Henry Fonda, Claudia Cardinale, Jason Robards, Charles Bronson, Gabriele Ferzetti, Woody Strode

Crítica:

UMA DANÇA DE MORTE

Mais do que um western, Aconteceu no Oeste faz a antologia do próprio género, convocando, homenageando e criticando referências e resumindo toda uma mitologia com o mais profundo sentido artístico. Entre o calor e a poeira, entre a cavalgada e o disparo, entre a espera e o derradeiro compasso da morte, Aconteceu no Oeste vive, por isso, uma essência marcadamente estilizada, ganhando uma dimensão operática e imortalizando-se sob a aura imaculada de obra-prima.

Rendamo-nos aos factos: Sergio Leone reuniu uma equipa de genial talento. A partir da história que o próprio escreveu, em conjunto com Dario Argento e Bernardo Bertolucci, o mundo de pistoleiros justiceiros e foras-da-lei foi recriado com incrível verossilhança, assaz realismo e especial atenção ao detalhe. Os decórs (a cargo de Carlo Simi, Rafael Ferri e Carlo Leva) ou o guarda-roupa (Antonella Pompei, Carlo Simi) são a prova disso. A fotografia de Tonino Delli Colli é de uma beleza tal que nos extasia, sensível tanto aos planos criteriosos e mais ambiciosos como aos close-ups sobre os actores, tanto à imediatez do primeiro plano como aos enquadramentos e pormenores dos backgrounds. Sensível, tantas vezes, às deslumbrantes panorâmicas sobre uma América interior e vermelha, de paisagens irregulares, mas únicas e absolutamente inconfundíveis.

O filme é, todo ele, repleto de magistrais sequências de tensão e suspense, para as quais se revelam fundamentais o trabalho de montagem (Nino Baragli) e o tratamento dos efeitos sonoros: o perfeito exemplo disso é a memorável cena de abertura, onde os sons se assumem como um genuíno e arriscado tema musical, resultando, indiscutivelmente, numa das melhores cenas de abertura de todos os tempos. Mas temas magníficos são coisa que não falta, ou não fosse o compositor o lendário Ennio Morricone. Cada personagem principal tem o seu próprio tema: Harmonica, semblante da coragem e do mistério (Charles Bronson), a provocante e sensual Jill (Claudia Cardinale), central na história, o arguto Frank (Henry Fonda) ou o gracioso Cheyenne (Jason Robards). O elenco irradia, aliás, uma excelência inequívoca, denotando a qualidade intrínseca a toda a direcção de actores. O trabalho de encenação é brilhante e são muitas as cenas que se destacam pelo seu arrojo e arquitectura. A preparação daquele flashback final é, simplesmente, qualquer coisa de extraordinário... No seu todo, eis, pois, uma simbiose esteticamente triunfal, sob a inspirada e irrepreensível orquestração de Sergio Leone.

Até à chegada do Cavalo de Ferro à vila em construção, o tempo passa e a história acontece... ao ritmo próprio a que o realizador nos acostumou... E nós temos então a certeza de que experienciamos uma obra de arte no mais imperioso sentido da expressão. Bertolucci diz, a respeito, que Leone deu uma nova identidade ao western*. Não poderia estar mais de acordo. Tal como o comboio, a obra veio, ficou e revolucionou.


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Nota especial para péssima escolha do título português.
*Di-lo Bernardo Bertolucci num dos documentários da Edição de Coleccionador, em DVD.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

OS PÁSSAROS (1963)

PONTUAÇÃO: FRACO
Título Original: The Birds
Realização: Alfred Hitchcock

Principais Actores: Rod Taylor, Tippi Hedren, Jessica Tandy

Breves Considerações: De mestre, a condução do suspense e a composição de algumas sequências - entre as quais aquela que a imagem abaixo ilustra. No entanto, absolutamente negligenciados por uma história ridícula.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

8 1/2 (1963)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: 8 1/2
Realização
: Federico Fellini

Principais Actores: Marcello Mastroianni, Claudia Cardinale, Anouk Aimée

Crítica:


O REAL,
O RECORDADO E O INVENTADO

8 1/2 é, simplesmente, um dos filmes mais geniais alguma vez feitos.
Para Fellini, o cinema é liberdade. A objectiva de uma câmera não se limita à escravidão da realidade física. É possível, pois, subverter as noções do real, converter a ficção em muito mais do que mera representação. É possível confluir o sonho, o imaginário e o real num só espaço, num só tempo: na incomensurável dimensão artística. O conceito de 8 1/2 é, por isso, não só moderno como completamente revolucionário. Para uma arte com poucas décadas de existência, tantas vezes considerada em atraso relativamente às outras, este foi um passo triunfal e assaz significativo.

Há que entender, de uma vez por todas, que na arte as coisas não têm necessariamente que fazer sentido. É por isso que num filme como 8 1/2, o mais importante não é perceber, mas sim sentir. Ainda para mais numa obra (e, já agora, filmografia) na qual há tendência para enfatizar as imagens e não as ideias. Guido (Mastroianni, excepcional) acabou recentemente o seu último filme e caiu num profundo marasmo de inspiração. Para o realizador, a recordação e a fantasia são um autêntico escape às pressões da equipa e de todos quantos estão à sua volta, constantemente a bombardeá-lo com questões e dúvidas sobre o seu próximo projecto. É como se um mundo inteiro dependesse dele, opressivo e sufocante. A personagem da deslumbrante Claudia Cardinale é a única que lhe traz apaziguamento. Ao mesmo tempo, essa constante alternância entre verossimilhança e inverossimilhança, que percorre toda a obra, dá-nos conta da confusão interior da mente criativa do realizador (alegoria do próprio Fellini, denunciada aliás pelo título) e, claro, do seu fascínio infinito por mulheres.

8 1/2 é tecnicamente irrepreensível: conta com um trabalho de fotografia e iluminação absolutamente magnífico (Gianni Di Venanzo), uma brilhante cadência de montagem (excelência de Leo Cattozzo) e uma direcção artística que é de um arrojo e primor puros (Piero Gherardi, Vito Anzalone). Nino Rota assume-se, uma vez mais, à frente de uma composição sublime e original; isto quando não soa, imponente e magistral, a aura eterna de Wagner. A realização, essa, é tão multifacetada e perfeita que nos deixa abismados...

