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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A PAIXÃO DE CRISTO (2004)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: The Passion of the Christ
Realização: Mel Gibson

Principais Actores: Jim Caviezel, Maia Morgenstern, Monica Bellucci, Rosalinda Celentano, Sergio Rubini, Ivano Marescotti, Hristo Jivkov, Hristo Naumov Shopov, Mattia Sbragia

À minha avó.

Crítica: 

O SACRIFÍCIO E A CRUCIFICAÇÃO

Perdoa-lhes, Pai. Eles não sabem o que fazem.

A Paixão de Cristo é, até à data, o filme mais polémico - e o mais violento - de que tenho memória. Aquando da sua estreia, na Páscoa de 2004, revelou-se um autêntico fenómeno mundial, não tanto pelos seus méritos artísticos, mas sobretudo por tudo aquilo que, religiosamente, representava e representa. Guardo a minha experiência pessoal da altura, já então alheia a qualquer fé religiosa: a Igreja Católica recomendava a visualização do filme a cada missa, faziam-se excursões às salas de projeção para que os mais acérrimos ou influenciados crentes, muitos deles totalmente indiferentes à sétima arte, assistissem à badalada obra do católico Mel Gibson. Contavam-se as histórias de fulano e beltrano, um que se havia desfeito em lágrimas, outro que havia cerrado os olhos por incontáveis vezes ou ainda outro que, simplesmente, havia abandonado a sala por não suportar mais tanta paixão. Lembro-me de, um ou dois anos mais tarde, rever o filme em casa com a minha avó, em DVD, e ela, que sempre criticou a violência e o horror de muitos dos filmes que via, lá assistia ao filme devotamente, como se ao assistir ao filme se redimisse de eventuais pecados, se sentisse mais protegida ou estivesse mais próxima de Deus. A religião movimenta multidões e encerra, definitivamente, muitos mistérios.

Polémicas à parte, a minha principal perspetiva em relação ao filme é, como não podia deixar de ser, a artística, ainda que seja impossível (e também desnecessário) ocultar ou ignorar a dimensão religiosa do filme. Afinal, é e
sempre será um filme sobre religião, assim como os há sobre política, sociologia, sexualidade, etc. Roger Ebert disse: It is a film about an idea. An idea that it is necessary to fully comprehend the Passion, if Christianity is to make any sense*. E não há como não concordar.

Ei-lo retornado, Mel Gibson, nove anos depois do magistral Braveheart - O Desafio do Guerreiro, que tão intensamente realizou e protagonizou, e que logo se tornaria um clássico incontestável. Se já então a violência emanava dos quadros do épico, com um penoso final para o mártir William Wallace e para os espetadores, imagine-se o que aconteceria com o Jesus Cristo do cineasta. Para financiar e viabilizar a produção, Gibson correu sérios riscos, entre os quais investir o dinheiro do seu próprio bolso. O argumento (do próprio e de Benedict Fitzgerald), a partir de vários dos evangelhos do Novo Testamento (S. João, S. Mateus, S. Lucas e S. Marcos), dos diários da profética freira Anne Catherine Emmerich (1774-1824) e de uma interpretação muito pessoal de toda uma herança religiosa e cultural, propõe o retrato das últimas doze horas da vida de Cristo. Da traição de Judas ao aprisionamento do messias, do julgamento de Caifás e dos sacerdotes às mãos lavadas de Pôncio Pilatos e da sangrenta tortura aos demorados passos para a crucificação... a versão de Mel Gibson é absolutamente visceral, chocante e revoltante. Nunca Cristo nos foi tão real, nunca sentimos a sua dor tão na alma e quase na pele, como nesta triunfal e nunca dantes vista Paixão de Cristo, que se diferencia claramente do tom de todas as versões bíblicas anteriormente filmadas.

Elevados valores artísticos e de produção garantem a sublimidade: note-se o realismo, imponência e sofisticação dos cenários e decoração (Francesco Frigeri, Pierfranco Luscrì, Daniela Pareschi, Nazzareno Piana, Carlo Gervasi) e as texturas e os detalhes do guarda-roupa (Maurizio Millenotti), que conferem autenticidade à viagem no tempo, para não falar dessa proeza que é conceber o argumento totalmente falado em hebraico, latim mas mormente em aramaico (a língua morta que os argumentistas trazem à vida, ainda antes de ressuscitar Jesus). O idioma falado, quando ouvido, quase que envolve a obra numa aura mística. Que mais autenticidade poderíamos desejar, de um retrato histórico? Há autenticidade no sangue, que jorra ou verte da carne viva, dilacerada pelos chicotes, pregos ou demais flagelos. A extraordinária caracterização (Keith VanderLaan, Christien Tinsley) é o trunfo determinante para o realismo da crueldade, necessariamente gore, que se esbate e esventra sobre a fragilidade daquele corpo submisso.
O excesso de violência física que se vê e sente em A Paixão de Cristo é a estética e a grande protagonista. Mas, como disse, estética, estilo. Não esqueçamos por isso a violência psicológica que daí advém, tão angustiante e marcante, capaz de provocar alguma indisposição aos espetadores mais sensíveis.

Caleb Deschanel transcende-se enquanto pintor virtuoso e cria arte em movimento, a cada frame. A cor e luz são magnificamente trabalhadas, como por inspiração divina. Que fotografia belíssima.
A poderosa banda sonora de John Debney acompanha iluminadas passagens, comovendo-nos a cada movimento de câmera, a cada olhar das personagens. Jim Caviezel, pleno de dor e carisma, transfigura-se pela voz e pela expressão corporal, tanto quanto a caracterização que o seu corpo sofreu, exaustivamente, durante horas de rodagem. A cada flashback, fortalecem-se as motivações das personagens e o nosso entendimento delas. Maia Morgenstern é uma Maria tão humana na sua consternação, intensidade e contenção; brilhante desempenho da atriz. A perspetiva do sofrimento maternal, às tantas introduzida, atribui uma maior profundidade ao quadro final da Pietà, qual fresco de Carracci, ainda para mais porque Maria termina por desafiar-nos a fixá-la nos olhos e a partilhar do seu desgosto. Monica Belluci é, por tanto e tão pouco, uma memorável Maria Madalena, assim como os restantes secundários (que personificam os odiosos judeus, aqui culpados pela condenação, e os brutais romanos que servem o propósito a fim de evitar inevitáveis motins. Ainda que seja esta a generalidade, a história dá lugar a bons e maus nos dois pratos da balança). Devo ainda salientar a arrepiante e andrógina Rosalinda Celentano como Satanás... Gibson não abdica do lado mais bizarro e sobrenatural, de ferozes criaturas que rosnam na escuridão ou de sorridentes crianças diabólicas que assombram o espetador ou a consciência de Judas e denunciam o Mal entre os Homens, durante o calvário.

