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domingo, 2 de janeiro de 2011

RIO BRAVO (1959)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Rio Bravo
Realização: Howard Hawks
Principais Actores: John Wayne, Walter Brennan, Ward Bond, Dean Martin, Ricky Nelson, Angie Dickinson
 
Crítica:

A LEI DO XERIFE

Em Rio Bravo, essencialmente, é tudo uma questão de diálogos e de actores. A câmera revela uma presença subtil e discreta e o espectador entra na esquadra, no saloon, no Hotel Alamo e em todas as ruas empoeiradas da cidade, sentindo-se como um dos seus passivos e atemorizados habitantes, familiarizado com todas as suas extraordinárias personagens.

Em poucos minutos e com uma acção bem humurada, conhecemos o xerife John T. Chance, um àspero mas correcto homem-da-lei (John Wayne, numa performance repleta de nuances expressivas; sejam elas gestos, olhares ou significativos silêncios). Ao contrário do marshall de O Comboio Apitou Três Vezes - filme que motivou Hawks a realizar este Rio Bravo, em jeito de contra-resposta - em que Will Kane (Gary Cooper) passava a maior parte do filme a pedir ajuda aos habitantes da cidade, aqui John T. Chance passa o filme a rejeitar as ajudas que os mais próximos lhe teimam em oferecer. Afinal, Chance está consciente do seu papel na sociedade e, em concreto, na sua cidade. Ele é o xerife, é a autoridade e, por isso, deve proteger os seus conterrâneos, zelando sempre e acima de tudo pela ordem e pela lei. É esse o seu papel, não o de mais ninguém, e deve entregar a sua vida à sua causa.

Feathers: How does a man get to be a sheriff?
John T. Chance: Gets lazy. Gets tired of selling his gun all over. Decides to sell it in one place.

Como parceiros da sua trupe justiceira, tem, de estrela ao peito, o velho e aleijado Stumpy (genial e hilariante Walter Brennan), um cowboy de coração ferido e perdido no álcool, Dude Borachón (Dean Martin, estupendo no acting e na canção My Rifle, My Pony, and Me). Mais tarde, junta-se-lhes o jovem e destemido Colorado (Ricky Nelson), a cumplicidade-extra de Carlos, o latino-fala-barato-dono-do-hotel que vive sempre amedrontado pela sua esposa Consuela e o vaso oportuno da insolente, vigarista, forasteira, procurada, sensual e deslumbrante Feathers (Angie Dickinson, numa performance memorável, que viverá com o protagonista um verdadeiro romance à moda antiga). Por todo o mérito alcançado pelas interpretações, há a salientar a magistral direcção de actores.

A narrativa avança a um ritmo lento; para o espectador, revela-se um exercício extremamente prazeroso de se acompanhar. Num compasso de espera repleto de improvisos, aguardamos a chegada do marshall que decidirá o que fazer com o assassino Joe Burdette, aprisionado com empenho. Até lá, seguimos com tensão e suspense as sucessivas tentativas dos malfeitores para resgatarem o malfeitor. A notável competência do guarda-roupa e da direcção artística compõe a moldura, perfeitamente iluminada e enquadrada (fotografia de Russell Harlan).

Grande western de Hawks. Uma lição de amizade, liderança, respeito e redenção.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

AS AVENTURAS DE PETER PAN (1953)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Peter Pan
Realização: Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske

Filme de Animação


Crítica: Uma das mais divertidas e hilariantes aventuras da Disney. Peter Pan adapta a deslumbrante peça de J. M. Barrie sobre a importância de ser criança, em toda a sua inocência, pureza e capacidade de sonhar e acreditar. Repleto de acção, fantasia e de muito bom humor, a magia das histórias de encantar ganha um ritmo contagiante. Personagens como o Capitão Gancho ou o Barriga (os maus como agentes da comédia), o crocodilo ou a cadelinha Naná (empenhada no papel de ama), o Chefe Índio ou os Meninos Perdidos, as sereias ou a fada Sininho (temperamental e nervozinha), Wendy e os irmãos ou o próprio Peter Pan (destemido e impulsivo, o rapaz que nunca cresce), são verdadeiramente marcantes e inesquecíveis. Peter Pan é claro, também, nos papéis que atribui ao Feminino e ao Masculino: os rapazes são os eternos brincalhões e as raparigas são as mulheres ciumentas e fúteis (como a fada ou as sereias) ou as mães (simbolizadas na figura da jovem Wendy), amparo eterno dos rapazes. Uma vez crescidos, nunca mais poderão voltar à Terra do Nunca, a eterna dimensão da infância, onde tudo pode acontecer. Criativo no desenho e vibrante na banda sonora, eis, pois, um filme em grande. Sombra imperdível na nossa memória.

domingo, 5 de dezembro de 2010

BEN-HUR (1959)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Ben-Hur
Realização: William Wyler

Principais Actores: Charlton Heston, Jack Hawkins, Haya Harareet, Stephen Boyd, Hugh Griffith, Martha Scott, Cathy O'Donnell, Sam Jaffe, Finlay Currie, Frank Thring, Terence Longdon, George Relph, André Morell

Crítica:

O TOQUE DE DEUS


How do you fight an ideia?
With another idea.

Qual A Criação de Adão, que do tecto da Capela Sistina cintila como uma constelação, também em Ben-Hur se tocam a arte e a transcendência, capazes de fascinar o Homem eternamente. Karl Tunberg concebe, a partir do romance de Lew Wallace, o argumento de uma obra grandiloquente na escala e ínfima nos pormenores, arquitectada com toda a grandiosidade de uma mega-produção e magistralmente realizada por William Wyler. O maior épico de todos os tempos é, em todos os sentidos e sob todas as perspectivas, um prodigioso e inspirador triunfo da arte e da técnica cinematográfica.

