Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010

CRÍTICAS
Por ordem alfabética, numérica ou sequencial:

- Nº -

2 Dias em Paris

8 1/2

12 Macacos

21 Gramas

24 Hour Party People

101 Dálmatas

1492: Cristóvão Colombo

2001: Odisseia no Espaço

2046

- A -

A Caminho de Idaho

Aconteceu no Oeste

Acontecimento, O

África Minha

Aguenta-te, Canalha

Aguirre, O Aventureiro

A.I. - Inteligência Artificial

Aladdin

A Leste do Paraíso

Alexandre, O Grande

All That Jazz - O Espectáculo Vai Começar

Amadeus

Amarcord

Amor Cão

Amores de Astrea e de Celadon, Os

Andrei Rubliov

Annie Hall

Anticristo

Apocalypse Now

Apocalypto

À Procura da Terra do Nunca

Arca Russa, A

Aristogatos, Os

Armageddon

Árvore da Vida, A

Asas do Desejo, As

Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford, O

August Rush - O Som do Coração

Austrália

Avatar

Aventuras de Peter Pan, As

Aviador, O

- B -

Babel

Bambi

Bando à Parte

Barreira Invisível, A

Barry Lyndon

Bela Adormecida, A

Bela e o Monstro, A

Beleza Americana

Ben-Hur

Blade Runner - Perigo Iminente

Boogie Nights - Jogos de Prazer

Bom, O Mau e O Vilão, O

Bom Rebelde, O

Branca de Neve e os Sete Anões

Braveheart - O Desafio do Guerreiro

Brincadeiras Perigosas (1997)

Brincadeiras Perigosas (2007)

Brisa de Mudança

Brown Bunny, The

Bruscamente no Verão Passado

- C -

Cabo do Medo, O

Caminho Para Perdição

Canções de Amor, As

Caravaggio

Cartas de Iwo Jima

Carteirista, O

Casablanca

Castelo Andante, O

Castelo no Céu, O

Cavaleiro das Trevas, O

Cavaleiros, Os

Cela, A

Cercados

Chicago

Chinatown

Cidade de Deus

Cinderella Man

Cinema Paraíso

Cinzas do Tempo, As

Cisne Negro

Cleópatra (1934)

Cleópatra (1963)