Enfim, se ainda dúvidas houvesse, aqui fica mais um sólido testemunho do magistral artista e cineasta que é Mel Gibson, aqui numa tomada independente e por demais convicta. Pena que assine tão poucos filmes enquanto realizador. A cena da crucificação, em toda a sua encenação, é absolutamente brilhante. Aquele derradeiro plongée das alturas, qual olhar de Deus, que se converte na primeira gota da tempestade, qual lágrima sagrada, é, convenhamos... um pequeno grande toque de génio. A Paixão de Cristo pode não ser uma obra de fácil digestão, mas é arte em estado puro; estejamos nós disponíveis para senti-la e admirá-la. A religião, como a arte, é um acto de fé e raramente a devoção a ambas coincidiu tão profundamente.

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(*) Cf. http://www.rogerebert.com/reviews/the-passion-of-the-christ-2004

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O PATRIOTA (2000)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: The Patriot
Realização: Roland Emmerich
Principais Actores: Mel Gibson, Heath Ledger, Joely Richardson, Jason Isaacs, Chris Cooper, Tcheky Karyo, Rene Auberjonois, Tom Wilkinson, Lisa Brenner, Donal Logue

Versão do Realizador

Crítica:

FANTASMAS NA BRUMA

I have long feared that my sins would return to visit me,
and the cost is more than I can bear.

O Patriota é uma típica grande produção de Hollywood: é, primeiro que tudo, realizado por Roland Emmerich - para muitos críticos o texto poderia acabar aqui, fundamentos não bastassem, e atribuir-se-ia ao filme a pior nota -, o homem por detrás do sucesso tremendo que foi O Dia da Independência (ou pelo irresistível pedaço de ficção científica que é Stargate). Curiosamente, distancia-se aqui do seu explosivo percurso para assinar um drama histórico, de maior contenção mas sem jamais esquecer o fulgor do entretenimento nos comic reliefs, nas sequências de ação e de suspense e nas outras tantas que, entre estudadas coreografias, emocionam ou revoltam o espetador, motivando os protagonistas para a vingança. O argumento, dotado de grande fôlego romântico, é da autoria de Robert Rodat, o mesmo de O Resgate do Soldado Ryan, que prima, alguns anacronismos à parte, por uma tremenda e notável economia narrativa, excecionalmente construída e doseada ao longo dos seus demorados porém nunca cansativos três atos. À parte também alguma previsibilidade, ou não obedecesse a construção às eficazes regras da cartilha, às fórmulas testadas pelos grandes estúdios e não raras as vezes tão bem recebidas pelas audiências. Considerando o monumental orçamento, há pois que eliminar os riscos do fracasso.

O filme é encabeçado por mais um valor seguro: Mel Gibson, nos mesmos contornos heróicos (e quase tão violentos como os) do glorioso Braveheart - O Desafio do Guerreiro, de alguns anos antes. O seu Benjamin Martin resulta de um acting fabuloso, de machado em punho ou de bandeira ao alto. Nos gestos, expressões e olhares de Gibson encontramos refletida toda a profundidade e complexidade da personagem, a dor e as angústias daquele pai levado a encorajar as milícias contra os canhões, mosquetes e baionetas dos Casacas Vermelhas, plenos de maniqueísmo, quais fantasmas na bruma na luta pela justiça e pela liberdade da nação. O inimigo é de certo modo caricaturado (detetamos o exagero) nas performances de Tom Wilkinson e do monstruoso e sádico Jason Isaacs. Depois, temos Heath Ledger, a jovem estrela ainda em ascenção, capaz de assegurar as bilheteiras do público mais jovem.

Note-se o requinte dos seus valores de produção - do design à conceção dos cenários e artefactos (Kirk M. Petruccelli, Barry Chusid), aos figurinos (Deborah Lynn Scott), ao cuidado na caracterização e penteados. O polimento estético, que tão seriamente eleva a componente visual, estende-se naturalmente à deslumbrante composição das pinturas (nas cores, luzes e enquadramentos) de um grande diretor de fotografia, Caleb Deschanel, ou na criação musical de um não menos lendário compositor, John Williams.

O modelo de Hollywood não traz aqui especial inovação, a pompa e circunstância enraivece os mais sedentos por rasgos de genialidade ou de autoria, de narrativas que não caiam recorrentemente em lugares comuns. O Patriota fá-lo e pode ser por isso um mau filme, para muitos. Para mim, os valores seguros - que mal há na segurança? - trazem-me beleza (ainda que o maquilhado enfeite de Natal a que se refere Mark Cousins no documentário da moda entre cinéfilos The Story of Film) e emoção. É prazeroso assistir-se aos méritos seguros de um filme como este, porque a sua qualidade fala por si, ainda que num filme assinado por Roland Emmerich que, preconceitos à parte, concebe um bom filme, com momentos francamente dignos de nota. Não é uma rigorosa lição de história, o que também irrita alguns críticos de cinema, menos permissivos em relação às liberdades criativas da ficção. É um filme norte-americano, o que por si só enlouquece outros tantos. Finalmente há um punhado ou exército deles que não gosta do filme e que fundamenta a sua posição com conhecimento. A palavra desses já vale a pena ler e compreender, concordemos ou não, porque afinal como em princípio não gostamos todos dos mesmos filmes pelas mesmas razões.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

OS MISERÁVEIS (2012)


PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Les Misérables
Realização: Tom Hooper
Principais Actores: Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Eddie Redmayne, Helena Bonham Carter, Sacha Baron Cohen, Samantha Barks, Aaron Tveit, Daniel Huttlestone

Crítica:

Do you hear the people sing?
Singing a song of angry men?
 
