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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O PATRIOTA (2000)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: The Patriot
Realização: Roland Emmerich
Principais Actores: Mel Gibson, Heath Ledger, Joely Richardson, Jason Isaacs, Chris Cooper, Tcheky Karyo, Rene Auberjonois, Tom Wilkinson, Lisa Brenner, Donal Logue

Versão do Realizador

Crítica:

FANTASMAS NA BRUMA

I have long feared that my sins would return to visit me,
and the cost is more than I can bear.

O Patriota é uma típica grande produção de Hollywood: é, primeiro que tudo, realizado por Roland Emmerich - para muitos críticos o texto poderia acabar aqui, fundamentos não bastassem, e atribuir-se-ia ao filme a pior nota -, o homem por detrás do sucesso tremendo que foi O Dia da Independência (ou pelo irresistível pedaço de ficção científica que é Stargate). Curiosamente, distancia-se aqui do seu explosivo percurso para assinar um drama histórico, de maior contenção mas sem jamais esquecer o fulgor do entretenimento nos comic reliefs, nas sequências de ação e de suspense e nas outras tantas que, entre estudadas coreografias, emocionam ou revoltam o espetador, motivando os protagonistas para a vingança. O argumento, dotado de grande fôlego romântico, é da autoria de Robert Rodat, o mesmo de O Resgate do Soldado Ryan, que prima, alguns anacronismos à parte, por uma tremenda e notável economia narrativa, excecionalmente construída e doseada ao longo dos seus demorados porém nunca cansativos três atos. À parte também alguma previsibilidade, ou não obedecesse a construção às eficazes regras da cartilha, às fórmulas testadas pelos grandes estúdios e não raras as vezes tão bem recebidas pelas audiências. Considerando o monumental orçamento, há pois que eliminar os riscos do fracasso.

O filme é encabeçado por mais um valor seguro: Mel Gibson, nos mesmos contornos heróicos (e quase tão violentos como os) do glorioso Braveheart - O Desafio do Guerreiro, de alguns anos antes. O seu Benjamin Martin resulta de um acting fabuloso, de machado em punho ou de bandeira ao alto. Nos gestos, expressões e olhares de Gibson encontramos refletida toda a profundidade e complexidade da personagem, a dor e as angústias daquele pai levado a encorajar as milícias contra os canhões, mosquetes e baionetas dos Casacas Vermelhas, plenos de maniqueísmo, quais fantasmas na bruma na luta pela justiça e pela liberdade da nação. O inimigo é de certo modo caricaturado (detetamos o exagero) nas performances de Tom Wilkinson e do monstruoso e sádico Jason Isaacs. Depois, temos Heath Ledger, a jovem estrela ainda em ascenção, capaz de assegurar as bilheteiras do público mais jovem.

Note-se o requinte dos seus valores de produção - do design à conceção dos cenários e artefactos (Kirk M. Petruccelli, Barry Chusid), aos figurinos (Deborah Lynn Scott), ao cuidado na caracterização e penteados. O polimento estético, que tão seriamente eleva a componente visual, estende-se naturalmente à deslumbrante composição das pinturas (nas cores, luzes e enquadramentos) de um grande diretor de fotografia, Caleb Deschanel, ou na criação musical de um não menos lendário compositor, John Williams.

O modelo de Hollywood não traz aqui especial inovação, a pompa e circunstância enraivece os mais sedentos por rasgos de genialidade ou de autoria, de narrativas que não caiam recorrentemente em lugares comuns. O Patriota fá-lo e pode ser por isso um mau filme, para muitos. Para mim, os valores seguros - que mal há na segurança? - trazem-me beleza (ainda que o maquilhado enfeite de Natal a que se refere Mark Cousins no documentário da moda entre cinéfilos The Story of Film) e emoção. É prazeroso assistir-se aos méritos seguros de um filme como este, porque a sua qualidade fala por si, ainda que num filme assinado por Roland Emmerich que, preconceitos à parte, concebe um bom filme, com momentos francamente dignos de nota. Não é uma rigorosa lição de história, o que também irrita alguns críticos de cinema, menos permissivos em relação às liberdades criativas da ficção. É um filme norte-americano, o que por si só enlouquece outros tantos. Finalmente há um punhado ou exército deles que não gosta do filme e que fundamenta a sua posição com conhecimento. A palavra desses já vale a pena ler e compreender, concordemos ou não, porque afinal como em princípio não gostamos todos dos mesmos filmes pelas mesmas razões.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

O HOBBIT - A DESOLAÇÃO DE SMAUG (2013)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: The Hobbit - The Desolation of Smaug
Realização: Peter Jackson
Principais Actores: Ian McKellen, Martin Freeman, Richard Armitage, Orlando Bloom, Evangeline Lilly, Aidan Turner, Luke Evans, Lee Pace, Stephen Fry, Ken Stott, Graham McTavish, William Kircher, James Nesbitt, Stephen Hunter, Dean O`Gorman, Benedict Cumberbatch

Versão Alargada

Crítica:


A MONTANHA SOLITÁRIA

If this is to end in fire, then we will all burn together!

É difícil avaliar um filme como O Hobbit - A Desolação de Smaug porque é um filme e não é - não deixa de ser uma parte, ainda para mais a parte do meio. E no final, os três filmes deverão resultar como um só, assim como aconteceu com a trilogia O Senhor dos Anéis, sendo que muito provavelmente se estabelecerá a hexalogia. Enquanto filme isolado, estará sempre alguns furos abaixo dos restantes porque não tem individualidade, não tem um desfecho próprio - como se conseguiu, sui generis, n'As Duas Torres. O cliffhanger é gritante, como nunca o foi até então. Depois, mesmo perspectivando a trilogia, ainda se desconhece o terceiro capítulo, pelo que se desconhece obrigatoriamente a eficácia da construção narrativa deste pedaço, que se completa no seguinte. Uma coisa é certa: a versão alargada é uma versão superior, conferindo maior robustez à história e ao filme, enriquecendo o retrato político-social da Cidade do Lago e recuperando o arco e a sequência de Thrain (pai de Thorin), erroneamente eliminada da versão dos cinemas.

Por entre o corropio da acção, não creio que se perca o fio à história. Após um prólogo inesperado e anacrónico, que reposiciona o espectador na demanda de Thorin Escudo-de-Carvalho, eis a aguardada continuação da viagem de Bilbo, Gandalf e os anões
pela reconquista de Erebor. Do abrigo de Beorn, ora homem ora urso, mudador-de-peles, ao ataque das aranhas gigantes na asfixiante claustrofobia da floresta de Mirkwood (e como Jackson a torna sufocante!), passando pelo incomensuravelmente belo Reino dos Elfos da floresta, liderado pelo igualmente belo porém egoísta Thranduil (Lee Pace) e pelas tramas políticas da Cidade do Lago, a aventura evolui a um ritmo imparável e alucinante. O génio do realizador para as sequências de acção sobressai com todo o virtuosismo na divertidíssima fuga nos barris. Que cena alucinada e plena de humor! As lutas são como bailados, coreografadas entre actores, figurantes e câmeras. Regressa Legolas (Orlando Bloom), príncipe da floresta, aqui muito mais próximo da arrogância do pai Thranduil, apaixonado pela deslumbrante Tauriel (Evangeline Lilly) - em boa hora adicionada à trama - cujos encantos recaem sobre o atraente anão Kili. Legolas e Tauriel mostram-se exímios na arte de matar à velocidade da elegância. Luke Evans e o seu notável Bard, o contrabandista, permitem a travessia do Lago rumo a Esgaroth e muito para além das ruínas de Dale - a desolação de Smaug -, até aos confins da Montanha Solitária, onde o temível dragão adormecido protege a imensidão do tesouro roubado. Bard parece predestinado a um feito maior, esperemos pelo próximo capítulo. Ainda em termos de interpretações, a realçar o crescente Balin de Ken Stott, a graça do roliço Bombur de Stephen Hunter e a hilariante caricatura de Stephen Fry, como ávido senhor da cidade de canais, peixe e trocas comerciais. Sentimos a falta do protagonismo de Martin Freeman durante a maior parte do filme, ainda que a mesma seja mais ou menos compensada no último acto.