In the Year of our Lord, Judea - for nearly a century - had lain under the mastery of Rome. In the seventh year of the reign of Augustus Caesar, an imperial decree ordered every Judean each to return to his place of birth to be counted and taxed. The converging ways of many of them led to the gates of their capital city, Jerusalem, the troubled heart of their land. The old city was dominated by the fortress of Antonia, the seat of Roman power, and by the great golden temple, the outward sign of an inward and imperishable faith. Even while they obeyed the will of Caesar, the people clung proudly to their ancient heritage, always remembering the promise of their prophets that one day there would be born among them a redeemer to bring them salvation and perfect freedom.
Balthasar

Vinte e seis anos depois do nascimento de Jesus, que acompanhámos a jeito de prólogo, o poder de Roma impõe-se sobre a Judeia, suscitando a revolta. Judah Ben-Hur (Charlton Heston), príncipe e comerciante muito rico, judeu, vive feliz numa casa abastada, com a mãe e a irmã, e com os escravos que para ele não são senão amigos. É um homem amistoso, bondoso, gentil, honesto e sábio. É um homem, acima de tudo, de consciência. Nutre um amor correspondido e muito especial para com Esther, que, no entanto, está noiva de um outro homem:

Judah Ben-Hur: If you were not a bride, I would kiss you goodbye.
Esther: If I were not a bride, there would be no goodbyes to be said.

Um dia, reencontra Messala (Stephen Boyd), um grande amigo de infância, agora tribuno entre as legiões romanas. O reencontro é deveras emocionante: muito foi aquilo que os uniu, em tempos, quando eram como irmãos inseparáveis.

It's an insane world, but in it there's one sanity, the loyalty of old friends. Judah, we must believe in one another.
Messala

Contudo, cada um seguiu as suas pisadas. Judah fortaleceu a sua identidade e defende o seu povo oprimido, crente em Deus e no messias que há-de vir. Messala cresceu entre os soldados romanos, sedento de riqueza, de poder e de glória, pleno de arrogância e defrontando todos os inimigos do império. Pertence agora a um mundo completamente diferente e incompatível:

Judah Ben-Hur: If I cannot persuade them, that does not mean I will help you... murder them. Besides, you must understand this, Messala. I believe in the past of my people, and in their future.
Messala: Future? You are a conquered people!
Judah Ben-Hur: You may conquer the land; you may slaughter the people. But that is not the end. We will rise again.
(...)
Messala: Be wise, Judah. It's a Roman world. If you want to live in it, you must become part of it... (...) It was fate that chose us to civilize the world - and we have. Our roads and our ships connect every corner of the earth, Roman law, architecture, literature and the glory of the human race.

Para Judah, Deus é Deus e os judeus deverão manter-se livres. Para Messala, Deus é o imperador e os judeus deverão submeter-se ao império.

Messala: Look to the West, Judah! Don't be a fool, look to Rome!
Judah Ben-Hur: I would rather be a fool than a traitor... or a killer!
Messala: I am a soldier!
Judah Ben-Hur: Yes! Who kills! For Rome! Rome is evil!
Messala: I warn you...
Judah Ben-Hur: No! I warn you! Rome is an affront to God! Rome is strangling my people and my country, the whole Earth! But not forever. I tell you the day Rome falls there will be a shout of freedom such as the world has never heard before!

A discussão intensifica-se, assolada pela diferença, até que se dá o inevitável:

Messala: You're either for me or against me! You have no other choice.
Judah Ben-Hur: If that is the choice, then I am against you.

A opção de ambos torna-se irreversível e as consequências da mesma revelar-se-ão profundamente trágicas.

Ben-Hur, a mãe e a irmã assistem ao desfile das tropas romanas da sua varanda quando, por culpa de um mero incidente, são acusados da tentativa de assassinato do governador da Judeia. São todos aprisionados, sem direito a julgamento, e o próprio Messala se assegura de que serão todos condenados. You're either for me or against me! Insurge-se o ódio, pelo sentimento de traição daquela amizade de anos. Ben-Hur ainda escapa da sela, enfrentando Messala e obrigando-o a libertar as duas mulheres... mas em vão. Acaba irremediavelmente preso, escravizado e condenado a uma vida de sofrimento, desconhecendo - de todo - o paradeiro da mãe e da irmã. May God grant me vengeance! I will pray that you live until I return!

A narrativa, depois, irrepreensivelmente fluída e dotada de uma intriga assaz envolvente, acompanha a tortuosa travessia no deserto, na qual Ben-Hur e os restantes prisioneiros, tornados escravos, seguem acorrentados, inteiramente desidratados e sequeosos. Uma vez, enfraquecido, Ben-Hur deixa-se cair sobre o chão da Nazaré, atordoado. Um transcendente e misterioso tema musical entra em cena, anunciando uma mão generosa e estendida. É Jesus, sabemo-lo, que lhe dá a beber a água renegada. À luz do contexto bíblico em que a própria obra nos insere, desde o início, depreendemos facilmente a identidade daquele vulto cuja voz ou rosto jamais conheceremos. Ainda que não fique a conhecer o nome do benfeitor, Judah ficar-lhe-á eternamente grato por tamanho gesto, numa hora tão difícil...

Segue-se uma cena extraordinária e ambiciosa, plena de efeitos especiais: a cena da batalha naval. Passados três anos, a viagem segue, em alto-mar, a bordo das galeras romanas. Duzentos escravos são levados à exaustão pela força braçal exigida para mover os enormes remos. São chicoteados, são obrigados a acompanhar o ritmo dos tambores às mais variadas velocidades. Battle speed!... Attack speed!... Ramming speed! A banda sonora de Miklós Rózsa, genial, coincide com cada batida, com cada andamento. Ben-Hur - o 41, como é chamado pelo general Quintus Arrius - é, porventura, o mais forte e destemido de todos os escravos. O general apercebe-se também que ele é um homem de muita fé. Sabe que ele é essencial para aquele barco, para a motivação dos companheiros. We keep you alive to serve this ship. Row well, and live. Quintus Arrius admira-o; é por isso que, na imediação do ataque, o manda libertar, para lhe dar uma hipótese de sobrevivência. 41, why did he do that? - interroga o remador 42. E o judeu responde: I don't know. Once before, a man helped me. I didn't know why then. Cresce, pois, o sentimento de que não está só, que Deus o acompanha. Com o naufrágio, que encerra a cena, Ben-Hur revela todo o seu carácter; se ainda dúvidas existissem: não só ajuda a libertar os colegas dos cadeados, antes de um aterrador adeus, como salva o general, retribuindo-lhe o gesto. Quando o oficial acorda, à deriva num dos destroços da embarcação, ainda tenta o suicídio, pensando que fora derrotado em combate. Ben-Hur impede-o da morte, uma vez mais:

Quintus Arrius: Why did you save me?
Judah Ben-Hur: Why did you have me un-chained?
Quintus Arrius: What is your name, 41?
Judah Ben-Hur: Judah Ben-Hur.
Quintus Arrius: Judah Ben-Hur. Let me die.
Judah Ben-Hur: We keep you alive to serve this ship. Row well, and live.