O veredicto é unânime: 8 1/2 é uma obra-prima ímpar e um dos melhores filmes de sempre. A prova concreta de que é na imaginação que se fazem os maiores e mais extraordinários pedaços de cinema.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

VEJO TUDO NU (1969)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Vedo Nudo
Realização: Dino Risi
Principais Actores: Nino Manfredi, Sylva Koscina, Véronique Vendell, Umberto D'Orsi, Daniela Giordano, Nerina Montagnani, Bruno Boschetti, Marcello Prando, Guido Spadea, Enrico Maria Salerno, Luca Sportelli, Jimmy il Fenomeno

Crítica: [Brevemente]

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

DOUTOR JIVAGO (1965)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Doctor Zhivago
Realização: David Lean

Principais Actores: Omar Sharif, Julie Christie, Geraldine Chaplin, Rod Steiger, Alec Guinness, Tom Courtenay, Siobhan McKenna, Ralph Richardson, Rita Tushingham

Crítica:

O INVERNO VERMELHO

What I want to know is
how we're going to stay alive this winter.

Doutor Jivago é um monumento cinematográfico. A partir do aclamado romance de Boris Pasternak, David Lean concretiza uma visão profundamente romântica, de um tempo em que o sangue manchou a neve, o terror suplantou a utopia e o amor sucumbiu à tragédia das circunstâncias. A fotografia de Freddie Young e de Nicolas Roeg é de uma beleza indiscritível, de um esplendor verdeiramente inebriante. Os grandes planos são de suster a respiração e aliam-se magistralmente à elegante e aqui vagarosa arte de filmar do realizador. A excelência e o primor estético da produção estendem-se, qual paisagem, até perder de vista. É impressionante o detalhe na recriação de Moscovo e em toda a direcção artística, da cidade ao interior: nos cenários, na decoração, na própria concepção ou recuperação dos artefactos... O comboio, os eléctricos e os figurinos, de Phylis Dalton, autentificam a viagem no tempo... O Palácio de Gelo, por exemplo, tornou-se emblemático e pessoalmente considero-o um dos mais requintados feitos arquitectónicos de John Box, em toda a obra. A sonoridade única da balalaika, aliada às sumptuosas composições de Maurice Jarre, por fim, conferem a este arrojadíssimo pedaço de arte uma natureza transcendente e derradeiramente apaixonante.

O período 1912-1923 foi um período especialmente conturbado e tumultuoso para a Rússia. Primeiro, por todo o clima de instabilidade, que se intensificava desde o Domingo Sangrento de 1905. Facções revolucionárias, inspiradas por grandes ideologias como o socialismo ou o comunismo, ganharam forma e relevância política e ameaçavam a absoluta e repressiva monarquia dos Czars. Depois, a Primeira Guerra Mundial, a Revolução de Fevereiro e a Revolução de Outubro, que atiraram o povo para a miséria, aniquilaram o sistema político vigente e impuseram, à luz de novos ideais, o governo socialista soviético, liderado por Lenine. É neste contexto histórico que se passa a acção de Doutor Jivago. Na verdade, e ainda que não se assumindo propriamente como um filme político, a sua acção confunde-se muitas vezes com a acção histórica.

A história começa nos anos 50, com o interrogatório do General Yevgraf Zhivago (Alec Guiness, num impecável underacting) à suposta sobrinha ilegítima. Nos seus últimos anos de vida tem incessantemente procurado por ela - a prova do amor vivido em tempos de guerra entre o seu meio-irmão Yuri Zhivago (Omar Sharif, no papel de uma vida), médico e poeta, e a amante Lara, Larissa Antipova (Julie Christie, sensualmente encantadora). A jovem não conhece ou não recorda o seu passado e é na tentativa de confirmar as suas suspeitas sobre ela que Yevgraf lhe narra, sem pressas e de forma eloquente, a história do irmão, desde as suas origens à idade adulta.

Num primeiro acto, temos Lara como protagonista. Acompanhamos o seu subjugado affair com o arrogante e asqueroso Komarovsky (brilhante Rod Steiger), um aristocrata poderoso e influente, enquanto que o destino lhe prepara para marido o amigo Pasha (Tom Courtenay), um entusiasta e apoiante da causa bolchevique.

There are two kinds of men and only two. And that young man is one kind. He is high-minded. He is pure. He's the kind of man the world pretends to look up to, and in fact despises. He is the kind of man who breeds unhappiness, particularly in women. Do you understand?
Komarovsky

Nas ruas, as tropas do Czar avançam sobre os manifestantes e opositores do regime, ceifando-lhes a vida e ateando a revolta. As vidas de Lara e Yuri entrecruzam-se - ele é então um reconhecido poeta, profissional de saúde e pacífico cidadão, noivo de Tonya (graciosa Geraldine Chaplin) - mas nunca o suficiente para que floresça o tão aguardado romance entre os dois. Lenta (saborosa) e imprevisivelmente, o espectador é levado a esperar pelo romance, sujeito então aos acasos da vida. Espelhando a realidade, a história de amor deste sublime Doutor Jivago revela-se-nos-á inevitavelmente adiada, escapando completamente à convencional e tradicional história de amor. Afinal, passada uma hora de filme, ainda não temos o casal amoroso central, Yuri e Lara.

Quando a Primeira Grande Guerra eclode, já num segundo acto, o protagonista é Yuri, agora soldado na frente de combate, e Lara é remetida para um segundo plano, como enfermeira voluntária. Pasha, já marido de Lara, desaparece numa das ofensivas e é dado como morto, ainda que o seu cadáver nunca apareça. É no hospital que os caminhos de Yuri e Lara se cruzam novamente e a paixão despoleta. Fiéis aos estados civis e a uma moral maior, porém, não arriscam a relação.

Com o fim do Verão, a paisagem muda radicalmente. As vozes da Revolução Vermelha sobem ao poder, transformando o cenário político e o cenário social e pessoal de milhões de pessoas. The private life is dead - for a man with any manhood. O ideal, levado ao extremo, provoca o caos e as maiores monstruosidades têm lugar. Pasha reeaparece em cena, tornado Strelnikov e personificando a cruel metamorfose:

Strelnikov: I used to admire your poetry.
Zhivago: Thank you.
Strelnikov: I shouldn't admire it now. I should find it absurdly personal. Don't you agree? Feelings, insights, affections... it's suddenly trivial now. You don't agree; you're wrong. The personal life is dead in Russia. History has killed it. I can see why you might hate me.
Zhivago: I hate everything you say, but not enough to kill you for it.