O Smaug the Unassessably Wealthy. I merely wanted to gaze upon your magnificence, to see if you were as great as the old tales say. I did not believe them. (...) Truly songs and tales fall utterly short of your enormity, O Smaug the Stupendous...
Bilbo

Chegados à Montanha Solitária, a narrativa está tripartida. Bilbo e vários dos anões defrontam as chamas do perigo (acção principal), Gandalf encontra-se com Radagast e enfrenta o Necromante e Kili recupera de uma flecha envenenada graças à medicina e aos cuidados da elfo Tauriel. A eficácia da divisão é duvidosa, até porque a transição entre as várias linhas diegéticas, após o tão aguardado despertar de Smaug, 
parece forçada. Queremos focar-nos somente na acção principal; o que acontece nos outros núcleos não tem a mesma importância ou interesse, naquele momento. Mas enfim, o filme lá termina abruptamente com o vôo incandescente e ameaçador do dragão e continua na terceira parte. Por isso, é ingrato julgar um filme para já incompleto. O espectador, esse, fica em inevitável suspense. Propositadamente, com um sentimento de vazio ou insatisfação, sem saber bem se pelo que assistiu ou se pelo que faltou assistir.

Na generalidade da obra e ainda em termos técnicos, a sofisticação impera, como esperado; ou não fosse a equipa a mesma de sempre. Dos cenários e decoração aos figurinos, aos penteados e à caracterização, da fotografia e iluminação aos efeitos digitais e à pujante banda sonora de Howard Shore, o filme é um festim visual e sonoro absolutamente impressionante e colossal. 


Agora, aponto o dedo: incompreensivelmente, Peter Jackson reforça aquele que já n'Uma Viagem Inesperada se evidenciava como o potencial calcanhar de Aquiles da nova saga, dando alguma razão à maior parte dos detractores das suas aventuras na Terra Média, que resumem O Senhor dos Anéis a um amontoado de efeitos especiais exibicionistas, extraordinariamente artificiais e que tendem a desvirtuar a narrativa. Por mais credibilidade que a fantasia construa, até determinado ponto e pelos mais variados méritos, é difícil digerir wargs tão mal conseguidos e as contracenas entre Azog e Bolg, tão notoriamente artificiais. Estes dois líderes, por exemplo, destoam completamente dos restantes constituintes das negras hordas de mauzões, criados pela excelência da caracterização real, assim como sempre aconteceu desde A Irmandade do Anel. Foi claramente uma opção falhada, que faz destoar e colapsar as suas cenas. Menos do que terríveis, tornam-se personagens insuportavelmente ridículas. Depois da autêntica maravilha que é Gollum, nos filmes anteriores, não nos venham com estes orcs asquerosos. Evidenciar as fraquezas ao invés de disfarçá-las é um erro tremendo. Há abelhas, aranhas e até o dragão monumental, todos digitais, e todos merecem o nosso aplauso. Smaug não está, de todo, livre de lhe apontarem o dedo, mas dificilmente a equipa da Weta conseguiria fazer melhor, por certo. Agora Azog e Bolg, tenham piedade de nós. Não os perdoamos, porque não acreditamos que constem no filme por falta de alternativa ou talento; antes por capricho.

Concluída a visualização d'A Desolação de Smaug, vejo-me finalmente obrigado a ponderar a necessidade efectiva de estender a adaptação de um livro apenas por três longos filmes. E torno à defesa. A priori e distanciando-me do massivo coro crítico da trilogia de Jackson, não vejo essa decisão como um problema real, ainda que esteja ciente dos interesses capitalistas que a cimentam. Assistido o segundo filme, continuo a não sentir essa questão como um problema real. Para a adaptação, Jackson parte d'O Hobbit, de variadíssimos anexos e de anotações de Tolkien, mas também se apropria daquele mágico universo para criar uma ou outra personagem, uma ou outra situação. Aquele universo também é dele (não será só dele? Lembro a eterna questão: o livro é o livro, o filme é o filme). O que nos mostra é eficaz? Muito, tanto para a história como para assegurar a sua épica duração. Os filmes jamais se arrastam, perdendo a capacidade de enriquecer o seu e o nosso imaginário, perdendo a capacidade de nos maravilhar... Quem julga a nova trilogia do cineasta baseado no preconceito (ou tomado por ele) não sabe os filmes que perde. Eles existem e é ver para crer.


O Hobbit - A Desolação de Smaug não cumpre, porventura, todas as expectativas sobre ele criadas e consegue a proeza de levantar outras tantas. Ainda assim, soergue-se que nem o dragão, possante e banhado a ouro, como um grande filme de fantasia e aventuras. Resta-nos esperar pela incógnita da terceira e última parte.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O HOBBIT - UMA VIAGEM INESPERADA (2012)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Hobbit: An Unexpected Journey
Realização: Peter Jackson
Principais Actores: Martin Freeman, Ian McKellen, Richard Armitage, Ken Stott, Graham McTavish, William Kircher, Cate Blanchett, Elijah Wood, Hugo Weaving, Christopher Lee, Andy Serkis

Versão Alargada

Crítica:


A PRIMEIRA AVENTURA 

In a hole in a ground, there lived a hobbit.

O Hobbit - Uma Viagem Inesperada marca o regresso à alta fantasia e ao maravilhoso universo da Terra Média, criado por Tolkien e recriado e imortalizado no cinema por Peter Jackson. É a tão aguardada prequela à incontornável trilogia O Senhor dos Anéis, dividida igualmente em três partes, embora desta feita a partir de um livro apenas. All good stories deserve embellishment, dir-nos-á Jackson pela voz de Gandalf, às tantas, e queremos acreditar que é o caso. Afinal, o vasto imaginário de Tolkien (entre livros publicados, apêndices e anotações) constitui uma reluzente mina de ouro, somente equiparável, porventura, às imensas galerias de tesouros de Erebor.

Este primeiro tomo assemelha-se muito e não por acaso, na sua estrutura narrativa, à saudosa Irmandade do Anel. Abre no Shire verdejante - Howard Shore apronta-se a convocar a nostalgia, pelo arranjo melódico - no preciso dia em que abre O Senhor dos Anéis. Bilbo Baggins inicia os escritos e a narração no Fundo do Saco, na data do seu aniversário. Frodo parte para a floresta, onde esperará por Gandalf. Estabelece-se pois, perfeitamente, a ponte para a saga já existente. Posicionados que estamos na epopeia, conscientes do espaço e do tempo (seja ele o passado do Reino dos Anões, o futuro da Terra Média que já tão bem conhecemos ou o presente da narração), viajamos sessenta anos atrás e aí nos manteremos. O Bilbo de Ian Holm dá lugar ao Bilbo de Martin Freeman. E a aventura começa: contratado como assaltante e herói improvável, o desconfiado hobbit parte na companhia do feiticeiro cinzento e de uma companhia de treze inusitados mas guerreiros anões - Thorin, Balin, Dwalin, Fili, Kili, Dori, Nori, Ori, Óin, Glóin, Bifur, Bofur e Bombur - numa arriscada viagem que mudará, para sempre, a sua vida e o destino da Terra Média. Num permanente e absorvente road movie, sempre de um local para o outro - e cada um mais deslumbrante do que o anterior, com paragem obrigatória em Rivendell - avançam rumo à Montanha Solitária, onde esperam defrontar o temível dragão Smaug, senhor das infindáveis riquezas de Thrór, e recuperar, por fim, o lar dos anões. Após a introdução, necessariamente mais demorada, a história mantém-se genericamente fluída.