Climas

Clube de Combate

Código Desconhecido

Cold Mountain

Colisão

Condenados de Shawshank, Os

Confissões de Schmidt, As

Contos da Lua Vaga, Os

Control

Corações

Corcunda de Notre Dame, O

Coristas, Os

Crepúsculo dos Deuses, O

Criança, A

- D -

Danças com Lobos

Dancer in the Dark

Darjeeling Limited

Dark City - Cidade Misteriosa

Delicatessen

Departed - Entre Inimigos, The

Desaparecida, A

Desencontros

Despertar da Mente, O

Dez Mandamentos, Os

Diamante de Sangue

Diários de Che Guevara

Dias do Paraíso

Disponível Para Amar

Doce Vida, A

Dogville

Dois Homens e Um Destino

Donnie Darko

Dr. Estranho Amor

Doutor Jivago

- E -

Eduardo Mãos de Tesoura

El Dorado

Elephant

Elizabeth

Elizabeth - A Idade de Ouro

Embriagado de Amor

Em Carne Viva

Encontro

Era Uma Vez na América

Escafandro e a Borboleta, O

Espelho, O

Este País Não É Para Velhos

Estrada, A

Estranho Caso de Benjamin Button, O

Estranho Mundo de Jack, O

E Tudo o Vento Levou

Eu, Robot

Europa

Eu Vos Saúdo, Maria

Eva

Expiação

Eyes Wide Shut - De Olhos Bem Fechados

- F -

Fabuloso Destino de Amélie, O

Fala Com Ela

Fantasma da Ópera, O

Fantástico Senhor Raposo, O

Febre Tropical

Feiticeiro de Oz, O

Felizes Juntos

Férias do Sr. Hulot, As

Fiel Jardineiro, O

Filadélfia

Filhos do Homem, Os

Fome

Forrest Gump

Forte Apache

Fountain - O Último Capítulo, The

Frida

Fúria de Viver

- G -

Gallipoli

Gangs de Nova Iorque

Gato Preto, Gato Branco

Gattaca

Gerry

Gigante

Gladiador

Grande Esperança, A

Gran Torino

Guerra dos Mundos

- H -

Harry Potter e A Pedra Filosofal

Harry Potter e a Câmara dos Segredos

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

Harry Potter e O Cálice de Fogo

Harry Potter e a Ordem de Fénix

Haverá Sangue

Herói

História de Violência, Uma

Homem da Câmera de Filmar, O

Homem da Máscara de Ferro, O

Homem Elefante, O

Homem Morto

Homem na Lua

Homem Que Matou Liberty Valance, O

Homem Singular, Um

Horas, As

Horizontes de Glória

- I -

I Am Sam - A Força do Amor

Idade da Inocência, A

I'm Not There - Não Estou Aí

Imortais

Imperdoável

Império do Sol

Inadaptado

Infância de Ivan, A

Intérprete, A

Intervenção Divina

Irmão, Onde Estás?

Irreversível

- J -

Juno

- K -

Kagemusha - A Sombra do Guerreiro

Kiki, A Aprendiz de Feiticeira

Kill Bill - A Vingança

King Kong

Kundun

- L -

Labirinto do Fauno, O

Laço Branco, O

Lado Selvagem, O

Ladrões de Bicicletas

Laranja Mecânica

Last Days - Últimos Dias

Lawrence da Arábia

Lei do Desejo, A

Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, A

Libertino, O

Lista de Schindler, A

Livro da Selva, O

Longe do Paraíso

Longo Domingo de Noivado, Um

Lost in Translation - O Amor É Um Lugar Estranho

Lugar À Beira-Mar, Um

Luzes da Cidade

- M -

Má Educação

Magnolia

Mala Noche

Maldição da Flor Dourada, A

Máquina Zero

Maquinista, O

Mary Poppins

Master & Commander - O Lado Longínquo do Mundo

Match Point

Matrix

Meia-Noite em Paris

Memento

Mente Brilhante, Uma

Método Perigoso, Um

Metropolis

Meu Tio, O

Meu Vizinho Totoro, O

Milk

Million Dollar Baby - Sonhos Vencidos

Minnie and Moskowitz - Tempo de Amar

Missão, A

Mosca, A

Moulin Rouge!

Mulan

Mulheres À Beira de Um Ataque de Nervos

Mulholland Drive

Mundo a Seus Pés, O

Munique

Mystic River

- N -

Na América

Nascido Para Matar

Náufrago, O

Nausicaä do Vale do Vento

Negros Hábitos

New York, New York

Noivos Sangrentos

Novo Mundo, O

- O -

Oldboy - Velho Amigo

Oliver Twist

Orfanato, O

Orgulho e Preconceito

Origem, A

Outra Margem, A

Outros, Os

- P -

Paciente Inglês, O

Padrinho,O

Padrinho - Parte II, O

Padrinho - Parte III, O

Pai Foi em Viagem de Negócios, O

Paixão de Cristo, A

Paixão de Shakespeare, A

Paranoid Park

Pearl Harbor

Pecados Íntimos

Pequena Sereia, A

Perfume - História de Um Assassino, O

Pianista, A

Pianista, O

Piano, O

Pinóquio

Piratas das Caraíbas - O Cofre do Homem Morto

Piratas das Caraíbas - Nos Confins do Mundo

Platoon - Os Bravos do Pelotão

PlayTime - Vida Moderna

Pocahontas

Polar Express

Pontes de Madison County, As

Ponyo à Beira-Mar

Por Mais Alguns Dólares

Porta no Chão, A

Por um Fio

Por Um Punhado de Dólares

Praia, A

Praias de Agnès, As

Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera

Princesa Mononoke

Príncipe do Egipto, O

Promessas Perigosas

Proof - Entre o Génio e a Loucura

Protegido, O

Psico

Pulp Fiction

- Q -

Quadrilha Selvagem, A

Quatrocentos Golpes, Os

Quatro Penas Brancas, As

Queda do Império Romano, A

Queda - Hitler e o Fim do Terceiro Reich, A

Quem Quer Ser Bilionário?

Quem Tramou Roger Rabbit?