Yuri regressa a Moscovo e encontra a mansão da família partilhada por dezenas de famílias. Como a realidade mudara... Escapando ao colectivismo, ou pelo menos tentando, parte com os seus numa longa viagem de comboio rumo a Yuriatin, onde haviam tido uma herdade, em tempos. No campo, longe da civilização, as condições para que o filho Sasha cresça afastado dos horrores da guerra são significativamente melhores, ou pelo menos mais saudáveis, ainda que os ecos da revolução alastrem a olhos vistos pelo interior do país.

Sendo que é em Yuriatin que Lara reside, estão reunidas as circunstâncias para que, finalmente e já num terceiro acto, o amor entre os dois ganhe protagonismo. As nuances da não-convencionalidade deste romance, uma vez mais, não tardam em fazer-se notar. É notável como, passados tantos acontecimentos, compreendemos perfeitamente aquela relação de amantes, não a condenando. Durante meses, o doutor Jivago vive uma existência dúbia tão difícil de retratar em cinema, dada a sua complexidade. É evidente o amor e admiração que Yuri sente pela esposa, Tonya, no entanto a natureza desse amor é tão menos passional e inspiradora do que a do amor sentido por Lara. Doutor Jivago conhece, neste momento exacto da narrativa e pelos olhos de Sharif, algumas das suas mais poéticas e primaveris sequências.

Depois de ser sequestrado e levado aos confins da neve e do frio de um dos mais desumanos e rigorosos Invernos, a vida de Yuri está condenada ao pior desfecho. A não ser que ganhe coragem e arrisque desertar. Que alento lhe traria, o afago de Lara ou do filho, um cobertor ou uma refeição quente. A exigente caracterização a que o actor foi sujeito, disfarçando-lhe a aparência tipicamente egípcia, intensifica-lhe agora as expressões. O seu olhar, longe de qualquer transfiguração poética, procura agora o alento, numa desalmada luta pela sobrevivência.

O derradeiro final de tamanha história é - digo-o muito pessoalmente - de partir o coração. Aquela cena do elétrico é em tudo desesperante, e penso que facilmente o espectador partilhará, tal como eu, a angústia de Yuri. O storytelling envolveu-nos de tal forma com os dilemas daquelas personagens que as guardaremos certamente na memória, durante muitos anos, quiçá para sempre.

Doutor Jivago tornou-se, justamente, um clássico absoluto. Um filme magnífico e arrebatador.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

SPARTACUS (1960)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Spartacus
Realização: Stanley Kubrick, Anthonny Mann
Principais Actores: Kirk Douglas, Laurence Olivier, Jean Simmons, Tony Curtis, Charles Laughton, Peter Ustinov, John Gavin, Nina Foch, John Ireland, Herbert Lom, John Dall, Charles McGraw, Joanna Barnes, Harold Stone, Woody Strode, Peter Brocco

Crítica:

UM REBELDE CONTRA ROMA

Das minas à arena, da arena à revolta e da revolta à cruz, Spartacus impõe-se como um filme verdadeiramente monumental; uma referência, ao qual muitos épicos posteriores foram beber inspiração. Orquestrado por uma banda sonora extraordinária (Alex North), repleta tanto de ornamentos como de excessos, e dotado de uma deslumbrante fotografia (Russell Metty) que se alia magistralmente à noção de espectáculo, a magnificência da obra manifesta-se ainda na arrojada direcção artística (Alexander Golitzen, Eric Orbom, Russell A. Gausman e Julia Heron) e no irrepreensível figurino (Valles e William Ware Theiss).

In the last century before the birth of the new faith called Christianity, which was destined to overthrow the pagan tyranny of Rome and bring about a new society, the Roman Republic stood at the very center of the civilized world. "Of all things fairest," sang the poet, "first among cities and home of the gods is golden Rome." Yet, even at the zenith of her pride and power, the Republic lay fatally stricken with a disease called human slavery. The age of the dictator was at hand, waiting in the shadows for the event to bring it forth. In that same century, in the conquered Greek province of Thrace, an illiterate slave woman added to her master's wealth by giving birth to a son whom she named Spartacus. A proud, rebellious son who was sold to living death in the mines of Libya before his thirteenth birthday. There, under whip and chain and sun, he lived out his youth and his young manhood dreaming the death of slavery two thousand years before it finally would die.
Narrador

Como introduz o narrador, eloquente, Spartacus conta a história de um escravo que sonha com a liberdade. O protagonista (Kirk Douglas, numa entrega total ao papel) é-nos apresentado acorrentado, algures nas montanhas da Líbia, envolto em poeira e em suor, debaixo de um sol assaz intenso. Trabalha arduamente nas minas, quando é comprado por Lentulus Batiatus (excepcional Peter Ustinov) e é levado para Cápua, para uma Academia de Gladiadores. Desde cedo revela os traços do seu carácter: You might even be intelligent. That's dangerous for slaves. É por lá que conhece a lindíssima e encantadora escrava Varinia (Jean Simmons) e que trava os primeiros combates mortais contra os seus colegas de cela. Cruel existência, desumana e monstruosa condição, aquela que nos marcou o passado: veja-se o desprezo e a indiferença com que os romanos tratam os escravos ou o entusiasmo e regozijo com que assistem às fatais e espectaculares lutas de gladiadores, como se de confrontos entre animais se tratassem. I am not an animal! Como se os escravos, afinal, não tivesse alma...

Num famoso diálogo com Tigranes Levantus (Herbert Lom), Spartacus afirma, uma vez:

All men lose when they die and all men die. But a slave and a free man lose different things. (...) When a free man dies, he loses the pleasure of life. A slave loses his pain. Death is the only freedom a slave knows.

Spartacus, que por fraternidade de um companheiro escapa à morte na arena, revela-se um líder deveras inspirador, capaz de motivar exércitos de centenas e centenas de semelhantes. A rebeldia reclama uma necessidade - unanimamente sentida e desejada - de justiça e de integridade.

Maybe there's no peace in this world, for us or for anyone else, I don't know. But I do know that, as long as we live, we must remain true to ourselves.
Spartacus

Quando se dá o motim e se propicia a revolta pela liberdade, Spartacus rapta Varinia. Têm ambos, finalmente, espaço e tempo para se amarem mutuamente. Mas a rebeldia cria autênticos e violentos saqueadores, que não só desafiam como ameaçam, seriamente, a autoridade e o poder de Roma e do Senado.