Martin Freeman compõe um hobbit memorável, em todos os seus trejeitos e riqueza de carácter, numa junventude credível para o Bilbo de Ian Holm. What... have I got... in my pocket? Note-se como o hobbit pleno de dúvidas, receios e fraquezas do início dá lugar, progressivamente, a um ser cada vez mais engenhoso e corajoso. Ian McKellen torna ao seu carismático e eloquente Gandalf, intenso em cada olhar e com a voz sempre tão bem colocada. Richard Armitage e o seu Thorin Escudo-de-Carvalho recupera, de certa forma, o halo do Aragorn de Viggo Mortensen. Herdeiro do trono, espera-se igualmente o regresso do rei, embora Thorin mostre sempre algum desprezo para com Bilbo ou, encoberto ou descoberto pela sua liderança, alguma sede de poder. Ostenta, claramente, uma dualidade na personalidade que Aragorn, mais sábio e ponderado, jamais ostentou (ou ostentará, diegeticamente falando). Como é bom rever Elijah Wood, Cat Blanchett, Hugo Weaving e Christopher Lee nas suas extraordinárias personagens, para sempre suas. Ainda no elenco, a destacar Radagast (Sylvester McCoy), o Castanho, mago da natureza, personagem caricata quanto baste, quando muito não seja pelo seu ninho defecado debaixo do chapéu, sempre tão cheio de vida, ou pelos seus olhos pedrados, sempre tão afectados pelos efeitos alucinogénicos dos cogumelos.

Como não podia deixar de ser, O Hobbit, revela-se-nos um espectáculo visual e tanto. O primor, o detalhe e a sofisticação da direcção artística (Dan Hennah, Ra Vincent e Simon Bright) é, em todos os cenários, um verdadeiro assombro, aliando-se à beleza estonteante e hipnótica da fotografia de Andrew Lesnie e aos prodigiosos efeitos digitais da Weta Digital. Os wargs serão, porventura, o calcanhar de Aquiles da equipa de efeitos especiais, pela pouca autenticidade alcançada, mas a sua presença nunca chega a ser dominante o suficiente para pôr o filme em causa. Mais uma vez, o deslumbramento contínuo e a cada fotograma passa inevitavelmente pela beleza natural da Nova Zelândia, onde decorreram as filmagens. A caracterização (pela equipa de Peter King) assume-se como um trabalho absolutamente portentoso; vejam-se, por exemplo, os looks que diferenciam cada um dos anões - em si, um feito verdadeiramente épico. O tom do filme, até pelo carácter infantil do conto, é muito mais cómico e desafogado do que o d'O Senhor dos Anéis e o grupo de anões que entra porta adentro e se instala em casa de Bilbo não deixa margem para dúvidas. Note-se a sequência do jantar, entre cânticos alegres e pratos voadores, que é simplesmente hilariante. Há ainda vários momentos musicais, a pontuar e a enriquecer a narrativa (na versão alargada, até o Rei dos Goblins tem um momento surpreendente).

O sentido de Jackson para o espectáculo, para a construção de ambiciosas e empolgantes cenas de acção non-stop, a grande escala e a grande velocidade, jamais pára de nos surpreender. É preciso muito engenho e criatividade para tamanhas coreografias - inclusive da câmera. O confronto com os trolls ou a luta entre os Gigantes de Pedra resultam em cenas de vibrante entretenimento, mas o que dizer da colossal montanha russa de emoções que nos está reservada para os confins das Montanhas Sombrias, repletas de goblins? Os nossos heróis escapam aos perigos, uma e outra vez; talvez os sintamos demasiado invencíveis, por vezes, mas o que assistimos é tão cool que perdoamos o atrevimento. O culminar da perseguição de orcs sobre o desfiladeiro, liderada pelo assustador Azog - entre chamas e pinhas incandescentes, altas árvores e redentores vôos de águias - resulta num final fabuloso e poderosíssimo para este primeiro capítulo da trilogia. A coda, em que um singelo e esvoaçante tordo desperta, de um sono soberbo, um gigante adormecido, é por demais simbólica e metafórica... Ecoa, então, pelas galerias de ouro e pela nossa memória, a profecia das runas lunares, que Elrond descobriu da invisibilidade no mapa dos anões. Abre-se um enorme olho. Augura-se, pois, a mais entusiasmante e promissora continuação para a história. Mal podemos esperar pel'A Desolação de Smaug.

A melhor cena do filme é, quanto a mim, a do encontro entre Bilbo e Gollum e a troca de adivinhas na escuridão. A encenação e a contracena entre Freeman e a criação digital, mais real do que nunca e tão humanamente interpretada por Andy Serkis, é tremenda. Eis, então, a primeira aparição do Anel Um, one ring to rull them all, que despoletará a guerra às portas de Minas Tirith e a destrutiva demanda de Frodo rumo ao coração de Mordor.

A aventura pode, pois, principiar em O Hobbit - Uma Viagem Inesperada. E como estamos perante um triunfante filme de aventuras! Mas para nós, amantes desta Terra Média, este será sempre um regresso a casa. Um desejado e reconfortante regresso a casa. Talvez os anões reconquistem o seu lar, lá par o final, mas nós não temos dúvidas: ganhámo-lo desde o primeiro instante.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

OS MISERÁVEIS (2012)


PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Les Misérables
Realização: Tom Hooper
Principais Actores: Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Eddie Redmayne, Helena Bonham Carter, Sacha Baron Cohen, Samantha Barks, Aaron Tveit, Daniel Huttlestone

Crítica:

Do you hear the people sing?
Singing a song of angry men?
 
A REVOLUÇÃO DO POVO

It is the music of a people
Who will not be slaves again!


Um musical monumental, absolutamente majestoso - puro e duro na sua essência - como há muito tempo não se via. Assim é Os Miseráveis, de Tom Hooper, a partir do sucesso homónimo dos palcos, por sua vez a partir do célebre romance de Victor Hugo. Não é de espantar que a gente com menos tradição ou cultura do musical o menospreze, subvalorize ou injustice, nomeadamente entre a crítica cinematográfica. Basta aliás consultar o histórico de alguns críticos ou bloggers para, simplesmente, nos esbatermos com a ausência da opinião ou apreciação sobre musicais... Nenhum género é menor e ridicularizar a priori um filme porque os atores cantam em vez de falarem é, mais do que uma questão de gosto, uma questão de falta de cultura. Ponto assente, haverá naturalmente os bons e os maus musicais, como os há - os bons e os maus - em tudo.

Dos tons e cores de Eugéne Delacroix - vem-nos imediatamente à memória o simbólico e imortal La Liberté Guidant Le Peuple - a obra prima pelo arrojo visual. Os verdadeiros quadros vivos pintam-se e deslumbram-nos frame by frame. Proeza irretocável do extraordinário diretor de fotografia Danny Cohen, herança da anterior colaboração com Hooper no igualmente magistral O Discurso do Rei. Sobressaem a matemática ou liberdade de cada enquadramento, como que num ato de júbilo, a plena consonância da palete cromática entre o esmerado guarda-roupa e a pomposa e detalhada (re)criação artística dos cenários (há sets impressionantes!) e, até, entre os demais efeitos digitais, na maior parte das vezes invisíveis ou camuflados. A imagem é tratada, requintada, estilizada ao mais ínfimo detalhe, na expressão máxima da beleza - o que constitui quase uma regra poética, comum a tantos musicais.


