
PONTUAÇÃO: MUITO BOM
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Título Original: Carne Trémula
Realização: Pedro Almodóvar
Principais Actores: Liberto Rabal, Javier Bardem, Francesca Neri, Penélope Cruz, Ángela Molina, José Sancho
Crítica:A LEI DO DESEJO
Magistral e profundamente inspirado na encenação,
Em Carne Viva respira uma cadência sensual, por vezes até erótica, e revela-se irrepreensível na orquestração dos recursos artísticos. Por isso mesmo se poderá dizer que, com este filme, Almodóvar consolidou a sua qualidade criativa: enquanto argumentista e enquanto realizador. Com este brilhante
Em Carne Viva consagrou-se, pois, como um dos mais singulares e talentosos realizadores europeus.
Essa evolução manifesta-se e comprova-se nos planos meticulosos, devidamente enquadrados e previamente ensaiados, na assombrosa
mise-en-scène, cheia de cores gritantes e de corpos nus, nas sentidas composições musicais de Alberto Iglesias ou nas vibrantes canções que, como
Somos, enfatizam a sedução dos corpos, intensificam o dramatismo das situações e ajudam no processo do
storytelling, quase que dando ao filme uma alma que reclama transcendência. O argumento, de construção imprevisível e circunstancialmente pontuado por tiradas geniais de puro e autêntico humor, consiste num trabalho de muito boa escrita, devidamente estruturado e consistente. Ensaia de forma sublime, com raras inteligência e pertinência, temas fracturantes como a traição (amorosa ou entre amigos) ou a deficiência física (e as suas consequências directas e difíceis nas relações das pessoas). Note-se, a propósito deste caso último, o excepcional desempenho de Javier Bardem, à frente de um elenco de prestações, todas elas, formidáveis: Liberto Rabal, Francesca Neri, Ángela Molina ou José Sancho.
Todavia,
Em Carne Viva transcende ainda o próprio drama, melodrama e policial quando, num segundo plano, retrata toda uma Espanha em evolução, do Franquismo aos tempos de liberdade. A epígrafe, as datas, algumas passagens do argumento ou a recriação histórica, assegurada pelo cuidado trabalho de cenografia, dão-nos conta, desde logo, dessa evolução. Não é por acaso que o filme acaba de forma circular. Pelo duplo nascimento em tempos distintos se marca o contraponto: a última cena mostra-nos a mesma rua onde outrora se nascia com medo e agora se nasce com esperança em liberdade... Liberdade, essa, essencial para amar, viver e criar... E como Almodóvar percebe dessa liberdade.