Na capital da república, a autenticidade dos cenários marca um contraste evidente. Refiro-me tanto às assembleias dos corruptos estrategas e senadores como aos palácios dos gananciosos líderes das legiões; temidos por tudo e todos, tal é o seu poder. Levam vidas faustosas e plenas de luxo, com mesas exuberantes, um guarda-roupa vistoso e tesouros valiosíssimos, que lhes asseguram os confortos. Quando não se pavoneiam em retórica, desfilam pelos corredores, atenciosamente servidos por escravos. Passam as tardes nas piscinas públicas, coleccionam mulheres e amantes. O culto e a admiração pelo corpo masculino é tamanho que a bissexualidade é a tendência mais natural do mundo. Aliás, Spartacus aborda este assunto com uma subtileza tão tremenda quanto fascinante. Uma das vezes que o faz, é por meio de um esbelto e oleado tronco de herói grego (dom natural do actor John Gavin, que interpreta o papel de Julius Caesar), discretamente mimado pelo real adversário de Spartacus, o general Marcus Licinius Crassus (Laurence Olivier). Mas ainda antes dessa cena, há um diálogo metafórico e magistral onde o mesmo tirano romano, em conversa com o declamador Antoninus (Tony Curtis), aborda a sua natureza bissexual e questiona a do rapsodo, claramente interessado e atraído:

Crassus: Do you eat oysters?
Antoninus: When I have them, master.
Crassus: Do you eat snails?
Antoninus: No, master.
Crassus: Do you consider the eating of oysters to be moral and the eating of snails to be immoral?
Antoninus: No, master.
Crassus: Of course not. It is all a matter of taste, isn't it?
Antoninus: Yes, master.
Crassus: And taste is not the same as appetite, and therefore not a question of morals.
Antoninus: It could be argued so, master.
Crassus: My robe, Antoninus. My taste includes both snails and oysters.

A cena acaba, contudo, com o desaparecimento de Antoninus. Logo de seguida, descobrimos que o artista se juntou às hostes de Spartacus, por defender a sua causa e por renegar a arrogância de Crassus. A elipse deixa-nos, no entanto, sem perceber como se deu a fuga. Antoninus torna-se-á, depois, o braço direito do ex-gladiador. Spartacus admirá-lo-á genuinamente, como a um irmão. Ficará fascinado com os seus truques de magia, com a sua capacidade para entreter e divertir as gentes e com o seu talento para cantar poesias eruditas, que lembram a importância de regressar a casa.

Antoninus: Are you afraid to die, Spartacus?
Spartacus: No more than I was to be born.

Na segunda parte da obra, depois do entreacto, a acção ganha dimensões avassaladoras. Dá-se uma batalha impressionante, filmada e coreografada entre panorâmicas e movimentos de câmera notáveis e ambiciosos. Se até à data, e do ponto de vista essencialmente técnico, pouco se tinha notado da genialidade de Kubrick, ela salta perfeitamente à vista nesta assombrosa e mortal peleja. Os discursos que tanto Spartacus como Crassus proferem, alternadamente às multidões, são duma grandiloquência sideral. Grandes cenas, na preparação de um confronto visualmente arrebatador.

I'm not after glory, I'm after Spartacus! (...) this campaign is not alone to kill Spartacus. It is to kill the legend of Spartacus.
Crassus
O final é puramente trágico, ainda que lance um importantíssima conquista: um fio de esperança. A força de Roma dizima implacavelmente os exércitos de gladiadores e, aos sobreviventes, condena-os à crucificação. Antes disso, quando Crassus os obriga a denunciarem Spartacus, todos se levantam, um a um, proferindo I am Spartacus! Que momento incrível e arrepiante! Que demonstração de lealdade e de carácter! Varinia, que entretanto havia sido apanhada por Crassus, consegue a carta de alforria, por intermédio do senador Sempronius Gracchus (Charles Laughton, numa performance brilhante), que sempre odiou a prepotência de Crassus. Ao partir de Roma, com um filho nascido entre os braços, depara-se com Spartacus na cruz:

Please die, my love... die, die now my darling!

Um desfecho profundamente emocionante e nada convencional para a Hollywood dos anos 60.

Spartacus, também, nunca foi essencialmente uma produção de estúdio. Foi mais um projecto pessoal de Kirk Douglas, que desde o princípio condicionou a visão da obra (adaptada do romance de Howard Fast). Anthonny Mann, por exemplo, foi despedido na fase inicial do projecto, pelo simples facto de Douglas ambicionar um visionário para a cadeira de realizador. Foi aí que entrou Kubrick. Mas Kubrick nunca se sentiu muito à-vontade com o projecto, ainda que por meio dele tivesse atingido o estrelato. Na verdade, vemos e sentimos muito pouco de Kubrick neste Spartacus, o que é pena. Por aí o filme poderia ter sido, certamente, uma obra ainda mais grandiosa. Neste filme que chegou até nós, nem sempre a câmera ostenta inspiração, sobretudo nas primeiras cenas, onde a história custa a arrancar eficazmente. No todo, nem sempre o filme se mantém ao mesmo nível. Fosse ele dotado de um equilíbrio dramatúrgico apurado e exemplar e não hesitaria em atribuir-lhe as cinco estrelas.

Ainda assim, estamos perante um feito absolutamente memorável. Grande, grande filme.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

POR MAIS ALGUNS DÓLARES (1965)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Per Qualche Dollaro in Più / For a Few Dollars More
Realização: Sergio Leone
Principais Actores: Clint Eastwood, Lee Van Cleef, Gian Maria Volonté, Mara Krupp, Luigi Pistilli, Klaus Kinski, Joseph Egger, Panos Papadopulos, Benito Stefanelli, Roberto Camardiel, Aldo Sambrell, Luis Rodríguez, Tomás Blanco

Crítica:

A CAÇA AO TESOURO

Where life had no value, death, sometimes, had its price.
That is why the bounty killers appeared.

Por Mais Alguns Dólares ainda se mata sem remorso, disparando as balas e eliminando os adversários sem grandes preocupações morais. A preocupação maior é tão-somente o entretenimento, desta vez por meio de uma história bem mais excitante e envolvente do que aquela que Por Um Punhado nos permitia. Sergio Leone aprimora a sua técnica, ainda sem a mestria de câmera que viria a alcançar em O Bom, O Mau e O Vilão e sem aquele tão corrosivo, irreverente e desconcertante humor, capaz de promover as mais espontâneas gargalhadas. Ainda assim, há humor quanto baste neste segundo capítulo da trilogia, momentos de genuína paródia até, que flui sagaz ao ritmo dos tiroteios.