Falemos dos atores, desse fabuloso elenco de luxo que, com a intensidade das suas performances, confere ao filme uma profundidade dramática tremenda, à altura da exigência narrativa. Comecemos pelo notável Jean Valjean de Hugh Jackman, já que o filme acompanha o seu sofrido percurso, desde escravo da lei ou prisioneiro 24601 - por ter roubado pão para alimentar a sua sobrinha numa Paris assolada pela miséria - a criminoso procurado e perseguido pelas autoridades, em especial e numa demanda pessoal pelo inspetor Javert, interpretado por Russell Crowe. A busca pelo homem intensifica-se durante todo o filme (por Javert, numa servidão moral inquestionável que se deixará consumir pela dúvida) e a procura pela absolvição aos olhos de Deus também (por Valjean, que esconde a sua identidade para tentar um recomeço, mas que não consegue escapar ao passado). Jackman - já perceberamos que era capaz de grandes interpretações desde o genial The Fountain, de Aronofsky - transfigura-se pelo olhar e pela voz; é evidente a sua expressividade física e vocal, como se arrancasse às entranhas toda a sua força e vitalidade. Já o olhar de Crowe é misterioso e dissimulado e o seu corpo é como que escravo e contradição da sua vontade. É como se a carne desejasse tombar das alturas enquanto a alma, atormentada, reclamasse a imensidão da estrelas. Na cena que encerra o primeiro ato e em que canta Stars, sobre o crepúsculo do dia e os edifícios de Paris, essa ameaça é declarada, cumprindo-se mais tarde. A sua voz não tem o lirismo de outras, mas é cerebral e controlada, bem projetada e afinada, o que o salva da crítica maldosa. Temos depois a singela e desgraçada Fantine de Anne Hathaway, que após vender os dentes, o cabelo e o ventre, no porto da repugnância, arrebata um aplauso unânime com a interpretação sentida e por demais intimista de I Dreamed a Dream. É um close-up estático e sem cortes, de minutos sôfregos e dolorosos, em que sentimos cada respiração, cada lágrima. É uma cena puramente arrepiante. Temos depois a dupla cómica do também miserável mas igualmente sublime Sweeney Todd de Tim Burton, Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen, aqui um hilariante casal de vigaristas, perfeitos nos seus papéis. Temos ainda as jovens Amanda Seyfried e Samantha Barks, seguras dos seus tons e dinâmicas, a segunda com maior expressividade física que a primeira, e o também jovem Eddie Redmayne, no topo do triângulo amoroso e dono de um timbre belíssimo, com uma entrega incrível... Não é por acaso que Empty Chairs at Empty Tables resulta numa cena completamente comovente, desoladora e memorável. O cast, até nos papéis menores ou figurantes, é portentoso e por demais extenso, destaquemos por fim o idealista de Aaron Tveit ou o genuíno e bem humorado savoir-faire do pequeno Daniel Huttlestone, como corajoso Gavroche.

Tom Hooper, dotado de inspirada gradiloquência épica (da mesma que se perpetua na assombrosa banda sonora), mostra-se mestre das mais variadas formas de filmar para extrair o melhor de cada ator, de cada cenário, em cada plano. Que era excelente diretor de atores, isso já sabiamos desde o seu filme anterior. Cada personagem tem o seu momento, tornando o filme um exemplo de abrangente pluralidade. Não há como não salientar a opção de gravar as performances musicais no exato momento em que as cenas são gravadas, evitando o perfecionismo das habituais dobragens da pós-produção e entregando o musical a um maior realismo e a um maior poder interpretativo, mesmo se com algumas imperfeições. Ou sobretudo por elas.

Da decadência social das ruas às barricadas e à rebelião do povo, não deixando esmorecer a memória da Revolução Francesa, a obra cresce da sátira para a imortalidade ao som do hino Do You Hear the People Sing? Os Miseráveis conquistou a generalidade do público e da crítica e impõe-se como um triunfo da ousadia, ou não fosse um musical operático - puro e duro como comecei por referir - com 158 minutos de duração, de ação imparável, a grande ritmo. Sem dúvida, um dos melhores filmes do ano e um dos melhores musicais de que há memória.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

PLANETA DOS MACACOS (2001)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
Título Original: Planet of the Apes
Realização: Tim Burton
Principais Actores: Mark Wahlberg, Tim Roth, Helena Bonham Carter, David Warner, Michael Clarke Duncan, Kris Kristofferson, Paul Giamatti, Estella Warren, Charlton Heston, Lisa Marie

Crítica:

O HOMEM QUE VEIO DO FUTURO

They all want to see this human who defies the apes.

Planeta dos Macacos recupera o imaginário do filme de 1968, protagonizado por Charlton Heston, que originou várias sequelas e que tem conquistado os mais acérrimos fãs ao longo das décadas. O lendário ator interpreta aqui o moribundo Zaius, que antes do último fôlego revela ao filho - o temível Thade de Tim Roth (a criação mais extraordinária de todas as caracterizações de Rick Baker e restante equipa) a profecia de Calima e as origens do seu povo. Planeta dos Macacos é, provavelmente, das mais interessantes propostas da ficção científica, pela visão e questões sociológicas que levanta. Afinal, inverte a condição humana e por meio dela a perspectiva das coisas: algures num futuro não tão distante quanto isso, um astronauta americano despenha-se num planeta incógnito, onde os mais variados símios são as espécies dominantes e mais evoluídas, no topo da cadeia e da lógica, e os humanos são a espécie primitiva que abunda pelas florestas, subjugada à escravidão brutal dos macacos. A reflexão impõe-se à medida que acompanhamos um grupo de humanos, feitos prisioneiros, e observamos as características culturais, sociais e religiosas dos mais poderosos. Aqui, somos os outros -  é impossível negar as semelhanças que temos com os nossos parentes evolutivos e perguntarmo-nos a nós próprios e se?

Lamentavelmente, a narrativa que Tim Burton encena não aprofunda o seu potencial, antes abandona-o em nome de uma versão juvenil e pouco dada a inquietações filosóficas, que se atropela de episódio em episódio sem maturar o essencial, ao som de uma banda sonora exagerada e usada em demasia. Há três personagens interessantes: a Ari de Helena Bonham Carter (irreconhecível como qualquer outro ator por detrás da excelência das próteses), defensora dos direitos dos animais; perdão, dos humanos (a questão é mesmo essa: até que ponto os animais têm alma e em que é que isso os diferencia) You kill him, and you'll only lower yourself to his level. (...) It's disgusting the way we treat humans. Pelo cómico de personagem, o Limbo de Paul Giamatti, caricatura dos mercenários. Pelo terror que cada olhar dos seus lança, o capitão chimpanzé de Tim Roth, confinado no entanto ao maniqueísmo. Três personagens limitadas, porque a história não lhes dá espaço para maior dimensão. Quanto ao protagonista, Mark Wahlberg é inexistente, predestinado a não transmitir coisa nenhuma, nem tão-pouco carisma. Não admira portanto que não sintamos a sua liderança na batalha, com que culmina a ação; uma resolução fácil e por demais óbvia do argumento, frustrando o desejo épico. De Tim Burton muito pouco... uns famigerados espantalhos, um céu com tons de negra fantasia e não mais que isso. Os cenários são de um trabalho criativo notável, embora nem sempre contribuam para a autenticidade da cultura e do planeta. O ambiente parece, por vezes, demasiado plástico; sobre essa séria ameaça triunfou a caracterização, como atrás referi. Que espanto! Parecem macacos reais, os sujeitados atores e figurantes, e como este fator seria determinante para o sucesso do filme.

O epílogo é qualquer coisa de insólito e inesperado,
em certa medida provocador e desconcertante, preparando uma sequela que não veio a acontecer. Mas enfim, não admira, o filme tenta ser tanta coisa e abraçar tantos géneros sem se preocupar em ser francamente bom em nenhum deles. Planeta dos Macacos de 2001 não teve provavelmente o realizador certo. Merecerá um remake ou uma revisita ao seu inesgotável e intemporal imaginário, à altura das suas imensas potencialidades.


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

ÁFRICA MINHA (1985)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Out of Africa
Realização: Sydney Pollack

Principais Actores: Meryl Streep, Robert Redford, Klaus Maria Brandauer, Michael Kitchen, Malick Bowens, Joseph Thiaka, Stephen Kinyanjui, Michael Gough, Suzanna Hamilton, Rachel Kempson, Graham Crowden

Crítica

UMA CANÇÃO DE ÁFRICA

I had a farm in Africa.


África Minha é um magnífico e apaixonante romance, épico no fôlego e na escala  da paisagem, deslumbrantemente captada pela câmera de David Watkin. Pela luz - ou antes, pelas mais variadas luzes do Quénia, que tanto variam consoante o instante do dia, quase que sentimos as diferenças da temperatura, o cheiro da terra, as texturas do verde e do castanho-avermelhado, o poder reinante e pulsante de toda aquela natureza selvagem, em estado puro. Recordar África Minha será sempre imaginar a majestade do amanhecer ou do entardecer, um comboio que rasga as imensas planícies verdejantes, a savana repleta de búfalos, de girafas, elefantes ou perigosos leões, pontuada por altas acácias e bandos de aves que rasgam os céus. Sydney Pollack, dotado de hábil mestria, invoca e perpetua a África do nosso imaginário coletivo, enquanto escutamos a sonante, nostálgica e inesquecível banda sonora de John Barry, plena de sentimento, que tanto glorifica o horizonte como anuncia a tragédia no paraíso.  