Por fim, são recolhidos por uma vela romana. Afinal, haviam vencido a refrega. Mal sabia o judeu que Quintus Arrius, a quem salvara a vida, era não só general do exército como cônsul do imperador. Chegados à capital do império, Quintus e Judah são recebidos como heróis pelas multidões. São recebidos, inclusivé, pelo imperador. Judah Ben-Hur é então congratulado pelo seu feito, torna-se auriga e herdeiro de Quintus e conhece Pôncio Pilatos, o próximo governador da Judeia. Contudo, com aquelas vestes romanas, desfilando por todos aqueles palacetes... não parecia mais o mesmo. Não fora tomado pela ganância, mas pesava-lhe na consciência uma contradição: o que fazia por ali um judeu, tornado romano... Sobretudo depois de tudo o que havia acontecido. A saudade da sua querida mãe, da sua querida irmã... A angústia de não saber se haviam falecido à escuridão dos calabouços ou sobrevivido às injustiças de Messala e da cúria romana... Tudo isso o consumia sem dó nem piedade.

É no intuito e na esperança de salvar as familiares que torna a África. No caminho cruza-se com o ancião Balthasar: a voz que nos introduzira na história, crente no messias, e que foi uma das pessoas que seguiu a estrela sagrada naquela noite fria: Pardon me - you are a stranger here. Would you be from Nazareth? Balthasar confunde-o com Jesus. I thought... you might be the one... the one I have come back from my country to find. He would be about your age. (...) When I find him, I shall know him. É por intermédio do velho que Ben-Hur conhece o Sheik Ilderim (Hugh Griffith, num desempenho hilariante e verdadeiramente brilhante), um comerciante árabe que trata os cavalos como filhos e que se lhe dirige, inquirindo: One God, that I can understand; but one wife? That is not civilized. (...) I've got six... no, seven. E Balthasar intervém, de imediato: I have counted eight, and that is because he is traveling. At home, he has more. Estes comic reliefs são importantíssimos para a digestão dramática, pois o que aí vem é doloroso e trágico. Quando Ilderim descobre que Ben-Hur foi auriga na Grande Arena, depressa o incita a tratar dos seus quatro cavalos brancos. O judeu não desgosta da ideia, mas primeiro está a sua missão: regressar à Judeia. I hope to see you again, Judah Ben-Hur, despede-se o árabe.

Chegado a casa, finalmente, nada mais lhe parece igual. Judah reencontra Esther, solteira, e a possibilidade do amor, mas nunca mais se soube nada da mãe ou da irmã. O pai de Esther alerta-o para a eventualidade de estarem mortas, para lhe reduzir as esperanças e, desse modo, atenuar-lhe o sofrimento. Mas Ben-Hur não se resigna.

O destino traçou-lhe um caminho bem penoso. Aquele que parecia inicialmente um caminho para Deus, transformou-se numa odisseia de ódio e de vingança. Ben-Hur está decidido a enfrentar Messala de uma vez por todas, desafiando a sua própria vida se necessário, na esperança cada vez mais obsessiva de reencontrar a mãe e a irmã.

Messala: By what magic do you bear the name of a Consul of Rome?
Judah Ben-Hur: You were the magician, Messala. When my ship was sunk, I saved the Consul's life. (...) Find them, Messala. Restore them to me and I'll forget what I vowed with every stroke of that oar you chained me to!
Quando os enviados de Messala procuram nos registos dos calabouços pelas familiares de Ben-Hur, deparam-se com as duas ainda vivas, mas doentes, e libertam-nas. As duas correm sorrateiramente até casa e apresentam-se, a custo, a Esther. Perguntam por Judah, procurando reconforto, mas não pretendem que ele as torne a ver naquele estado. Por isso, pedem a Esther que diga ao amado que as duas morreram. Quando Ben-Hur conhece a terrível mentira, fica cego pelo ódio. O espectro da tragédia clássica e até mesmo da tragédia shakespeariana ecoa, então, pelo argumento.


Um espectáculo sem precedentes tem lugar, logo após o interlúdio. Magnificente, colossal, absolutamente excitante em toda a sua acção e adrenalina. Refiro-me, claro está, à já mítica cena da Corrida de Quadrigas, com Ben-Hur e Messala como principais aurigas. O primeiro com os brancos corséis de Ilderim. O segundo com impetuosos cavalos negros e com um tão engenhoso quanto perigoso carro grego. O confronto é avassalador e fatal. Os cenários da Grande Arena são intermináveis, de um design sofisticadíssimo e preenchidos por dezenas de milhares de figurantes e por estátuas gigantescas e imponentes. O trabalho de guarda-roupa e de direcção artística é monumental. A fotografia de Robert Surtees é completamente deslumbrante, as pinturas de mate compõem muito bem os fundos e a imagem de 70mm amplia o espectáculo a uma escala impressionante. A montagem (John D. Dunning, Ralph E. Winters e Margaret Booth) é incrível, a técnica de filmar as perseguições é voraz e a elegância e a nobreza dos equídeos é sobejamente enaltecida. Enfim, que feito memorável... Espantoso! Para o vencedor, no momento da glória, a coroa de louros e a aclamação das multidões.

Messala: Triumph complete, Judah. The race won. The enemy destroyed.
Judah Ben-Hur: I see no enemy.
Messala: What do you think you see? The smashed body of a wretched animal! Is enough of a man still left here for you to hate? Let me help you...You think they're dead. Your mother and sister. Dead. And the race over. It isn't over, Judah. They're not dead.
Judah Ben-Hur: Where are they? Where are they? Where are they?
Messala: Look for them in the Valley of the Lepers, if you can recognize them! It goes on. It goes on, Judah. The race, the race is not over.

Espiritualmente de rastos, Judah resigna à cidadania romana, que entretanto auferira, corta com toda essa vida fora da Judeia e tenta reencontrar-se a si próprio. Que papel de uma vida, este de Charton Heston. Que performance genuinamente assombrosa.

De regresso a casa, seco por dentro, confronta Esther:


Judah Ben-Hur: Why did you tell me they were dead?
Esther: It was what they wanted. Judah, you must not betray this faith. (...) Judah, love them in the way they most need to be loved: not to look at them! (...) It will tear them apart if they see you!

Apesar da alegria de o tornar a ver, Esther não encontra mais o mesmo homem:

It was Judah Ben-Hur I loved. What has become of him? You seem to be now the very thing you set out to destroy, giving evil for evil! Hatred is turning you to stone. It is as though you had become Messala! I've lost you, Judah.