- R -

Rainha, A

Ran - Os Senhores da Guerra

Rapaz do Pijama às Riscas, O

Rashômon - Às Portas do Inferno

Rede Social, A

Rei Leão, O

Reino dos Céus

Relatório Kinsey

Relatório Minoritário

Resgate do Soldado Ryan, O

Revolutionary Road

Rio Bravo

Rio Lobo

Robin Hood

- S -

Sacanas Sem Lei

Segredo de Brokeback Mountain, O

Segredo dos Punhais Voadores, O

Senhora da Água, A

Senhor dos Anéis, O (2001, 2002, 2003)

Sensibilidade e Bom Senso

Serenata à Chuva

Sete Pecados Mortais

Sétimo Selo, O

Sexto Sentido, O

Shine - Simplesmente Genial

Shining

Shutter Island

Silêncio dos Inocentes, O

Sinais

Sin City - A Cidade do Pecado

Slipstream - A Vida Como Um Filme

Solaris

Sonhadores, Os

Sonho Encantado, Um

Spartacus

Spider

Stalker

Star Wars I - A Ameaça Fantasma

Star Wars II - O Ataque dos Clones

Star Wars III - A Vingança dos Sith

Star Wars IV - Uma Nova Esperança

Star Wars V - O Império Contra-Ataca

Star Wars VI - O Regresso de Jedi

Sweeney Todd - O Terrível Barbeiro de Fleet Street

- T -

Tarzan

Taxi Driver

Tempo que Resta, O

Tenenbaums - Uma Comédia Genial, Os

Terceiro Passo, O

Terra da Abundância

Tigre e o Dragão, O

Titanic

Touro Enraivecido

Traffic - Ninguém Sai Ileso

Trainspotting

Troca, A

Truman Show - A Vida em Directo, The

Tudo Bons Rapazes

Tudo Sobre a Minha Mãe

- U -

Última Hora, A

Última Tentação de Cristo, A

Último Imperador, O

Último Samurai, O

Último Tango em Paris, O

Umberto D.

- V -

Vale Era Verde, O

Valmont

Velvet Goldmine

Viagem de Chihiro, A

Vida de Brian, A

Vida É Bela, A

Vida É Um Milagre, A

Vida Não É Um Sonho, A

Vila, A

Vinhas da Ira, As

Visitante, O

Voando Sobre Um Ninho de Cucos

Volver - Voltar

- W -

Wrestler, O

- Z -

Zatoichi
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Quarta-feira, 27 de Outubro de 2010

26 Nov | AVATAR - Ultimate Edition

Lançamento previsto para 26 de Novembro.
Crítica em breve no CINEROAD.

Já à venda | A BELA E O MONSTRO

Um Clássico Disney essencial.
Crítica em breve no CINEROAD.

Domingo, 24 de Outubro de 2010

Quarta-feira, 20 de Outubro de 2010

O HOMEM ELEFANTE (1980)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
*****
Título Original: The Elephant Man
Realização: David Lynch
Principais Actores: Anthony Hopkins, John Hurt, Anne Bancroft, John Gielgud, Wendy Hiller, Freddie Jones

Crítica:

OS MONSTROS

Never. Oh, never. Nothing will die.
The stream flows, the wind blows, the cloud fleets, the heart beats.
Nothing will die.


Londres do século XIX: a cidade noturna, os fumos e os ruídos. Uma civilização industrializada, iluminada pelas invenções e pelo progresso. Uma civilização cruel, ofuscada pela insensibilidade e pela desumanidade. No circo, lado a lado com os animais, os monstros: os anões, os gigantes e os deficientes, as aberrações da natureza. Apresentado a sua extraordinária atracção à multidão, Bytes (Freddie Jones) proclama:

Life!... is full of surprises. Consider the fate of this creature's poor mother, struck down in the fourth month of her maternal condition by an elephant, a wild elephant. Struck down!... on an uncharted African isle. The result is plain to see... Ladies and gentlemen... The terrible... Elephant... Man...


Já as imagens de abertura do filme - prodigiosamente montadas por Anne V. Coates e perfeitamente aliadas à inquietante composição de John Morris - davam conta desta bizarra e insólita historieta fabricada, num tom surreal e perturbador. Alimentar o show-off e o espectáculo, horrorizar a plateia, rentabilizar a atracção e potenciar o maior lucro possível... só o dinheiro move Bytes, aproveitando-se da ignorância e do preconceito da gente, amedrontada pela diferença. People are frightened by what they don't understand.