If I know a song of Africa, of the giraffe and the African new moon lying on her back, of the plows in the fields and the sweaty faces of the coffee pickers, does Africa know a song of me? Will the air over the plain quiver with a color that I have had on, or the children invent a game in which my name is, or the full moon throw a shadow over the gravel of the drive that was like me, or will the eagles of the Ngong Hills look out for me? 

Talvez por isso uma personagem - verídica - tão persistente e contundente como a dinamarquesa Karen Blixen se encontre a si própria na aventura distante, excitante embora solitária, em que se torna África. Afinal, revela-se uma mulher dotada de inigualável força telúrica, consciente dos seus valores, finalmente liberta dos constrangimentos sociais que a ameaçavam e que quase lhe toldavam espírito e a essência do seu ser. Se há tema maior em todo o filme é o da propriedade ou o da ilusão da propriedade. Karen - só uma atriz como Meryl Streep poderia dar vida a uma personagem tão rica e complexa como esta - casa-se por conveniência e por vontade própria com o irmão do amado não correspondido, seu amigo, com vista a obter o título de baronesa e assim poder partir à aventura, para dar sentido à vida. Ai dos nativos que lhe toquem nos bens, que lhe são tão queridos, que logo os enxotará tão espontaneamente como enxotará, mais tarde, os temidos leões; o que deliciará o desprendido Denys (Robert Redford), tão livre de espírito como de todas as coisas, pelo qual se apaixonará.

O conflito não provém, pois, do adultério da mulher que vive uma paixão proibida. O argumento resolve a questão com uma clareza notável: cruza-se o marido com Denys e transmite-lhe: You could have asked. Denys responde-lhe: I did. She said yes. Não, o marido nunca representou muito mais do que um amigo e do que um pretexto consentido por ambos. Está sempre ausente, desligado do negócio das plantações de café, entre caçadas e mulheres, as mesmas que lhe passam a mortal sífilis que acaba por transmitir a Karen, justificando assim o regresso da protagonista à Dinamarca, para a cura, sensivelmente a meio da trama. O conflito maior não nasce sequer do machismo e ao conservadorismo dos colonialistas, tão insensível e atroz para com os nativos, com os quais se esbate Karen, mal chega ao país e a Nairobi (cidade que a direção artística de Stephen Grimes recriou com a dedicação e o engenho dos técnicos locais, que nada deviam à engenharia). O conflito nasce mesmo dessa relação apaixonada porém contrastante entre a Karen, contadora de histórias, e o misterioso e fascinante Denys. Denys é tudo aquilo que Karen sempre quis ser - absolutamente livre - no entanto é incapaz de se adaptar a alguém como ela, mesmo amando-a, em nome de um ideal, de uma forma de vida inconstante mas tão prazerosa, solitária mas de todos e do mundo.

 I'm with you because I choose to be with you. I don't want to live someone else's idea of how to live. Don't ask me to do that. I don't want to find out one day that I'm at the end of someone else's life. 

É nisto que Karen e Denys não se entendem, se incompatibilizam, preferindo afastar-se um do outro. Karen sonha casar-se; não obstante I won't be closer to you and I won't love you  because of a piece of paper, diz-lhe ele. Ela sonha tê-lo por perto, mais por perto, que ele passe mais tempo com ela, mas só de pensar na ideia de se sentir preso - ou de sentir que pertence a algum lado ou a alguém - Denys já desespera pelo escape. Pena que quando se reencontram e finalmente reconhecem que não têm alternativa senão mudar-se a si próprios a bem da relação dos dois, que o destino seja tão severo e cruel. Nunca mais voarão, juntos, de encontro ao nevado Kilimanjaru, superando todas as fronteiras.

À medida que Karen nos lê as suas memórias e nos relata fervorosamente o seu passado, África Minha assume um indelével tom poético e emocional, de despedida. Partilhamos com ela, a partir das suas palavras, uma mágoa inexplicável, pelas coisas que ficaram por dizer ou fazer, porque não foi possível. Antes dos créditos finais, somos informados que a baronesa nunca mais voltou a África e isso entristece-nos, porque não a imaginamos mais longe da savana, do seu casarão e dos criados que ajudou a escolarizar. A dor de ter pedido Denys ecoou por toda a sua vida.

It's an odd feeling, farewell. There is such envy in it. Men go off to be tested, for courage. And if we're tested at all, it's for patience, for doing without, for how well we can endure loneliness. 


A influência literária da adaptação espelha-se claramente e de forma totalmente intrínseca na criação de Pollack e restante equipa; sobretudo no ritmo demorado, que priveligia o detalhe e o correr dos acontecimentos. Certamente que para os amantes do filme se trata de uma mais-valia, nunca um defeito, que respeita e autentifica a aventura original de Karen Blixen.

domingo, 17 de novembro de 2013

O ÚLTIMO AIRBENDER (2010)

PONTUAÇÃO: BOM
★★
Título Original: The Last Airbender
Realização: M. Night Shyamalan
Principais Actores: Noah Ringer, Dev Patel, Jackson Rathbone, Nicola Peltz, Shaun Toub, Aasif Mandvi, Cliff Curtis, Seychelle Gabriel, Katharine Houghton, Francis Guinan, Summer Bishil, Randall Duk Kim, John Noble

Crítica:

AVATAR:
O MESTRE DOS QUATRO ELEMENTOS

I knew you were real. I always knew you'd return.

Com O Último Airbender, M. Night Shyamalan não só continua como intensifica o seu odiado percurso em Hollywood. Não só porque se afasta, aqui numa clara clivagem, da senda dos seus argumentos inquietantes, labirínticos ou plenos de suspense... que marcam o seu prisma autoral. Afinal, seria sempre uma tarefa tamanha, compreendemos, recriar em real motion um universo tão característico e querido da animé como o de Avatar. Porém, na minha opinião, que mais uma vez contraria grande parte da crítica, Shyamalan supera-se com paixão e talento. O Último Airbender não cai no ridículo, o mundo das quatro nações edifica-se solidamente sobre a verosimilhança, mérito maior da direção artística e dos tremendos efeitos digitais. A excelência dessas categorias técnicas e da aliança com a fotografia de Andrew Lesnie (o mesmo d'O Senhor dos Anéis) confere inegáveis credibilidade e autenticidade à fantasia. A magia acontece no ecrã. O espetáculo visual impõe-se, por isso, maravilhoso e esmagador.

Pena que o filme não tenha maior duração (já para não falar de sequelas), para aprofundar as personagens e a história, maturar as cenas e os momentos narrativos. O filme peca essencialmente por isso. A edição faz um autêntico milagre com o tempo que lhe foi concedido, livrando-o do desastre, contando da melhor forma possível - relativamente simples até, servindo perfeitamente o público infantil - esta complexa história de mitos e culturas, guerra e espiritualidade, destino e humanidade. A escolha do elenco revela-se acertada: destaques para Noah Ringer como Aang (o por cem anos desaparecido Avatar, mestre dos quatro elementos), Dev Patel (filho rejeitado e príncipe do Fogo, dúbio na sua ação) ou Shaun Toub (o tio Iroh, conselheiro e protetor). Duas das personagens mais bem conseguidas - até pela sua natureza secundária e artificial - são, a meu ver, as criaturas Appa e Momo. Há inspirados movimentos de câmera, que acompanham a energia da ação ou os momentos mais intimistas, que nos emocionam. Para esse efeito contribui também uma das mais sonantes e grandiosas bandas sonoras de James Newton Howard, aqui e ali com toques de John Williams.