A REVOLUÇÃO DO POVO

It is the music of a people
Who will not be slaves again!


Um musical monumental, absolutamente majestoso - puro e duro na sua essência - como há muito tempo não se via. Assim é Os Miseráveis, de Tom Hooper, a partir do sucesso homónimo dos palcos, por sua vez a partir do célebre romance de Victor Hugo. Não é de espantar que a gente com menos tradição ou cultura do musical o menospreze, subvalorize ou injustice, nomeadamente entre a crítica cinematográfica. Basta aliás consultar o histórico de alguns críticos ou bloggers para, simplesmente, nos esbatermos com a ausência da opinião ou apreciação sobre musicais... Nenhum género é menor e ridicularizar a priori um filme porque os atores cantam em vez de falarem é, mais do que uma questão de gosto, uma questão de falta de cultura. Ponto assente, haverá naturalmente os bons e os maus musicais, como os há - os bons e os maus - em tudo.

Dos tons e cores de Eugéne Delacroix - vem-nos imediatamente à memória o simbólico e imortal La Liberté Guidant Le Peuple - a obra prima pelo arrojo visual. Os verdadeiros quadros vivos pintam-se e deslumbram-nos frame by frame. Proeza irretocável do extraordinário diretor de fotografia Danny Cohen, herança da anterior colaboração com Hooper no igualmente magistral O Discurso do Rei. Sobressaem a matemática ou liberdade de cada enquadramento, como que num ato de júbilo, a plena consonância da palete cromática entre o esmerado guarda-roupa e a pomposa e detalhada (re)criação artística dos cenários (há sets impressionantes!) e, até, entre os demais efeitos digitais, na maior parte das vezes invisíveis ou camuflados. A imagem é tratada, requintada, estilizada ao mais ínfimo detalhe, na expressão máxima da beleza - o que constitui quase uma regra poética, comum a tantos musicais.


Falemos dos atores, desse fabuloso elenco de luxo que, com a intensidade das suas performances, confere ao filme uma profundidade dramática tremenda, à altura da exigência narrativa. Comecemos pelo notável Jean Valjean de Hugh Jackman, já que o filme acompanha o seu sofrido percurso, desde escravo da lei ou prisioneiro 24601 - por ter roubado pão para alimentar a sua sobrinha numa Paris assolada pela miséria - a criminoso procurado e perseguido pelas autoridades, em especial e numa demanda pessoal pelo inspetor Javert, interpretado por Russell Crowe. A busca pelo homem intensifica-se durante todo o filme (por Javert, numa servidão moral inquestionável que se deixará consumir pela dúvida) e a procura pela absolvição aos olhos de Deus também (por Valjean, que esconde a sua identidade para tentar um recomeço, mas que não consegue escapar ao passado). Jackman - já perceberamos que era capaz de grandes interpretações desde o genial The Fountain, de Aronofsky - transfigura-se pelo olhar e pela voz; é evidente a sua expressividade física e vocal, como se arrancasse às entranhas toda a sua força e vitalidade. Já o olhar de Crowe é misterioso e dissimulado e o seu corpo é como que escravo e contradição da sua vontade. É como se a carne desejasse tombar das alturas enquanto a alma, atormentada, reclamasse a imensidão da estrelas. Na cena que encerra o primeiro ato e em que canta Stars, sobre o crepúsculo do dia e os edifícios de Paris, essa ameaça é declarada, cumprindo-se mais tarde. A sua voz não tem o lirismo de outras, mas é cerebral e controlada, bem projetada e afinada, o que o salva da crítica maldosa. Temos depois a singela e desgraçada Fantine de Anne Hathaway, que após vender os dentes, o cabelo e o ventre, no porto da repugnância, arrebata um aplauso unânime com a interpretação sentida e por demais intimista de I Dreamed a Dream. É um close-up estático e sem cortes, de minutos sôfregos e dolorosos, em que sentimos cada respiração, cada lágrima. É uma cena puramente arrepiante. Temos depois a dupla cómica do também miserável mas igualmente sublime Sweeney Todd de Tim Burton, Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen, aqui um hilariante casal de vigaristas, perfeitos nos seus papéis. Temos ainda as jovens Amanda Seyfried e Samantha Barks, seguras dos seus tons e dinâmicas, a segunda com maior expressividade física que a primeira, e o também jovem Eddie Redmayne, no topo do triângulo amoroso e dono de um timbre belíssimo, com uma entrega incrível... Não é por acaso que Empty Chairs at Empty Tables resulta numa cena completamente comovente, desoladora e memorável. O cast, até nos papéis menores ou figurantes, é portentoso e por demais extenso, destaquemos por fim o idealista de Aaron Tveit ou o genuíno e bem humorado savoir-faire do pequeno Daniel Huttlestone, como corajoso Gavroche.

Tom Hooper, dotado de inspirada gradiloquência épica (da mesma que se perpetua na assombrosa banda sonora), mostra-se mestre das mais variadas formas de filmar para extrair o melhor de cada ator, de cada cenário, em cada plano. Que era excelente diretor de atores, isso já sabiamos desde o seu filme anterior. Cada personagem tem o seu momento, tornando o filme um exemplo de abrangente pluralidade. Não há como não salientar a opção de gravar as performances musicais no exato momento em que as cenas são gravadas, evitando o perfecionismo das habituais dobragens da pós-produção e entregando o musical a um maior realismo e a um maior poder interpretativo, mesmo se com algumas imperfeições. Ou sobretudo por elas.