O que está encoberto atrás da cortina, na sombra? Lynch adia a resposta, aumentando o suspense, progressivamente. Só mais tarde, quando o Dr. Frederick Treves (Anthony Hopkins, brilhante no underacting) resgata o freak para o hospital onde trabalha e lhe retira o pano, é que nos deparamos com o choque: a criatura é humana, de nome John Merrick (John Hurt) e ostenta um rosto de aspecto monstruoso e repulsivo, à primeira vista assustador, gravemente deformado e atrofiado por tumores subcutâneos. Uma doença rara, a Síndrome de Proteus (só em 1996 oficialmente diagnosticada e a partir de exames ao esqueleto do verdadeiro John Merrick) que condenou aquela inocente existência ao submundo, à humilhação e à degradação interior, à infinita dor de não ser nem aceite nem amado.

Dr. Fox: Have you ever mentioned his mental state?
Dr. Frederick Treves: Oh, he's an imbecile, probably from birth. Man's a complete idiot... Pray to God he's an idiot.

Não há imbecilidade, contudo, naquela pobre alma amaldiçoada. Apenas medo. John Merrick fala, tem consciência, tem moral, tem memória, sabe ler. Sabe de cor passagens inteiras dos evangelhos. É um homem civilizado, mas rejeitado. O storytelling desenvolve-se com aparente simplicidade narrativa, mas fá-lo de forma sólida e delicada, tocante e comovente. Aquilo que o Dr. Frederick lhe dá, a Merrick, é uma oportunidade para ser um homem - com dignidade. É uma possibilidade de se reencontrar a si próprio, de construir uma catedral interior de fé e confiança no mundo. Ou, pelo menos, em parte dele.

Apesar de tudo, as atracções jamais deixaram de estar centradas nele. Sem querer, Frederik tirou-lhe os holofotes do circo mas catapultou-o para os jornais. Am I a good man? Or a bad man? A emocionante história do Homem Elefante vira um fenómeno mediático e sobre ele recaem dezenas de olhares maldosos, sedentos de escárnio e maldizer. Quando John Merrick é raptado e novamente lançado para trás das grades do circo, a esperança esvai-se. A fotografia (Freddie Francis) cria uma atmosfera sinistra e asfixiante. Afinal, quem são os monstros?

I am not an elephant! I am not an animal!
I am a human being! I am a man!

Que revoltante.

David Lynch concretiza uma obra magistral, plena de humanismo. Um clássico absoluto e em tudo memorável.

Terça-feira, 19 de Outubro de 2010

Breves notas sobre ALEXANDER REVISITED

Oliver Stone, 2007

Pontos negativos:

- Mais do que nunca, aquela primeira narração de Ptolomeu (Anthony Hopkins) surge forçada entre os descontrolados avanços e recuos da narrativa.
- Chega-se a Gaugamela sem um background emocional que sustente a narrativa. Desconhecem-se as razões e os motivos do herói. Desvirtua-se Gaugamela, agora entre o caos da acção/confusão (a necessidade de recorrer a tantas legendas para orientar o espectador é a prova disso) e aquela que era uma das melhores e mais arrebatadores cenas do filme passa agora a uma experiência mais ou menos vazia e sem sabor. Nem a genial banda sonora de Vangelis faz milagres, no que toca a necessidades emocionais.
- A reestruturação não-cronológica (agora muito mais acentuada, do princípio ao fim da obra) prejudica gravemente o filme; não resulta, definitivamente. Da reestruturação provém uma complexidade inútil e infrutífera.
- Também devido à reestruturação não-cronológica o filme perde emoção e carga simbólica e ganha frieza, aproximando-se do relato histórico.
- A maior atenção dada a Bagoas não prejudica propriamente o filme, mas pessoalmente prefiro as dicas subtis da versão original, em que se evidencia quase exclusivamente o amor puro entre Alexandre e Hefaísto.
- A inclusão daquela poderosa cena entre mãe e filho, logo depois daquela apoteótica batalha na Índia, é imperdoável, inadmissível. Qual é o sentido narrativo desta decisão?... É certo que esta versão redistribui Angelina Jolie um pouco por todo o filme, mas não havia necessidade disso.