Entretanto, já todos na Judeia tinham ouvido falar de Jesus. Diziam-no o filho de Deus, o Rei dos Judeus, o messias prometido, o milagreiro. Ben-Hur recusara, certo dia, juntar-se a Esther e a Balthasar, que entretanto reencontrara entre as suas gentes, no famoso sermão da montanha. Mas agora, era o momento de se entregar à fé. Desloca-se ao Vale dos Leprosos, com Esther, resgata ambas as mulheres e leva-as à cidade, na esperança da salvação, onde - inesperadamente - decorre o julgamento de Jesus sob a direcção de Pôncio Pilatos. As últimas cenas de Ben-Hur fecham o círculo bíblico em que a obra se inscrevera, resconstituindo os fatídicos episódios das últimas horas do messias até à crucificação. E até esse final sublime, de milagre e de perdão - Father, forgive them for they know not what they do -, a realização de William Wyler mantém toda a sua mestria e majestade, com incrível graciosidade no movimento de câmera. Acção, romance, drama, tragédia, comédia... todos os géneros se aliam perfeitamente numa experiência ímpar.

Veredicto? Um autêntico pedaço do éter. Uma das maravilhas maiores da História do Cinema. Um dos melhores filmes de sempre.

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Nota especial para a excelência da remasterização.
Um restauto impecável.

sábado, 11 de setembro de 2010

OS DEZ MANDAMENTOS (1956)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: The Ten Commandments
Realização: Cecil B. DeMille
Principais Actores: Charlton Heston, Yul Brynner, Anne Baxter, Edward G. Robinson, Yvonne De Carlo, Debra Paget, John Derek, Cedric Hardwicke, Nina Foch, Martha Scott, Judith Anderson, Vincent Price, John Carradine, Olive Deering, Douglass Dumbrille

Crítica:

O PREDESTINADO

So let it be written, so let it be done.

Uma das mais belas histórias da Bíblia obteve, no ano de 1956 e graças à ambição sem limites de Cecil B. DeMille, a sua melhor adaptação cinematográfica - em live action - de que há memória. O bebé hebreu que é abandonado nas águas do Nilo, numa arca de juncos, no tempo em que Ramsés I proibia a procriação do povo de Deus e o escravizava arduamente, é recolhido na corte do Faraó e feito Príncipe do Egipto, desconhecendo o seu passado e a sua origem.

Memnet: Do you know the pattern of this cloth?
Bítia: If my son is wrapped in it, it is a royal robe!

Mais tarde, ao descobrir a sua verdadeira identidade, Moisés decide juntar-se aos seus e conhecer o outro lado do chicote.

If this god is God, he would live on every mountain, in every valley. He would not be the god of Ishmael or Israel alone, but of all men. It is said he created all men in his image. He would dwell in every heart, every mind, every soul.

Expulso do Egipto pelo próprio Faraó, e após a desolação do deserto, encontrará Deus no cimo do Monte Sinai, onde Ele o iluminará e o incubirá da missão de libertar o seu povo da escravidão, de encontro à Terra Prometida, Canaã, desafiando Ramsés e todo um Egipto que o adoptara de braços abertos.

O filme levanta questões pertinentes: serão os homens
propriedade do estado, de um ditador como Ramsés, ou livres almas sob Deus? God made men. Men made slaves.

O argumento, escrito a quatro mãos (Æneas MacKenzie, Jesse Lasky Jr., Jack Gariss e Fredric M. Frank) consiste num exercício de escrita assaz prodigioso, que possibilita uma metragem de aproximadamente 220 minutos a partir de uma história que, nas sagradas escrituras, se resume em poucas páginas. Um dos maiores encantos da obra reside, precisamente, nesses instantes maravilhosos em que a eloquência das declamações, embebida na poética dos evangelhos e protagonizada tanto pelos actores como pelo narrador, nos arrebatam por completo. A magnífica banda sonora de Elmer Bernstein constitui, também, uma das dádivas maiores da obra. No momento da travessia do Mar Vermelho, então, e juntamente com a espectacularidade dos revolucionários efeitos especiais (John P. Fulton), possibilita um clímax absolutamente deslumbrante, impressionante e apoteótico, que se estende até ao episódio do forjamento dos dez mandamentos.

There's no freedom without law.

Os valores de produção são verdadeiramente monumentais: não só os já referidos efeitos especiais, mágicos e notáveis ao logo de toda a obra, como os cenários (Hal Pereira, Walter H. Tyler, Albert Nozaki, Sam Comer, Ray Moyer) que, do mais ínfimo pormenor ao mais imponente e vistoso ídolo de um Egipto no seu máximo esplendor arquitectónico, são de um trabalho majestoso e extraordinário, capaz de justificar, por si só, o valioso orçamento da obra. O guarda-roupa (Edith Head, Ralph Jester, John Jensen, Dorothy Jeakins, Arnold Friberg) é rico, luxuoso e exuberante, com uma panóplia de corte e costura notável! Desfilam as mais variadas cores e texturas, enchendo o ecrã de uma pura beleza visual.

Ainda que nem sempre o DeMille-realizador esteja na sua melhor forma, nomeadamente na primeira parte da obra em que o ritmo e a dinâmica se tornam, por vezes, um tanto ou quanto fastidiosos, e o movimento de câmera não se encontra particularmente inspirado, é na segunda parte que o filme ascende a um patamar superior, culminando nalgumas das cenas mais memoráveis da História do Cinema e que povoam, certamente, o nosso imaginário. A direcção de centenas de figurantes e a própria direcção de actores revela-se inequivocamente magistral: Charlton Heston como Moisés,
Yul Brynner como Ramsés II ou Anne Baxter como Nefretiri são papéis deveras excepcionais.

Reprovável em toda a história só mesmo a egocêntrica contradição moral que é condenar a autoridade déspota e assassina do Faraó e, com a mesma facilidade, glorificar a fé em Deus, ele próprio uma entidade monstruosa e autoritária, que dizima inocentes sem qualquer dó ou piedade. Mas enfim, contradições bíblicas às quais o filme não conseguiu fugir.