Da decadência social das ruas às barricadas e à rebelião do povo, não deixando esmorecer a memória da Revolução Francesa, a obra cresce da sátira para a imortalidade ao som do hino Do You Hear the People Sing? Os Miseráveis conquistou a generalidade do público e da crítica e impõe-se como um triunfo da ousadia, ou não fosse um musical operático - puro e duro como comecei por referir - com 158 minutos de duração, de ação imparável, a grande ritmo. Sem dúvida, um dos melhores filmes do ano e um dos melhores musicais de que há memória.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O MASCARILHA (2013)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Lone Ranger
Realização: Gore Verbinski
Principais Actores: Johnny Depp, Armie Hammer, William Fichtner, Tom Wilkinson, Helena Bonham Carter, Ruth Wilson, James Badge Dale, Barry Pepper, Saginaw Grant, W. Earl Brown, Harry Treadaway

Crítica:

O VELHO OESTE SELVAGEM

- If these men represent the Law, I'd rather be an Outlaw.
- That is why you wear the mask.

O Mascarilha invoca e glorifica, em toda a sua grandeza e esplendor, o velho e mítico Oeste Selvagem que o cinema americano, durante décadas, honrou e imortalizou. Povoa todo esse imaginário coletivo - de índios, cherifes e cowboys, soldados e mineiros, de cavalgadas pela vingança ou pela justiça, de bons, feios e vilões, de pequenas cidades perdidas entre o sol e a poeira, de saloons e casas de meninas, de furiosos comboios e intermináveis linhas férreas que desbravam cegamente as terras virgens - imaginário que lembramos desde crianças, o mesmo que os nossos pais ou avós partilharam tão entusiasticamente no passado.

O Mascarilha não inventa - não foi tudo inventado? -, tão-pouco reinventa, antes reinterpreta. A ambiciosa e arrojada produção recolhe as melhores influências e oferece um refrescante e prazeroso espetáculo sem precedentes: de ação desenfreada e de cortar a respiração, que se transcende em emoções e diversão - aqui podemos encontrar a melhor cena de perseguição de comboios de todos os tempos -, de arrebatadores grandes planos onde a paisagem a perder de vista se confunde com o horizonte longínquo, do imperioso silêncio de desertos e rochedos, sobre todos o silêncio do imponente e incontornável Monument Valley, tão contrastante que é com a grandiosa e triunfante banda sonora de Hans Zimmer. 

Em O Mascarilha dá-se, pois, o tão aguardado reencontro do western ressuscitado com as grandes massas; pena que o desempenho do filme nas bilheteiras invalide, em parte e incompreensivelmente, este meu argumento. O índio Tonto, de rosto pintado e corvo morto na cabeça - excêntrica e hilariante criação de Johnny Depp - tem mesmo razão: por estes dias, nature is definitely... out of balance.

Para as filmagens, construiram-se, de raiz, quilómetros de caminhos de ferro e três modelos de comboios, que se pretendia que fossem como personagens. Os atores percorreram mesmo o cimo de carruagens em movimento, por uma questão de realismo. É claro que há muitas maravilhas do digital ao longo do filme, mas tantas há que são reais e verdadeiras e que, por serem feitos raros nos dias de hoje, passam por artificiais. A produção da Disney e de Jerry Bruckheimer (que prime, como sabemos, o seu selo nalguns dos maiores blockbusters de Hollywood) combina habilmente - e certamente por mérito da visão e intervenção artística de Gore Verbinski - a sofisticação digital em pouco mais do que o indispensável, tanto quanto permita o budget (também esse épico, neste caso), com a melhor utilização possível dos recursos fisicos e clássicos de filmagem. O certo é que, indepentemente de todos os processos, depois da luz e do enquadramento, o requinte de cada cena, frame by frame, é imprescindível. A fotografia de Bojan Bazelli é, por isso, um feito de exímia beleza.

A narrativa é sempre muito fluída, ficcionando entre os meandros da História e alguns anacronismos intencionais que não devem senão à comédia. Os argumentistas Justin Haythe e a dupla Ted Elliott e Terry Rossio (estes últimos também da equipa Piratas das Caraíbas) concebem um filme dinâmico e pleno de ritmo, não-linear porém deveras consistente e bem construído, alicerçado no cómico de situação, no cómico de personagem e na improvável amizade entre um nativo comanche, de valores e ideias bem vincados mas perfeitamente idiota na sua ação e um recém-advogado de valores e ideias igualmente vincados (se bem que outros, radicalmente distintos) e pouco ajeitado com os tiros. O primeiro conta os minutos para vingar a pior troca que alguma vez fez na vida, que lhe ardeu a inocência e que decidiu o destino de muitos dos seus. O segundo, sabe da vida a lei suprema e teórica e tão-pouco sobre a ganância voraz, que pela fraqueza dos homens segue praticamente imune aos ideais da justiça. Num tempo em que os rangers já foram, John Reid (carismático e circunscrito herói, assumido com charme e refino por Armie Hammer), ousa lutar pela estrela ao peito. Salvo da morte pelo cavalo mais lunático de que há memória, parte na companhia do índio pelo oeste, de enorme chapéu branco ao alto, usando a icónica máscara preta, defrontando os adversários que a coragem ou a sorte decidem. Ao longo da odisseia, a esperta Red de perna de marfim (Helena Bonham Carter), o temível Butch Cavendish (William Fichtner), a bela Rebecca (Ruth Wilson), amada adiada, e o ávido e enganoso capitalista Latham Cole (Tom Wilkinson), senhor dos comboios:

From the time of Alexander the Great, no man could travel faster than a horse that carried him. Not anymore. Imagine; time and space, under the mastery of man, power makes emperors and kings... look like fools. Whoever controls this, controls the future. 

Alter-ego de Jack Sparrow, Tonto assume o protagonismo em todos os seus trejeitos e maneirismos, mas também porque é dele o ponto de vista. Lembremos o noble sauvage em exposição na feira de S. Francisco, anos 30, que conta à criança e ao espetador o porquê do cavaleiro usar uma máscara, a necessidade de também um herói poder assaltar um banco. A revisita começa aí e termina já nos créditos finais, de regresso a casa, às derradeiras origens. Deliciosa e memorável personagem, a desse camaleão maior que é Johnny Depp.