Enfim, O Último Airbender é um daqueles filmes que ganharia tanto com uma versão alongada. Cerca de 30 minutos do filme foram eliminados porque o estúdio pretendia convertê-lo em 3D tão rapidamente quanto possível. Alguns desses minutos de cenas cortadas, já revelados no DVD, não acrescentariam muito ao filme, é certo. Quanto ao material inédito, não posso comentar, resta ter esperança. O todo revelado é tão apaixonante que queríamos mais; os admiradores estão é condenados a rever o filme as vezes que quiserem, ao invés de esperarem pela continuação.

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Não me refiro à versão 3D porque não a vi nem a preciso ver; neste caso, como noutros, não passou de estratégia comercial, como sabemos. O filme nem sequer foi concebido para ser em 3D.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

HOMEM DE AÇO (2013)

PONTUAÇÃO: BOM
★★
Título Original: Man of Steel
Realização: Zack Snyder
Principais Actores: Henry Cavill, Russell Crowe, Michael Shannon, Amy Adams, Diane Lane, Ayelet Zurer, Harry Lennix, Kevin Costner, Christopher Meloni, Antje Traue, Laurence Fishburne, Richard Schiff

Crítica:

SUPER-HOMEM - A ORIGEM

You're the answer to are we alone in the universe?

Hollywood adora fogo e destruição e o aguardado reboot do super-herói mais poderoso de todos os tempos, pelas mãos de Znyder, ostenta destruição em massa. É violento, explosivo e brutal. A um ritmo tão alucinante quanto as lutas super-sónicas dos protagonistas, flui uma ação sem limites, de cortar a respiração - a montagem ultra-rápida pode dificultar a perceção, mas contribui decisivamente para o efeito -, atingindo-se as desejadas proporções épicas, as mesmas que a apoteótica e empolgante banda sonora de Hans Zimmer reclama a todo o instante.

Homem de Aço é um blockbuster sofisticadíssimo, o último grito dos efeitos especiais - a necessidade de responder ao hype era tremenda - e que convoca e perpetua as mais variadas referências do género: de Bay (Armageddon, Transformers) a Emmerich (Dia da Independência, Dia Depois de Amanhã), passando pela manga japonesa (a saga Dragon Ball, entre tantas outras) e por Matrix ou mesmo pelo Avatar de Cameron. Dos céus, Krypton não parece senão Pandora. Até a memória do 11 de Setembro assombra o filme; quem não revê a tragédia na facilidade com que se desmoronam arranha-ceús sobre um chão de poeira e escombros. You are not alone. A catástrofe é global, mas o centro da ação é a América, como sempre. A América da origem. A câmera de Znyder treme e oscila sobre o frenesim. Os zooms multiplicam-se. Tudo é espetáculo que o 3D amplia a uma escala que transcende e maravilha o espetador. Não todo o espetador, mas certamente o espetador deste tipo de ação.

Todos invejamos o Super-Homem, todos gostaríamos de ser o Super-Homem. Bonito e atraente, forte e todo-poderoso, capaz de voar os nossos maiores sonhos. Our hopes and dreams travel with you. Compreende-se o fascínio pela personagem. Ele é o escolhido, a última esperança de um povo ou de dois, de quem depende a derradeira salvação do mundo. Pobres Jor-El e Lara Lor-Van, condenados a um destino fatídico... o risco de trair a gestação controlada e artificial de Krypton e de entregar ou abandonar o filho, ainda bebé, ao desconhecido, à imensidão do espaço. O prólogo, que abre a ficção científica, apresenta-nos essas magníficas escolhas de casting que foram Russell Crowe e Ayelet Zure, como pais de Kal. A dor da perda espelha-se intensamente nos olhos da atriz e, às tantas, também nos do ator.

Lara Lor-Van: He will be an outcast. They'll kill him.
Jor-El: How? He'll be a god to them.

Mais tarde conhecemos os desempenhos de Kevin Costner e Diane Lane, como pais adotivos, que asseguram o estrelato e o talento do elenco secundário na Terra, ao longo da educação do jovem. Não deixa de ser curiosa e absolutamente eficaz a estratégia de contar o crescimento de Kal, Clark, através de flashbacks, aprofundando a força dramática da história pelo lado mais intimista da personagem, sem jamais descurar o ritmo da ação principal, mais direcionada para o confronto. É um contraponto necessário que sedimenta a estrutura da obra e a impulsiona, permitindo escapar ao vazio emocional pelo qual pecam muitos semelhantes. Afinal, é por meio dos recuos que sabemos o quão diferente e estranho se sentiu Clark ao longo dos anos, tantas vezes desconfortável com a sua natureza extra-terrestre, com os seus poderes, sobrenaturais para o comum dos seus pares. As dificuldades da adaptação, a crise de identidade, o dilema moral: o poder da escolha entre fazer o bem ou o mal. Nesse aspeto os pais adotivos foram preponderantes, nomeadamente o pai:

Jonathan Kent: You just have to decide what kind of a man you want to grow up to be, Clark; because whoever that man is, good character or bad, he's... He's gonna change the world.

É essa a educação que fará frente, mais tarde, à amoralidade de um General Zod (Michael Shannon, dotado de frieza e atroz tenacidade), que insistirá no genocídio cruel e irrefletido e na terraformação egoísta. A respeito do tom, note-se que o mesmo é dramático do princípio ao fim, pontualmente humorado por breves comic-reliefs que jamais caem na comédia corriqueira. Amy Adams não sobressai especialmente (talvez se exija mais dela em futuras continuações), mas creio que Henry Cavill cumpre com competência este Super-Homem mais humano e moderno, com tantas fraquezas e dúvidas existenciais, provavelmente mais sensual do que nunca.

A história não é nova, somente a roupagem. Mas é bastante eficaz. O mito continua vivo.


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

GANDHI (1982)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★
Título Original: Gandhi
Realização: Richard Attenborough
Principais Actores: Ben Kingsley, Candice Bergen, Edward Fox, John Gielgud, Trevor Howard, John Mills, Martin Sheen, Ian Charleson, Athol Fugard, Günther Maria Halmer, Saeed Jaffrey, Geraldine James, Alyque Padamsee, Amrish Puri

Crítica:

SATYAGRAHA:
O CAMINHO DA VERDADE

We must remove untouchability from our hearts and from our lives.

Gandhi
celebra, sobre todas as coisas, a humanidade. A partir da biografia de uma das mais inspiradoras e marcantes personalidades do século XX - diria mesmo de todos os tempos - a de Mahatma (do sânscrito A Grande Alma) Gandhi, concretiza-se a visão épica e a arrebatadora de um cineasta na homenagem maior ao pacifista. Raras são as vezes em que se dá - tão triunfalmente - o casamento entre arte e biopic ou entre arte e História. A escala (por vezes, romântica), combinada com o profundo humanismo, lembra-nos os absolutos de David Lean. Mas a preocupação com o retrato - às vezes cruelmente realista - jamais abandona os intuitos da produção.

Com vinte e poucos anos, recém-formado em direito mas idealista por convicção, Gandhi atravessa a África do Sul e sente na pele a discriminação racial. A humilhante expulsão de um comboio por ser indiano e circular em primeira classe é o ponto de partida do argumento para o despertar da sua consciência social... Cristãos, hindus ou muçulmanos, todos são iguais perante Deus, acredita. A sua luta pela igualdade começa aí, frontalmente, activamente, custe-lhe isso o que custar. A sua irreverência e impertinência começa a inquietar as autoridades, que desde cedo o castigam. Da sua atitude revolucionária, todavia, não advém a mera rebeldia, antes a coragem para fazer o que está certo. O seu nome invade a imprensa. Líder da palavra, pela palavra, pela paz e pela não-violência, a sua luta mostra-se um caminho longo e árduo, mas de plena consciência. Ben Kingsley desempenha o papel de uma vida, dando corpo e alma à personagem. O poder da sua performance reside num olhar, no humilde tom de um discurso ou na sua desarmante expressão corporal. Por mais espectacular que o filme seja, é na simplicidade da interpretação de Kingsley que o filme atinge a sua verdadeira grandeza e, qual Gandhi, conquista a universalidade e a intemporalidade.