Independetemente desse aspecto, fica a memória de um épico não só grandioso como megalómano, naquele que foi um dos momentos altos do cinema de Hollywood.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

AS FÉRIAS DO SR. HULOT (1953)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Les Vacances de Monsieur Hulot
Realização
: Jacques Tati

Principais Actores: Jacques Tati, Nathalie Pascaud, Micheline Rolla, Valentine Camax, Louis Perrault, André Dubois, Lucien Frégis, Raymond Carl, René Lacourt, Marguerite Gérard

Crítica:

FÉRIAS ATRIBULADAS

Quando o barulhento carro do Sr. Hulot chega à praia, que nem uma sucata móvel num belíssimo dia de verão, esvaem-se, por completo, as esperanças de umas férias pacíficas para as dezenas de hóspedes do Hôtel de la Plage. Rara será a noite, aliás, em que as luzes dos quartos não se iluminarão, a meio da noite, sobressaltadas com as insólitas aventuras e desventuras da personagem, pela paradisíaca paisagem da estância balnear.

Tati explora o cómico de situação como ninguém, potenciando o hilariante a partir da pantomima e do mínimo de diálogos possível. O leque de personagens é também ele caricato. A cada dia, a magistral fotografia da obra (Jacques Mercanton e Jean Mousselle) enquadra cenas memoráveis, da desastrada chegada ao hotel à desastrada noite da pirotecnia. Tal como os diálogos, também os sons são escassos, aproximando o filme do cinema mudo. Os poucos sons surgem apenas quando necessários. O tema musical (Alain Romans) é ciclicamente motivado, convocando a rotina do dia-a-dia, chegando mesmo a jogar com o som do rebentar das ondas do mar, inicialmente, durante o genérico de abertura. A sátira às tecnologias também marca presença: é rara a inovação que não complique, sejam os altifalantes que anunciam a chegada do comboio, sejam os automóveis, sejam as telefonias.

Enfim, mais um daqueles pedaços de cinema verdadeiramente brilhantes, essenciais e imperdíveis. Clássico absoluto.

terça-feira, 22 de junho de 2010

O SÉTIMO SELO (1957)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Det sjunde inseglet
Realização
: Ingmar Bergman

Principais Actores: Max von Sydow, Gunnar Björnstrand, Bengt Ekerot, Nils Poppe, Bibi Andersson, Åke Fridell, Maud Hansson, Gunnel Lindblom

Crítica:

Quem és tu?

O JOGO DE XADREZ



Sou a Morte.

Passada uma década de sangrentas e distantes cruzadas, o cavaleiro Antonius Block (Max von Sydow) torna a casa. Na viagem de regresso, encontra um país assolado pela peste e pelo medo, pela superstição e pela repressão da Igreja. O cenário é o dos Dias do Fim. O Apocalipse, anunciado na Bíblia, parece ter chegado. Na praia, enquanto medita a existência, cruza-se um dia com a imponente e altiva figura de negro: a própria Morte acabara de aparecer, tencionando levá-lo para sempre. O cavaleiro propõe-lhe, contudo, uma partida de Xadrez. A condição é continuar a viver se a derrotar, pois gostaria de descobrir, antes de partir, o real sentido da vida. A Morte, segura de si, aceita o desafio e permite-lhe um adiamento.

Quero confessar-me, mas tenho o coração vazio - confessa o cruzado. - Vazio, como um espelho virado para a minha própria cara. Vejo a minha imagem e sinto nojo e medo. Pela minha indiferença para com os meus semelhantes, fui marginalizado quanto ao companheirismo. Agora vivo num mundo assombrado, prisioneiro dos meus sonhos e fantasias.
Quero obter o Conhecimento. (...) É tão inconcebível chegar a Deus apenas pelos sentidos. Porque é que ele se esconde numa atmosfera de promessas vagas e de milagres invisíveis? Como podemos ter fé nos fiéis, se não a temos em nós próprios? Que acontecerá àqueles que não podem ter fé ou àqueles que não a querem ter? Porque não posso eu destruir o Deus que há em mim? Porque é que Ele vive em mim, penosa e humilhantemente, ainda que O maldiga e O queira arrancar do coração? Porque é que, apesar de tudo, Ele é uma realidade para mim? (...) Não quero fé, nem presunção, mas Conhecimento. Quero que Deus me estenda a mão, se mostra e me fale.

Antonius adopta, pois, um forte e determinado posicionamento crítico, questionando os alicerces e as fundações da fé. Denota, por isso, uma tremenda angústia existencial. Creio que é compreensível: durante anos batalhou em nome da cruz e da religião dos Homens, mas nunca teve provas do divino. Que evidências sustentarão a sua atitude e justificarão os actos que praticou? Que absolvição terá? Afinal, muitas foram as vezes em que chamou por Deus na escuridão. O infindável e misterioso Silêncio foi a única resposta que sempre obteve.

Há que criar uma imagem do nosso medo e chamar-lhe Deus. (...) A minha vida tem sido de perseguição, caça e movimento, de conversas sem significado ou sentido. Tem sido um nada.
(...) Não se pode viver enfrentando a Morte, sem possuir qualquer conhecimento.

Mal sabia o cavaleiro que o ouvinte do outro lado era traiçoeiro e desonesto. A Morte perseguia-o e procurava escutar a sua estratégia de jogo. Quantas vezes mais não teria a sua esperteza que superar a da Morte para conseguir vencer a partida? Ou melhor, seria possível alguma vez levar a melhor sobre a Morte? Qual Dom Quixote, também a sua viagem será de perguntas e respostas, de profundas indagações teológicas e filosóficas. E qual personagem quixotesca, também o contraponto deste plano etéreo se fará, a jeito de comic relief, com um terreno e pragmático Sancho Pança, cheio de graça e de bom humor:

Sou o escudeiro Jons. Escarneço da Morte, rio-me de nosso Senhor e de mim próprio e sorrio para as raparigas! (...) As cruzadas são um disparate, só um tolo ou um idealista as poderia ter inventado.

A obra-prima de Ingmar Bergman equilibra-se magistralmente sobre estas duas dimensões: de um lado o erudito, o filosófico, o existencial, de outro o mundano e as trevas da ignorância, de quem quer simplesmente viver - há quem se divirta entre o álcool e as mulheres das estalagens, quem cante e dance até cair de cansaço, quem ceda ao pranto e às lamúrias, quem roube os mortos e quem queime as bruxas e quantos dormem com o diabo, como se pelo fogo purificassem o espírito dos profanos. Morreremos todos com a Peste Negra: é esse o castigo de Deus e é esse o augúrio dos monges profetas, que se aproveitam das gentes espalhando o medo e o terror. Os populares interiorizam-no sem cepticismos, deleitando-se no pecado e nos prazeres da vida. As suas sepulturas abrir-se-ão, com o tempo. E tanto para Antonius Block como para as outras personagens, os encontros com a Morte suceder-se-ão, muitas vezes definitivos.