Grande filme, grande entretenimento, grande western. O tempo fará justiça a este O Mascarilha.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

ÁFRICA MINHA (1985)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Out of Africa
Realização: Sydney Pollack

Principais Actores: Meryl Streep, Robert Redford, Klaus Maria Brandauer, Michael Kitchen, Malick Bowens, Joseph Thiaka, Stephen Kinyanjui, Michael Gough, Suzanna Hamilton, Rachel Kempson, Graham Crowden

Crítica

UMA CANÇÃO DE ÁFRICA

I had a farm in Africa.


África Minha é um magnífico e apaixonante romance, épico no fôlego e na escala  da paisagem, deslumbrantemente captada pela câmera de David Watkin. Pela luz - ou antes, pelas mais variadas luzes do Quénia, que tanto variam consoante o instante do dia, quase que sentimos as diferenças da temperatura, o cheiro da terra, as texturas do verde e do castanho-avermelhado, o poder reinante e pulsante de toda aquela natureza selvagem, em estado puro. Recordar África Minha será sempre imaginar a majestade do amanhecer ou do entardecer, um comboio que rasga as imensas planícies verdejantes, a savana repleta de búfalos, de girafas, elefantes ou perigosos leões, pontuada por altas acácias e bandos de aves que rasgam os céus. Sydney Pollack, dotado de hábil mestria, invoca e perpetua a África do nosso imaginário coletivo, enquanto escutamos a sonante, nostálgica e inesquecível banda sonora de John Barry, plena de sentimento, que tanto glorifica o horizonte como anuncia a tragédia no paraíso.  

If I know a song of Africa, of the giraffe and the African new moon lying on her back, of the plows in the fields and the sweaty faces of the coffee pickers, does Africa know a song of me? Will the air over the plain quiver with a color that I have had on, or the children invent a game in which my name is, or the full moon throw a shadow over the gravel of the drive that was like me, or will the eagles of the Ngong Hills look out for me? 

Talvez por isso uma personagem - verídica - tão persistente e contundente como a dinamarquesa Karen Blixen se encontre a si própria na aventura distante, excitante embora solitária, em que se torna África. Afinal, revela-se uma mulher dotada de inigualável força telúrica, consciente dos seus valores, finalmente liberta dos constrangimentos sociais que a ameaçavam e que quase lhe toldavam espírito e a essência do seu ser. Se há tema maior em todo o filme é o da propriedade ou o da ilusão da propriedade. Karen - só uma atriz como Meryl Streep poderia dar vida a uma personagem tão rica e complexa como esta - casa-se por conveniência e por vontade própria com o irmão do amado não correspondido, seu amigo, com vista a obter o título de baronesa e assim poder partir à aventura, para dar sentido à vida. Ai dos nativos que lhe toquem nos bens, que lhe são tão queridos, que logo os enxotará tão espontaneamente como enxotará, mais tarde, os temidos leões; o que deliciará o desprendido Denys (Robert Redford), tão livre de espírito como de todas as coisas, pelo qual se apaixonará.

O conflito não provém, pois, do adultério da mulher que vive uma paixão proibida. O argumento resolve a questão com uma clareza notável: cruza-se o marido com Denys e transmite-lhe: You could have asked. Denys responde-lhe: I did. She said yes. Não, o marido nunca representou muito mais do que um amigo e do que um pretexto consentido por ambos. Está sempre ausente, desligado do negócio das plantações de café, entre caçadas e mulheres, as mesmas que lhe passam a mortal sífilis que acaba por transmitir a Karen, justificando assim o regresso da protagonista à Dinamarca, para a cura, sensivelmente a meio da trama. O conflito maior não nasce sequer do machismo e ao conservadorismo dos colonialistas, tão insensível e atroz para com os nativos, com os quais se esbate Karen, mal chega ao país e a Nairobi (cidade que a direção artística de Stephen Grimes recriou com a dedicação e o engenho dos técnicos locais, que nada deviam à engenharia). O conflito nasce mesmo dessa relação apaixonada porém contrastante entre a Karen, contadora de histórias, e o misterioso e fascinante Denys. Denys é tudo aquilo que Karen sempre quis ser - absolutamente livre - no entanto é incapaz de se adaptar a alguém como ela, mesmo amando-a, em nome de um ideal, de uma forma de vida inconstante mas tão prazerosa, solitária mas de todos e do mundo.

 I'm with you because I choose to be with you. I don't want to live someone else's idea of how to live. Don't ask me to do that. I don't want to find out one day that I'm at the end of someone else's life. 

É nisto que Karen e Denys não se entendem, se incompatibilizam, preferindo afastar-se um do outro. Karen sonha casar-se; não obstante I won't be closer to you and I won't love you  because of a piece of paper, diz-lhe ele. Ela sonha tê-lo por perto, mais por perto, que ele passe mais tempo com ela, mas só de pensar na ideia de se sentir preso - ou de sentir que pertence a algum lado ou a alguém - Denys já desespera pelo escape. Pena que quando se reencontram e finalmente reconhecem que não têm alternativa senão mudar-se a si próprios a bem da relação dos dois, que o destino seja tão severo e cruel. Nunca mais voarão, juntos, de encontro ao nevado Kilimanjaru, superando todas as fronteiras.

À medida que Karen nos lê as suas memórias e nos relata fervorosamente o seu passado, África Minha assume um indelével tom poético e emocional, de despedida. Partilhamos com ela, a partir das suas palavras, uma mágoa inexplicável, pelas coisas que ficaram por dizer ou fazer, porque não foi possível. Antes dos créditos finais, somos informados que a baronesa nunca mais voltou a África e isso entristece-nos, porque não a imaginamos mais longe da savana, do seu casarão e dos criados que ajudou a escolarizar. A dor de ter pedido Denys ecoou por toda a sua vida.