Clint Eastwood (Monco) e Lee Van Cleef (Mortimer) formam uma dupla verdadeiramente apaixonante e cheia de carisma. When two hunters go after the same prey, they usually end up shooting each other in the back. And we don't want to shoot each other in the back. Os dois brilham sob a orquestração inspirada de Leone, que capta nos mais ambiciosos e arriscados close-ups a inteligência sem limites daqueles enigmáticos olhares. El Indio, a personagem de Gian Maria Volonté, é o inimigo perfeito, também ele amoral e adepto das mortes gratuitas, um fora-da-lei sem escrúpulos sedento de ouro e de sangue, dotado de um riso sarcástico e contagiante.

A banda sonora, a cargo de Ennio Morricone, jamais poderá dispensar a mais fervorosa menção. Afinal, o trabalho do compositor é sempre extraordinário e fundamental, ao ponto de ser inimaginável conceber um western spaghetti destes, assinado por Leone, sem a sua tão distinta sonoridade e alma. Destaques imprescindíveis vão também para a luminosa fotografia de Massimo Dallamano ou para a portentosa direcção artística, a cargo de Ángel Cabero, Montoro, Rafael Ferri, Carlo Leva e Carlo Simi. O trabalho de sonoplastia assume por vezes um tom caricatural; nada que não condiga, afinal, com o registo natural da obra.

Há alguns erros crassos e não há porque ignorá-los - talvez o exemplo mais flagrante seja mesmo aquela despedida final em que um cavalga sobre o entardecer e o outro, simultaneamente, conta os mortos em pleno fulgor da tarde - mas o certo é que nos deixamos prender pela trama, pelo candor de cenas como o do tiroteio sobre os chapéus, pela energia e imprevisibilidade crescentes dos sucessivos reencontros daquelas personagens e pela paciente espera que faz esticar o suspense ao limite.

No final, há para os vencedores as tão esperadas recompensas, como sempre, mas para nós, espectadores, fica a recompensa maior que é a sensação e a certeza de termos acabado de assistir, durante pouco mais de duas horas e tão agradavelmente, a um grande filme.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

POR UM PUNHADO DE DÓLARES (1964)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
Título Original: Per un pugno di dollari / A Fistful of Dollars
Realização: Sergio Leone
Principais Actores: Clint Eastwood, Marianne Koch, Gian Maria Volonté, Wolfgang Lukschy, Sieghardt Rupp, Antonio Prieto, José Calvo, Margarita Lozano, Daniel Martín, Benito Stefanelli, Bruno Carotenuto, Joseph Egger, Mario Brega, Aldo Sambrell

Comentário: Foi com alguma desilusão que assisti ao primeiro filme da Trilogia dos Dólares. Não sei se foi a péssima qualidade da cópia ou o facto de não me conseguir abstrair, de todo, da dobragem em italiano sobre as falas do Clint Eastwood. Deixo o benefício da dúvida para uma segunda visualização. De resto e para já, fora um ou outro movimento de câmera virtuoso, os famosos compassos de espera, a autenticidade da direcção artística e a extraordinária banda sonora de Ennio Morricone, o filme fica algures entre o disparo e o disparatado. O final é um grande final, mas o que ficou para trás deixou-me na dúvida.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

PSICO (1960)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Psycho
Realização: Alfred Hitchcock

Principais Actores: Anthony Perkins, Janet Leigh, Vera Miles, John Gavin, Martin Balsam, Simon Oakland

Crítica:

IDENTIDADE MISTERIOSA

Psico é puro suspense. Mesclam-se nele, indistintamente, mistério, tensão e arrepio; os quais se fazem suster de personagem em personagem, de plano em plano e de acorde em acorde... aguçando ao extremo a vontade de saber o que vem a seguir. Desse prisma, o argumento de Joseph Stefano (adaptando a obra de Robert Bloch) mostra-se não só implacável como absolutamente inteligente e assaz escrupuloso no jogo de expectativas que estabelece com o espectador.

Igualmente fulcral para a criação da atmosfera aterrorizante que cresce ao longo de toda a obra é a frenética banda sonora de Bernard Herrmann - para mim, uma das melhores de sempre. Mas também, claro, a poderosíssima e perturbante imagística: resultado da excelência fotográfica, da cadência engenhosa da montagem, da meticulosa encenação e da fruição artística do mestre. O protagonismo, esse, alterna constantemente entre as personagens, deixando a história em aberto e nas mãos da imprevisibilidade. Janet Leigh como Marion Crane? Magnífica, imortalizada por tão carismática interpretação - que vai muito para além da memorável cena do duche. Anthony Perkins como Norman Bates? Verdadeiramente assombroso. Aquele seu olhar final directamente para a câmera, para os nossos olhos, magnetiza-nos para o seu universo de demência, loucura e personalidade múltipla... e é como se nos invadisse o inconsciente até ao mais gélido e frágil recôndito da psique e nos marcasse para sempre.
Psico? Fonte de génio e de inspiração. Cinema em grande.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A INFÂNCIA DE IVAN (1962)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Иваново детство / Ivanovo Detstvo
Realização: Andrei Tarkovsky
Principais Actores: Nikolai Burlyayev, Valentin Zubkov, Yevgeni Zharikov, Stepan, Krylov, Nikolai Grinko, Dmitri Milyutenko, Valentina Malayavina

Crítica:

AS RUÍNAS DA INOCÊNCIA

Imaculado. Puro. Belíssimo. Assim é o cinema de Andrei Tarkovsky e assim é A Infância de Ivan. Os toques poéticos do autor, extremamente sensíveis e virtuosos, reflectem-se em toda e cada uma das cenas e imagens da obra: nas árvores brancas e nos riachos cintilantes de uma natureza condenada pela guerra dos homens... nas chamas cadentes e na infância perdida de um tempo corrompido e cruel onde secou a esperança e onde só há espaço para a tragédia e para o desgosto... no sonho, refúgio de memórias, onde um sorriso abraça e reconforta o coração de uma criança inocente, escapando às agruras do real e aos horrores da loucura humana.

Emocionalmente arrebatadora e - eu diria mesmo - desoladora, a primeira longa-metragem do génio e visionário russo conta-nos a história de Ivan, um corajoso e destemido loirinho magricelas de pele e osso, um menino feito órfão pelas atrocidades da 2ª Guerra Mundial e apadrinhado pelo exército da União como espião, e que vive cada instante como se fosse um adulto, como se fosse um soldado da frente soviética e um elemento não só útil como preponderante na estratégia bélica. A morte da mãe e da família abandonou-o à mais completa solidão e é esse o factor que motiva a sua atitude beligerante e a sua tenacidade em resistir com empenho às dificuldades do momento. Ivan, de doze anos, parece ser o único a acreditar que todo aquele pesadelo de sangue e morte vai acabar. Veja-se a metáfora do velho do quadro, que afirma que nada vale a pena. Ivan continuará a sua missão até ao fim, sem cessar: só descansa em tempo de guerra quem não presta, riposta imediatamente, quando um dos soldados lhe diz que deveria descansar e estudar.