Von Sydow, Bengt Ekerot e cada elemento do elenco secundário é absolutamente excepcional. Grandes performances, grande história. Notas especiais para o subtil trabalho de montagem (Lennart Wallén), para a imprescindível banda sonora (Erik Nordgren), para a extraordinária concepção cénica (P.A. Lundgren) e para o incrível preto e branco (Gunnar Fischer).

O Conhecimento em vida far-se-á apenas pela máxima horaciana carpe diem; é esse o único conhecimento do qual o cavaleiro se apercebe: regido por tamanho princípio, cada momento da sua vida valerá muito mais e saberá muito melhor, que nem morangos silvestres no alto de uma colina, ao entardecer. Nada irrita mais a Morte do que um sorriso sincero ou a ideia de um dia bem passado. O fim de todas as coisas, esse, é inevitável e tudo o resto jamais será atingido. A Ceifeira ou o ser metafórico, como é chamado uma vez por uma das personagens, espera-nos a todos, mais tarde ou mais cedo - e, sabemo-lo, os peões são mesmo os mais susceptíveis ao adeus da partida. Seguem-se-lhes as torres, os cavalos e os bispos, a rainha e o rei. À eternidade somente ascendem os artistas, como preconiza o magnífico final, pleno de simbolismo. Para esses, o jogo far-se-á no Tempo que há-de vir. Talvez por isso não constem artistas no jogo de Xadrez.

O Sétimo Selo transcende, igualmente, qualquer partida do Tempo e da Morte. É eterno e uma das obras máximas do cinema mundial. De uma sublimidade inquestionável. Xeque-mate.

terça-feira, 8 de junho de 2010

RASHÔMON - ÀS PORTAS DO INFERNO (1950)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Rashômon
Realização
: Akira Kurosawa

Principais Actores: Toshirô Mifune, Machiko Kyô, Masayuki Mori, Takashi Shimura, Minoru Chiaki, Kichijiro Ueda, Fumiko Honma, Daisuke Katô

Crítica:

QUEM CONTA UM CONTO...

Há obras puramente sublimes e Rashômon - Às Portas do Inferno é um desses feitos memoráveis: uma obra-prima de uma genialidade ímpar, esculpida como se fosse um diamante. Akira Kurosawa assina aqui uma parábola eloquentemente enaltecida por interpretações viscerais, por uma narrativa complexa e poderosíssima, e pela sua visão magistral de fazer cinema.

No início, chuva. Uma portaria em ruínas. Dois homens atormentados: um lenhador e um bonzo, ambos réus de um processo em tribunal relacionado com o misterioso assassinato de um homem. Nada... não percebo nada... nada de nada... Não percebo nada de nada. De nada mesmo - desabafa em voz alta o lenhador. Eis que chega um plebeu desconhecido e que aborda as intrigadas e introspectivas criaturas. O sacerdote adianta, a medo: mataram um homem. (...) As guerras... os sismos... os tufões... as fomes... as epidemias... cada ano traz as suas catástrofes. Além disso, todas as noites os bandidos cometem vários crimes. Com os meus próprios olhos vi homens, não sei quantos, serem abatidos como animais. No entanto, nunca vi nada tão terrível como isto! Sim... nada tão terrível como isto. A minha fé na humanidade ficou abalada. É mais terrível que os bandidos, que as epidemias, que a fome, o fogo ou a guerra. Note-se a retórica densa, lenta e hesitante, num crescendo de suspense notável. É então que o padre e o lenhador se prontificam a contar ao forasteiro o que aconteceu. Inicia-se, desta forma, uma série de flashbacks e de flashbacks dentro de flashbacks; uma construção narrativa assaz ambiciosa, intrincada e ao mesmo tempo tremendamente estimulante.

Primeiro, o lenhador assume a narração: atravessava o bosque - a fabulosa banda sonora faz aumentar a expectativa - quando se deparou com os primeiros indícios do crime. O chapéu de mulher preso a um galho. Um boné de samurai no chão. Um saco em brocado em cima de umas folhas mortas. Uma corda cortada ao pé do cadáver. Foi esta, também, a sequência dos acontecimentos revelados na audiência judicial. Depois, contou do depoimento do bonzo, falou do homem que apanhou o assassino Tajomaru e este, por sua vez, falou das circunstâncias em que o prendeu. Falou do assassino que, por sua vez, assumiu o crime, se pronunciou a propósito da mulher do falecido (pela qual se perdera imediatamente de amores) e que acabou por contar a sua versão da história.

Discordando da figura da mulher traçada por Tajomaru e que o lenhador deu a conhecer até aqui, o bonzo vem contrapô-lo, lembrando que a mesma se deslocou mais tarde ao tribunal para contar a sua versão. Versão, essa, de flagrante distinção. Ao tribunal foi convocada ainda uma médium, para dar parecer da versão do morto. Outra versão completamente diferente.

No meio de tanta versão contraditória, ninguém se entende a respeito do que terá realmente acontecido. Nós, inclusivé, pois claro. A sucessão de versões, cada uma mais verosímil do que a outra, vem mergulhar-nos num mar de dúvidas... em vez de nos encaminhar para o apuramento da verdade. Já não se sabe quem fez o quê, quem matou afinal aquele homem que passeava pela mata, acompanhado da esposa. A dificuldade em resolver o caso é extrema. No meio de tanta versão, contudo, jamais nos perdemos. A narrativa tem um encadeamento tão bem concebido que rapidamente entramos na lógica da divisão diegética e dos múltiplos pontos de vista. Nós somos colocados no local dos juízes, ocupamos a posição da câmera para a qual os intervenientes discursam e chegará a altura em que nos aperceberemos da forma como cada um subverte a história a seu favor e/ou a seu gosto. Afinal, quem conta um conto... acrescenta um ponto e a natureza do facto, já por si irreversível, ficcionaliza-se por meio da palavra. Não é essa senão a origem das histórias. Afinal, a história é, ela própria, essa farsa tão humana. É mimesis, diria Platão. Uma mentira, que existe desde que o Homem existe.