Pontos positivos:
- A versão alongada da Aula de Aristóteles; contém alguns takes que aprofundam o contexto espacial da cena e o próprio conteúdo dos diálogos é aprofundado.
- A pertinência de incluir a cena do assassinato de Filipe da Macedónia logo a seguir ao perturbante homicídio de Cleitus é finalmente compreensível. Há uma relação, uma comparação possível.
- A carta de Aristóteles: I can only hope that you continue what you began as the boy I knew at twelve. Be that man always, Alexander, and you will not slip. And perhaps you will prove this old materialist, as you always thought me, a dreamer after all.
- O aperfeiçoamento de algumas sequências, como o regresso à Babilónia, no final, ou as mordidelas da águia e da serpente, também no final: takes curtos e quase que imperceptíveis, que aprimoram o resultado final.
- O desfecho da obra, com a narração de Anthony Hopkins, é magnífica. Melhor, muito melhor do que na versão original. Pausada, mais aprofundada, excepcional.

Saldo:
- Sinceramente? Não creio que Alexander Revisited seja a anunciada final cut. Pessoalmente, não considero o filme acabado, pode ser significativamente melhorado. E é sempre tempo para isso.
- Sinceramente? A versão original é muito melhor do que esta. Bastava-lhe trocar a cena inicial por a cena inicial deste Revisited, juntar a Carta de Aristóteles e a nova versão da sua aula, aperfeiçoar a transição da morte de Cleitus para o assassinato de Filipe, aperfeiçoar as sequências que referi nos pontos positivos e dar-lhe aquele final memorável com o Anthony Hopkins do Revisited. Aí sim, cinco estrelas. Como eu adoraria remontar este filme.

Leia a crítica ao filme Alexandre, O Grande, aqui!

Domingo, 17 de Outubro de 2010

ZATOICHI (2003)

PONTUAÇÃO: BOM
****
Título Original: Zatôichi
Realização: Takeshi Kitano
Principais Actores: Takeshi Kitano, Michiyo Ookusu, Gadarukanaru Taka, Daigorô Tachibana, Yuuko Daike, Tadanobu Asano, Yui Natsukawa, Ittoku Kishibe, Saburo Ishikura, Akira Emoto, Ben Hiura, Kohji Miura

Crítica:

O ESPADACHIM JUSTICEIRO

Mesmo de olhos bem abertos, não consigo ver nada.

Entre geishas e samurais, o sangue. Sangue vermelho, violento. Sangue estético, jorrando em estilizadas explosões de raiva ou em magistrais golpes de espada. Entre geishas e samurais, o ritmo. O ritmo das enxadas que cavam a terra, o ritmo dos que sapateiam a lama, o ritmo dos que martelam a obra. O ritmo das acções que se funde na música não-diagética (banda sonora de Keiichi Suzuki), conferindo à obra uma musicalidade inesperada. Entre geishas e samurais, a coragem. A coragem de implementar uma visão moderna, dotada de uma tremenda confluência estética, a um conto popular japonês. A coragem de pintar de loiro os cabelos do cego Zatoichi que, em pleno Japão do século XIX, viaja de aldeia em aldeia distribuindo massagens e aparências, com os mais apurados sentidos. A coragem para terminar a sua versão de filme de samurais com um sapateado efusivo e enérgico, ao melhor estilo de Bollywood, entre coreografadas e coloridas brincadeiras visuais.

Kitano compõe uma história de vingança irreverente e visceral - notam-se as influências de Tarantino - com um hilariante sentido de humor: desde o ridículo e espalhafatoso gorducho que, armado dos pés à cabeça, corre, grita, cai e falha os seus sonhos de guerreiro, ao falhado mas companheiro Shinkichi e à beleza irradiante e de meter inveja daquela geisha travesti que, juntamente com a irmã, anseia por honrar a memória dos pais, brutalmente assassinados num passado jamais esquecido. O cómico de situação é igualmente explorado de forma brilhante. Há acção pura e entretenimento garantido, como se de um animé com o mais ousado sentido pop se tratasse; valham-nos os efeitos digitais, que possibilitam as mais brutais e incríveis imagens, e a extraordinária noção de divertimento, que se deixa temperar q.b. com todos os diferentes ingredientes que compõem a obra. A fotografia de Katsumi Yanagijima, por exemplo, beneficia de uma mise en scène cuidada e de um detalhado jogo de cores; factores determinantes na criação de atmosferas. Destaque final para as excepcionais interpretações do elenco.

Em suma, um refrescante trabalho de Takeshi Kitano, que se estende da realização à montagem e do argumento ao papel de protagonista.