Where there's injustice, I always believed in fighting. The question is, do you fight to change things or to punish? For myself, I've found we're all such sinners, we should leave punishment to God. And if we really want to change things, there are better things than derailing trains or slashing someone with a sword.

Regressado à Índia, na altura sobre domínio do Império Britânico, Gandhi abraça desígnios maiores. A missão: a luta de milhões de indianos pela independência. A sua arma, manter-se-á sempre a mesma: a fé e a palavra.

They may torture my body, break my bones, even kill me, then they will have my dead body. Not my obedience!
(...)
Because 100,000 Englishmen simply cannot control 350 million Indians, if those Indians refuse to cooperate.

O filme enche-se de grandes paisagens, de grandes cenários, de grandes multidões. A fotografia capta a pluralidade cultural, as particularidades e as diferenças, as simetrias e assimetrias de uma identidade. No extraordinário trabalho de fotografia, uma paleta de tons quentes, que pactuam com a densidade e intensidade dramática. A cena do massacre de Amristar é assustadoramente impressionante (para além de extremamente bem filmada). A exótica banda sonora de Ravi Shankar emana um indefinível esplendor místico. O vasto elenco, magistralmente dirigido por Attenborough (também ele actor) compõe um quadro de excelência. Depois há Kingsley e a aura eterna de Gandhi: do retiro espiritual à meditação, das palestras aos protestos e às marchas pelo país, das sucessivas prisões às greves de fome... custa a acreditar que tenha existido um homem assim, que tenha vivido a sua própria mensagem e filosofia, que tenha alcançado os feitos que alcançou da forma como os alcançou. Generations to come will scarce believe that such a one as this ever in flesh and blood walked upon this earth, disse Albert Einstein. Gandhi é um exemplo máximo, um ícone incontornável, com o qual temos todos muito a aprender. É, em toda a sua essência, absolutamente fascinante. Consegue a liberdade e a independência, por fim, mobilizando toda uma nação.

Vince Walker: You're an ambitious man, Mr. Gandhi.
Gandhi: I hope not.

A obra tem uma longa duração, mas nenhum minuto é em vão. Desde o deslumbrante plano de abertura ao mais trágico desfecho, são pouco mais de três horas de um filme verdadeiramente emocionante e derradeiramente inesquecível.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

LAWRENCE DA ARÁBIA (1962)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★
Título Original: Lawrence of Arabia
Realização: David Lean
Principais Actores: Peter O'Toole, Omar Sharif, Alec Guinness, Anthony Quinn, Jack Hawkins, José Ferrer, Anthony Quayle, Claude Rains

Crítica:

UM OÁSIS NO DESERTO

- What attracts you personally to the desert?
- It's clean.

Lawrence da Arábia é um feito extraordinário, glorioso e monumental. Por meio de uma poderosíssima narrativa visual e de uma cadência natural para o espectáculo, David Lean presenteia-nos com uma obra essencial, capaz de nos transportar para o fulgor das batalhas, para o suor das travessias e para a escaldante aragem que se faz sentir entre dunas e rochedos, na imponência e majestade do deserto. Uma obra com um argumento recheado de frases memoráveis e que viria a marcar para sempre todo o cânone épico.

There is the railway. And that is the desert. From here until we reach the other side, no water but what we carry with us. For the camels, no water at all. If the camels die, we die. And in twenty days they will start to die.

Do Cairo à conquista de Aqaba, da reunificação das fracções árabes ao confronto maior contra os turcos, da tortura de Deraa ao massacre de Tafas, da crise identitária de um homem à estratégias políticas de vários povos em conflito... o filme adapta a autobiografia Sete Pilares da Sabedoria, de T.E. Lawrence - a poet, a scholar and a mighty warrior (...) also the most shameless exhibitionist since Barnum & Bailey - um excêntrico e erudito oficial inglês que provocaria o exército real no sentido de se libertar daquele escrupuloso modo de vida e que se desafiaria a si próprio numa árdua e ambiciosa odisseia pela liberdade e pela afirmação da cultura árabe.

So long as the Arabs fight tribe against tribe, so long will they be a little people, a silly people - greedy, barbarous, and cruel, as you are.

No Arab loves the desert. We love water and green trees. There is nothing in the desert and no man needs nothing.

Peter O'Tolle é simplesmente magnífico enquanto T.E. Lawrence - sempre dotado de um portentoso charme e elegância, sublime nos trejeitos e subtilezas intrínsecas ao carácter da figura histórica. E se há coisa em que o argumento (Robert Bold e Michael Wilson) é exímio é na construção da personagem de O'Toole, onde tanto se revela na riqueza das entrelinhas e dos pequenos pormenores. É uma personagem com um sentido de humor notável e com uma inteligência muito perspicaz:

A thousand Arabs means a thousand knives, delivered anywhere day or night. It means a thousand camels. That means a thousand packs of high explosives and a thousand crack rifles. We can cross Arabia while Johnny Turk is still turning round, and smash his railways. And while he's mending them, I'll smash them somewhere else. In thirteen weeks, I can have Arabia in chaos.

Mas há outros desempenhos inesquecíveis, neste elenco de homens: Alec Guiness (o príncipe Feisal) e Omar Sharif (xerife Ali) são os principais destaques.

Young men make wars, and the virtues of war are the virtues of young men: courage, and hope for the future. Then old men make the peace, and the vices of peace are the vices of old men: mistrust and caution.

Há, depois, dois departamentos fundamentais e decisivos para a grandiosidade da obra. Refiro-me, inequivocamente, à fotografia de Freddie Young (um trabalho do mais alto nível, absolutamente espantoso, impressionante e hipnotizante: veja-se a beleza de planos e enquadramentos, o assombro de paisagens e fenómenos naturais) e também à banda sonora de Maurice Jarre (de uma gradiloquência barroca). Mas o filme revela-se ainda irrepreensível a tantos outros níveis: na encenação e direcção de actores, de extras e de animais, nos cenários e na decoração, no guarda-roupa e acessórios, no som... Enfim, o arrojo de toda produção é assaz notável.

Clássico? Com certeza. Um gigantesco clássico, este brilhante e corajoso devaneio de Hollywood.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

IMORTAIS (2011)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
Título Original: Immortals
Realização: Tarsem Singh
Principais Actores: Henry Cavill, Mickey Rourke, Stephen Dorff, Freida Pinto, Luke Evans, John Hurt, Joseph Morgan, Isabel Lucas

Crítica:


OS DEUSES E OS HOMENS

Fight! For immortality!


Para os admiradores maiores da mitologia clássica, Imortais soar-lhes-ia, logo à partida, como uma proposta irresistível e absolutamente irrecusável. Não morre, afinal, a esperança de encontrar no cinema uma adaptação à altura do nosso fascínio pela cultura grega. O trailer, contudo – e sejamos francos - já nos fazia temer um produto com pouco mais interesse do que o meramente comercial, apesar da promessa de prodígio visual. Na verdade, aquilo que temos em Imortais é um épico gorado, tremendamente eloquente na sua retórica inócua, profundamente ridículo para os puristas que esperariam o impossível da reconstituição histórica, com base num mito amplamente cultuado através dos séculos, mas aqui um tanto ou quanto desvirtuado em prol de um filme para adolescentes, assente no maniqueísmo das suas personagens e no facilitismo dos seus processos narrativos. Imortais é, sobre todas as coisas, espectáculo. Espectáculo que se quer rentável. Os deuses da indústria pouco se interessam, ao que parece, com a memória dos Homens.