Ao mesmo tempo que reproduz com assaz e profundo realismo o drama e as penosas consequências do confronto (e em especial o impacto psicológico do poder destrutivo da guerra para uma criança), A Infância de Ivan aventura-se, com uma destreza e criatividade incríveis, pelo surrealismo, pelo maravilhoso e pelo fantástico do universo onírico. A transição entre as duas dimensões supera-se eximiamente e na façanha reside uma das qualidades mais admiráveis da obra: aquela cena em que o pequeno Ivan (atravessado o pântano, o frio, a fome e as balas) adormece sobre os cuidados do tenente Galtsev (Yevgeni Zharikov) e liricamente se ascende (tanto pelo som como pela arte de filmar) pelo poço de recordações ao reconforto de um passado precioso... é absolutamente extraordinária. Uma outra cena reside entre as mais memoráveis da obra: as trincheiras rasgam a terra e as oportunidades para encontrar o amor escasseiam. Aquele beijo inesperado em que o capitão Kholin (Valentin Zubkov) envolve a enfermeira Masha (Valentina Malyavina), deixando-a em suspenso sobre a valeta, é de uma beleza indiscritível e de uma carga simbólica notável.

O preto e branco de Vadim Yusov, no máximo da perfeição, eleva e sublima as potencialidades da fotografia, permitindo-nos a nós, espectadores, respirar a paisagem. A banda sonora de Vyacheslav Ovchinnikov enebria-nos com a sua emoção e subtileza, a montagem de Lyudmila Feiginova flui cuidada e irrepreensível. No seu todo, A Infância de Ivan apresenta-se como um todo brilhante, capaz de nos confrontar com as mais pertinentes reflexões filosóficas.

Um clássico obrigatório é dizer pouco: obra-prima absoluta!

domingo, 20 de junho de 2010

A DOCE VIDA (1960)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
Título Original: La Dolce Vita
Realização: Federico Fellini
Principais Actores: Marcello Mastroianni, Anita Ekberg, Anouk Aimée, Yvonne Furneaux, Magali Noël, Alain Cuny, Annibale Ninchi, Walter Santesso, Valeria Ciangottini, Riccardo Garrone, Ida Galli, Audrey McDonald

Crítica:

OS INÚTEIS


A Doce Vida poderia intitular-se A Boa Vida, perfeitamente... Até Cristo anda de helicóptero. E com essa provocadora imagem é iniciada toda uma dissertação sobre a decadência existencial.

Com Marcello Rubini (personagem de Marcello Mastroianni, acertado e tão natural no seu papel) somos levados a conhecer a elite da perdição. Há dinheiro, há fama, há prestígio... mas não há muito mais naquelas vidas vazias. A não ser, claro, as três grandes evasões: fumar, beber e ir para a cama. Muito fumo, muito álcool e muito sexo jamais poderão faltar. Marcello vagueia de cena em cena que nem o argumento, de episódio em episódio, com mais ou menos coerência. O trabalho de cenografia e de guarda-roupa são magníficos. Anita Ekberg imortaliza uma das mais icónicas femmes fatales da História do Cinema, sendo que pelo filme deambulam também muitas outras. O universo feminino de Fellini é sempre - diga-se - rico em mulheres de carácter forte, vincado e irresistível. A ponte deste mundo de loucos com a realidade é feita tanto por Maddalena, a namorada de Marcello, como pelas sanguessugas (os paparazzi, que se alimentam destes bons vivants até ao tutano, sem quaisquer preocupações éticas) ou pela encantadora rapariga do bar da praia.

No seu todo, todavia, não creio que A Doce Vida prime pela coesão narrativa. Os episódios sucedem-se, uns mais necessários do que outros, o tempo arrasta-se e o próprio filme se arrasta, parecendo nunca mais acabar. Penso, também, que há muito mais inspiração noutros títulos de Fellini. É uma obra bem fotografada, com uma ou outra cena memorável, mas que apesar disso não encerra em si nenhum feito extraordinário. Lá que o vazio daquelas vidas assombra o filme, lá isso é indiscutível. Mas enquanto assistia ao filme jamais deixei de pensar em como a minha vida seria mais útil se - realmente - estivesse a fazer outra coisa...

DR. ESTRANHO AMOR (1964)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb
Realização: Stanley Kubrick
Principais Actores: Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden, James Earl Jones

Crítica:


A IRONIA DA GUERRA


One of our base commanders, he had a sort of... well, he went a little funny in the head... you know... just a little... funny.

Dr. Estranho Amor
é ambíguo no título e no subtítulo (Ou: Como Aprender A Deixar De Me Preocupar E A Amar A Bomba) e é ambíguo no retrato que faz da condição humana. Explora, por um lado, o absurdo e ridículo da guerra, da política e da diplomacia inócuas e as consequências inesperadas mas sempre possíveis da loucura, da paranóia e do medo de um mundo à beira do desastre e por demais perdido no caos da ameaça nuclear. Por outro lado, o filme metaforiza - e é nesse estilo que ganha contornos globais e intemporais.

A obra exemplifica como a guerra pode servir e alimentar os propósitos individuais dos poderosos. Aqueles políticos da Grande Sala são os estrategas dos destinos do mundo, ocupados com o jogo da Guerra, como se este não passasse de uma competitiva corrida de testosterona, onde a "bomba no alvo" é algo bem explícito e desprovido de metáforas; como se a Guerra fosse um mal pelo qual se acaba por desenvolver um autêntico Estranho Amor, do qual se extrai múltiplas vantagens pessoais. Note-se a personagem de George C. Scott (aqui num desempenho de overacting formidável) que tanto se empenha em evitar o conflito e que, por fim, se sente seduzido pela bomba e pelos seus hipotéticos proveitos sexuais. A personagem Dr. Estranho Amor é, das três versáteis e extraordinárias interpretações do genial Peter Sellers, a que simboliza melhor, muito provavelmente, toda a ambiguidade do filme: faz parte do conselho de guerra, aparentemente inofensivo, e, no entanto, trata-se de um lunático e reprimido nazi, sinistro e maquiavélico, mestre de bombas, com as ideias mais avassaladoras, monstruosas e perigosas, ainda que fisicamente impotente e aprisionado numa cadeira de rodas.