Terça-feira, 12 de Outubro de 2010

A LENDA DE BAGGER VANCE (2000)

Robert Redford, 2000

Pontuação: BOM
****
Deslumbrante na fotografia (Michael Ballhaus), aprumado no guarda-roupa (Judianna Makovsky) e arrojado na direcção artística (Angelo P. Graham, W. Steven Graham, Jim Erickson e Michael Seirton), A Lenda de Bagger Vance traduz-se num produto de estúdio tipicamente hollywoodiano - conflui drama, romance e comédia com assaz competência, num tom familiar, deliciosamente romantizado e politicamente correcto. É bom, apesar dos inúmeros lugares comuns, está bem filmado e tem interpretações bem conseguidas: Will Smith, Matt Damon e Charlize Theron.

Domingo, 10 de Outubro de 2010

SHUTTER ISLAND (2010)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
*****
Título Original: Shutter Island
Realização: Martin Scorsese
Principais Actores: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Max von Sydow, Michelle Williams, Emily Mortimer, Patricia Clarkson, Jackie Earle Haley, Ted Levine, John Carroll Lynch, Elias Koteas, Robin Bartlett, Christopher Denham, Nellie Sciutto, Joseph Sikora

Crítica:

A ILHA MISTERIOSA

You'll never leave this island.

Dissertar - em cinema - sobre a loucura, faz-me invocar, instantaneamente, aquele clássico magistral de 75, protagonizado pelo genial Jack Nicholson, Voando Sobre Um Ninho de Cucos. Naquele hospício imoral, delineava-se uma linha bastante ténue entre a saúde e a demência mentais. Ser louco poderia significar coisas distintas, consoante o juiz, e a facilidade com que se sentenciava a loucura de alguém apresentava-se-nos como algo de verdadeiramente assustador. Pois bem, este inquietante objecto fílmico de Martin Scorsese segue a mesma premissa; transportando-a, porém, para um ambiente kafkiano, muito mais tenebroso e sinistro, e servindo-se do suspense como principal condutor da narrativa.

O argumento de Laeta Kalogridis, a partir do romance homónimo de Dennis Lehane, equilibra-se, labriríntico e intrincado, sobre a ambiguidade: terá reais fundamentos a investigação do U.S. marshal Teddy Daniels, sobre a conspiração secreta que submete os pacientes do remoto hospital a inovadoras, dolorosas e desumanas experiências científicas, ou será ele próprio um louco paranóico, como tantos outros dos edifícios A, B e C, vivendo num mundo inventado à sua medida? O condão maior tanto do argumento como da realização é o de confundir habilmente o espectador, dificultando-lhe o acesso à verdade e colocando-o na pele do protagonista, dividido entre a sua razão e a razão dos outros.

Os sonantes acordes da banda sonora (Mahler, Ligeti, Ingram Marshall, Penderecki, entre tantos outros) potenciam, de imediato, a atmosfera de terror, assim como o esplendor enigmático da fotografia (Robert Richardson). Os flashbacks, sejam eles sonhos, alucinações ou recordações, alimentam o mistério, adensam a complexidade da história nas suas múltiplas possibilidades. Às tantas, todavia, só dois caminhos se nos restam possíveis e a imprevisibilidade desvanece-se. A conclusão do enredo não é a mais surpreendente e original, mas o filme revela-se sólida e arrojadamente construído e muito bem escrito.

A interpretação de Leonardo DiCaprio é absolutamente magnetizante. O extraordinário talento do actor envolve-nos do princípio ao fim, em perfeita sintonia com as portentosas prestações de Ben Kingsley, Patricia Clarckson, Jackie Earle Haley, Max von Sydow ou Michelle Williams. Dante Ferretti e Francesca Lo Schiavo garantem a qualidade irretocável da direcção artística, Sandy Powell assina o figurino e Thelma Schoonmaker trabalha a montagem do filme, conferindo-lhe uma fluidez assinalável.

Shutter Island afirma-se, pois, como um exercício tecnicamente sofisticado, ao qual se lhe alia uma arte de filmar virtuosa e que transpira maturidade. Um pedaço de cinema brilhante e, no fim de contas, extremamente prazeroso de se assistir.

Which would be worse, to live as a monster,
or to die as a good man?