Depois da obra-prima visual que é The Fall – Um Sonho Encantado, num circuito mais independente, Tarsem abraça finalmente o cinema de massas. Já em 2000 havia dado que falar com o seu filme de estreia, protagonizado por Jennifer Lopez, A Cela, onde cruzou, pela primeira vez, o thriller policial centrado num bizarro psicopata – muito ao género de Silêncio dos Inocentes e de Sete Pecados Mortais – com o seu universo perfeccionista, fantasioso e surreal, onde o esplendor visual atinge o mais elevado requinte. Imortais dá continuidade a essa estética, entregando-se finalmente às infinitas potencialidades do digital. Neste campo, Imortais é deslumbrante. Quem nos dera experienciar pessoalmente aquelas visões do Olimpo. O detalhado e assombroso trabalho de guarda-roupa, por fim, completa o raro vislumbre que o filme constitui e, por isso, merece todo o reconhecimento. Emanuel Levy diz que Tarsem Singh is a gifted, eccentric visual artist but he is certainly not a storyteller (Cf. http://www.emanuellevy.com/review/immortals/). Conclusão compreensível, se só tivermos visto este seu titânico filme.

Dos mesmos produtores de 300, o filme partilha várias características que aproximam ambos os filmes: a proeminência dos efeitos digitais na construção dos cenários e no acabamento da fotografia (contribuindo para uma maior similitude com os jogos de computador), a exploração da violência e da brutalidade como recurso estilístico, em sequências de acção plenas de sangue e testosterona, as impressionantes (e muitas vezes excelentes, inclusive) coreografias de lutas (onde o slow motion se impõe como um verdadeiro trunfo), a pouca profundidade e desenvoltura das personagens e a fraca articulação dos episódios, tendo como compensação um excesso de movimentos de câmara, a utilização abusiva dos efeitos sonoros (um pouco como nos filmes de terror, aos quais recorrem para prender desesperadamente o espectador) ou uma operática banda sonora (nada de novo, somente a cópia da cópia, da etc., do original). Henry Cavill e Freida Pinto, emanando sensualidade e erotismo, são, independentemente das suas qualidades como actores, criaturas por demais abençoadas pelos deuses, tão belos e perfeitinhos em cada uma das curvas dos seus corpos. Particularmente na cena do discurso para a multidão (lugar-comum incontornável, no qual Teseu (Cavill) incita os soldados para a guerra) é notável a inconsistência na construção da personagem: até ali jamais demonstrara possuir o dom da palavra e de, um momento para o outro, assume-se como um herói fluente. Somente Mickey Rourke, Stephen Dorff e Joseph Morgan (escusado será referir John Hurt) nos lembram, de tempos a tempos embora aprisionados nas limitações dos seus papéis, que existem actores nesta produção; sabem, daqueles que representam. Em ambos os filmes, o físico dos protagonistas é cuidado e determinante; todavia, com um look actual em demasia para um filme que, por mais fantástico que seja, almeja a viagem no tempo, de regresso a tempos idos. . Ecoam ainda as influências de megalomanias recentes, como Tróia, Alexandre, o Grande ou Confronto de Titãs, que Tarsem luta por superar em escala e grandeza. Para isso, nada como expandir exércitos e paisagens e edificar mais uns metros de muro.

Não partilhando de especial entusiasmo pelo 3D, há que salientar a notória evolução da tecnologia, cada vez mais funcional, alcançando o seu propósito original, muito embora a sua utilidade se resuma a isso: possibilitar que o espectador entre no mundo do filme, tela adentro.

No seu todo, eis uma embalagem por demais sugestiva e atractiva para o público jovem, que encontra nestes escapes lúdicos as mais memoráveis (ainda que por pouco tempo) experiências cinematográficas. Para o público que dispensa entretenimento espalhafatoso e que está mais habituado a obras sublimes – entre os quais também existem jovens, outros jovens - o filme tornar-se-á num bocejo tão encantador quanto entediante. A concretização de uma epopeia em filme, baseada na mitologia clássica, fica para outro dia. Quanto a Tarsem, esperemos que ganhe a credibilidade suficiente junto dos grandes estúdios (que sabemos ser fundamental, em Hollywood) para voltar às grandes obras de arte, daquelas verdadeiramente imortais; talento e visão não lhe faltam e isso já deixou mais do que comprovado. Não sei é se será para já. Que é como quem diz, com Mirror, Mirror… O trailer já circula por aí – e sejamos francos – não nos incentiva por aí além.


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Originalmente publicada na edição 28 da revista Take.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

1492: CRISTÓVÃO COLOMBO (1992)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: 1492: Conquest of Paradise
Realização: Ridley Scott
Principais Actores: Gérard Depardieu, Armand Assante, Sigourney Weaver, Loren Dean, Ángela Molina, Fernando Rey, Michael Wincott, Tchéky Karyo, Kevin Dunn, Frank Langella, Mark Margolis, Kario Salem
Crítica:

A CONQUISTA DO PARAÍSO

Paradise and hell both can be earthly.

Em 1992, também Hollywood comemorou os 500 anos da descoberta da América. Num ambicioso e impressionante trabalho de reconstituição histórica, possibilitou-se a viagem no tempo e a homenagem. 1492: Cristóvão Colombo, contudo, passou ao largo das expectativas de meio mundo, que aguardava por mais um filme de acção e aventuras. Em vez disso, Ridley Scott concretizou uma epopeia: hipnotizante, espectacular e arrebatadoramente bela. E como nas clássicas epopeias, recai o protagonismo sobre a voz do poeta: chegando a atingir uma dimensão mística e espiritual, tanto por meio da deslumbrante poesia das imagens como por meio da gloriosa e arrepiante banda sonora de Vangelis, a arte da filmagem revela-se absolutamente magistral em toda a sua técnica, elegância e apurada sensibilidade, num tom marcadamente contemplativo e elegíaco. A realização e a visão únicas do cineasta, quais decisões de montagem, mostram-se imperiais para a essência narrativa do filme, muito mais do que o argumento em si ou do que as performances dos actores. É essa a verdadeira e incompreendida natureza do filme, que se prende, é certo, a fortes compromissos de ordem histórica, mas que pela arte imortaliza toda a humanidade, em todos os seus defeitos e virtudes.

Qualquer filme de Ridley Scott é sempre um assombro visual e 1492 não é excepção. Cada frame é minuciosamente planeado, desde a escolha dos exteriores à construção dos cenários, à riqueza da decoração e à pintura e iluminação do quadro. O perfeccionismo e a sofisticação alastram-se ao guarda-roupa, aos acessórios e aos demais valores de produção. Sobre o ceú vermelho do entardecer, içam-se as velas para ocidente. A partida da expedição do Porto de Palos, enaltecido por cânticos graves e sonantes, consititui um momento extraordinariamente poderoso. Após meses de viagem, desfaz-se a névoa e o mistério. Olhares de espanto e regozijo acolhem o mítico Éden das escrituras, de vegetação abundante... em solene slow motion, passo por passo, Colombo pisa o solo virgem das índias ocidentais e ajoelha-se perante o extenso e sonhado areal. Que cena memorável. A atmosfera do Novo Mundo, em toda a sua variedade de cores e sons, maravilha-nos e invade-nos o inconsciente. A influência de obras como Aguirre, O Aventureiro de Herzog ou A Missão de Joffé é, a meu ver, notória.

Perante a pureza da América selvagem, evidencia-se o contraste com a corte espanhola; plena de inveja e intriga, hipocrisia e sede de poder. Longe da civilização e de um Deus inquisidor, o divino em cada folha, em cada árvore, em cada pedra. O Deus na Natureza, a religião nativa. Corrompidos, esses sim, os exploradores da fé perdida condenam o paraíso à má-aventurança e à destruição. Nas poucas cenas de acção, suscitadas pelo motim de Adrián Moxica, a brutalidade e o pior do ser humano. Pelas acções do navegador Cristóvão (Gérard Depardieu, num underacting desarmante), o conhecimento, o respeito e a não-violência. O inconformismo, o empreendorismo, a necessidade de calar as teorias vãs e de comprovar que a terra é redonda e não plana como uma mesa. O desejo da evolução, do progresso das ideias e das mentalidades. Riches don't make a man rich, they only make him busier. Porque seriam impossíveis novas descobertas? Também a conquista de Granada aos mouros se dizia impossível, lembra Colombo à rainha, em vésperas da benção da missão.

Nothing that results from human progress is achieved with unanimous consent. And those who are enlightened before the others are condemned to persue that light in spite of others.

Um triunfo magnífico.

CINEROAD ©2020 de Roberto Simões