Kurosawa filma com uma inspiração extraordinária, movendo a câmera tão subtilmente, com tamanha perfeição... A banda sonora de Fumio Hayasaka desempenha um papel fundamental na criação da atmosfera e na condução do suspense. Os enquadramentos da fotografia de Kazuo Miyagawa são verdadeiramente excepcionais. A montagem, a cargo do realizador, é feita com a maior fluidez. E o filme em si é, da abertura ao desfecho, absolutamente assombroso e impressionante. Toshirô Mifune, Machiko Kyô, Masayuki Mori, Takashi Shimura, Minoru Chiaki, Kichijiro Ueda, Fumiko Honma... que performances incríveis, que elenco excepcional.

A sua fraqueza [dos Homens] força-os a mentir. (...) Se não podemos acreditar em ninguém, este mundo é um inferno - conclui o bonzo, temendo pelo futuro da humanidade. E, por meio dele, conclui Kurosawa a moral da história, na forma de uma mordaz crítica à sociedade. Eis, pois, a metáfora do estado do mundo: a mentira é intemporal e é tão intrínseca ao Homem como a necessidade de contar histórias, como a necessidade de comer, beber ou respirar. A mentira corrói a moralidade, faz-nos cair na desconfiança e no egoísmo. Se não queremos viver como cães, hoje em dia, só podemos ser egoístas - remata o plebeu que, tal como nós, ouviu aquela insólita história nas paragens chuvosas de Rashômon.

Quando o choro de um bebé abandonado irrompe pela precipitação, finalmente, cada uma das três personagens é posta à prova. O plebeu rouba os pertences da criança e sai de cena. Terá o sacerdote motivos para perder a fé no Homem? Estaremos condenados à perdição? Eis, na derradeira hora, dois homens com o futuro nos braços, conscientes da sua humanidade. Uma portaria em ruínas. A chuva pára.

Por tudo isto e tanto mais, Rashômon - Às Portas do Inferno, de Akira Kurosawa, constitui um filme essencial e obrigatório. Um dos expoentes máximos da Sétima Arte e, com certeza, um dos melhores filmes de sempre.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

A DESAPARECIDA (1956)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Searchers
Realização: John Ford
Principais Actores: John Wayne, Jeffrey Hunter, Vera Miles, Natalie Wood, John Qualen, Ward Bond, Olive Carey, Henry Brandon

Crítica:

RASTOS DE ÓDIO

Abre-se a porta e passamos da sombra à luz: rochedos altos e imponentes, uma paisagem empoeirada, com cheiro a terra e a suor, com um céu azul radioso, num todo absolutamente belo e extasiante. Bem-vindos ao Oeste, ao Oeste de John Ford, à imensidão de Monument Valley e às cavalgadas pelas pradarias de vegetação rarefeita, à América tradicional e empreendedora, ainda que racista e à procura de si própria.

Texas, 1868. Ethan Edwards (John Wayne, naquela que é unanimamente considerada uma das suas mais intensas e complexas interpretações) regressa da Guerra Civil, três anos após o seu término. Torna a casa de Aaron, o irmão, qual the Prodigal Brother!, onde vivem também a cunhada Martha (pela qual sente um amor não assumido que se depreende no subtexto narrativo), as sobrinhas Lucy e Debbie e Martin (Jeffrey Hunter), o órfão mestiço, eighth Cherokee. Ethan é um homem solitário e misterioso, forte e obstinado, com aura de herói mas não é propriamente um herói. Nutre um ódio de morte pelos índios (daí menosprezar Martin, apesar de o ter resgatado ao infortúnio, no passado) e tem atitudes humanamente desprezíveis, apesar de não ser também um vilão. É, pois, um ser humano em toda a sua ambiguidade, com motivações pessoais contraditórias e conflitos internos que doseiam a história de imprevisibilidade e realismo; e não mais um formato vazio, personagem-tipo de atirador sem dó nem piedade.

Na manhã seguinte à sua chegada, o Reverendo e Capitão Samuel Clayton (Ward Bond) vem buscar ajuda entre os homens da casa para solucionar um roubo de gado no rancho do vizinho Lars Jorgensen. Ethan ainda hesita, mas acaba por juntar-se a Martin na perseguição. Durante a sua ausência, todavia, um ataque de índios reduz a casa a chamas e cinzas e a tragédia abate-se sobre a família. Quando tornam, deparam-se com Aaron e Martha brutalmente chacinados e com os indícios do sequestro de Lucy e Debbie. A dor corrói-lhes então a alma. A sede de vingança, friamente personificada por Ethan, e a esperança de resgatar as pequenas, inesgotavelmente personificada por Martin, assumem-se determinantes para a desenfreada caça ao homem que empreenderiam durante cinco longos anos.

O argumento (Frank S. Nugent, a partir do romance de Alan LeMay) condensa um sem fim de frases memoráveis, um outro tanto de referências bíblicas e um leque de personagens memorável, mas acima de tudo uma trama extremamente bem escrita e bem construída, onde se cruzam com perfeição o drama, o melodrama, a acção, a aventura e, também, a comédia. A cena do casamento é, claramente, muito mais do que um ocasional compêndio de comic reliefs. Comic reliefs, esses, que, diga-se de passagem, pontuam a obra com alguma frequência. As implicações e os efeitos narrativos da leitura da carta, pela encantadora e apaixonada Laurie (Vera Miles), nomeadamente os cinco anos que por meio dela se condensam, resulta, quanto a mim, num dos feitos mais admiráveis do argumento.

Esses cinco longos anos são também uma odisseia pessoal de aproximação entre Ethan e Martin, ao jeito de relação pai-filho. Para o primeiro, é uma oportunidade para desenvolver laços emocionais com alguém e uma forma de atenuar os seus ódios e preconceitos raciais, por meio de uma maior compreensão da natureza humana e da pluralidade cultural. Para o segundo, é um caminho para atingir a maturidade, para cimentar e lutar pelos seus bons valores e princípios e para descobrir o amor. Aos poucos, apercebemo-nos das semelhanças entre Ethan e Scar, o índio-chefe dos Comanches - o que separa e diferencia os brancos dos índios é, afinal e essencialmente, os costumes. Somente os costumes. Há humanidade em ambos os povos. Heróis e vilões, bons e maus... em ambos os povos. O próprio cowboy se apercebe e se rende a essa realidade; daí a reviravolta final, que um close-up verdadeiramente notável já deixara antever: let's go home, Debbie.