Sexta-feira, 8 de Outubro de 2010

POR MAIS ALGUNS DÓLARES (1965)

PONTUAÇÃO: BOM
****
Título Original: Per Qualche Dollaro in Più / For a Few Dollars More
Realização: Sergio Leone
Principais Actores: Clint Eastwood, Lee Van Cleef, Gian Maria Volonté, Mara Krupp, Luigi Pistilli, Klaus Kinski, Joseph Egger, Panos Papadopulos, Benito Stefanelli, Roberto Camardiel, Aldo Sambrell, Luis Rodríguez, Tomás Blanco

Crítica:

A CAÇA AO TESOURO

Where life had no value, death, sometimes, had its price.
That is why the bounty killers appeared.

Por Mais Alguns Dólares ainda se mata sem remorso, disparando as balas e eliminando os adversários sem grandes preocupações morais. A preocupação maior é tão-somente o entretenimento, desta vez por meio de uma história bem mais excitante e envolvente do que aquela que Por Um Punhado nos permitia. Sergio Leone aprimora a sua técnica, ainda sem a mestria de câmera que viria a alcançar em O Bom, O Mau e O Vilão e sem aquele tão corrosivo, irreverente e desconcertante humor, capaz de promover as mais espontâneas gargalhadas. Ainda assim, há humor quanto baste neste segundo capítulo da trilogia, momentos de genuína paródia até, que flui sagaz ao ritmo dos tiroteios.

Clint Eastwood (Monco) e Lee Van Cleef (Mortimer) formam uma dupla verdadeiramente apaixonante e cheia de carisma. When two hunters go after the same prey, they usually end up shooting each other in the back. And we don't want to shoot each other in the back. Os dois brilham sob a orquestração inspirada de Leone, que capta nos mais ambiciosos e arriscados close-ups a inteligência sem limites daqueles enigmáticos olhares. El Indio, a personagem de Gian Maria Volonté, é o inimigo perfeito, também ele amoral e adepto das mortes gratuitas, um fora-da-lei sem escrúpulos sedento de ouro e de sangue, dotado de um riso sarcástico e contagiante.

A banda sonora, a cargo de Ennio Morricone, jamais poderá dispensar a mais fervorosa menção. Afinal, o trabalho do compositor é sempre extraordinário e fundamental, ao ponto de ser inimaginável conceber um western spaghetti destes, assinado por Leone, sem a sua tão distinta sonoridade e alma. Destaques imprescindíveis vão também para a luminosa fotografia de Massimo Dallamano ou para a portentosa direcção artística, a cargo de Ángel Cabero, Montoro, Rafael Ferri, Carlo Leva e Carlo Simi. O trabalho de sonoplastia assume por vezes um tom caricatural; nada que não condiga, afinal, com o registo natural da obra.

Há alguns erros crassos e não há porque ignorá-los - talvez o exemplo mais flagrante seja mesmo aquela despedida final em que um cavalga sobre o entardecer e o outro, simultaneamente, conta os mortos em pleno fulgor da tarde - mas o certo é que nos deixamos prender pela trama, pelo candor de cenas como o do tiroteio sobre os chapéus, pela energia e imprevisibilidade crescentes dos sucessivos reencontros daquelas personagens e pela paciente espera que faz esticar o suspense ao limite.

No final, há para os vencedores as tão esperadas recompensas, como sempre, mas para nós, espectadores, fica a recompensa maior que é a sensação e a certeza de termos acabado de assistir, durante pouco mais de duas horas e tão agradavelmente, a um grande filme.

APOCALYPSE NOW (1979)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
*****
Título Original: Apocalypse Now
Realização: Francis Ford Coppola
Principais Actores: Martin Sheen, Marlon Brando, Robert Duvall, Laurence Fishburne, Frederic Forrest, Sam Bottoms, Albert Hall, G.D. Spradlin, Harrison Ford, Aurore Clément, Christian Marquand, Dennis Hopper

Versão Redux

Crítica:

O CORAÇÃO DAS TREVAS

There's a conflict in every human heart, between the rational and irrational, between good and evil. And good does not always triumph.