It's an odd feeling, farewell. There is such envy in it. Men go off to be tested, for courage. And if we're tested at all, it's for patience, for doing without, for how well we can endure loneliness. 


A influência literária da adaptação espelha-se claramente e de forma totalmente intrínseca na criação de Pollack e restante equipa; sobretudo no ritmo demorado, que priveligia o detalhe e o correr dos acontecimentos. Certamente que para os amantes do filme se trata de uma mais-valia, nunca um defeito, que respeita e autentifica a aventura original de Karen Blixen.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

MEIA-NOITE EM PARIS (2011)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Midnight in Paris
Realização: Woody Allen
Principais Actores: Owen Wilson, Rachel McAdams, Marion Cotillard, Kurt Fuller, Mimi Kennedy, Michael Sheen, Nina Arianda, Carla Bruni, Corey Stoll, Kathy Bates, Léa Seydoux

Crítica:

A IDADE DE OURO

I wanted to escape my present just like you wanted to escape yours. 
To a golden age.

A noite, a rua semi-iluminada de Paris, as badaladas. Num instante, o sonho invade a realidade e um insólito convite abre as portas para a impossível viagem no tempo. Que delicioso escape surrealista, o de poder visitar outras épocas, de poder pisar os locais de antes, de sentir o cheio e a aura de outrora, de conviver com as pessoas e os ídolos de antigamente... com personalidades como Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald ou a mulher Zelda, Salvador Dalí, Luis Buñuel, Gertrude Stein ou Cole Porter que, no caso de Gil Pender (inesquecível personagem de Owen Wilson, alter-ego de Allen), povoam o imaginário mítico e adorado da Paris dos anos 20. Tornar o passado presente - Past is also present, diz o alucinado Dalí no filme, entre rinocerontes - é um desejo humano secular, mas tão mais um devaneio romântico, de artistas. Woody Allen concretiza essa visão onírica de forma absolutamente magistral, neste que é, por tantos motivos, um dos seus mais virtuosos filmes.

Nostalgia is denial - denial of the painful present... the name for this denial is golden age thinking - the erroneous notion that a different time period is better than the one ones living in - its a flaw in the romantic imagination of those people who find it difficult to cope with the present.  
Frase do pedante (Michael Sheen), que afirma conhecer o passado como se o tivesse vivido.

Há a sensação - comum a todas as gerações - de que a Idade de Ouro sempre foi, nunca será. Para Allen e Pender da atualidade, os boémios anos 20. Para Zelda dos anos 20, a Belle Epoque. Para Gauguin da Belle Epoque, La Renaissance. E assim sucessivamente. No passado é que era! Ó tempo, volta para trás! The present - Yes, the present always seems worse than the past but it can't be - to always think this generation is stupider and coarser than the last. Há sempre uma imensa sede de passado, pois the past is not dead. Actually, it’s not even past, já dizia Faulkner, como bem lembra Gil.

Tal como nós, espetadores, o protagonista ainda estranha o que lhe está a acontecer, inicialmente, mas depressa se rende ao fascínio e à fantasia:

I'm Gil Pender - I was with Hemingway and Picasso - Pablo Picasso - Ernest Hemingway - I'm Gil Pender from Pasadena - the Cub Scouts - I failed freshman English - I'm Gil Pender and my novel is with Gertrude Stein - I once worked at The House of Pies. I'm little Gil Pender. And that girl was so lovely. 

Que interessante seria, ficciona, delira, brinca. É tão engraçado assistir à conversa entre Gil e Buñuel, em que o americano lhe dá a ideia para fazer O Anjo Exterminador, subvertendo a lógica temporal das coisas. É tão engraçado ler, no presente, o diário de Adriana Dupree: I am in love with an American writer I just met named Gil Pender. É tão cómico que o detetive contratado para investigar os misteriosos passeios noturnos de Gil vá parar a uma luxuosa corte real, algures no passado histórico. É no passado que Gil se sente integrado, nunca no presente, incompreendido e mal-amado pela noiva Inez (Rachel McAdams). Na viagem, comparamos ainda cultura, arte e sociedade ao som de Porter, Offenbach, Parisi ou do para sempre associado Bistro Fada de Wrembel.

Não admira que, daqui a décadas, muitos sonhem com a Paris dos inícios do século XXI, cidade-luz que acolheu lendas do cinema como Woody Allen, notáveis atores como Owen Wilson ou Marion Cotillard, na rodagem de Meia-Noite em Paris; cidade que o cineasta tão bem retratou nos minutos iniciais da obra, como num postal ilustrado em movimento.

Que maravilhoso pedaço de cinema: ligeiro, despretensioso, embora pleno de criatividade e de vitalidade. Allen é primoroso na sua mise-en-scène, embora simples como sempre. Escasseiam as dúvidas de que se trata de mais um clássico instantâneo na sua filmografia. Nostálgica e absolutamente mágica, esta brilhante e bem-humurada ode à eterna Paris da arte e do amor.

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Nota especial para o belíssimo poster, que se funde com a arte de Van Gogh.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

THE FOUNTAIN - O ÚLTIMO CAPÍTULO (2006)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: The Fountain
Realização: Darren Aronofsky

Principais Actores: Hugh Jackman, Rachel Weisz, Ellen Burstyn, Mark Margolis, Cliff Curtis, Sean Patrick Thomas, Donna Murphy, Ethan Suplee

Crítica:

A FONTE DA VIDA


Together we will live forever.

A demanda pela vida desafia o próprio tempo. No passado, no presente ou no futuro... viveremos sempre - a vida é a nossa certeza mais preciosa. Contudo, não é a única: a morte é igualmente certa. O nascimento principia, a morte termina e o ciclo fecha-se. A vida é uma passagem, mas na passagem reside todo o sentido, enquanto aguardamos pelo desconhecido - temendo por ele, tantas vezes. Receamos a despedida, a perda e o vazio. Nos três tempos que sempre determinarão a nossa existência, sonharemos com a vida eterna. Procuraremos, incessantemente, a Fonte da Juventude, a Árvore da Vida e a Cura. Indagaremos o mito na busca ancestral da Verdade, escutaremos o divino para a resolução do Mistério, faremos evoluir, pela técnica, o próprio conhecimento, na esperança da Salvação. Porém, o nosso destino escreve-se nas entrelinhas dos acasos e encerra na soberania da Natureza. Porque morremos?