De um humor negro e corrosivo, Dr. Estranho Amor impõe-se politicamente satírico e provocador e implicitamente tão sexual: desde os unusuais créditos iniciais até ao seu desfecho apocalíptico. E se pelo título e subtítulo já é sugestivo que baste, por meio do seu perpicaz, audacioso e muito bem escrito argumento (já para não falar da genialidade do art concept dos cenários ou da sublime e paradoxal utilização da banda sonora), Stanley Kubrick concebe aquela que é, para mim e indiscutivelmente, uma das melhores comédias de sempre.

BANDO À PARTE (1964)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Bande à part
Realização: Jean-Luc Godard

Principais Actores: Anna Karina, Danièle Girard, Louisa Colpeyn, Chantal Darget, Sami Frey, Claude Brasseur, Georges Staquet, Ernest Menzer, Jean-Claude Rémoleux

Crítica:

OS REBELDES

Pour les spectateurs qui rentrent en ce moment dans la salle tout ce qu'on peut dire ce sont quelques mots pris au hasard: il y a trois semaines, pas mal d'argent, un cours d'anglais, une maison près de la rivière, une jeune fille romantique.
Narrador

É simples, mas virtuoso como poucos. É espontâneo, intimista, carismático. Tem uma narrativa linear, plena de homenagens ao cinema de Hollywood (ao western, ao musical e sobretudo ao cinema policial: Je vais faire de Bande à part un petit film de série Z comme certains films américains que j'aime bien. Jean-Luc Godard), mas nem por isso deixa de quebrar convenções: o narrador/autor conduz a história com várias interrupções, manipulando-a quando bem pretende: Ici on pourrait ouvrir une parenthèse et parler des sentiments d'Odile, de Franz et d'Arthur, mais, après tout, tout est déjà assez clair, mieux vaut donc laisser parler les images et fermer la parenthèse. É, por isso mesmo, moderno, ainda que, segundo Elliot, tout ce qui est nouveau est de ce fait automatiquement traditionnel.

Há sensibilidade na arte de filmar - extrema sensibilidade, extrema delicadeza. O preto e branco é belíssimo e luminoso. O talento do director de fotografia Raoul Coutard e do realizador Jean-Luc Godard aliam-se magistralmente - penso que isso é claro - numa experiência descomprometida e artisticamente prazerosa. A forma como são filmados os actores, por exemplo, emana uma graciosidade extraordinária.
Cenas memoráveis são inúmeras. O final então é surpreendente. Mas destaco especialmente três: une vraie minute de silence peut durer une éternité (a verdade é assumida em absoluto, para além do plano ficcional e quebrando a construção da mimesis), a dança do trio no bar (mais um momento inesperado e de uma inspiração tremenda) e a icónica corrida pelo Louvre:


Arthur déclara qu'il fallait attendre la nuit pour faire le coup et respecter ainsi a tradition des mauvais policiers de série B. Que faire alors pour tuer le temps qui s'éternise demanda Odile Frantz avait lu dans France-Soir qu'un américain avait mis 9 minutes 45 secondes pour visiter le musée du Louvre, ils décidèrent de faire mieux...
En 9 minutes 43 secondes Arthur, Odile et Frantz avaient battu le record établi par Jimmy Johnson de San Francisco.


Eis, pois, um feito singular e pessoal. Irreverente e jovial, de tamanho bom gosto e assumidamente consciente de si próprio. Grande filme.

Mon histoire finit là, comme dans un roman bon marché, à cet instant superbe de l'existence où rien ne décline, rien ne dégrade, rien ne déçois. Et c'est dans un prochain film que l'on vous racontera, en CinémaScope et Technicolor cette fois les aventures d'Odile et de Frantz dans les pays chauds.
Narrador

terça-feira, 2 de março de 2010

DOIS HOMENS E UM DESTINO (1969)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Butch Cassidy and the Sundance Kid
Realização: George Roy Hill

Principais Actores: Paul Newman, Robert Redford, Katharine Ross, Strother Martin, Henry Jones, Jeff Corey, George Furth, Cloris Leachman, Ted Cassidy, Kenneth Mars, Donnelly Rhodes, Jody Gilbert

Crítica:

OS GOLPISTAS

I'll do anything you ask of me except one thing.
I won't watch you die. I'll miss that scene if you don't mind.

Um deles é melhor com as pistolas e com as mulheres, mas não sabe nadar. O outro é um pensador bem humurado, charmoso e galante, mas sem perícia na acção. O certo é que Kid e Butch, juntos, completam-se na perfeição, naquela que é uma das duplas de bandidos mais afamadas de sempre. Dois Homens e Um Destino, de George Roy Hill, vem refrescar o western no final dos anos 60, por meio de um entretenimento de grande qualidade, com uma forte componente cómica, extremamente divertida.

Há uma química especial entre Paul Newman (Butch) e Robert Redford (Kid). Penso que isso é inegável. E, realmente, se há motivo capaz de justificar o sucesso tremendo da dupla de actores com este filme penso que é essa química. Há um companheirismo absolutamente autêntico. E isso faz-nos acreditar na dupla, nas personagens e na trama. O argumento de William Goldman está repleto de frases e momentos inesquecíveis... aquela longa e persistente perseguição a meio do filme... ou aquele fabuloso passeio de bicicleta, ao som de Raindrops Keep Fallin' on My Head (B. J. Thomas, Hal David e Burt Bacharach)... poderá ser considerada, essa cena, outra coisa senão um feito incrivelmente tocante, surpreendente e magistral? Depois, temos um trabalho de fotografia majestoso, de Conrad L. Hall, que torna o filme visualmente arrebatador. E a direcção artística e o guarda-roupa são igualmente excepcionais.

George Roy Hill nunca é genial, é certo, mas arquitecta uma obra irrepreensivelmente bem feita. Desde o filme mudo dos créditos iniciais às passagens do sépia para a cor, aos zooms, e ao exímio domínio das mais variadas técnicas e registos cinematográficos. Numa palavra, um clássico simplesmente... imperdível.