Deste modo, A Desaparecida impõe-se, sob todos os primas, como uma viagem derradeiramente marcante, em que o western, consciente do seu simplismo maniqueísta, se aventura a abraçar novos horizontes, plenos de humanidade - tal como ela é: ambígua. Ao mesmo tempo que dá seguimento ao cânone, glorificando a paisagem mítica do Oeste, o filme condena o racismo e a violência que o próprio género representou, vezes e vezes sem conta. É por isso que lhe é indissociável uma forte ressonância reflexiva e moral sobre as consequências da violência e sobre a tragédia do choque de culturas. É, por isso mesmo também, um filme que marca a maturidade do género.

Eis, pois, um dos mais deslumbrantes filmes de sempre, magistralmente filmado por John Ford, dotado de um monumental trabalho de fotografia e iluminação (Winton C. Hoch), de um exímio trabalho de cenografia (James Basevi, Frank Hotaling e Victor A. Gangelin) e de uma magnífica composição musical (Max Steiner).

No final, dita a forma que se fine o círculo. A câmera recua para a escuridão do interior da casa. A paisagem fica ao longe. Ethan Edwards caminha, elegante e apaziguado, de regressa ao Oeste. A porta fecha-se.

Fica-nos um clássico absoluto. Absolutamente essencial.

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Notas adicionais (1) para a infeliz escolha do título português e (2) para a excepcional remasterização da mais recente versão do filme.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O MEU TIO (1958)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Mon Oncle
Realização: Jacques Tati

Principais Actores: Jacques Tati, Jean-Pierre Zola, Adrienne Servantie, Alain Becourt, Lucien Fregis, Dominique Marie

Crítica:

ENTRE DOIS MUNDOS

Quando assistimos, hoje, a um filme como O Meu Tio, de 1958, e nos deparamos com uma obra, possivelmente, mais actual do que nunca, começamos a pensar naqueles filmes que, pelas suas qualidades e méritos próprios, se impõem - em qualquer que seja o espaço e em qualquer que seja o tempo - como verdadeiros clássicos absolutos.

Esta brilhante comédia de Jacques Tati não é senão uma genuína paródia de costumes, de alto teor satírico, onde aquilo que se poupa em palavras, se transcende em imagens: há uma exploração das possibilidades do cómico de situação pela oposição cíclica e sistemática de dois universos que coexistem, paralelos, numa só cidade, onde o limiar de diferenciação é bem definido pela pobreza vs. riqueza, degradação vs. sofisticação, relações humanas e autênticas vs. convivências superficiais e sem coração. Aqueles cãezinhos que, ao som daquela já icónica banda sonora, vagueiam pela cidade, abrem e fecham a obra, de forma circular, dando conta de que as assimetrias continuarão sempre a existir.

De um lado, temos um sector de muito suor e trabalho, que vive com dificuldades e tenta, a custo, assegurar o sustento e a renda de uma casa já por si repartida entre tantas famílias. Note-se o caso do Sr. Hulot, que vive no último andar daquele casario de aspecto envelhecido e decadente. Do outro lado, há toda uma classe alta que nas mesmas ruas em que uns andam de carro-de-besta acelera os seus luminosos automóveis de nova geração. O casal Arpel, por exemplo, habita a zona rica da cidade, numa casa extremamente limpa e extremamente arrumada, armada de tecnologia e automatismos (portão, portas e janelas, vira-hambúrgueres, lava-loiça, lava-roupa, sistema de ventilação, sistema de esterelização, o repuxo do jardim, etc.), com um design e uma arquitectura vanguardista e toda uma ambiência tão exageradamente moderna e tão excessivamente high-tech que, no fim de contas, mais parece um embrulho bonito, mas despersonalizado, que esconde na aparência um profundo sentimento de desconforto e vazio e jamais priveligia a conversa e o calor humano. Não será por acaso que o filho do casal, o pequeno Gerard, prefere a companhia do tio Hulot (irmão da mãe, mas do lado humilde da família) do que a futilidade do meio em que vive. Porque, ao fim e ao cabo, Gerard não experimenta novas sensações, que o façam sentir-se vivo, divertir-se e ganhar a experiência necessária para o enriquecimento pessoal. Passa os seus dias, isso sim, confinado ao aborrecimento, à inércia e à mais profunda inexistência. Até que ponto não conduzirá o progresso tecnológico desmedido, o capitalismo desenfreado e a sociedade de consumo à desumanização? É esta a crítica traçada pelo filme de Tati e a reflexão por ele suscitada. Tati serve-se do tio Hulot (personagem por si próprio interpretada) para provocar o caos na artificiosa ordem dos Arpel, de modo a confrontá-los com a disfuncionalidade e com o ridículo de todo aquele mundo de plástico e metal. Gerard vê na atitude do tio uma atracção irresistível. E enquanto gozam com aqueles adultos pomposos mas vazios, os espectadores têm a oportunidade de rir com o desvario caricato e hilariante de todas aquelas situações.

Jaques Tati concretiza, de forma sublime, uma obra de grande ousadia estética, rica em detalhes e apurada em todos eles. Revela-se mestre na arte de filmar, excepcional na pantomima, num cinema único e digno de referência. Grande filme.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A BELA ADORMECIDA (1959)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Sleeping Beauty
Realização:
Clyde Geronimi

Filme de Animação


Crítica:

UMA HISTÓRIA DE ENCANTAR

De uma cadência hipnótica e de uma essência profundamente artística e romântica, A Bela Adormecida é, porventura, o mais sofisticado e elegante feito no cinem
a de animação até aos anos 60 e um dos mais refinados e eruditos até aos dias de hoje. Emana dele um encanto único, mágico e sedutor, absolutamente deslumbrante.

Tanto o estilo de Eyvind Earle (onde o desenho, com excelência e minúcia, dá primazia ao aperfeiçoamento das personagens e ao polir do segundo plano) como o bailado de Peter Tchaikovsky (desde então ele próprio confundível com a alma do filme) se revelam, pois, o espelho dessa essência. Simbologia do três, dicotomia maniqueísta Bem-Mal, cor e trevas, inocência, pureza, beleza, cenas cómicas e musicais: todo o universo tradicional da Disney é convocado e invocado, valorizando toda uma ética moral fundamental para a educação das crianças. O argumento flui que nem uma dança virtuosa, repleto de cenas inspiradas e inesquecíveis, dando ênfase às personagens principais e pondo de parte possíveis tramas secundárias.

Revisitar obras como esta é como recordar e reencontrar uma Verdade sagrada. Um clássico absoluto.

CINEROAD ©2020 de Roberto Simões