O Passado e a Religião

Therefore, the Lord God banished Adam and Eve from the garden of Eden and placed a flaming sword to protect the tree of life.
Génesis 3:24

O Conquistador, 1500. Em prol da sua missão, um Homem arrisca a própria vida pela sua promessa, pela sua missão, pela Árvore da Vida:



Rainha Isabel: Will you deliver Spain from bondage?
Tomas: Upon my honor and my life.
Rainha Isabel: Then you shall take this ring to remind you of your promise. You shall wear it when you find Eden, and when you return, I shall be your Eve.


Ao proferi-lo, a rainha - então ameaçada pela Europa oprimida e pela Igreja inquisitória (Your queen seeks immortality on Earth - a false paradise. This is heresy) - passa ao cavaleiro ajoelhado um anel, como símbolo da Aliança e do Amor partilhados entre ambos. O salão onde se encontram, do negrume iluminado por centenas de candelabros suspensos, assemelha-se a um manto nocturno, no qual cintilam milhares de estrelas douradas. O arrojo e a minúcia da iluminação e da direcção artística são absolutamente notáveis. Destaque-se, também, a geométrica simbologia da obra, de uma riqueza assinalável.

A special tree grows hidden, the tree of life,
they say who ever drinks of its sap will live forever.

Alcançar a seiva bíblica significa atingir um poder incomensurável: por meio dela, o conquistador libertará a rainha e o reino da tirania católica e conquistará o coração da amada. Para além do mais, obterá a vida eterna, vencendo a morte através dos tempos.

Our bodies are prisons for our souls. Our skin and blood, the iron bars of confinement. But fear not. All flesh decays. Death turns all to ash. And thus, death frees every soul.

Tomas faz-se acompanhar pela armada de espanhóis cristãos, mas estes sucumbem à armadilha dos maias pagãos. There's no hope for us here, there is only death. Encurralado pelas circunstâncias, ascende só às alturas, degrau após degrau. Let us finish it. Escala a pirâmide, deixando a escuridão do abismo e aproximando-se do Senhor de Xibalba, no topo. O confronto é inevitável e dele depende o sucesso da incumbência real.

Death is the road to awe.

A espada do místico, em chamas, desfere o grito da aflição. Sustêm-se, o mistério e a respiração, na imensidão do universo. Reina o silêncio. Não estamos mais no passado.

I'm sorry father, for you there is only death. But our destiny is life!


O Presente e a Ciência

Death is a disease, it's like any other.
And there's a cure. A cure - and I will find it.



O Cientista, 2000. Reencontramos os mesmos corpos, a mesma demanda. Reincarnação? Quem sabe, se pela decomposição da matéria sobrevivem os átomos da alma. Izzi está doente. Tem um cancro, que lhe apressará a efémera passagem pelo plano terrestre - esta irreversível dimensão física na qual nos relacionamos e conhecemos. Tom ama-a, perdidamente. E o Amor dos dois é sentido mutuamente. Izzi perdeu, recentemente, a sensibilidade ao frio e ao calor. Sente que a morte está próxima. Perante tamanha e tão perturbadora consciência, dedica a sua solidão à descodificação do enigma. Lê, pesquisa e indaga os céus da noite na busca de paz:


It's actually a nebula wrapped around a dying star. That's what makes it look gold. (...) The Mayans called it Xibalba. It was their underworld. The place the dead souls go to be reborn.

Tom, por sua vez, não se conforma, não aceita, não se rende, afinal, às evidências da morte. Cientista de profissão, passa os dias no laboratório, testando e experimentando obcecadamente as mais variadas fórmulas e hipóteses para encontrar a Cura. Ele quer desesperadamente salvar a mulher que ama. Restos de uma antiga árvore da América Central parecem começar a sortir efeito no macaco Donavan, a cobaia, estancando o efeito avassalador do tumor. Mas os efeitos não serão perpétuos.

Tom: There's been progress at work...
Izzi: My conquistador! Always conquering...

The Fountain, floresce a mise en abyme, é o nome do livro ao qual Izzi entrega os seus últimos dias. Através dele, a personagem procura o significado existencial. A arte aparece-nos, pois, como fruto da necessidade de justificar e compreender a morte. A acção do livro de Izzi recua ao tempo dos conquistadores espanhóis e acção coincide com a acção do filme, decorrida anteriormente no passado. Quero acreditar que esse passado que inicialmente conhecemos, pela inspiração visionária de Aronofsky, é muito mais do que a representação da história de Izzi, tão-somente. A The Fountain falta-lhe o capítulo doze, o último capítulo... A missão derradeira é incubida nas mãos do amado:

It's all done except the last chapter.
I want you to help me. Finish it...


Aquando da visita ao museu, na qual Izzi acaba irremediavelmente por desmaiar, a jovem tenta tranquilizá-lo, convencendo-o de que nada há a temer na morte:

Look. It explains their creation myth. You see, that's First Father. He's the very first human. (...) He sacrificed himself to make the world. The Tree of Life's bursting out of his belly. Listen. His body became the tree's roots. They spread and formed the Earth. His soul became the branches, rising up, forming the sky. All that remained was First Father's head. His children hung it in the heavens, creating Xibalba. (...) Death as an act of creation.