Já agora, maravilhem-se com esta carismática pérola:

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O BOM, O MAU E O VILÃO (1966)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo / The Good, The Bad and The Ugly
Realização: Sergio Leone
Principais Actores: Clint Eastwood, Eli Wallach, Lee Van Cleef, Aldo Giuffré

Crítica:

TRÊS HOMENS EM CONFLITO

Haverá western mais cómico - e ao mesmo tempo tão belo - do que este O Bom, O Mau e O Vilão? Não haverá, certamente. Abrem os créditos iniciais e a paródia arromba pela obra de arte adentro. Aparece Tuco (Eli Wallach), o Vilão, certeiro na pontaria e na patifaria, mas de meio-coração. Brilha, noutras paradas, o olhar matador de Sentenza (Lee Van Cleef), o Mau, tão irónico no sorriso como na alcunha (Angel Eyes). E a completar o trio de ataque temos o misterioso Blondie de poucas palavras (Clint Eastwood), o Bom. Todavia, não são os típicos protagonistas estereotipados, de carácter cerrado. Afinal, estamos num western de Leone. Há uma reformulação do cânone e os perfis das personagens encontram a imprevisibilidade na sua ambiguidade.

De bandidos em fuga a prisioneiros de guerra, de rivais egoístas a companheiros inseparáveis, Tuco e Blondie correm o faroeste em busca de fortuna, perseguem o rastilho de um boato longínquo, enfrentam - até - as trincheiras de uma guerra que mancha a terra de sangue e alcóol, atrás de um cemitério de esperança, de uma campa sem nome. Sempre irremediavelmente deslocados da realidade e absolutamente absorvidos pelos seus propósitos-banhados-a-ouro. Parece hilariante? Não tem como não o ser. Tudo resulta na perfeição, neste clássico intemporal: a direcção artística (Carlo Leva, Carlo Simi e Tani) é sublime, a fotografia (Tonino Delli Colli) é de uma beleza extasiante e a banda sonora (Ennio Morricone) soa e ressoa, brilhante e genial, até ao fim, e muito para além dele, ou não se tivesse ela tornado, até aos dias de hoje, um autêntico ícone do western. Sergio Leone, magistral da mais radiosa panorâmica ao mais arriscado dos close-ups, não só vence como triunfa sob a sua visão ambiciosa, original e profundamente inspirada. Alguém se esquecerá daquela cena magnífica em que Tuco é brutalmente espancado pelo sadismo do Mau, ao som da mais contrastante e surpreendente banda sonora? Para não falar do desfecho: na minha opinião, a melhor cena da obra, tão operático.

Veredicto? Imperdível, por tudo isto e tanto, tanto mais. Um dos melhores filmes de sempre.


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Nota especial para a infeliz escolha do título português.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

101 DÁLMATAS (1961)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: One Hundred and One Dalmatians
Realização: Clyde Geronimi, Hamilton Luske e Wolfgang Reitherman

Filme de Animação


Crítica:


UM FILME COM MUITA PINTA

É crepuscular na paisagem, mas absolutamente moderno no conceito artístico e no estilo gráfico. É Picasso a entrar na Disney*. Não há precisão na linha, mas
a perfeição do desenho atinge-se nos traços de esboço. O segundo plano cai muitas vezes no abstracto. 101 Dálmatas rompe, por isso, com a estética romântica que perdurava imaculada até A Bela Adormecida.

É, também, o primeiro filme com uma história contemporânea, fora do universo mágico dos contos de fada ou da tradição popular. Talvez por isso a confluência com a parte visual e a jazzy soundtrack soe tão natural e tão harmoniosa. Cruella De Vil, a tão cómica quanto malvada vilã, é uma autêntica fashion victim; e já agora, diga-se: uma das maiores e mais brilhantes criações de personagem alguma vez feita em animação. É memorável. O universo canino e a locomoção animal é perfeitamente conseguida. De resto, não há grandes números musicais; aliás: dificilmente 101 Dálmatas se poderia afirmar como mais um clássico musical da Disney. É, sim, uma comédia ligeira, dividida entre o campo e a cidade, que alia a música a uma criatividade evidente: aquele genérico inicial é logo a primeira prova disso; genial, na sua concretização.

Nas quantidades certas: muito humor, algum suspense e profundo encanto.
101 Dálmatas é tudo isto e, acima de tudo, muita arte. Nesse sentido, a obra foi, é e será um triunfo incrível que divertirá gerações atrás de gerações.

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* Cf. Andreas Deja, Making Of, DVD Edição Especial

domingo, 22 de novembro de 2009

O LIVRO DA SELVA (1967)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
Título Original: The Jungle Book
Realização:
Wolfgang Reitherman

Filme de Animação


Crítica: O exemplo perfeito de como animação de qualidade não passa apenas por desenhos concebidos com assaz excelência e por uma boa ideia. É essencial a qualquer boa história um argumento ritmado e bem construído. Pois bem, o ritmo deste O Livro da Selva é completamente irregular e às tantas mais parece uma colagem de sequências com mais ou menos graça. O trabalho de realização, em termos de orquestração geral, é, sinceramente, frustrante, e não há noção do espaço e do tempo. E a banda sonora raramente merecerá destaque. De resto, exceptuando a muito boa captação da natureza animal, fica-nos uma lição de amizade que é, no fim de contas, um passeio meio alegre meio aborrecido por um jardim zoológico animado.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

2001: ODISSEIA NO ESPAÇO (1968)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: 2001: A Space Odyssey
Realização: Stanley Kubrick
Principais Actores: Keir Dullea, Gary Lockwood, William Sylvester

Crítica:

A INTEMPORAL HISTÓRIA DO HOMEM

De uma genialidade arrepiante e visualmente espectacular (note-se a sofisticação dos efeitos especiais ou a beleza hipnótica da fotografia), 2001: Odisseia no Espaço é, meritoriamente, uma das maiores obras-primas da História do Cinema.

A realização de Kubrick é uma assombrosa revolução estética, por meio da qual é alcançada a pureza da poesia, não em palavras, mas em imagens e em sons. E quando o autor prescinde do silêncio cósmico e do tão profético quanto alegórico-filosófico argumento (escrito a duas mãos entre Kubrick e Arthur C. Clarke) e recorre então à música, os temas de Richard Strauss (Also Sprach Zaratustra), Johann Strauss (An der schönen blauen Donau) e de Gyorgy Ligeti (Lux Aeterna e Requiem) eternizam-se na vastidão da imagem e do tempo. Os ângulos que a câmara de Kubrick escolhe para filmar são radicalmente perfeitos. O design dos cenários e dos elementos decorativos é vanguardista e profundamente inspirador.

2001: Odisseia no Espaço é, enfim, um autêntico universo paralelo, rico em significados, mistério e metafísica. Da evolução à inteligência artificial, é uma experiência artística ímpar e um exercício de reflexão derradeiramente importante. Se alguma vez houve Deus, este foi, certamente, o filme que mais se lhe aproximou.

CINEROAD ©2020 de Roberto Simões