Devastar o paraíso, manchar de sangue a exuberância da vegetação, descobrir na selva a própria selvajaria do ser humano. O absurdo da guerra condena os homens à morte e à loucura e para o capitão Willard (Martin Sheen, numa brilhante interpretação), a experiência do horror da guerra faz-se, pari passu, com a meditação e com a reflexão, que tão profunda e traumaticamente se inscrevem no seu profundo consciente e inconsciente. Aquilo que Francis Ford Coppola concebe, aqui tão genialmente, é um extraordinário filme de guerra, de uma densidade psicológica impressionante, dotado de uma encenação inspirada e de um primor técnico ambicioso e arrojado, que jamais descura uma crítica mordaz à postura americana no confronto - tanto por meio de metáforas, como de dissestações filosóficas, como de poesia. A reflexão pessoal de Willard representa, afinal, o exame de consciência de toda uma nação.

A fotografia, do lendário Vittorio Storaro, é absolutamente magistral: o trabalho de iluminação é preciosamente sublime e a composição dos frames, de naturezas várias, faz-se tanto pela beleza das paisagens filmadas e pela audácia estética na conjugação das cores como pela sobreposição de imagens que Lisa Fruchtman, Gerald B. Greenberg e Walter Murch tão criativamente montam e possibilitam. Aquelas mágicas horas do amanhecer, mas sobretudo do entardecer - durante as quais decorreu grande parte da rodagem da obra - conferem-lhe um tom cristalino e quase etéreo.

A sonoridade esotérica da banda sonora (Carmine Coppola, Francis Ford Coppola) potencia a distopia e o carácter neurótico que tanto a narrativa (a partir do romance de Joseph Conrad) como as performances dos actores perpetuam, em crescendo, até ao fim da perigosa e intrigante missão do capitão Willard. Lembro especialmente o início, aquando da agonia no quarto, onde a distorção do barulho das hélices dos helicópteros, possantes, se confunde habilmente com a música. Bandas emblemáticas como The Doors ou The Rolling Stones protagonizam, igualmente, algumas das mais inesquecíveis e joviais sequências do filme.

Destaquem-se, a propósito de elenco, as memoráveis prestações de Robert Duvall como coronel Bill Kilgore ou a assustadora entrega de Marlon Brando ao papel de coronel Walter E. Kurtz, que tão eloquentemente profere uma das melhores passagens do argumento:

Kurtz: I've seen horrors... horrors that you've seen. But you have no right to call me a murderer. You have a right to kill me. You have a right to do that... but you have no right to judge me. It's impossible for words to describe what is necessary to those who do not know what horror means. Horror... Horror has a face... and you must make a friend of horror. Horror and moral terror are your friends. If they are not, then they are enemies to be feared. They are truly enemies! I remember when I was with Special Forces... seems a thousand centuries ago. We went into a camp to inoculate some children. We left the camp after we had inoculated the children for polio, and this old man came running after us and he was crying. He couldn't see. We went back there, and they had come and hacked off every inoculated arm. There they were in a pile. A pile of little arms. And I remember... I... I... I cried, I wept like some grandmother. I wanted to tear my teeth out; I didn't know what I wanted to do! And I want to remember it. I never want to forget it... I never want to forget. And then I realized... like I was shot... like I was shot with a diamond... a diamond bullet right through my forehead. And I thought, my God... the genius of that! The genius! The will to do that! Perfect, genuine, complete, crystalline, pure. And then I realized they were stronger than we, because they could stand that these were not monsters, these were men... trained cadres. These men who fought with their hearts, who had families, who had children, who were filled with love... but they had the strength... the strength... to do that. If I had ten divisions of those men, our troubles here would be over very quickly. You have to have men who are moral... and at the same time who are able to utilize their primordial instincts to kill without feeling... without passion... without judgment... without judgment! Because it's judgment that defeats us.

Francis Ford Coppola dirige todo o filme com uma mestria notável, digna das maiores glórias. Que filme bem filmado. A cena do colossal e espectacular ataque da cavalaria aérea sobre a praia vietnamita, ao som da majestosa ópera de Wagner, não é senão uma das melhores e mais carismáticas cenas da História do Cinema.

Enfim, excelente pedaço de cinema, fenomenal obra-prima: a cada cena sofisticada e refinada e a cada sopro cheia de alma, eternamente. Vários filmes americanos se debruçaram sobre a Guerra do Vietname, tantos deles tão bons e tão distintos. Este Apocalypse Now é, no entanto e no meu entender, perante todos eles superior.
The horror, the horror...

CINEROAD ©2011 de Roberto Simões