Na cama da clínica, cada vez mais debilitada, distante e serena, Izzi desvenda o segredo:

Remember Moses Morales? (...) He told me about his father, who had died. Well Moses wouldn't believe it. (...) He said that if they dug his father's body up, it would be gone. They planted a seed over his grave. The seed became a tree. Moses said his father became a part of that tree. He grew into the wood, into the bloom. And when a sparrow ate the tree's fruit, his father flew with the birds. He said... death was his father's road to awe. That's what he called it. The road to awe. Now, I've been trying to write the last chapter and I haven't been able to get that out of my head! (...) I'm not afraid anymore, Tommy.
Pensar a morte não é um passatempo frequente entre os vivos. O medo impede-nos. Mas haverá razões para ter medo? Não faremos nós parte de um ritual da Natureza que se repete até ao fim dos tempos? Aceitá-la, creio que jamais o faremos.

És pó e em pó te tornarás.

Génesis 3:19

Mais importante do que pensarmos na morte, é pensarmos na vida, vivendo-a intensamente. O que Izzi sempre quis transmitir a Tom é que eles se hão-de encontrar para além da morte. Together we will live forever. Até lá e aceite que se vai partir, o mais importante é partilhar a existência - os últimos toques, beijos e suspiros - com quem mais amamos.


O Futuro e a Transcendência

O Último Homem, 2500. Uma bolha flutua para além do infinito, numa ascenção permanente. Os corpos celestes abrilhantam o cosmos, os astros cadentes completam a visão surreal e onírica. Percorre-se o caminho da Luz, da iluminação. Dentro do último reduto, a árvore, a morrer, a secar... um homem e as suas memórias, uma última missão por cumprir. Haverá sempre um capítulo inacabado nas nossas vidas ao qual só uma dimensão imaterial e transcendente porá fim. É como que uma incapacidade orgânica, inerente à nossa condição. Finish it.

All these years, all these memories, there was you.
You pull me through time.

O espaço é local de meditação e de reflexão. Contam-se os intervalos, tatuando a pele, como que no prolongamento da eterna Aliança - elemento mágico e simbólico, comum aos três tempos diegéticos. Imerge-se na metafísica. E o esplendor visual deste universo é não só impressionante como totalmente arrebatador. É de uma beleza extrema, lírica, quase indefinível. Há silêncios, murmúrios, ânsia pela plenitude, pelo apaziguamento final. Podemos dizer que a originalidade gráfica e conceptual dos efeitos especiais (Jeremy Dawson, Dan Schrecker, Mark G. Soper, Peter Parks) conseguiu uma relíquia autêntica e única, desbravando um lugar singular na História da Ficção-Científica. A obra de Aronofsky assume-se, pois, estilisticamente prodigiosa. A fotografia de Matthew Libatique, por sua vez, aproxima-se da perfeição.

Through that last dark cloud is a dying star. And soon enough, Xibalba will die. And when it explodes, it will be reborn. You will bloom... and I will live.

É precisamente neste terceiro tempo que eclode a arrepiante explosão orgásmica que marcou, decididamente, a maior experiência da minha vida numa sala de cinema. A genial e avassaladora composição musical de Clint Mansell cresce e intensifica-se numa poderosíssima apoteose dos sentidos. Aquele corpo humano levita, transfigura-se e consome-se pela Luz etérea. O círculo fecha-se. Fade-out, na imaculada brancura e vastidão do nada.


Tom: I've finished it.
Izzi: Is everything alright?
Tom: Yes... everything's alright!



Os desempenhos da dupla principal de actores, Hugh Jackman e Rachel Weisz, mas especialmente de Hugh Jackman, são de uma tremenda profundidade emocional. Ainda para mais, a versatilidade do actor é nitidamente posta à prova. A complexidade e as exigências do argumento são engenhosa e criativamente ultrapassadas por meio da repetição de motivos, conferindo à narrativa uma fluidez extraordinária. A realização de Aronofsky é sublime, em toda a sua arte de filmar. A montagem (decisivos, o talento e a competência de Jay Rabinowitz) revela-se igualmente imprescindível para o sucesso da narrativa.

Destaco três sequências onde os vários fios se unem com notável mestria:

- O movimento de chariot recua subtilmente de um monumento maia, após a transição de cena, e ouvem-se os sons da natureza. O momento parece-nos falso, à primeira vista, mas os sons e um pássaro amarelo, verdadeiro, que atravessa a imagem num vôo inesperado, reclamam e sugerem a autenticidade do ambiente. Porém, o súbito silenciamento dos sons, a mudança radical na iluminação e o afastamento da câmera para lá do enquadramento inicial mostram-nos um quadro na parede e concluimos a ilusão da qual fomos alvos. Tom surge finalmente no enquadramento, chama por Izzi e recolhe, num outro take, o pássaro amarelo que pousara sobre a mesa.

- No futuro, a mão de Tom passa pelo tronco da árvore e a montagem desvanece a imagem numa outra, já no tempo presente, sem se notar sequer a transição. A mesma mão termina o take passando suave e delicadamente pelo corpo da amada, que entre a espuma toma um banho quente, principiando uma das mais intimistas e tocantes cenas do filme.

- No presente, Tom desloca-se para a cidade, num automóvel acelerado e afligido. A câmera, sobre a estrada e inicialmente virada do avesso, dá meia-volta sobre si mesma e acompanha o veículo que rasga a rua de encontro ao destino. No passado, a câmera repete exactamente o mesmo movimento, nas mesmas circunstâncias. Troque-se a estrada pela clareira do campo, o automóvel pelo cavalo e o aspecto contemporâneo da cidade ocidental pela aparência de uma cidade dos finais do século XV.

Enfim, que experiência assombrosa, poética e deslumbrante. Uma espiritual e imortal ode à vida e à morte e sobretudo ao Amor, à Aliança entre dois seres que é não só intemporal como eterna. Sim, o verdadeiro Amor é eterno. Sobrevive a qualquer tempo e até à morte, pois repetir-se-á nos ciclos para além do renascimento. O Amor é o principal sentido da vida, é a Fonte. Acredito nisto, piamente. Veredicto? Obra-prima absoluta e um dos meus filmes de eleição. Para mim, um dos melhores de todos os tempos.

CINEROAD ©2020 de Roberto Simões